A Invasão

13 Abrigo dos Exilados, 10 de maio de 2015.


Notas iniciais
Uma música super haver com o capítulo:http://www.vagalume.com.br/simple-plan/save-you.html Ok, talvez não tão haver, mas eu gosto dela. Acho que vocês vão gostar. Se não, tá ok.

164 dias desde que começou.

É estranho.

Eu tive de me acostumar com muitas coisas.

Quando pequeno, me acostumei com os gritos e com as lágrimas por onde quer que eu fosse. Quando adolescente, me acostumei com o cansaço de minha existência. Agora, no auge de minha adolescência, tenho que me acostumar à ideia de que tudo, de repente, pode mudar.

É, sempre foi assim. Tudo sempre podia mudar de uma hora pra outra. Nós estávamos sentados no sofá e podia acontecer um terremoto. Nós estávamos na internet e de repente o PC podia pifar – o PC é a vida pra muita gente, sabe? Nós estávamos namorando e de repente podíamos brigar.

Tudo sempre foi frágil. Nada é forte, imutável, eterno.

Nem pessoas. E isso parece realmente muito, muito, óbvio agora. Nós nos adaptamos e mudamos conforme nossas necessidades. E ainda existiam pessoas que diziam que Darwin estava errado sobre a Teoria da Evolução...

A questão é que logo no primeiro dia eu me adaptei ao lugar. As pessoas discutindo e debatendo. A gente normal, falando uma língua normal, fazendo coisas de gente normal, usando roupas de gente normal.

Nem tudo é tão normal assim, eu sei.

Parece muito bom que pelo menos uma parcela de tudo seja normal. As pessoas aqui comem comida de verdade – não pergunto de onde vem, não pergunto o que é nem como elas conseguiram (embora a curiosidade me mate). Apenas como. Engulo. Não sinto mais o gosto das coisas.

Tem gente que fica me olhando. Garotos que me olham como se quisessem esfregar minha cara na parede.

E tem uma garota que fica me olhando.

Não é Melissa.

É outra menina. É uma negra que eu possivelmente ia achar linda em outra ocasião. Não que ela não seja linda agora. Ela é tipo, linda. Mas eu não sinto mais atração por ninguém, entende? Como se tudo isso tirasse minha atração.

“Ah, mas você beijou Melissa”. É, beijei. Mas foi algo natural e espontâneo. Eu não pensei em fazê-lo, apenas fiz. Sou idiota por natureza.

“Você está falando como se aquela menina sentisse alguma coisa por você”.

Não vou me gabar, mas vou ser sincero: eu sempre estive bem com minha aparência. Eu tenho aquela gordurinha sobrando, mas quem não tem? Nunca fiz academia, nunca fui um cara bombado; mas também não sou magrelo feito um eucalipto. Eu sou normal.

E minha mãe sempre me disse que meus olhos azuis são lindos. Só que tem um detalhe: eles são castanhos. Minha mãe é daltônica. Não, não é débil mental. Só daltônica. Nasceu assim e morrerá assim.

Nem tenho certeza se ela morreu.

Enfim, tenho olhos castanhos, cabelo louro-escuro e um rosto do formato de uma panqueca. Estou feliz assim.

Minha mãe era loura. Era magérrima. Não do tipo modelo: do tipo doente. Ela tinha bulimia, entende? Eu ouvia quando ela botava tudo pra fora na frente da privada. Uma vez, eu vi. Tinha seis anos. Comecei a chorar porque ela estava chorando.

Foi a primeira vez que meu pai me bateu.

Eu me lembro de como é. Afinal, fazem apenas cento e poucos dias. Mas aquela vez foi especialmente ruim. Eu gritei, gritei e gritei, até meus soluços pararem quase completamente minha respiração, e eu só ficar encolhido no sofá feito um animal acuado.

Normalmente, as memórias de nossa infância são simplesmente desbotadas pelo tempo. Mas essa não. Eu me lembro de tudo. Tudo mesmo. Gritos por todos os lados. Do meu pai, meus, da minha mãe, da vizinha. Até o cachorro parecia gritar.

De qualquer jeito, o olhar dessa garota é perturbador. Ela sabe que é bonita, e sabe que qualquer cara dali faria de tudo pra comer ela. E ela parece ter raiva de mim porque eu não sou um desses caras.

Ela deve achar que eu quero Melissa.

E você, seja lá quem for que leia isso, deve achar isso também. Mas sinto dizer: não. Não quero comer Melissa, não quero pegar ela ou namorar. Não estou apaixonado por ela e nem quero o corpo dela nu. Isso está fora de questão.

Não que ela não seja atraente. Ela é linda. De um jeito bizarro, ela é linda. Mas eu simplesmente não consigo pensar, sabe? Não consigo mais pensar. Estou tão indiferente... ”À mercê dos dias, do tempo”.

Sei que, se Freud estivesse lendo isso, ele discordaria de tudo e me mandaria comer as duas.

Mas eu não sou Freud.

Bom, eu sei que logo terei de sair de meu torpor. A parte física não me preocupa. Não sou fraco fisicamente, embora não seja atlético. Sou forte e não faço ideia de como controlar minha força

O que me preocupa é o que vai acontecer com minha cabeça. “O que vai ser de mim? Que tipo de homem eu serei, quando tudo isso tiver acabado?”. Não faço a mínima ideia. Ficarei com raiva de tudo e de todos? Se sim, matarei-os ou fugirei? Se não, ficarei deprimido e tentarei me matar?

Não. Eu tenho instinto de autopreservação. Não vou me matar. Talvez me deixar levar. É a mesma coisa? Talvez. Mas mesmo assim se matar é um termo realmente impiedoso que me assombrou minha vida inteira. O que minha mãe fazia consigo mesma, o que meu pai fazia comigo, com minha mãe e com ele mesmo... Era tudo uma forma de suicídio.

E agora que eu estou livre disso, não vou deixar que continue me perseguindo.

Não quando eu estiver são.

Notas finais
A fanfic está se aproximando do fim. Seis capítulos, sete? Talvez.