A Intrépida Rachel Berry

2 O início da jornada pela vida dela.


- AGORA VOCÊ CRUZOU TODOS OS LIMITES, RACHEL BERRY!

Quinn gritava furiosa, imobilizada por três boias, que prendiam seus braços junto ao seu corpo. Rachel sorria ironicamente, sentada no bote de madeira, enquanto Santana, Puck e mais dois outros marujos remavam, impulsionando a pequena embarcação mar adentro, em direção ao grande navio ancorado mais adiante.

Depois de conseguirem sair da cidade a salvo, eles se encontraram com seus reforços, que trouxeram botes para fuga.

Seis piratas vinheram em dois botes para leva-los de volta para o Barbra em segurança. Kurt e Mike Chang se juntaram a eles no primeiro bote, enquanto Zizes, Jacob, Tina e Joe, os seguiam em outro bote.

Charlie estava sentado ao lado de Rachel, e a pequena Barbra estava ao lado de Quinn, os dois observavam de queixo caido, a loira espumar de raiva e esbravejar contra sua outra mãe.

- Meu amor, eu só quis ter certeza que você estaria segura. Eu sei que você não sabe nadar, e que não gosta de barcos pequenos...Ops...quero dizer, exceto quanto estamos sob um céu estrelado, depois de algumas taças de vinho, numa manta coberta de rosas...

Quinn arregalou os olhos para ela, o rubor se espalhando por seu rosto. Rachel sorriu maliciosamente. Puck assobiou baixinho e Santana revirou os olhos. Kurt e Mike continuaram a remar.

- Dios mío, ahora tengo que tomar estos dos foreplay, Señor. ¿Qué he hecho para merecer este castigo? — a latina reclamou entre dentes.

Quinn se atropelava em murmurios e reclamações, mas não conseguiu formular uma sentença concreta. Ela estava frustada, envergonhada e extremamente irritada por nem ao menos poder esconder seu rosto, que já estava vermelho escarlate. Rachel a encarava satisfeita. A morena não podia evitar essa necessidade de relembrar a Quinn os momentos que haviam passado juntas. A decepção de ver sua amada caminhando para o altar, para os braços de outro, não seria algo fácil de esquecer.

- Uau. — Charlie apontou admirado para a gigantesca embarcação, que agora estava bem mais proxima do bote. Rachel olhou para seu filho e inflou de orgulho.

- Esse é o Barbra, ele pertenceu ao seu bizavó, seu avó e agora é meu. São três gerações dos Berry que comandaram os mares nessa beleza.

- Eu tenho o nome de um navio velho? — disse a pequena Barbra com um bico.

- O quê? Moçinha, esse navio pode ser velho, mas ele vale muito mais do que qualquer barquinho dos dias de hoje, entendeu? E quanto aonosso nome,e o do navio, lógico, é uma homenagem a lendária e imortal Barbra Streisand! — Rachel empinou o queixo.

Santana notou a cara de "e o que isso?"estampada na cara da filha da morena e suspirou.

- Ay Dios mío.

Rachel também percebeu. A morena virou-se para Charlie.

- Você sabe quem é Barbra Streisand?

- Não. — respondeu o pequeno inocentemente.

Rachel arregalou os olhos para Quinn.

- QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VOCÊ DEU A MEUS FILHOS?

- DO TIPO MENOS TRAUMATICA! E ELES SÃO MEUUUSSSS FILHOSSS!

- BARBRA STREISAND É UM SIMBOLO, UMA LENDA, NÃO UM TRAUMA, QUINN! MEUS FILHOS DEVERIAM CONHECER UM DOS MEUS MAIORES IDOLOS!

- DEPOIS DE SEIS ANOS VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME COBRAR NADA! EU EDUQUEI MEUS FILHOS PERFEITAMENTE BEM!

- FORAM CINCO ANOS E MEIO! E EU TENHO TODO O DIREITO DE COBRAR A VOCÊ O QUE EU QUISER PORQUE ELES TAMBÉM SÃO MEUS!

- ...Senhoras... vocês estão balançando o bote...

- CALA BOCA PUCKERMAN, EU ESTOU DISCUTINDO COM MINHA MULHER!

- EU NÃO SOU SUA MULHER, RACHEL!

- Aquele nariz é enorme. Parece o seu, Barbra. — comentou Charlie, sem dar muita atenção a discurssão entre suas duas mães, achando mais interessante observar a grande escultura, que ele não fazia ideia, mas se tratava do rosto de Barbra Streisand esculpido em madeira, que adornava a frente do navio.

A menina olhou para a escultura do rosto daquela mulher desconhecida e tapou o proprio nariz com a mão e começou a chorar.

- ESSA MULHER É ESTRANHA TEM O NARIZ IGUAL AO MEU! E ELE É GRANDE E FEIO! NÃO QUERO MEU NARIZ NO NAVIO! — e abriu o berreiro chorando.

Rachel e Quinn se olharam por um instante. Depois Rachel disparou irritada.

- O NARIZ DELA É DA MINHA FAMILIA! ELA NÃO TERIA VERGONHA DO PRÓPRIO NARIZ SE CONHECESSE BARBRA STREISAND!

- CALA BOCA, RACHEL!

Nesse instante a embarcação foi sacudida pela marola que batia no casco do navio. Charlie se segurou na borda do barco, enquanto Santana agarrou Barbra pela gola do vestido. No entanto, como Quinn estava incapacitada de se segurar devido as boias que prendiam seus braços, acabou se desequilibrado e tendo o corpo jogado de uma vez para trás.

- QUINN! — Rachel imediatamente agarrou uma das boias que prendiam o corpo da loira, a puxando para si. As duas acabaram sentadas no chão do bote. Rachel segurava Quinn entre os braços, a loira tinha o rosto enfiado no seu pescoço. A pirata sentiu quando ela começou a chorar baixinho. — Foi só um susto. Está tudo bem, calma. — dizia tentando acalmar sua amada.

- Você me abandonou, Rachel... você não tem o direito de me cobrar nada. — murmurou a loira entre lágrimas. A morena sentiu um peso no peito ao ouvir as palavras que Quinn proferiu ao seu ouvido. Como ela podia fazê-la entender? Como ela faria sua amada compreender o quanto ela sofreu por ter partido?

- HOLA PIRATAS! — gritou um jovem loiro, jogando uma corda grossa do topo do navio para o bote.

- HOLA SAM! — respondeu Puck tomando a corda. Ele e Mike puxavam o bote, tentando equilibrar-lo, prendendo a corda as argolas de aço nas extremidades do bote.

Rachel endireitou sua postura e se levantou, se equilibrando no meio do bote.

- Sam, jogue a escada. — ordenou a capitã.

Em segundos o jovem loiro arremeçou uma escada de corda com tábuas de mardeira como degraus. Quinn tinha o olhar fixo no casco do bote.

- Você sabe que eu não vou conseguir subir nisso, Rachel.

A morena se ajoelhou e puxou uma das três boias que prediam sua mulher..

- Isso nunca foi um problema, lembra?

Elas trocaram um olhar e a pirata ofereceu a sua amada um pequeno sorriso. Realmente isso nunca havia sido um problema. Rachel sempre a tinha em seus braços, segura, nas duas vezes que Quinn subira a bordo do Barbra.

- Eu não vou abraçar você, sua pirata malvada! — Barbra tentava se livrar de Santana, que a todo custo, se esforçava para amarrar um cinto de segurança na menina.

- Diablos! Fique quieta sua pequena clone, dos infernos!

- Santana! — Rachel chamou a atenção da latina. Depois colocou a mão no ombro de sua filha. — Barbra, minha filha, é para sua segurança...

A menina se afastou dela de uma vez, se livrando da mão que sua mãe colocara em seu ombro.

- Eu não tenho que obedecer, você! Você não é nada minha! — respondeu a pequena com uma expressão dura e cheia de raiva.

Rachel ficou sem reação, as palavras retumbando em seus ouvidos e coração.

- RACHEL BARBRA! — a voz de Quinn soou firme e repreendedora. A menina baixou a cabeça ao ouvir o tom usado por sua mãe.

- Rachel, é sua mãe. Entendeu, mocinha? Você deve a ela respeito. — a menina fez que sim com a cabeça. Todos no bote estavam em silêncio. Rachel ainda olhava para sua filha, ela não havia se mexido desde que a menina a renegara. — Peça desculpas a sua mãe, Barbra. Agora.

- Desculpe. — murmurou a pequena olhando para baixo.

- Barbra? — Quinn voltou a exigir.

A menina endireitou o corpo e levantou os olhos para Rachel.

- Desculpe, m-mãe. Eu faltei com respeito a s-senhora. Desculpe.

- Tudo bem. — a morena tentou manter a voz firme. — Como eu ia dizendo, o cinto é para sua segurança, filh-Barbra. — ela limpou a garganta e folhou para Santana.

A latina pegou o cinto e atou a pequena ao seu corpo. Barbra passou os braços no pescoço da latina e enfiou a cabeça no peito dela. Santana olhou para Rachel e murmurou "Vai ficar tudo bem.",a capitã deu um meio sorriso e a latina começou a subir pela escada.

- Agora é sua vez garotão. — disse Puck, chamando a atenção de Charlie.

O menino olhou para a capitã, que acompanhava com o olhar, a subida de sua imediato e sua filha.

- Mãezinha? — chamou ele. Rachel voltou-se para ele com um meio sorriso. O menino esticou os braços e alcançou sua mãe num abraço. Sem dizer mais nada ele deu um beijo na bochecha dela e voltou-se para Puck, que amarrou o cinto ao redor do corpo do menino.

Rachel passou a mão na cabeça do filho, bagunçando um pouco os cabelos loiros do pequeno, antes de Puck iniciar sua subida.

- Vejo você lá em cima, meu amor. — disse ela. O menino sorriu e acenou.

- Ela não quis... — começou Quinn. Mas a pirata a interrompeu erguendo a mão.

- Esta tudo bem, Quinn. Ela tem razão. Quem sou eu, certo?

A loira abriu e fechou a boca. Rachel alcançou as outras boias e libertou Quinn.

- Mike, Kurt, apertem bem essas amarras. Preciso de vocês içando esse bote o quanto antes. Já posso ouvir Zizes a estibordo com o

bote deles a bordo do Barbra.

- Sim, capitã. — responderam os dois em unissono.

Rachel pegou um cinto e ofereceu sua mão a Quinn. A loira tomou a mão da morena e ficou em pé. A pirata puxou o corpo de sua amada para junto do seu, enquanto se certificava que o cinto estava bem seguro. Quinn podia notar o semblante triste de Rachel.

- Você vai precisar me abraçar forte, okay? — instruiu a morena sem fazer contato visual com a outra mulher.

Quinn passou os braços pelo pescoço de Rachel, seu coração batendo forte por causa da proximidade. Como ela podia negar? Ela ansiava por aqueles braços há tanto tempo.

A pirata iniciou a subida. O corpo da loira seguro junto ao seu. Rachel pode sentir o coração de Quinn batendo forte. Só que ela imaginou ser por causa do medo que a loira sentia.

- Eu não vou soltar você. Não precisa ter medo.

Quinn apertou ainda mais seu abraço e enfiou o rosto no pescoço da morena. Ela não queria ter que largar Rachel. Ela queria poder ficar assim para sempre.

- Você não devia leva-la a sério... — sussurrou Quinn. — Ela herdou o orgulho dos Fabray e a teimosia dos Berry, mas ela sempre quis conhecer você...

- Vai ser um pequeno desafio, eu acho... ela tem um gênio forte. — ela fez uma pausa. — Já estamos quase lá...

Elas já estavam chegando ao topo. Rachel se esforçou em galgar os degraus o mais rápido que pode, imaginando que Quinn preferiria pisar em chão firme o quanto antes. Quinn aproveitou os últimos instantes para aspirar o aroma do perfume da morena. Seu orgulho não permitia que ela abrisse seu coração. Por mais que ela quisesse deixar tudo para trás e se atirar nos braços de Rachel, algo no âmago do seu ser não permitia que as coisas fossem assim tão fáceis.

Rachel impulsionou seu corpo para cima e Quinn sentiu outra pessoa ajudar a pirata a subir os últimos degraus. Rachel sentou Quinn na beirada da grande embarcação e desprendeu o cinto. Santana a segurou pelos braços e, a loira soltou o pescoço da capitã se deixando puxar pela latina para dentro do navio.

Ela olhou ao redor e avistou seus filhos um pouco adiante. Barbra ainda cabisbaixa por causa da bronca, já o pequeno Charlie olhava para tudo ao seu redor de queixo caido.

O navio não havia mudado muito. Marujos correndo de um lado para o outro, enquanto se preparavam para levantar as velas e partir. Os dois botes já estavam sendo amarrados aos roldanas. Puck checava algumas informações com um dos marujos, o loiro com uma boca enorme, Sam. E Santana, depois de tê-la ajudado, já berrava instruções ao resto da tripulação. Rachel pulou no convés e sua expressão mudou. O olhar firme e vazio, ela scaneou o ambiente ao seu redor. O marujo chamado Kurt correu até ela com um casaco longo negro com detalhes vermelhos, e um chápeu também negro. Ele entregou o chapeu a sua capitã, e a ajudou a vestir o casaco. Quinn não podia deixar de admitir que ela parecia ainda mais sexy e poderosa. Aquela era a imagem da temida pirata, a capitã Rachel Berry. Kurt puxou um cinto de couro com uma bela espada na bainha adornada em ouro e diamantes. A pirata prendeu o cinto firmemente em sua cintura, Kurt se afastou dando passagem a capitã do Barbra. Santana foi até ela.

- Velas prontas, tripulação aguardando ordens, capitã. — informou a imediato

A morena tirou um relógio de prata do bolso do casaco e conferiu as horas. Depois disparou para a tripulação.

- ERGAM A BANDEIRA, MARUJOS! EU QUERO ESSE NAVIO EM TARTURGO ANTES DO POR DO SOL, MEXAM-SE!

- Tartugo? — perguntou Santana sorrindo.

- É. Acho que devo uma boa noite de diversão à você e ao Noah.

- Ah, você deve. — respondeu a latina com um sorriso malandro. Depois a imediato gritou para os marujos. — MAIS RÁPIDO SEUS PALERMAS DO MAR! VOCÊS OUVIRAM SUA CAPITÃ! ELA QUER ASSISTIR AO POR DO SOL EM TARTUGO E EU QUERO VER MINHA BRITT BRITT AINDA HOJE! — e saiu agitando os braços e berrando ordens.

Rachel caminhou na direção de Quinn. A loira teve que controlar a respiração.

- Sei que vai demorar um pouco, mas por favor, sinta-se em casa. — falou a morena.

- Não se preocupe, Rachel. Eu não penso em ficar por perto por muito tempo. Assim que tivermos oportunidade nos instalaremos em alguma cidad...

Mas ela foi interrompida pela morena.

- Você e meus filhos vão estar aonde eu estiver, Quinn. Isso não está passível de negociação.

- Você não pode nos obrigar...

A morena invadiu o espaço pessoal dela. A voz baixa e autoritária.

- Eu posso e eu vou obriga-los, Quinn. A essa altura dos acontecimentos, seu noivinho, o chefe da guarda, já deve ter comunicado a todas as capitanias que eu sequestrei sua amada noiva e filhos. — ela fez uma pausa lembrando das palavras de Finn Hudson a respeito de seus filhos. Seu rosto se contorceu com ódio e ela continuou, as palavras saindo entre dentes. — E eu não vou permitir que aquele desgraçado ponha a mão num fio de cabelo das minhas crianças.

A força do tapa que atingiu o rosto da morena foi tamanha, que Rachel recuou. Quinn engoliu seco, os olhos cheios de lágrimas.

- Você está insinuando que eu colocaria a vidados nossos filhosnas mãos de alguém que fosse machuca-los? Eu os protegi, Rachel! Não sou capaz de explodir meia cidade para isso, mas eu fiz tudo o que estava ao meu alcançe! — Quinn tremia de raiva. Como ela podia ousar,como ela podia sequer mensurar a possibilidade de que ela não seria capaz de proteger os seus filhos? — Eu sacrificaria tudo! Eu abriria mão de tudo! Para protegernossos filhos,Rachel!

A pirata olhava para ela com os olhos arregalados. Ela não pode deixar de notar que pela primeira vez, Quinn se referia as crianças como "nossos filhos".

O casamento era uma farsa? Era um acordo? Um trato em troca de imunidade para Quinn e seus filhos? Não. Finn foi bastante claro. Ele queria se livrar das crianças. Ele queria somente Quinn. E ele teria o que desejava após ela cumprir sua parte do trato e casar-se com ele.

"Maldito. Ele iria tirar as crianças dela e obriga-la a continuar casada, usando a vida de nossos filhos como garantia."

- Não faz sentido você ter sido tão ingênua... — a pirata se afastou baixando a cabeça.

- O que você disse?

Rachel não deu ouvidos a ela e continuou seu caminho, se dirigindo a popa da embarcação. Quinn correu até ela e puxou seu ombro, virando Rachel para si e obrigando a pirata a encara-la.

Os olhos castanhos refletiam a tristeza e magoa que corroíam o coração de Rachel. Os olhos castanhos esverdeados de Quinn, não continham as lágrimas, e espelhavam a mesma dor e magoa que existiam nos olhos da mulher que a encarava.

- O que você disse? — a loira repetiu a pergunta.

- Você realmente acreditou que ele cumpriria a promessa que fez? — a morena sussurrava sua resposta. A tripulação fingia não estar prestando atenção nelas, mas a capitã estava ciente de Santana e Kurt ao lado de seus filhos, e de alguns marujos lançando olhares para onde elas estavam. Ela chegou mais próximo de Quinn. — Eu não acredito nisso. Eu sei que você não seria tão tola, Quinn. — As lágrimas continuaram a descer pelo rosto da loira. — O que você fez? O que você deu a ele para garantir que nossos filhos estivessem salvos?

Pronto. Rachel pode ver nos olhos dela. Houve um trato. Quinn daria algo a ele, algo que Finn Hudson deveria querer muito para adiar sua chantagem. Algo precioso.

Finn estava muito confiante de que teria sua noiva de volta. Rachel não tinha percebido antes, mas em nenhum momento o oficial perseguiu a carruagem que levava sua noiva. O que ele mais queria era eliminar Rachel. "Aquele sorriso no rosto dele quando me reconheceu..."Parecia que ele não se importava com Quinn... Mas ele disse que iria resgata-la? Então porque ele não moveu uma palha para seguir a carruagem? Seria mais fácil. Seria o esperado. Ele queria Quinn. Ele deixou claro isso, mas então porque?

Quinn levou a mão direita sob o pulso esquerdo. Rachel percebeu aquele gesto e o tremor percorreu seu corpo.

"Eu sacrificaria tudo! Eu abriria mão de tudo! Para proteger nossos filhos, Rachel!"

Rachel arregalou os olhos para a loira.

- Não. — sussurrou a morena.

"A pequena Rachel Berry caminhava por entre as vielas de Sarcaduma, uma das cidades piratas mais perigosas do Atlântico. A cidade ficava proximo ao continente que outra hora fora conhecido como América do Norte, numa parte pantanosa e sombria, repleta de misterios e segredos de uma cultura até então despressada e desconhecida por muitos.

Ela estava perdida, e isso não era bom. Seu pai havia sido bastante claro com ela, mas a jovem Rachel como sempre, acabava desobedecendo as ordens e geralmente arrumando confusão.

Rachel tinha onze anos de idade, e se implorou a seus pais, Leroy Berry, o pirata mais temido dos setes mares, e Hiram Berry o primeiro imediato do Barbra, para leva-la à terra enquanto Leroy negociava sua última pilhagem. Depois de muito insistir, Rachel acabou convencendo os dois a deixa-la desembarcar.

Oh, ela estaria bem encrencada quando eles a encontrassem.

Ela agora caminhava por um cais velho e decadente, e definitivamente ela não deveria estar ali. Ela precisava encontrar uma rota de saida, já tinham pelo menos vinte minutos que ela rondava pelo cais e a pequena começou a desconfiar que estava andando em circulos. Seus olhos vivos e curiosos, começaram a analisar tudo ao seu redor absorvendo o ambiente. Então ela notou.

- Uma mulher sob as águas? — a pequena sussurrou e arregalou os olhos.

- Quem é você? — ela gritou para a estranha, que sorria maqueavelicamente, e como se desse dez passos em um, de repente estava com seu rosto a milimetros do rosto da pequena morena.

Rachel pode sentir seu cheiro, era igual ao de carne podre. Mas não havia algo que ela pudesse lembrar com mais definição do que os olhos da mulher. Ela não conseguiu desviar o olhar daqueles olhos negros e profundos. A mulher continuou a sorrir e quando falou, sua voz parecia ecoar de um jeito sinistro, era como se não fosse só uma pessoa, mas pelo menos três falando ao mesmo tempo.

- Ah, menina bonita. Sim. Menina corajosa. Sim, ela é. Nós podemos ver. Ah, menina preciosa. Sim, ela é. Nós queremos ela. Sim. Pergunte, menina. Nós vamos dar a você tudo, peça menina.

Rachel não conseguia tirar os olhos dela.

- Quem é você? O que você quer?

- Sim, ela quer saber. Diga a ela. Oh, menina nós somos os colecionadores. Nós damos a você o que você quiser. Sim... e nós pegamos de você o que nós queremos. Você é corajosa. Sim, você é. Você tem um tesouro. Sim, você tem. Nós queremos.

- E-Eu não tenho ouro. — respondeu prontamente a pequena.

- Ouro? — a mulher gargalhou. Três gargalhadas distintas juntas em uma só voz. — Ela pensa que nós gostamos de ouro. Não, menina nós não gostamos de ouro. Mas você quer ouro?

- Não. — respondeu dando dois passos para trás.

- Você esta com medo, menina? Não tenha medo de nós. Nós queremos fazer um trato com você. Você quer ? Aceite.

Rachel pode ver no braço dela uma tatuagem de uma serpente. Só que essa tatuagem se mexia! A serpente se agitava pelo braço da mulher, aparentemente impaciente.

- Eu não quero nada.

A mulher sibilou e Rachel arregalou os olhos, o pânico tomando conta dela. De repente ela ouviu alguém chamar pelo seu nome. Rachel se virou na direção de onde vinha a voz. Era seu pai! Leroy Berry corria na sua direção. Ela não esperou por mais nada e correu na direção dele, abraçando seu pai com força.

- Rachel! — ele parecia desesperado e se separou do abraço dela e começou a verificar os braços da menina. — Você falou o que com ela? Você prometeu algo? Você aceitou algo? Rachel, me responda! Você aceitou algo?

Rachel olhou ao seu redor. A mulher havia sumido. Seu pai a chamou novamente.

- Não, papai. Eu não aceitei nada. Eu disse que não queria nada. Eu tive tanto medo.

E ele tomou sua filha nos braços e a apertou forte.

- Nunca prometa nada aquela mulher, Rachel. Nunca faça tratos com ela, entendeu?

- Quem é ela papai? — quis saber a pequena. Seu pequeno corpo tremia nos braços do pai e ela soluçava e chorava baixinho.

- Ela é uma Jin do pantano, Rachel. Uma bruxa que fez um pacto com demonios por mais poderes ou imortalidade, e acabou se convertendo numa Jin. Esse tipo de demonio se alimenta da vida das pessoas a quem elas concedem desejos. Há muito tempo, logo após a "regressão" algumas das familias mais ricas da nossa sociedade usaram os Jins para manterem suas riquezas, enquanto as vidas de filhas, filhos e outros entes queridos eram sacrificadas para alimentar essa ganâcia.

- Eu não prometi nada, papai. Eu juro. Eu não pedi nada. Nunca vou pedir.

- Minha estrelinha, eu sei. Se você tivesse feito um trato com um Jin, teria uma marca no braço no formado de uma mordida de cobra.

Rachel lembrou da tatuagem de cobra no braço da mulher.

- Mas não se engane, Rachel. Uma Jin não se importa se você está sendo forçado ou não a prometer-lhe algo. A única coisa que importa para ela é o desejo. Se você desejar algo na frente de uma Jin... ela vai tomar como um contrato."

Rachel puxou o braço de Quinn e rasgou a manga longa e branca do vestido de noiva que ela ainda vestia. No braço esquerdo, um pouco acima do pulso, ela viu nitidamente, a marca da mordida de uma cobra. Seu coração pareceu rachar. Ela olhou para sua amada Quinn, o desespero tomando conta de seus pensamentos.

- O que você fez?

A loira olhava para baixo.

- Eu...

- O que você desejou? Quinn, responda! O que você desejou?

Ela levantou o olhar para Rachel.

- Que ele nunca fosse capaz de fazer mal aos nossos filhos... que ele nunca fosse capaz de prender ou de machucar você!

A morena tomou Quinn pelos ombros. Ela não podia acreditar. Isso não podia ser verdade. Ela temia pela resposta de sua próxima pergunta, mas ela precisava saber.

- O que você prometeu em troca, Quinn?

A loira não respondeu.

- QUINN! QUAL FOI O PREÇO? QUINN!

A morena não parou de sacudi-la.

- MINHA VIDA, RACHEL. — a pirata arregalou os olhos, largando a loira. Ela não conseguiu mais se mexer. — Eu prometi que daria minha vida, se você e nossos filhos estivessem a salvo.

Pela primeira vez, em toda sua vida, Rachel Barbra Berry, a intrépida e destemida pirata, se sentiu fraquejar, e caiu de joelhos aos pés da mulher que ela amava.

O que eu posso fazer agora?

Deve haver algum jeito.

Ela vai morrer...

Eu não posso aceitar isso.

Ela vai morrer...

Eu não vou aceitar isso.

Ela vai morrer...

Eu não vou permitir.

Rachel apoiou as mãos no chão, se desfazendo da ajuda de Santana que tinha corrido para seu lado, e se levantou. Seus filhos estavam abraçados a Kurt. A tripulação toda assistia a cena. Quinn continuava parada na sua frente, as lágrimas ainda escorrendo livremente pelo seu rosto. Ela tomou o rosto da loira entre suas mãos e fixou seu olhar naqueles olhos castanho esverdeados.

- Não importa o que eu precise fazer. Não importa aonde eu precise ir. Eu vou salvar você, Quinn.