A Intocável
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero também que vocês gostem.
Boa leitura!
Ana Luíza acordou de súbito assim que ouviu a música “Tom Sawyer” sua banda favorita no mundo, Rush, pois sabia que aquele era o toque do seu despertador. Abriu os olhos e pode enxergar o sol através do vidro da janela, a luminosidade invadindo todo o seu minúsculo quarto. Ainda cantarolando um trecho da música que permanecia na sua cabeça, lembrou-se em voz baixa: “preciso de cortinas”, mesmo sabendo que, assim como das outras mil vezes, se esqueceria de comprá-las até acordar novamente com o sol irritando seus olhos incrivelmente azuis. Era perdoável, visto que havia uma infinidade de coisas mais importantes a se preocupar do que um metro de tecido pendurado sobre uma janela.
Imersa em pensamentos aleatórios, a garota afastou o lençol que cobria suas pernas e se sentou na beirada da cama, colocando os pés no chão. Em um movimento demorado, se espreguiçou toda, esticando os braços, depois mexendo o pescoço, os ombros e demais membros com movimentos suaves e harmoniosos. Então seguiu em direção ao banheiro, que ficava bem de frente para o seu quarto, onde tomou uma chuveirada para, enfim, despertar de vez.
Ao sair do banheiro, deu de cara com Márcia, sua mãe.
- Bom dia, filha! – Disse, em tom afável, como de costume.
- Bom dia, mãe – segurando a toalha com a mão esquerda, usou a mão livre para colocar uma mecha de cabelo que caia sobre o olho de sua mãe atrás da orelha dela – hoje vou chegar um pouco mais tarde. O professor disse que quer ter uma reunião conosco após a aula.
- Mas, Analu, quão tarde seria isso? Será que dá tempo de pegar o ônibus de volta pra casa? – Analu e a mãe moravam em uma casa cedida por Fábio, patrão da moça.
Era inegável que ele tinha um carinho especial por ela, um laço paternal. Ele enxergava na garota os atributos que gostaria de ver em uma filha – se tivesse uma: determinação, força de vontade, paixão pelo que faz, coragem, etc, enquanto Analu via nele o reflexo de um pai que gostaria de ter – ela não tinha nenhuma figura masculina em sua vida desde os 3 anos, quando seu pai morreu em um acidente automobilístico e a mãe decidiu abolir qualquer relação afetiva.
- Vou tentar pegar o ônibus, mãe, mas se não der tempo, eu peço carona, falo com alguma amiga, eu dou o jeito.
- Filha... Tem certeza?
- Márcia, olha com quem você está falando! E eu lá já deixei de conseguir alguma coisa? – Analu falou a verdade em tom de brincadeira.
- Essa é a minha garota! – Márcia deu um beijo na testa da filha e deixou-a seguir para o quarto, para terminar de se arrumar. A garota abriu o guarda-roupa e vagou por entre as peças até encontrar o que procurava: um terninho, calça e sapatos (com um leve salto) pretos, com uma camisa branca com listras verticais.
Pontual que só, às 6:20 Analu estava no ponto esperando o ônibus passar. Após alguns minutos ele chegou e ela se sentou na poltrona perto da janela, como de costume, e passou o trajeto todo – cerca de 1 hora 20 minutos – pensando em como poderia resolver tudo o que tinha que ser resolvido, como poderia ser mais útil, dentre muitas outras coisas. Aquela mente não parava nunca!
Seu dia seguiu como sempre: foi a primeira a chegar ao escritório, esperou até que alguém que tivesse a chave chegasse para abri-lo e foi direto para a sua mesa resolver as pendências. Assim que terminou de revisar todos os processos, como o patrão havia pedido, devolveu-os a ele e continuou com seus trabalhos. Então ela parou uns vinte minutos para almoçar (uma marmita que havia trazido de casa) e saiu em busca de mais assuntos para resolver. Não havia mais nada para ser feito ali, então ela foi fazer alguns serviços externos (de banco, cobranças, visitas a clientes e outras tarefas) até acabar seu expediente.
Antes de ir embora, passou na sala de Fábio para comentar com ele sobre os resultados do dia e, como sempre, ela o surpreendera com sua eficiência.
Como não tinha como voltar para casa para tomar banho e voltar para a faculdade antes de a aula começar, ela usava o banheiro do escritório para isso. Apenas deixava a água correr sobre sua pele branca e macia e vestia uma muda de roupa que trazia na bolsa – dessa vez, um vestido azul marinho em tecido social, comprimento pouco acima dos joelhos, marcado na cintura e fechado em cima, com formato de regata, usando os mesmos sapatos e prendendo os cabelos castanhos escuros em um rabo de cavalo perfeitamente alinhado, deixando de fora apenas a franja que caia sobre a testa.
Chegou à faculdade e foi direto para a sala. Embora fosse cedo, gostava de chegar antes e ficar lendo e estudando sobre a matéria que seria lecionada; se tinha uma coisa que Analu gostava era de mostrar eficiência e pró-atividade.
Quando deu por si, já estava quase na hora da aula e todos os seus colegas iam chegando aos poucos. Sorria para alguns, acenava para outros, até que viu o professor Geraldo entrar na sala.
Geraldo tinha cerca de 70 anos – dentre esses, 40 sendo professor – e a impressão que todos tinham era de que ele não aguentava mais dar aula. Era um senhorzinho grisalho que se via obrigado a parar para respirar em meio a quase todas as frases. Tinha uma aparência de vovô que o fazia ser amado por todos os seus alunos. Era impossível não sentir uma ternura ao vê-lo explicando sobre alguma coisa, era como se ele estivesse contando um causo de avô para neto.
Enfim ele começou a aula e volta e meia era obrigado a parar para tomar uns goles d’água, para ver se recuperava o fôlego. Com certeza ele não era mais um menino e sabia exatamente que a hora de parar havia chego.
Ao final da aula, relembrou a todos que deveriam ficar mais um pouco, pois ele tinha um comunicado. O tom formal não pegou ninguém de surpresa, da mesma forma que o anúncio de sua aposentadoria não representava novidade dentre os acadêmicos do curso de direito. Já estava mais do que na hora! – era o pensamento coletivo.
Então, após a aula, Analu saiu correndo para ver se conseguia pegar o ônibus, mas, para o seu azar, avistou-o saindo do ponto quando estava há alguns metros do mesmo. Correu e acenou em vão.
Parou na calçada e viu o ônibus se distanciar. Não sabia como, mas daria um jeito de ir embora.
Como sempre, daria um jeito em tudo. Afinal, quem era ela, se não Analu, a eficiente? Sorriu ao lembrar o jeito como Fábio falava dela e permitiu-se sentir orgulho de si mesma ao menos uma vez no dia.
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