Notas iniciais
Está no estilo de um relato, tentei algo diferente ;) Boa leitura.

Já tem um tempo passo a me observar. Considero-me, no mínimo, entediante. Para me aproximar de uma garota pela qual me interesso e que nunca sequer lhe disse “Oi”, chego com a palhaçada de falar que ela me inspirou para fazer um desenho dela. Por acaso, meus argumentos são bem convincentes: “Desculpa,estava a encarando de longe... você é linda, tem traços diferentes, delicados...algo que não sei bem identificar, mas que a maioria não tem! Fiquei descontrolada com vontade de desenha-la... bem, só estou contando para você porque acho que deveria saber que serviu de inspiração para alguém... e não tenho costume de ficar com os meus desenhos, meu prazer é fazê-los. Então, meu nome é ...

E por aí vai. Após isso, crio um vínculo com a garota. A tal musa. Enrolo colocar seus traços no papel, prorrogo alegando não gostar do rascunho, porque gosto de fazer o desenho por lembrança... não encarando a pessoa ao vivo ou olhando alguma foto. E com isso crio um laço temporariamente interessante... se a garota for hetero, já cheguei a convencer a conhecer o que somente outra igual a ela proporcionaria. Ou ficamos, ou melhor, eu fico abusando de sua boa vontade em conversas e tirando uma lasquinha de seus toques (sapatão fazendo sapatonicê é assim mesmo).

Agora, quando ela é bi ou gosta de mulher mesmo...ah... essa é a parte mais divertida. Apenas entrego o desenho( que digo que levei uma semana para terminar, quando na realidade, fiz tudo numa madruga só) quando já consegui decifrar a boca dela na minha (passando, assim, meu lapso de primeira checagem de território) ou quando, as coisas acabaram desanimando... e tal entrega de rabiscos poderia retomar o contato. Com essas, sempre consigo o que quero.

Meu melhor amigo, Ronan, fala todo santo dia para eu largar essa vida bandida e as aventuras de artista. Acredito que eu não tenha especificado algo... eu não tenho problemas em chegar em ninguém... sou cara de pau, muito bonita...sou muito segura de mim. Mesmo que eu leve algum fora, não sou de me constranger, brinco.. provoco...às vezes, até consigo mais tarde( ou estou já de pegação com outra). Então... qual é a de bancar a artista?

É engraçado como que eu não me inspiro para desenhar, mas de fato eu não minto. Todas eu achei algo de muito, muito interessante, e que me perturbaram a paz de espírito temporariamente... as garotas que selecionei foram poucas,bem poucas, na verdade. Fico até com medo de confundir... a loucura de acabar obtendo esse “alvo” de alguma maneira e achar que estou gostando para valer. Sabe? Gostar, gostar, gostar? Acho que chamam de se apaixonar, ou algo do tipo. Como sempre, acabei prevendo esse medo... E neste exato momento ele está acontecendo. Certo, certo.. irei por partes.

Marquei de encontrar-me com uma hetero, ou melhor, ex-hetero (sapatonices, sapatonices...já falei) de irmos a um evento de anime que teria. Eu estava, de fato, muito focada na garota, no interior...ela só era legal. Tirando isso um total tédio. Zero de personalidade. Mas era muito bonita e aquela coceirinha de converter... acho que podem entender o que aconteceu. Isso foi no começo deste ano. Meio de fevereiro. Sapatão não se contenta com uma...sabe aquilo de estar com alguém e olhando aos arredores para já saber a próxima que conhecerá sua boca? Se não sabe, meus parabéns, você é decente. Entretanto, vale lembrar que eu estava muito afim apenas da beleza da garota que estava me acompanhando, futilidade por futilidade... Então a vi.

Cara, que merda.

Dei umas cinco olhadas nela. Momentos diferentes. Um deles eu quase cheguei para ver se eu conseguiria o “facebook”. Não o fiz, mas eu sabia exatamente o que aconteceria. Eu gostei demais. Eu foquei. Eu daria a louca a procurando em redes sociais aleatórias e teria vontade de me dar uns tapas na cara por não ter perguntado diretamente e me poupado do trabalho. Ela tem traços asiáticos no rosto...algo de fofo mas sério simultaneamente. O tipo de corpo que faz meu tipo, bem feita, sem exageros. Esbelta.

Cara, realmente, muita merda.

Depois do evento, tentei localiza-la por uma semana e desisti. Eu teria que procura-la do nada. Não sabia o primeiro, e mais tarde eu viria a saber que mesmo se eu soubesse não teria adiantado. Sabe a modinha de não “fake”, mas a troca de nome na internet? Poisé. Não culpei-me tanto depois. Ao longo dos meses, eu acabei literalmente sossegando, já que eu estava na época de estudar para o vestibular do meio do ano. E sim, sou do tipo “estudius totalis” ou que se adere ao vírus “seca vestibularium”.

Sabe, eu quase dei um salto quando na ultima semana de aula, antes das férias de julho, eu encontrei a marcação de uma amigo meu abraçando essa tal garota do evento, numa foto daquele mesmo evento. Ela estava sem foto no perfil, então viva as marcações. Solicitei, empolgada. Ela aceitou. E assim... que eu dei um certo pesar para as minhas férias. O nome dela é Leila.

A primeira coisa que fiz foi ver o “Sobre” no facebook. Ah, que ótimo, está namorando. Epa...epa..epa...”Interesso-me por homens e mulheres”. Eu sei o que isso significa. Que eu ficarei em um fogo cruzado de minhas vontades e não querer magoar ninguém. Resolvi conhece-la antes de qualquer tipo de investimento. A fiquei cutucando e ela de volta. Quando deu dois dias nessa brincadeira, eu já sabia como iniciar um assunto, vi seus horários de entrada... stalker? Um pouco, mas desde criança sou absolutamente detalhista.. faço isso com tudo.

O primeiro problema: ela digita tudo completo. Sem abreviações, nada inventado. EU AMO ISSO. Sou filha de um doutor em direito que é simplesmente apaixonado pela língua portuguesa e em casa damos muito valor... quando escuto algo complexo ligado a literatura, sociologia, filosofia, história ou geografia política eu meio que tenho um orgasmo, o mesmo vale para quem aplica bem a nossa amada língua.

O segundo problema: ela percebeu de cara o jogo que eu estava fazendo, e fez de tudo para ela mesma ficar interessante, de acordo com o que conversávamos. Ela chegou ao ponto de me “confessar sem saber o motivo” de quando ter me adicionado ter tido uma sensação”nem ruim, nem boa”. Nossa conversa gerou em torno de mistérios, a partir de então. Jogos.

Basicamente... eu sei proporcionar a vontade para me conhecer, sendo assim, ela virou minha “parceira da madrugada” como gostávamos de brincar. Disse que se sentiu honrada por eu querer desenha-la, e tivemos muito assunto já que ela também desenha. Consegui me aproximar dela de uma maneira intensa em pouco tempo... ela chegou a falar que sentiu ciúmes quando contei um dos meus casos para ela... e depois eu meio que simulei que não queria fazer sexo com a tal garota e que ela estava meio que forçando...Leila tentou ajudar minha situação, mas percebi que detestava saber da tal médica com quem estava me envolvendo. Era o último sinal que eu precisava.

Passamos a ligar a webcan por Skype... e foi vendo aqueles sorrisos... os assuntos que não acabavam... ela é muito tímida então eu sempre tenho que iniciar a conversa e dar uma de super agitada para ela empolgar e se soltar. Estava tudo indo muito bem, até começarmos a falar de assuntos que envolvem relacionamentos e amores. Passamos a evita-los. Focamos em nós duas. Trocas de fotos nossas que foram tiradas dormindo, desenhos mostrados (e o dela sem entregar ainda), conversas sobre quando nos encontraríamos , ela cozinhar para mim e eu fazer o possível para conseguir agrada-la em algo, durante sua estadia. Tudo muito... não amizade. Uma amizade falsa que sabemos, que qualquer um saberia, querer ir muito mais além.

As provocações via webcan, começaram. Mostrei para ela a voz que eu fazia brincando de “tele sex”... claro que proposital. Ela ficou vermelha...boca entreaberta até morder o próprio lábio. Brinquei com ela se ela queria um “streap” ela quase caiu da cadeira, desesperada. Rimos muito. Comecei a contar coisas que eu gostava nos meus momentos íntimos... mostrei minhas algemas. Ela disse que teria vingança, ao vivo. As provocações só pioravam... passar gloss na frente da câmera...até então ela só colaborava e ficava tímida com o que eu fazia... falando coisas para eu nunca fazer, justamente para eu realizar. Brincamos de não sabermos disso. E tudo foi ficando mais intenso.

Ficaram as duas sorrindo que nem idiotas só se encarando na can. Uma chamando a outra de fofa, linda. Com as garotas que fico eu dou carinho, mas com a Leila eu sou o próprio carinho. Puro. Simples. O sinal de que só bastaria nos encontrarmos... eu já sou mais livre, independente.. dezoito. Ela com dezesseis e muita espera de autorizações para sair. Eu percebi que ela queria me conhecer muito mais antes de dar qualquer passo. Ela nem trisca no assunto do namorado comigo...

Então, a última vez que a ví pela can, acho que ultrapassamos os comentários carinhosos... os olhares se demoraram muito mais... as provocações, apesar de sempre controladas, se excederam um pouco mais. E ela sumiu. No primeiro dia, só estranhei.. mas normal uma não entrar em algum dia. Ela disse que havia passado mal. No segundo dia ela não entrou e fiquei preocupada...será que ela continuava mal? Liguei duas vezes, só para checar e desejar boa noite. Não fui atendida, ela pediu desculpas...estava em alguma festinha e a musica alta não possibilitou de atender. No terceiro dia, ela não entrou novamente, até que ficou cinco minutos online conversamos a respeito do que ela havia achado da festa...e logo ela desaparece.

Percebi então que já estava fodida, já havia conversado com quatro amigos no total sobre eu possivelmente me interessar demais por alguém. Apenas joguei um comentário no ar. Tirando para um deles que contei sobre a tal pessoa namorar e ele falar para eu construir algo com ela no presente. Meu coração não bateu tão forte assim antes. Esses três dias... já se encaminhando para o quarto de sumiço, agora sem nenhuma fala a respeito. Comecei a me sentir uma viciada. Eu realmente percebi que ela deve ter ficado assustada, que a ficha caiu. Ela... estaria querendo trair o namorado dela.

Sem noticias...mas querendo ser difícil, não ligar, esperar para ver se ela me procuraria. Meu coração nunca doeu tanto. Ataques de inspiração para poesias noturnas. Passei a me focar em muitas coisas. Mas minha maior confusão é... aquele sorriso virou um vício. Eu estou com ideias ridículas de posse? Eu realmente estou a querendo? Um poema foi resultado, me desesperando e me fazendo entender minha situação:

Comprimo.
Finjo não me desvi(r)ar.
Aquela curiosidade que pairava.
Ambas partes, eu incontrolada.
Você em sua imaginária resignação.
Invado seus cortes.
Você, congela, em cordial formalidade.
Eu desfecho como uma caçada em rasante.
Arranho. Intrigo. (Des)mestifico; sufocada em (seu) inspir(ar).
Uma aprovação. Interrogações.
Componho esboços. Prometo.
Rapto momentos. Prorrogações.
Era meu complemento, que com data fechada, entreguei.
Ressoldar artístico.
(Um) novo (fim) laço.
Um “SEMPRE” enlatado, em lembranças do que nunca foi.

Eu simplesmente sumi dela. A bloqueei. Quis que ela me esquecesse. Percebi o não esforço dela me perguntar se havia acontecido algo, quando eu esqueci que estava no modo “On”. Respirei fundo. Continuei saindo com garotas aleatórias. Um gosto amargo na boca por me divertir e tentar me enganar que essas eram os lábios que eu queria. As férias se foram, climas estranhos. Marcações no face de vídeos, dela comigo e meus com Leila, para mantermos a ignorante amizade que jamais teve de fato interesse. Final de agosto...recebo o resultado...passei. Vou me mudar. Me tornar dependente financeira de meus pais parcialmente e ficar longe de todos conhecidos, salvo por quatro amigos que iriam para a mesma cidade que eu.

Escrevi aqueles textos “emos” no facebook. Falando que tentaria vir uma vez por mês, já que a cidade ficava simplesmente a quatrocentos quilômetros de distancia apenas. Despedida boba. Olá para meu futuro.

No dia da viagem, meu celular toca. O nome Leila aparece na tela. Eu precisava atender. Não queria outro arrependimento:

— Olá?

— Raíssa? – não podia acreditar que depois de um mês aquela voz ainda tinha algum efeito em mim. Algum? Eu quase desabei.

— Sim...Leila.

— Eu sumi. Eu sei. Desculpe-me. Mas você sabe... você sabe.

— Sei de que, Leila? – respirei fundo.

— Ah, não, por favor, não faça isso.Você sabe.

Fiquei em silêncio, a fiz ouvir minha respiração.

— Você...sabe.... eu...nunca isso havia me acontecido!! Eu estava muito feliz com ele, pensei que havia descoberto os sentimentos que eu queria sentir! Um ano, poxa!! E do nada você vem... mexe comigo!! Eu não queria trair.. mas minha mente e coração já se traiam. Eu fugi do que senti!! Sempre quis me sentir valorizada, ele me valoriza demais, demonstra isso... e aí vem uma garota que em duas semanas já me deixa louca....apai...- pausa.

— ... Lei...- ela me corta.

— Apaixonada. – respira fundo – Achei tão errado sentir isso. Eu fugi. E agora, você está indo embora. Eu estou quebrada. Eu a conheci o suficiente sabendo que você vai pelo seu futuro, mas eu precisava te contar isso!! Não precisa me perdoar, apenas... apenas saiba. Você é meu motivo... por você... eu nunca sorri tão feliz. Desculpa...desculpa.

E ela desligou. Respirei fundo. Me mudei... as aulas começaram. E meu foco ficava entre relações internacionais e Leila. Não mandei mensagem, a não ser um “Obrigada”, por SMS.

Dois meses se passaram. Novembro. E percebi que por mais festas que eu fosse, por mais que eu ficasse junta de amigos e uma garota que conheci por lá.. eu lembrava de Leila. Fiquei com ódio de mim. Então...mandei uma mensagem para ela. Perguntei seu endereço. E uma semana depois ela me ligou:

— O...obrigada pelo desenho... está...está...maravilhoso. – sua voz estava chorosa.

Não sei se quem lê este relatório lembra. Mas eu disse, que quando eu finalmente entrego o desenho é porque eu conclui algo que queria.Ou então, como nesse caso, algo viria a acontecer.

FIM... (?)

Notas finais
Espero que tenham gostado, adorarei comentários... não me matem pelo final aberto, combinaria com o estilo adotado.. alguma sugestão?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!