A Inquilina
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Vamos! Acorde sua preguiçosa! — uma voz estridente e escandalosa entrou com tudo no meu quarto, fazendo com que a porta batesse com extrema força na parede, produzindo um estrondo. Mas o que realmente me acordou, foi a criatura rosa com purpurinas me balançando na cama para que eu levantasse. — Hoje é o dia de a gente visitar a cidade! Anda Namie!
— Ai calma. — disse afastando suas mãos de meus ombros. Sentei-me na cama e esfreguei os olhos, bocejando logo depois. — Que horas são? — perguntei.
— São quase onze e meia! Vamos! Levante-se e vai se arrumar. Anda, anda! — a rosada me segurou pelo pulso e me jogou para dentro do banheiro junto com algumas roupas que ela havia escolhido. — Você tem cinco minutos para se trocar! E arrumar o cabelo, e... — ela começou uma lista do que eu deveria fazer. Simplesmente revirei os olhos e continuei a me vestir.
Escovei os dentes e meus cabelos rapidamente. Quando sai do banheiro, ela continuava a sua listinha.
— Vamos Amy. — disse passando por ela que se assustou e começou a me repreender porque eu não tinha passado creme na pele e essas coisas. Eu cuido da minha aparência, o problema é eu estar com paciência para isso e sem contar que eu não estava nem um pouco a fim de ouvir aquele ser que estava me perturbando.
Descemos para a sala onde todos nos esperavam. Algumas figuras conhecidas, outras eu nunca tinha visto antes, mas como disse a ruiva, tinha gente do grupo que eu ainda não tinha conhecido, então era mais do que certo que a GC não se resumiria apenas aqueles que eu já havia visto.
— Ai estão vocês. — Elesis disse chegando perto. — Vejo que estava cansada, fez muita coisa ontem?
— Fui treinar um pouco. — falei rápido. Peguei algumas pessoas ali que tinham seus olhares voltados para mim. Um se destacava, possuía cabelos loiros, olhos escarlates e um olhar bastante desconfiado, mas isso seria obvio, o que uma asmodiana estaria fazendo no meio de um bando de loucos?
— Bom, vamos apresenta-la para o resto do grupo. — a ruiva fez um sinal para que eu a seguisse. — Vejo que conheceu Ryan e Zero ontem.
— Sim.
— Certo. — ela parou. — Gente, para os que não estavam aqui ontem, está é Namie. Ela não fará parte da Grand Chase, mas prometeu nos ajudar com as missões em troca de um lugar para ficar. — e começam os cochichos. Parece que a maioria não gostou do fato de terem uma inquilina, ainda mais sendo um ser de uma raça temida em Ernas. — Então vamos. — as pessoas que estavam ali foram saindo aos poucos. — Asmodiana.
— Namie. — disse virando-me para a ruiva.
— Como Amy deve ter comentado com você, hoje é o dia de irmos à cidade. Você tem o dia todo para resolver o que precisar, roupas, equipamentos, poções... Sinta-se à vontade, mas terá que voltar até as oito. — ela disse e deu um aceno antes de sair.
Suspirei. Estar no meio de tanta gente me deixa meio... Agoniada, essa é a palavra. Preciso mesmo sair para esfriar a cabeça e comprar roupas novas já que as que estão à minha disposição eram estranhas, pelo fato de serem escolhidas por Amy. Temos como exemplo a que estou usando agora: uma leging negra com uma saia completamente rosa, um top branco com um bolero rosa de mangas curtas. Eu preciso urgente comprar roupas novas.
— Ah, bom dia mascarado. — falei indo para frente do garoto que estava sentado em uma poltrona. Ele me cumprimentou com a cabeça e sentei no braço da poltrona onde ele estava sentado. — Você não vai sair?
— Não sou muito de sair.
— É, isso já deu pra perceber. — falei soltando uma risada. — Mas enfim. — levantei-me. — Vamos, preciso de um guia, cheguei nessa cidade ontem, então ainda não conheço tudo o que deveria. Me acompanharia? — ele permaneceu sentado. — Ah não mascarado, não me faça insistir. — falei fazendo biquinho, o que não adiantou de nada. — Por favor?... — disse sentando em seu colo, encostando minha cabeça em seu ombro e colocando meus braços em volta de seu pescoço.
— Vamos. — ele disse fazendo com que eu me levantasse rápido e sorrisse.
Como Zero carregava uma das espadas lendárias, era previsível ele estar sempre com ela. Para mim aquilo era algo normal, já que eu também não me separava da minha espada. Mas quando dois seres de orelhas pontiagudas, carregando espadas nas costas estão andando no meio de um bando de humanos... Já devem saber o que acontece: chamam extrema atenção.
Pensava que alguns deles reconheceriam Zero pelo fato dele ser da grande e honrada Grand Chase, mas nenhum dos murmúrios que levantávamos quando a gente passava falavam sobre o grupo. Melhor assim, me sinto mais confortável.
— Uma loja de poções. Vamos mascarado. — falei enquanto o puxava pelo pulso.
Entrei e o sino em cima da porta anunciou nossa chegada. Não era muito diferente das lojas de Elyos, claro que algumas mercadorias me faziam falta, mas as que tinham aqui dariam pro gasto.
— Boa tarde visitantes! O que desejam? — disse um senhor sentado atrás do balcão de uma forma amigável. Ele provavelmente era o dono daquela loja, ou simplesmente o vendedor.
— Só estamos olhando. — falei dando uma olhada no que estava disponível para a venda. Precisa comprar mais uma daquelas poções que ajudam a mudar a aparência de minha espada, o problema era que Zero estava ali, ele não pode descobrir que a poção que irei comprar é para a minha espada, senão estarei em maus lençóis. — Olha... — tinha encontrado uma revista que dava notícias sobre as duas dimensões. — Mascarado! Olha isso! — peguei a revista e a levei para sua frente.
"O Caos aumenta em Ernas.
Portais liberam mais seres da outra dimensão."
— Sabe o que isso significa? — perguntei e ele apenas me encarou. — A Grand Chase vai ter que agir com mais força. — falei virando a revista para mim novamente. Mesmo com todo esforço, eles não estão conseguindo fechar esses portais em uma velocidade que tenham como suportar os outros que estão sendo abertos no mesmo instante. A GC tem muito que treinar.
Levei a revista para alertar o resto do pessoal, mas por enquanto ela ficará na minha bolsa.
— Ei mascarado, está com fome? — perguntei e ele apenas afirmou com cabeça. — Vamos lá. — segurei sua mão e o puxei, guiando-o em meio a rua cheia de humanos. Mas isso foi um impulso, porque eu parei no lugar e cocei de leve a minha cabeça. — Ahm... Onde ficam os melhores restaurantes?... — perguntei com um sorriso bobo. Ele deu uma risada.
— Por aqui. — dessa vez, ele que me guiou até o restaurante. Zero riu, não sei, mas acho que isso é algo bom. De certa forma, me deixa feliz.
Andamos por um curto espaço de tempo. Ele havia escolhido um local subterrâneo, sem muita gente. Era esperado de alguém como ele.
— Chegamos. — ele falou após descer as escadas que dariam ao restaurante.
— Pode soltar a minha mão agora mascarado. — disse direta. Ele apenas fez o que eu pedi. Minha mão, por causa do tempo que havia ficado em contato com a mão dele, estava quente e um pouco úmida. Limpei-a e segui Zero que já estava um pouco a frente buscando uma mesa. — Então. — falei sentando-me. — O que o grupinho de vocês pretende fazer em relação ao portais que estão abertos? — apoiei meu queixo em uma das mãos.
— Nós ainda não temos um plano concreto. No momento, pretendemos ir fechando à medida que encontramos os portais em nossa jornada, e é só. — ele disse dando um longo gole em sua bebida.
— Uhm... — suspirei. — Vocês sabem que esses portais são um grande problema para Ernas. Esses seres, são completamente diferentes dos dessa dimensão e incrivelmente mais violentos e fortes. Precisam montar planos bem bolados para conseguirem fechar os portais de uma maneira segura e correta. — falei apontando para Zero.
— Sim, sabemos. Nós temos duas pessoas que conseguem lidar com isso. Mas toda a GC contribui.
— Não estou falando somente de experiência em fechar portais. — grunhi. Essas duas pessoas, são Rey e Dio e o fato deles terem entrado na conversa, nem que tenha sido por míseros segundos me incomoda. — O que estou querendo dizer é — dei uma pausa para respirar. — apenas fechar esses portais, não vai adiantar de nada, porque você sabe que eles poderão ser reabertos a qualquer instante. — ele confirmou com a cabeça e continuei: — Precisam derrotar a fonte, quem quer que seja que está fazendo isso, possui um grande poder e derrotá-lo não será uma tarefa fácil... — por um instante, ficamos em silêncio para tentar continuar com a conversa. — Já têm alguma pista de quem poderia ser o encrenqueiro que está fazendo isso? — Zero afirmou.
— Não é a primeira vez que isso acontece. — sim, já ouvi muitos boatos que Duel havia feito isso outra vez, mas não obteve êxito completo por causa da influência da Grand Chase. — Mas não pode ter conseguido sozinho. Antes, ele estava em um plano junto com Astaroth. Mas a quantidade de seres que saíram desta vez...
— É extremamente grande para que somente os dois pudessem dar conta de tudo. Tem mais alguém no meio dessa confusão...
Ele olhou para minha bolsa. Perguntou se podia pegar a revista que eu havia comprado na loja, dei permissão. Ele ficou olhando-a por um bom tempo, tentando formar uma resposta para o nosso assunto. Eu não consigo desvendar suas emoções, então, nunca sei o que ele está pensando.
— Aqui não tem nenhuma pista que possa ter alguma utilidade para nós. — ele fechou a revista e me entregou, logo depois, a guardei. — Vamos. — ele se levantou e foi pagar o que havíamos consumido. Saímos do restaurante.
Já estava no fim da tarde, de forma que o céu adquirira um tom alaranjado belo de se ver. Suspirei. Esses portais estão realmente dando trabalho. Eles precisam fazer alguma coisa, e de acordo com o trato que fiz com Elesis, a minha estadia na base da GC vem seguida com a minha ajuda em missões e uma delas, sem dúvida, será fechar esses portais.
— Mascarado. — ele parou onde estava e se virou para mim. — Eu preciso passar em uma loja de roupas. — disse dando um sorriso bobo, pela segunda vez naquele dia. Isso era o que eu realmente precisava fazer hoje e fiquei distraída demais com outros assuntos para perceber que o meu tempo de compras estava acabando. — Outra coisa... Sabe onde tem uma loja boa para que eu faça isso? — "Ele é um homem, que quase não sai da base. Pra que você foi perguntar onde ficam lojas de roupas femininas?" pensei repreendendo a mim mesma.
— Venha comigo. — Zero me mostrou uma pequena loja que vendiam roupas perfeitas para o meu gosto. Agradeci e entrei.
Pouco tempo depois sai do lugar e o vi sentado em um banco próximo da loja.
— Pensei que você já tivesse voltado para a base. — falei chegando perto dele. — Sabe que não precisava ter me esperado né? Sei muito bem o caminho de volta.
— Você disse que queria sua revanche. Se voltasse para base sem você, seria capaz de não me encontrar naquele lugar e ir para a cama. — sorri. Ele pensou certo, isso seria um acontecimento bem provável, já que não tenho permissão para subir ao terceiro andar, onde ficam os quartos dos garotos.
— Então vamos voltar. — fui na frente. Quando ouvi uma voz aguda capaz de estourar meus tímpanos gritar meu nome. Suspirei e virei para trás: um ser purpurinado saltitando e uma grande quantidade de sacolas flutuantes atrás.
— Namie! — ela falou chegando mais perto. — Como vão as compras? — perguntou com um sorriso que chegava a ser irritante.
— Já terminei. — disse sem vontade alguma de continuar a conversa que seguiria.
— Amy, posso soltar as sacolas um pouco? — o monte de sacolas flutuantes falou com dificuldades. A rosada apenas disse um sim e todas as sacolas caíram no chão. — Que alívio! — um garoto ruivo de olhos dourados disse enquanto alongava seus braços, esticando-os para frente. — Elas estavam realmente pesadas... Pra que você precisa disso tudo Amy?
— Uma diva necessita de muitos acessórios para ficar cada vez mais fantabulosa! — ela ergueu os braços e sorriu novamente.
— Você não precisa disso Amy. — o ruivo disse sorrindo para a rosada. — Ah, desculpa gente! — ele falou meio envergonhado e coçou sua cabeça. — A Elesis apresentou você pra gente hoje, né? Que falta de educação. — ele sorriu bobo. — Bom, sou o Jin! — disse com um grande sorriso.
— Olá. — disse acenando.
— Você conseguiu tirar o Zero da base no dia de visitar a cidade?! — ele falou com surpresa na voz. — Como?!
— Ele foi me mostrar a cidade. — Zero me olhou e entendi sua mensagem. — Bem gente, desculpa ser indiscreta mas... Eu tenho um compromisso com a arena agora. Nos vemos mais tarde. — acenei novamente e me distanciei dos dois.
— Até! — falaram juntos.
Voltamos. No caminho, nenhuma palavra apesar de que já era mais do que óbvio que uma conversa não aconteceria na volta para a base.
— Mascarado, eu só vou descansar um pouco e já estou indo, ok? — perguntei depois de ter guardado as minhas novas roupas no quarto, ou melhor, jogado as sacolas em qualquer canto do quarto.
— Está cansada?
— Na verdade, eu simplesmente estou meio mole hoje. Sem muita vontade de treinar entende? — perguntei e vi ele afirmar com a cabeça. Sorri. — Mas isso não quer dizer que eu tenha desistido da minha revanche, me aguarde. Boa noite. — essas foram as minhas últimas palavras antes de ir em direção à escada.
— Boa noite Namie. — ele disse antes de eu começar a subir. Virei-me em sua direção e acenei com um sorriso no rosto subindo o lance de escadas logo depois. — Que dia monótono... — falei deitando em minha cama jogando minha cabeça para trás fazendo com que meus cabelos caíssem em uma verdadeira cascata lilás. Suspirei. Sentei-me e olhei pela janela. De ontem para hoje, a lua havia mudado para crescente ao invés de nova. A lua no mundo humano é um pouco mais brilhante do que a de Elyos, uma imagem que encanta os olhos. Levantei-me, peguei minha espada e corri para fora.
Quando era pequena, nunca pude treinar o bastante para ficar forte, tanto em lutas corpo a corpo quanto em de longas distâncias utilizando magia. Esse treinamento nunca me foi permitido por questões óbvias de segurança, sendo a única filha de meu pai. Participei de várias guerras, mas todas com um nível de dificuldade muito baixo e ainda assim, eram difíceis para mim. Em batalhas de maior importância e nível, estava sempre cercada pelos melhores integrantes do exército.
A experiência de Zero em batalhas é incrivelmente maior que a minha, mesmo eu conseguindo derrotar seres com experiência realmente bem próxima da dele. O que ele tem é técnica, coisa que não consegui aperfeiçoar com tanto êxito quanto gostaria e deveria. Senti que da vez que lutamos, ele pegou leve, não utilizou tudo o que tinha. Quero força-lo a fazer isso, quero que ele use tudo, que lute direito.
— Irei supera-lo, mascarado. Me aguarde.
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