A Infância de Inu Yasha
14 Capítulo 14: Confronto
Notas iniciais
Finalmente depois de meses de treinamento, Inu Yasha estava pronto para testar suas novas habilidades em combate. Haviam sido dias duros aqueles, mas enfim Myouga lhe ensinara tudo que sabia sobre lutas, pois dizia ter observado muitas delas travadas pelo próprio Inutaishou; apesar do hanyou duvidar disso, dada a natureza covarde da pulga. Seja isso verdade ou não, o fato é que o pequeno hanyou havia melhorado em muito sua força e velocidade, e agora já subia em árvores num pulo só (ainda que não fosse o suficiente para subir à gigantesca arvore com que se deparou no início de seu treinamento), sem mencionar o fato de ter melhorado sua percepção dos sons e cheiros ao redor, coisa que aprendeu naturalmente depois de tanto tempo dependendo de seus sentidos para sobreviver. Não há precisão de se dizer que sua confiança – que já era muita – aumentou ainda mais.
Mas enfim, o hanyou encontrava-se pulando de galho em galho de arvore – habilidade recém-aprendida – Myouga como sempre aproveitando o passeio no ombro do hanyou enquanto fazia comentários sobre seu progresso e pontos em que devia melhorar; mas Inu Yasha não prestava a menor atenção ao que a pulga dizia, ele só concentrava-se no cheiro que acabara de sentir, ao qual estava seguindo na direção em que se encontrava.
O híbrido parou sua sucessão de saltos sobre um galho de uma determinada árvore e ficou a olhar em volta como se estivesse procurando algo:
- O que foi Inu Yasha-sama? – perguntou Myouga, curioso.
- Está vindo... – limitou-se a responder.
- O que exatamente está vindo? – tornou a perguntar, ligeiramente mais preocupado.
- Meu adversário. – o pequeno hanyou respondeu com um sorriso confiante.
- C-como assim? – gaguejou a pulga.
Mas sua pergunta logo foi respondida quando um youkai surge do meio das árvores. Era um enorme urso marrom de olhos vermelhos, tinha dentes afiadíssimos e enormes patas de onde saíam garras letais, em suas costas haviam marcas tribais prateadas. A criatura se posicionava em pé, ficando ainda maior do que já aparentava ser. O kumayoukai olha para o hanyou no galho de arvore, este apenas analisava seu oponente:
- Então, você é o hanyou que ousou invadir meu território? – diz o youkai, nervoso.
- E você é o youkai fedido que eu pude sentir o cheiro de longe. – reponde o híbrido, com desdém.
- Ora seu pirralho! Vai se arrepender de falar assim comigo! – o youkai se enfurece.
- Inu Yasha-sama! Acho melhor não provocá-lo. – avisa Myouga temeroso.
- Ora, eu vou lutar com ele Myouga! – diz com naturalidade.
- Deve estar perdendo o juízo.
- Só quero ver o resultado do treinamento. – responde com um sorriso no canto dos lábios.
- Bem...então acho que eu vou observar daquele galho ali, mais alto...e seguro – responde a pulga, pulando de seu ombro.
- Já vai fugir seu covarde? – mas a pulga já estava longe.
- Chega de papo furado! – diz o youkai, fazendo-se notar – Vai pagar por aquela ofensa!
- Estou esperando. – desdenha o hanyou.
- Eu vou te matar seu desgraçado!
O urso furioso ataca com suas garras a arvore em que o hanyou estava, derrubando-a ao chão. Inu Yasha pula bem a tempo de não ser acertado pelo golpe ou de cair junto com a planta. Enfim teria sua primeira batalha verdadeira, desta vez não ia fugir ou precisar ser salvo por ninguém, agora lutaria por si mesmo. Enquanto encarava a criatura enfurecida à sua frente, sentia um misto de receio e excitação. Ao mesmo tempo em que parecia querer fugir dali, também tinha vontade de lutar e testar toda sua força....Era uma sensação contraditória, mas estranhamente.....boa.
O youkai se aproxima em grande velocidade e usa novamente suas garras para atacar. O hanyou consegue desviar por pouco das enormes patas do urso pulando rapidamente para o lado, o youkai passa direto por ele devido à velocidade em que estava e acerta duas árvores próximas, fazendo-as cair com estrépito no chão da floresta outrora silenciosa. Ainda atordoado por ter errado o alvo o kumayoukai olha em todas as direções procurando por seu rival sumido, este se posicionava pelas costas do adversário, prepara suas garras e desfere o ataque que havia aprendido durante o treinamento:
- Sankon Tessou! – gritou o nome do golpe, lançando-se sobre o inimigo com as garras arqueadas. Mesmo sem se aproximar muito do youkai o golpe o atingiu como se fosse uma rajada de vento cortante lhe ferindo.
O urso sentiu o ataque por suas costas, e abriram-se três ferimentos em forma de garras nas mesmas. Ele urrou ao sentir sua pele se rasgando e o sangue jorrar quente pelos ferimentos; mas isso só o deixou mais enfurecido ao se recompor e voltar ao combate.
- Seu maldito! Não sei como conseguiu me acertar, mas vai se arrepender por isso! – dizia indo pra cima do hanyou novamente.
Dessa vez Inu Yasha não fora tão rápido e a pata do youkai o acertou em cheio, sua garras acertaram do lado esquerdo de seu corpo; a força do golpe o jogou longe. Após se levantar com certa dificuldade, constatou, para sua surpresa, que não estava ferido como pensou que estava. Ele havia visto quando as garras enormes do youkai o acertaram, mas estava praticamente intacto. Então olhou para seu haori vermelho que o acompanhava desde que se lembrava. Recordava-se que sua mãe dizia que ele era muito especial, e realmente agora também se recordara que Myouga falara algo sobre ele: parece que era feito de pele de rato de fogo, e segundo a pulga, era tão forte como uma armadura. Como pôde se esquecer disso? Mas agora tinha um trunfo a mais diante do inimigo. E falando nele, este vinha novamente para o ataque...
Do alto, Myouga apenas observava a luta, preocupado com o resultado da mesma. Perguntava-se por que o hanyou era tão impulsivo.... “Deve ter puxado Oyakata-sama” – pensou a velha pulga se lembrando do jeito de seu velho amigo. “Mas ele não era tão irresponsável.” – foi o que pensou depois de ver como o hanyou lutava com o youkai, provocando o inimigo, subestimando sua força. Com certeza ainda tinha muito que aprender...
O youkai estava irritado como nunca; vinha desembestado, derrubando tudo em seu caminho numa corrida desenfreada até onde estava o pequeno hanyou, ele vinha correndo a tal velocidade e com tal fúria que o chão parecia estremecer sob seus pés. Inu Yasha de tão assustado que estava com aquela figura enorme e ameaçadora se aproximando não se moveu do lugar. O urso cravou seus dentes no braço esquerdo do híbrido e balançou de um lado para o outro, como se fosse um ‘brinquedo de morder’. Dessa vez, nem seu haori o tinha salvo, pois sentia os dentes do monstro entrarem em sua carne, tais navalhas afiadas rasgando-lhe a pele à cada sacudida, não pode segurar um grito de dor. O youkai parecia se divertir naquele instante, já se declarando vencedor, afinal como poderia um mero filhote de hanyou vencê-lo?
Mas ele não podia desistir, nunca se daria por vencido, não tinha chegado até ali para desistir ou morrer nas mãos de um youkai qualquer. Viu como estava a poucos centímetros de seu oponente agora, podia sentir seu bafo nojento enquanto este o mordia ferozmente. Num golpe rápido enfiou as garras nos olhos do youkai, cegando-o. O urso soltou um urro e o largou no chão, se debatendo devido à dor.
O monstro ainda gritava e se sacudia, enquanto tentava levar suas patas ao ferimento numa tentativa inútil de estancar o sangramento. O oponente estava totalmente atordoado, era a chance perfeita, e sem desperdiçá-la Inu Yasha atacou novamente o youkai com o mesmo golpe de antes, dessa vez usando toda sua força.
- Sankon Tessou! – o golpe acertou em cheio a cabeça do youkai.
Seu crânio se partiu em dois sob a força daquele golpe, e o enorme youkai urso cai pesadamente no chão, já morto. O hanyou ainda ficou um tempo estático observando seu oponente derrotado, era difícil de acreditar.... Em seu primeiro combate, venceu o inimigo, quando as chances disso pareciam muito pequenas. Estava imensamente feliz, teria comemorado se a dor em seu braço não o tivesse feito lembrar das conseqüências da luta. Olhou para o mesmo, que se apresentava em estado lastimável; a manga do haori tinha alguns rasgos e estava manchado do sangue que saía de seu braço, onde havia ainda as marcas dos dentes do youkai urso; não obedecia aos seus comandos... mas isso não o importava por hora, só conseguia pensar no recém-ocorrido...
Myouga desse do galho de árvore no qual se abrigou durante toda a luta. A velha pulga vinha cheia de elogios e vivas, mas o hanyou estava ainda envolto em seus pensamentos... Olhou para sua mão direita, à que tinha usado para dar o golpe final no oponente. Sentia o cheiro do sangue deste em suas garras.... isso o fazia sentir-se estranho....era bom, de certa forma lhe dava uma sensação de poder, por outro lado, parecia estar agindo cada vez mais parecido àqueles youkais que o desprezavam. Mas ele era diferente...e agora que tinha ficado mais forte, mostraria a todos do que era capaz; não precisaria mais ser salvo por ninguém; conseguiria senão o respeito deles, o medo.
- “Eu cumpri minha promessa mamãe... Me tornei forte.” — pensava com alegria.
- O senhor foi incrível Inu Yasha-sama! – dizia a pulga entusiasmada, tirando-o de seus pensamentos.
- Feh! É claro! – se gabava.
- Como está seu braço? – a pulga perguntava olhando-o.
- Eu estou bem.
Ele então caminha debilmente até seu refugio, segurando o braço ferido, como se com isso pudesse fazê-lo doer menos, coisa que se provou pouco eficaz, a cada passo que dava sentia uma dor muito forte e o sangue continuava a fluir livremente pelos profundos ferimentos feitos pelos afiados dentes do kumayoukai. Parou a meio caminho já não agüentando, recostou-se no tronco lenhoso de uma árvore – o que fez o ferimento doer novamente – e ficou um tempo encostado ali recuperando o fôlego. Myouga percebendo a situação sôfrega do jovem hanyou tenta fazer alguma coisa a respeito:
- Não me parece nada bem... – diz analisando os ferimentos. Foi então que teve um estalo de memória – Inu Yasha-sama, lembra-se daquelas ervas que te mostrei outro dia e que ajudavam a curar ferimentos? – o hanyou assentiu com a cabeça – Vou buscar algumas, não saia daí! – e partiu aos pulos.
- “Como se eu fosse a algum lugar!” – respondeu com ironia em pensamentos.
[...]
Paciência não era uma de suas virtudes, e ficar esperando pelo que pareciam ser séculos com certeza não agradavam ao híbrido que tentava distrair-se com alguma coisa enquanto aguardava a volta da pulga youkai. Ficou relembrando sua luta com o youkai urso à pouco, e não podia deixar de sentir-se orgulhoso de si mesmo, afinal, um filhote de hanyou conseguir derrotar um kumayoukai adulto não é algo que se vê todo dia. Ainda podia sentir o cheiro do sangue deste em suas garras, porém isso já o estava enojando, e aliado ao cheiro de seu próprio sangue começavam a fazer seu estômago dar voltas, devido ao seu faro apurado. A perda de sangue o enfraquecia também, mas não o suficiente para que ficasse desacordado ou não pudesse levantar...ainda.
Finalmente depois da angústia de esperar longos minutos, Myouga volta trazendo consigo varias folhas da planta mencionada. Ele pega as folhas e as macera com uma pequena pedra fazendo destas uma pasta verde e uniforme, em seguida instrui o hanyou a como usá-la. Este após por um pouco da pasta no ferimento dá um gemido de dor.
- Isso arde! – reclama.
- Ora, agüente firme Inu Yasha-sama! Essas ervas são muito boas, vai estar curado num istante.
- Espero que esteja certo. – murmura desgostoso.
Realmente, pouco tempo depois já se sentia melhor, seus ferimentos pareciam querer cicatrizar e a dor já diminuíra consideravelmente. Já se via apto a voltar à caminhada até um local mais protegido, porém quando se mexeu, sentiu um repuxão em seu braço que o fez parar o ato e levar a mão novamente ao braço com uma expressão de dor.
- O que foi, Inu Yasha-sama? – pergunta Myouga vendo a relutância do hanyou em prosseguir.
- Nada... eu estou bem. – a expressão de dor ainda não havia abandonado seu rosto.
A pulga só podia pensar que o hanyou possuía um orgulho tão grande quanto sua vontade de ser forte, mas não havia nada que se pudesse fazer quanto a isso, pois os youkais cães são orgulhosos por natureza. Aproximou-se então, analisando o braço imóvel do híbrido e constatando o que já suspeitava desde o princípio:
- Não me parece estar quebrado, acho que só está fora do lugar...
- Como?! – o hanyou não entendia perfeitamente o que aquelas palavras queriam dizer.
- O senhor deslocou o braço, mas não é nada grave – explicava com naturalidade – Mas terá que colocá-lo de volta no lugar ou não conseguirá movimentá-lo.
- Mas...como?! – balbuciava, confuso.
- Bem... precisaria de alguém para lhe auxiliar, mas como vê, eu não posso ajudá-lo nisso. – referia-se a seu diminuto tamanho – Vai ter que dar um jeito sozinho...
O hanyou o olhou por um instante, perplexo. Em seguida olhou à sua volta procurando nem ele sabia o quê, para que pudesse usar com intuito de resolver seu problema... Então uma idéia insana passou por sua cabeça. Pôs a mão no braço ferido, sentindo a articulação fora do lugar e onde ela deveria estar, depois se jogou bruscamente contra uma arvore com o ombro deslocado na direção da mesma. Poder sentir naquele momento um estalo de seus ossos enquanto eram colocados em seu devido lugar, era uma dor alucinante e ele não pode segurar um grito a plenos pulmões. Depois disso, deixou seu corpo apoiado ao tronco de arvore escorregar até o chão, onde se sentou apoiando-se na planta, exausto pelo esforço... mas agora conseguia mover seu braço novamente.
Myouga ficou espantado com a coragem do hanyou, com certeza era filho de Inutaishou. Isso de certa forma o orgulhou, ele havia prometido que cuidaria do filho do amigo quando este não mais estivesse entre os vivos, e agora sentia que tinha cumprido sua promessa. Mas ainda pretendia ficar por muito tempo acompanhando o híbrido – não constantemente é claro – seria servo deste assim como era de seu pai antes dele...
O hanyou acabou por adormecer ali mesmo. A pulga vigiava seu sono enquanto por sua mente se passavam diversas suposições de como seria dali pra frente, sobre o futuro do jovem hanyou. Normalmente quando híbridos eram separados de sua mãe tão cedo – quando esta não o rejeitava – o que lhes sobrava era ódio e desprezo e não sobreviviam à fúria de humanos ou youkais. Mas Inu Yasha era diferente, sua perseverança e vontade de viver eram muito grandes, por isso a pulga youkai lhe visualizava um futuro promissor...
Quanto à luta..., haveriam muitas outras ainda, mas como dizem: Á prática traz a perfeição. E dessa maneira o tempo passaria sem que nem se desse conta...
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