Notas iniciais
"E dos botões de rosa, tudo que sobrara foram as pétalas. Pétalas secas que não exalam nada. Apenas tristeza."

Na mesma hora, no mesmo lugar. Ele se lembra disso.

A moça de lábios vermelhos, rosas desabrochando, olhos negros, lívida.

Essa mesmo.

Você deve se lembrar de quando Ela passava por você, na mesma rua, mesmo horário, mesmo olhar vazio.

Ele se lembra.

Ela passava, e sempre, sempre deixava o perfume das rosas. Sempre o mesmo horário. Nem um minuto a mais e nem um minuto a menos. Ele já se atrasara. Ela? Nunca. Sempre no mesmo lugar.

Ele tinha uma tentação nova a cada dia; persegui-la, puxar conversa, perguntar seu nome. Ele não era um visionário e muito menos um sátiro, mas aquela mulher despertava-lhe o que ele pensava não ter. Mas sua consciência de homem jovem era temerosa e indecisa, o óbice para a moça de lábios de botões de rosas. Rosas vermelhas, como ele gosta de pensar.

E o seu nome? Ele nunca soubera. Seria Victória? Christina? Isabel? Georgine? Marina? Helena? Ela tinha cara de Helena. Tinha cara de tristeza, de nostalgia, de delicadeza.

Como uma rosa.

Mas rosas não são delicadas, são? Elas têm espinhos. Elas ferem. Mas não há nada tão delicado quanto um botão de rosa. Um dédalo de rosas, é o que ela era.

Mas as rosas. Ah, as rosas. As rosas estavam em todos os lugares. Impregnadas Nela, impregnadas nele.

Ele pensa que Ela colhia rosas antes de passar por ele; o mesmo lugar. E pensa também que Ela ficava triste quando ele se atrasava; a mesma hora. Sempre.

Ele ia para o trabalho. E Helena (ou será Justine)? Ele não sabe. Pensa que talvez vá levar suas rosas para algum lugar. Suas rosas corrompidas, desvanecidas, debilitadas, estagnadas, ludibriadas, esfareladas, amarguradas, vermelhas, brancas, amarelas, azuis, douradas, negras... Suas cinzas de rosas, mas ainda sim suas rosas. Sempre soturna, desditosa.

E ele apenas a assistia passar, para obnubilar-se depois.

E então, sua mente jovial amadurecera. Ele escolhera o caminho oblíquo, mas o que o levava até ela; nas mesma hora e no mesmo lugar.

E, das palavras obsoletas e piegas que ele pensara em lhe dizer, nenhuma usou. Então continuaram obsoletas. Ela não estava lá. O mesmo lugar, a mesma hora, mas sem o mesmo perfume das rosas. Não havia rosas. Não havia Helena-Justine-Marina-Georgine-Isabel-Victória-Christina ou qualquer que fosse seu nome. Não houve rosas naquele dia, e em mais nenhum outro.

Notas finais
Bom, espero que esteja bom e.e
E espero que gostem, de verdade.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!