A Indomável
6 Capítulo V - Prisão
-x-
O quarto era fétido, misturando cheiros de urinas alheias e minha própria urina. Tínhamos refeições duas vezes ao dia, e a comida era intragável.
Tomávamos Sol uma vez por dia em um pátio separado do que eu costumava frequentar antigamente, era uma calçada que não tinha sequer uma folha verde de grama, e as cadeiras eram feitas de cimento e maioria estavam quebradas, deixando a mostra estruturas de ferro que as sustentavam.
Eu preferia sentar no chão pra ler minhas cartas que recebia de meu tio. De minha mãe nunca.
"Não se preocupe, pequena, vamos fazê-los pagar" Eram palavras do meu tio na carta. "Vamos"? Quem vai? Ele e minha mãe? Acho pouco provável sendo que a única demonstração de afeto dela foi me pôr nesse lugar, ele não queria admitir que estava sozinho nessa jogada, e que era o único que se preocupava comigo.
"Sua mãe chorou um bocado, ela é impulsiva assim mesmo. Tente entender"
"Hora ou outra ela ainda há de te tirar daí, não se preocupe"
As palavras do meu tio, mesmo sendo somente escritas, ainda eram meu consolo, e mesmo eu sabendo que cerca de 30% delas eram verdadeiras. Quando se tratava de minha mãe então, a porcentagem só diminuía.
- Ande logo, littbarn! Mas que carta demorada!
Olhei pra cima e vi a gigantesca enfermeira polaca com cara de porco tapando meu Sol.
- Estou indo — respondi me levantando, e ela me erguendo pelo braço antes que eu me levantasse por completo.
- Está na hora do seu remédio, mocinha.
Diabos, eu não queria tomar remédio algum, e odiava agulhas, odiava o efeito entorpecente que eles me causavam, odiava aquele lugar mais que tudo e principalmente, odiava aquela mulher.
Fazia duas semanas que Bertha era tipo uma "enfermeira particular" minha. Toda vez que algo envolvia à mim, raramente mandavam outra enfermeira pra me ajudar, e quando o faziam, a enfermeira vinha com tanta má vontade e de mau humor que eu preferia que a própria Bertha viesse.
Ela me dava as injeções e parecia que queria arrancar todas as veias do meu braço toda vez que o fazia.
- Demoner! Que merda é essa? — disse Bertha a primeira vez que puxou as mangas da minha enorme camisola e viu as ligações metálicas da minha mão falsa para o meu pulso.
- Sofri um acidente — resmunguei virando o rosto para não olhar a agulha que estava em sua mão.
- Deve ter sido uma cena muito feia, yuck! Isso é muito nojento.
Ela dizia isso enquanto eu sentia seus dedos gordos procurando minhas veias e depois metendo a agulha pontuda sobre ela.
Cada segundo naquele lugar se tornava um martírio, as únicas companhias com que eu podia contar e que não eram pacientes babando e fedendo urina eram enfermeiras arrogantes e soberbas.
Antigamente, no corredor onde eu costumava ficar, até os pacientes eram mais simpáticos e menos doentes. Era impressionante o que uma divisão de paredes não fazia com o lugar. Você paga, você é bonito e são, você não paga, você é louco e feio.
Lembro de alguns dias atrás ver um banner esticado no pátio e que eu podia distinguir com dificuldade.
"Luto" "Falecimento do diretor Pascoal Sales"
Aquilo me atingiu, pois ao mesmo tempo que eu via um banner esticado, via também a imagem de um senhor amável, de cabelos brancos com carinha de cientista e irmão mais velho de Einstein e que ficara sozinho no mundo, sem sequer alguém pra presenciar seu funeral.
"O velhote morreu e deixou uma grana pra instituições de caridade, o coroa não tinha um filho sequer"
Comentavam as enfermeiras entre um gole de café e uma tragada de cigarro.
"E eu pedindo um pai rico desses e só tenho um velho bêbado em casa, pff"
Me encolhi em meu quarto imundo, sentada no chão, tentando ao máximo não me aproximar da minha cama que tinha o mesmo lençol usado por sabe se lá quantos outros pacientes.
Uma coisa me animava, pelo menos os remédios horríveis me dopavam a ponto de adormecer sempre, e me poupava de sentir cheiros, ouvir e ver coisas.
-x-
A porta do meu quarto era feita de alumínio e batia conforme o vento ficava mais forte, fora que passava qualquer tipo de fluxo de ar pra dentro do meu quarto, tendo o efeito de um ventilador ainda mais pelo fato de meu quarto já ser gelado.
Me encolhi na cama coberta só com um lençol. Não fazia ideia de que dia era, mas tinha quase certeza que estávamos no meio de junho ou quase começo de julho.
Forcei meus olhos a se fecharem e ignoram e assovio do vento passando pela minha porta. Um assovio que se tornava mais alto, e mais alto... Até se tornarem gemidos.
Abri um olho pra espiar a porta que tremelicava e depois o fechei. Onde estava o armário da Bertha quando se precisava dela? Queria uma dose de Rivotril naquele mesmo momento.
Com o tempo fui me acostumando com o hipocondrismo que se adquiria na clínica, queria ser medicada a todo instante, mas quanto eu mais eu pedia por remédios, eu via que era inútil e que eles não faziam absolutamente efeito nenhum. O que começou a me irritar.
Ainda os gemidos se tornaram frequentes, misturados com o sopro do vento que me martirizava. Era demais pedir pra'quilo parar?
Mas nada mudava e os gemidos se transformavam e choros e uivos. Espremi meus punhos contra meus ouvidos com tanta força que eu podia sentir que em algum momento eu iria enfiar minha mão fechada dentro do meu ouvido.
Me levantei da cama e tentei tapar a fresta da porta com um pedaço de papel. Me aproximo da porta e noto que ela estava aberta.
- Merda, por isso passei tanto frio — resmunguei baixo antes que alguma enfermeira malfadada viesse até meu quarto me encher a paciência me mandando ir dormir.
Empurrei a porta e ela não queria fechar, apoiei totalmente meu corpo forçando a maldita porta de se fechar, mas ela simplesmente não fechava.
Invés disso Algo saiu da entrada da porta. Eram galhos!
Empurrei os pra fora e tentei fechar, mas os galhos só aumentavam e iam cada vez mais entrando dentro de meu quarto.
Fui empurrada bruscamente sentindo o gélido do chão penetrar em todas as minhas entranhas.
E um emaranhado de galhos escuros e secos se arraigam à minha volta, me asfixiando e soltando um peso enorme sobre mim.
Eu sentia minha pele aos poucos se rasgando pelos galhos secos e ásperos esfregando em minhas pernas, quadris e braços.
Me arrastei o máximo possível, até ver uma brecha que eu pudesse escapar e fiquei de pé com as costas prensadas contra a parede podendo ter então uma vista panorâmica daquela "coisa" no chão do meu quarto.
Os galhos de árvore velha se moviam! Era inacreditável assistir aquela coisa se esparramando sobre o chão e aumentando consideravelmente seu tamanho diante dos meus olhos.
Antes que aquilo voltasse a me atingir, tomei impulsivo e soltei com toda a força minha mão metálica sobre aquilo, mesmo sendo a esquerda o soco desengonçado teve toda a força possível, e continuei nos movimentos repetitivos. Amassava com minha mão agora forte e dava outro soco em seguida com minha mão humana.
Até que me vi desferindo tantas vezes a mesma repetição que não enxergava mais nada. Os galhos que brotavam subindo pelas paredes e a minha volta se recolhiam. O que antes pareciam trepadeiras sombrias nas paredes do meu quarto se recolhiam como folhas se torcendo no meio de uma fogueira, cedendo ao fogo.
Porém aquilo não me fez parar e sim me motivar pra continuar com mais força e mais motivação. Até que fui interrompida com a luz do meu quarto se acendendo e me fazendo protelar, com muitas vozes ao meu redor. Inconscientemente acabando com a força dos meus braços.
- BERTHA? BERTHA?
Foi tudo o que eu ouvi antes de ser atacada na nuca.
-x-
Fui acordada com um balde d'água fria no rosto. Me examinei por alguns segundos e vi que eu estava numa cadeira, alguém me sentara ali enquanto me mantive inconsciente.
Era uma sala toda branca com uma luz clara de lâmpada fluorescente me cegando.
Um homem estava a minha frente, uma mesa nos separando. Ele olhava pra mim com uma mistura de curiosidade e misticismo.
- Olá — ele murmurou com a mão em frente a boca, sem sequer tirar os olhos dos meus.
- Quem é você? — sussurrei dolorida e mortificada pelo golpe que eu levara. Meus cabelos encharcados em frente ao meu rosto me deixavam menos nua diante dos olhos dele. Era como se eu tivesse meio um escudo, não me sentia tão vulnerável.
- Sou o novo diretor da clínica. Nomeado e irei substituir o doutor Pascoal Sales, fui médico psiquiatra em Ohio, um dos maiores aprofundados nas pesquisas sobre esquizofrenia e um certo nilismo terapêutico.
Abri mais meus olhos e fiquei ereta na cadeira, observando ele com mais atenção. Ele usava uma jaqueta de couro aparentava ter pouco mais de 40 anos, poucos sinais de rugas e cabelo castanho caramelo. E a gola de sua blusa chamava a atenção para uma faixa branca no centro.
- E sem contar que você é padre — sussurrei.
Ele olhou para a própria gola, tossiu uma risada e rebateu:
- Quem disse que a religião não anda de mãos dadas com a ciência? Sou padre sim.
Dei de ombros, se eu pudesse ler cada partitura da minha vida com detalhes minuciosos, ou se eu fosse descrevê-la para algum jornalista interessado, eu mesma me espantaria da reviravolta que ela dera, e em tão pouco tempo. Por isso nada a mais me impressionava, nem mesmo um padre doutor.
- Parece que você teve algum problema, até mesmo porque, se não não estaria aqui pra termos essa conversa.
Tombei minha cabeça de lado, tremendo de frio pela água gelada que ainda pingava dos meus cabelos.
- Só quero ir para o meu quarto e tomar um banho. Por favor.
Ele sorriu, se levantando e mostrando sua altura real.
Ele era mais alto do que aparentava, tinha pernas longas e magras e o dorso do formato de um triângulo invertido.
- Me diga com detalhes, o que você lembra de ter feito nas ultimas horas.
Engoli em seco, profundamente incomodada com ele andando em torno de mim, fazendo círculos na sala.
- Bem, tomei meus remédios como de praxe, fui me deitar e me senti incomodada com o barulho do vento na minha porta de alumínio e com o frio que estava no meu quarto, aí então eu me levantei pra fechar a porta e...
Me encolhi na cadeira levando as mãos às têmporas. Uma dor alucinante começou a me tomar por completa, começando a queimar pela minha nuca e indo até a ponta do meu crânio. Eu podia jurar que mais um pouco eu iria explodir.
- Você está bem? — a voz do tal doutor estava irritantemente calma.
- Doutor Ernesto? Eu... — uma das enfermeiras irrompeu a sala, assistindo abismada eu me torcer e pressionar minha cabeça contra a mesa.
- Vá! Saia! Depois conversamos — ele ordenou bruscamente.
Ele se volta pra mim. Sem querer não consigo reprimir um grito de agonia que resvala entre meus dentes.
Me assusto quando ele puxa meu braço e estica minhas mangas pra cima, arregalando os olhos consideravelmente.
- O que é isso? —
Cansada da mesma pergunta abro a boca pra responder com dificuldade sobre a mão mecânica. Mas quando olho para o lado vejo que não é da mão que se tratava.
Meus braços estavam cobertos por marcar e mordidas profundas.
- Como... Isso...? — sussurrei com dificuldade, ainda ofegante.
O doutor agora se afastava de mim, com os olhos arregalados de pavor.
Sem querer percebi que a sua expressão era espelho da minha, pois eu mal acreditava em meus próprios olhos e em como aquilo pudera acontecer.
Toco a extensão do meu braço, vendo que ardia ao meu toque. Mas como eu não sentira aquilo antes?
- Preciso lhe mostrar algo — o doutor diz num tom ameno, olhando pra mim sem expressão alguma. Aquilo me gelou.
Ele ligou uma TV que era suspensa em uma estrutura de metal no topo da sala. Ergui meus olhos até a tela e vi uma gravação de mim, feita por uma câmera noturna.
- São onze horas da noite e você ainda não dormira — ele narrava as imagens enquanto elas iam passando numa qualidade questionável.
Fico mais horrorizada a cada segundo de filmagem que se passava. Ele avançava algumas partes do vídeo onde eu ficava de pé olhando para a parede, e depois andando feito uma esquizofrênica pelo quarto inteiro. Era indubitável que eu estava a deriva de medicamentos pra agir daquela forma, aquela não era eu. E então eu me deito e a filmagem é avançada novamente, eu ia me movendo e me debatendo na cama rapidamente assim que o vídeo era reproduzido em velocidade avançada. e novamente ele reproduz em velocidade normal, onde eu avanço até a porta a fim de fechá-la, e empurro-a com toda a minha força. Era estranho pois eu parecia sonâmbula com os olhos entreabertos e sobrancelhas franzidas, muito sonolenta.
E então a Rinoceronte Bertha entra em meu quarto me levando até minha cama, e eu dou um tapa em seu braço pedindo pra que me deixasse ir pra cama sozinha. Ela busca no bolso do jaleco uma siringa, e eu me afasto dela encostando minhas costas na parede.
Espio devagar o rosto do doutor, que olhava pra mim irredutível, eu voltei meus olhos para o televisor.
No canto da filmagem apontavam exatamente 4:12 da madrugada, comecei a observar com mais atenção.
Foi então que tomei impulso e ataquei Bertha por trás, lhe dando uma cabeça na nuca. Ela cai. A viro de barriga pra cima e começo a lhe socar muitas vezes. Eu estava de costas para a câmera, só se podia ver meus cabelos e costas se movendo freneticamente enquanto as pernas gordas de Bertha que estavam por baixo de mim tremelicavam até parar por completamente, e em seguida seu sangue escorrendo a minha volta. Logo as luzes se acendem e me acertam na nuca me deixando desacordada em cima do corpo de Bertha e me arrastam pra fora do meu quarto.
- AHH PARE, POR FAVOR! PARE — Gritei exasperada como se tivesse descoberto minha voz pela primeira vez.
- Isso é atordoante? — ele pergunta sátiro.
Me encolho mais ainda na cadeira, a ponto de colocar minha cabeça entre as pernas e pressionar ainda mais meus punhos contra as têmporas.
"Eu sou uma assassina!"
Ele me puxa pela braço, pra que pudesse o encarar, me senta ereta na cadeira e aproxima tanto o rosto do meu que podia sentir o calor da sua respiração saindo por cada narina.
Ele se afasta por um minuto desenhando no ar um sinal da cruz, e tira do bolso da jaqueta uma bíblia e um crucifixo pequeno entalhado com madeira.
- Me deixe em paz, eu quero sair daqui! POR FAVOR, ME DEIXE EM PAZ!
Ele frizou a testa e estreitou os olhos se aproximando de mim e esticando meu braço com toda a força, puxando dos braços da cadeira um cinto de couro e o passou por meu pulso.
- O que é isso? — perguntei em desespero, suplicando pra que ele me soltasse e me deixasse em paz. — Eu já disse que não me lembro de nada do que fiz a Bertha me deixe em paz! É culpa dos medicamentos que me dão, por favor. Por favor...
Ele simplesmente me ignorou. Abriu a bíblia e apontou a cruz do crucifixo pra mim.
- Regna terrae, cantate deo, psállite dómino, tribuite virtutem deo Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabolica, in nomine et virtute Domini Nostri Jesu + Christi...
- Idiota! PARE COM ISSO! — gritei com mais ainda desespero. Minha visão se tornava embaçada pelas lágrimas que caiam incessantes.
- Eu não sou uma assassina... Eu... não... sou... Eu juro...
Ele continuou murmurando palavras ininteligíveis em minha frente, e aumentava o volume quanto mais eu me debatia na cadeira.
- Me solte, por favor — sussurrei, derrotada, suada e ofegante.
Tudo a minha volta começou a escurecer e girar, faziam horas que eu não comia.
A voz do doutor se tornava um som distante, de fundo e aos poucos fui descendo pela cadeira, sentindo as gotas de suor escorrerem pela minha testa.
Eu lutava pra tentar me manter acordada, até que a ladainha e oração do doutor se cessou, alguém me levantou da cadeira, pois eu não aguentava com minhas próprias pernas e me tiraram dali.
A única palavra dita que eu pude distinguir com perfeição e que foram ditas indiferentemente pelo doutor foram "Segurança máxima" e "corredor"
Eu me sentia flutuando sem sequer mover minhas pernas e sem sequer saber pra onde eu seria levada. Mais mudanças, e para a minha infelicidade elas não pareciam ser nada boas.
Fale com o autor