Entrei em casa sentindo cansaço por todo o meu corpo, a noite foi completamente longa, e eu nem percebi as horas passarem. No momento, o que eu mais gostaria de fazer seria dormir, mas tinha que falar com minha mãe, saber o motivo de ela ter me mandado mensagem. A casa estava completamente escura, o que assustou a garota um pouco. Seus pais tinham saído naquele dia, mas já deveria ter voltado por essa hora. Fui até o quarto da minha mãe, tinha um péssimo pressentimento sobre o que estava acontecendo.

Na cama, minha mãe estava chorando, abraçada ao travesseiro. Aquilo me assustou, o que estava acontecendo? Minha garganta estava seca, eu não conseguia dizer nada, nunca tinha visto minha mãe chorando e com uma cara de desespero como aquela. Bati na porta, chamando a atenção dela.

— Caroline!

Ela veio até mim e me abraçou, chorando e tremendo. Eu a sentia tremendo em meus braços. Aquilo me assustou, retribui o abraço, completamente preocupada.

— Mãe, o que está acontecendo? O que houve?

— Filha...

Ela respirou fundo e me olhou no fundo dos olhos, o que me assustou muito.

— Seu pai e eu fomos no shopping, como te falamos. Você estava certa, a gente tinha que tirar um tempo para nós, sabe? Depois de vermos um filme e tomar um sorvete, estávamos voltando para casa, mas no caminho paramos em um posto para abastecer. Ele falou que iria comprar um doce para a gente, rapidinho. Enquanto ele entrava na loja de conveniência, eu estava no celular falando com minha irmã. Eu não me liguei no tempo que passou, mas quando eu acabei olhando as horas no relógio, já tinham passado 10minutos. Fiquei aterrorizada e olhei em direção a loja, não tinha ninguém. Sai do carro e fui ver o motivo de seu pai ter sumido, então no chão daquele lugar, ele estava... Caído, sangrando.

Ela parou e começou a chorar, eu comecei a chorar junto com ela, meu Deus o que estava acontecendo era insano, tinha que ter um motivo para isso.

— Mãe.. Continua.

— Eu gritei, alto e com medo, não sabia o que fazer. Algum casal estava passando na rua e vieram correndo até a loja de conveniência, e ficaram assustados com seu pai caído no chão sangrando. O homem virou para a esposa e pediu para ela ligar para a ambulância, depois foi ver se seu pai estava bem. Graças a Deus estava respirando. Depois disso fui com ele até o hospital, enquanto eu te mandava a mensagem, estava voltando para casa para te falar isso, e ele tinha acabado de sair da UTI.

Minha mãe me abraçou, com medo e chorando, nos sentamos na cama, e começamos a conversar sobre o que aconteceu, eu tentei ao máximo ser forte para a minha mãe, já que ela estava arrasada, mas o meu mundo também estava.

Já fazia três dias que eu não saia do hospital, não usava um celular e não falava com ninguém. Acho que não era o melhor momento para mim. Eu ficava na sala de espera em todos os momentos, esperando algum sinal de vida do meu pai, não podia perder ele. Minha mãe tinha chegado com um sanduiche do Subway, que eu não consegui nem comer metade.

— Você mal tem tocado nas coisas que trago para você comer, por favor querida, você precisa comer.

Eu não dava ouvidos para a minha mãe, e continuava ali, olhando para o nada, esperando nada, preocupada com meu pai. Era como se eu tivesse afundado no poço, além da água, fundo o suficiente para não ouvir nada, não sentir nada, apenas conhecer o medo e o desespero. Eu não gostava muito da sensação, mas eu não me importava.

Me recusava a sair daquele hospital sem saber se meu pai estava bem, fazia três dias e ele continuava inconsciente, e nem os médicos sabiam o que fazer. O jeito era esperar, e era algo que eu faria, sentada ali, esperando o meu pai melhorar. Minha mãe sempre levava algo para mim, mas em geral eu não queria nada, raramente sentia vontade de tomar ou beber algo. Por mais triste que possa ser, em nenhum momento eu lembrei de Harry naqueles dias.

Dois dias antes, havia escutado a conversa da minha mãe com um policial. Parece que um homem tinha assaltado o lugar com uma faca, atacando o balconista e meu pai, que tentou ajudar o homem. O homem não tinha sobrevivido no caminho, e agora só um milagre podia salvar meu pai. Eu não conseguia distinguir minhas emoções naquele momento, não sabia se eram ódio, tristeza, eu estava confusa.

No dia seguinte, domingo, eu acabei desmaiando de cansaço, no meio da sala de espera, e minha mãe me levou para casa, me colocando no sofá de casa e me deixando ali, com diversos bilhetes pela casa (mania dela, deixar bilhetes para eu não esquecer minhas obrigações), dizendo que eu estava proibida de sair de casa, que deveria descansar e ficar quieta. Eu só obedeci pois já não tinha forças em meu corpo. Acabei dormindo o dia todo, acordando apenas para comer e tomar banho, não consegui nem colocar uma roupa decente, apenas coloquei um moletom e fui dormir na minha cama. O tempo começou a ficar nublado e frio, o que me agradou completamente, não queria um tempo lindo com aquele tipo de situação na minha vida.

Acordei com o despertador, que para a minha surpresa, eram 6h da manhã. Fiquei brava, mas tinha um bilhete do lado, dizendo que eu tinha aula hoje. Xinguei, e alto. Tinha esquecido daquilo, estava nas ultimas semanas de aula, focadas para os vestibulares. Respirei fundo e levantei da cama, indo em direção do banheiro. Me olhei no espelho, estava horrível, toda descabelada e com os olhos fundos, mesmo passando o dia anterior dormindo, não resultou no cansaço de não dormir por três dias no hospital. Tomei um banho e fui me vestir. Coloquei uma calça, uma blusa qualquer e um moletom. Não me importava com maquiagem, não me importava com parecer bonita, e não estava nem um pouco a fim de olhar para a cara dos outros alunos, eu só queria o meu pai.

Fui andando em direção a escola, ignorei o café da manhã da minha mãe e só peguei minha mochila, estava cansada, além do limite e quebrada. Respirei fundo, contei até 10 e antes que eu percebesse, já estava de frente a escola. Estava com o capuz sobre o rosto, entrei ignorando todo mundo e esbarrando em alguns, mas ninguém pareceu saber da minha situação, o que me agradou.

Entrei na sala e sentei no fundo, coisa que não era normal, já que sempre sentava na frente. Abaixei a cabeça e com o rosto coberto, pensei em dormir, mas minha mente estava cheia de coisas, então eu apenas fiquei ali, encarando a mesa rabiscada. Ouvi diversos murmúrios e passos em volta de mim, mas ignorei, não tem como eu chamar atenção.

— Ei nerd, o que está fazendo aqui no fundo?

Respirei fundo, novamente, Laís, claramente. Ela me odiava desde o dia que pisou naquele colégio e amava me atormentar junto com suas amigas. Estaria mentindo se eu dissesse que não sofria Bullying. Sentia um tapa na minha cabeça, para minha sorte, o capuz amorteceu. Levantei a cabeça, estava brava, não precisava de alguém para me deixar instável assim.

— O que você quer, Laís?

— Quero que você dê o fora daqui.

— Não estou com vontade.

Ela levantou a sobrancelha, sentiu que eu estava provocando ela, imaginei que iria apanhar, não era a primeira vez que isso acontecia.

— Vamos ver isso então.

Ela se afastou para sentar em outro lugar, junto com seus brutamontes mulheres. As aulas passavam, e eu não prestava atenção em nenhuma, estava sempre desenhando, escrevendo ou tentando dormir. Nenhum professor gostou da minha atitude, mas eu não dei nenhuma abertura para eles falarem comigo, no intervalo fugi deles e da Laís. Infelizmente, não tive a mesma sorte no final das aulas.

Estava indo pelo fundo da escola para não chamar atenção dos professores, mas para a minha tristeza, Laís estava me esperando lá.

— Eu não sei o motivo de você estar fugindo dos professores, imagino que seja por causa daquele seu namoradinho, ele partiu seu coração foi?

Uma lágrima escorreu, eu tinha esquecido completamente de Harry naqueles dias, não dei nenhuma satisfação para ele, e não via ele ou a Diana, minha melhor amiga, em nenhum momento. Para a minha tristeza, não me senti tão abalada quanto deveria.

— Me deixe em paz.

Falei calma, não ia deixar ela acabar comigo, eu já estava acabada, não ia deixar aquela garota terminar. Ela veio me bater e eu revidei, para a surpresa dela. Aquela briga típica de mulher, puxando cabelo, dando tapa, e essas coisas. Para ser sincera, não me lembro bem do que fiz, pois estava descontando tudo o que sentia nela, todo o meu cansaço emocional, o meu estresse. Antes que eu percebesse, as amigas dela vieram para a briga e eu apanhei total. Minha cabeça doía, meu rosto e meu peito. Pisaram em mim, me socaram e puxaram meu cabelo. Me largaram no fundo da escola, junto com minhas lágrimas e meu desespero. Estava quebrada, eu lutava tanto, tentava vencer aquilo que todo santo dia vinha me engolindo aos poucos. Acho que a parte física ajudou a destruir a emocional. Eu senti meus demônios interiores me derrotando, não sentia mais forças para lutar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.