A Imperatriz
10 Capítulo 10 - Recrutada
Notas iniciais
Não é fácil aceitar que você está sendo caçada. Que seu pescoço tem um preço. Que o fato de você existir é ilegal e vai contra a lei de criaturas mágicas que até então eram apenas lendas. E agora, por sua causa, eles lutam entre si enquanto uns tentam se decidir de que lado estão. Os Centenários estão a solta, eu não faço ideia de quantos se juntaram a essa aliança e para ser sincera, prefiro não saber. Pelo bem da minha consciência que já está cheia a ponto de explodir com tanta informação. Não consigo engolir mais nada, então prefiro permanecer com tudo que eu já tenho até agora.
Se há apenas uma palavra adequada para definir o meu estado emocional agora é medo. Medo por perder minha própria cabeça? Oh, não. Não tenho medo de cair morta nesse exato momento. Tenho medo por Layla. Sozinha. Medo por Amy. Por Zac. Todos eles estão em perigo por minha causa. Eles não são os caçados, mas são minha fraqueza. E se a presa tem fraquezas, os caçadores com certeza vão querer atingi-lás da pior forma. Esse pensamento arrepia os pêlos da minha nuca.
— Qual o plano? — Pergunto á James.
— Há pelo menos 20 Guardiões aguardando nos arredores da escola para acompanhar você e sua irmã, que provavelmente está a caminho, até em casa. Por enquanto você deve permanecer em casa e terão Guardiões fazendo rondas. Porém, isso não será suficiente por muito tempo. Você deve se mudar para Academia de Magia, Lise. Se há um lugar seguro nesse planeta, por enquanto é lá e podemos te proteger — James me diz com delicadeza, tentando transmitir uma segurança que infelizmente ele mesmo não têm. Posso ver em seus olhos que eu sou algo com uma mínima possibilidade de sobrevivência.
— E Layla? Meus amigos? Eu não posso simplesmente sumir e esperar que fique ok por aqui.
— Os imperadores que estão ao seu lado cuidarão disso. Eles têm magia para alterar memórias humanas com facilidade. Layla e seus amigos pensarão que você transferiu-se para uma escola interna de alunos com um QI mais elevado. Você pode vê-los quando quiser, Lise. A Academia fica em Sheffield, mas é nela que você vai morar agora.
Engulo em seco. Mudanças. Fiquei um ano tentando me adaptar á uma vida independente, uma vida de orfã. Agora, um garoto chega me dizendo que meus pais não eram o que diziam que eram, que eu tenho poderes raros e ameaçadores e que minha vida corre perigo mortal. Se minha vida se adaptou em alguma coisa nesse tempo todo, foi mudar em questões de segundos. Aí sim, a frase mais adequada. Um acidente ou uma transformação, não importa, minha vida está e sempre estará em jogo.
— Nessa academia vou aprender a usar meus poderes? — Pergunto, tentando esconder uma pontadinha de excitação em saber que eles existem. Ou melhor, em sentir que eles existem.
Afinal, não estou afim de ir para um lugar apenas para atrasar minha morte iminente. Se for para mudar de escola, quero pelo menos aprender algo produtivo lá.
— A usá-los, e principalmente a controlá-los. Magia, principalmente a sua, não é brincadeira — James me repreende, fazendo-me revirar os olhos. Que sem graça.
— Lise! — Amy entra pela porta, seguida de Zac e Sam — Eles não aceitaram não como resposta. Insistiram em te ver.
— Que merda é essa de não deixar a gente entrar aqui? — Zac perguntou furioso e preocupado ao mesmo tempo. E então, ele viu James parado perto da minha cama. Zac pareceu relaxar — James, soube que você trouxe ela para cá. Valeu mesmo.
James apenas acenou com a cabeça e sorriu de leve.
Sam não pareceu nem um pouco relaxado. Ele estreitou os olhos em direção á James. Pelo o que eu conheço de Sam, ele é esperto demais para acreditar em coincidências. Principalmente como a de James estar no mesmo corredor onde eu tive uma convulsão repentina.
Ele desconfia de algo.
— Caramba Lise, em um momento você parecia tão bem e em outro você ardia de febre. E quando eu falo em arder, não é exagero — Sam aproximou-se de mim, pegando na minha mão.
Aperto levemente a mão dele em retorno, pelo simples fato de não ter palavras para dar uma explicação teoricamente aceitável. Olho em direção a Amy que parecia desaprovar essa demonstração de afeto, mas eu não ligo. Nada disso importa mais. Eu não os verei mais com a frequência que eu costumava a ver.
Eu não acho que sou mais a Lise que eles costumavam conhecer. Para ser mais clara, eu não me sinto mais como a Lise que eles conhecem. Eles terão que se acostumar a não me ter mais por perto e eu terei que me acostumar a não ter mais por perto ninguém que um dia já conheci e convivi.
Respiro fundo e digo finalmente:
— Obrigada gente, por vocês todos me ajudarem a passar por isso — E quando digo isso me refiro a toda minha vida, mas eles não sabem — De verdade, eu sou realmente sortuda. Mas — Pauso e inspiro uma lufada de ar para continuar — Eu preciso ir para casa e ter um bom descanso.
Amy se aproxima de mim e alisa meu cabelo sorrindo, mas consigo ver uma lágrima contida em seus olhos.
— Eu sei que não foi o melhor anivesário de todos — Ela dá uma risada fraca — mas prometo que vamos recompensar nos próximos dias.
Minha garganta fecha. As lágrimas lutam umas com as outras, competindo para descer primeiro pelo meu rosto. Eu as contenho nos meus olhos e minha visão embaça levemente. Próximos dias. Não terão próximos dias nem tão cedo. Eu não vou mais os vê no refeitório, na nossa mesa especial perto da janela com vista para o jardim, eles não serão mais meu escudo contra as pessoas que tinham pena da "orfã sobrevivente". Agora, estou caminhando para uma vida em que sou conhecida por ser a "fora da lei com os dias contados". Para uma vida que as pessoas literalmente serão meus escudos. A questão é que eu não me lembro de ter pedido para que nenhuma das duas situações acontecessem. Porém, ambos têm algo em comum.
A morte. A morte parece sempre me acompanhar.
— Sei que vão, M — Sorrio forçadamente.
Não posso chorar. Amy achará que estou triste por não ter comemorado a droga do meu aniversário e isso a deixará mais triste. Por sorte, a enfermeira entra no quarto e diz que minha irmã está em frente da escola á minha espera.
Dou um abraço forte de despedida em M e em Zac. Ao me aproximar de Sam, não sabia ao certo o que fazer, então ele o fez. Me puxou para um abraço e deu um beijo na minha testa. Meu coração acelerou com medo de alguma forma machucar ele involuntariamente — com ou sem poder — então eu apenas sorri, disse um até logo e me afastei.
Olhei para James que me observava passível e apenas acenei com a cabeça. Não sei ao certo como reagir em relação a ele. Para mim, James continua sendo um mistério, mesmo sabendo agora que ele estava ali para me proteger. Ele sabia da minha vida 3x mais do que eu sei da dele. E isso é frustrante.
Fui para entrada da escola e avistei Layla conversando com duas pessoas que nunca tinha visto na vida. Tinham muitas pessoas caminhando por ali, alunos e adultos. 20 daquelas pessoas eram Guardiões, mas não poderia indentificá-los e ninguém parecia suspeito.
Será que é seguro andar por essas ruas sozinha? Será que um dia vou poder caminhar por elas sem precisar me preocupar com alguém me seguindo ou tentando me matar? Tenho a leve impressão que a resposta para ambas as perguntas é não.
— Layla! — Ela virou-se me encarando e sorrindo largamente.
Caminhei em direção á ela e as duas figuras a acompanhando. Um homem alto de cabelos castanhos e barba mal feita. E uma mulher morena com cabelos negros e ondulados. Pareciam pessoas normais, muito bonitas, mas normais. Embora algo me dizia o contrário. Layla aparentava eufórica e feliz, já os outros dois pareciam me examinar de cima á baixo.
— Lise! Esse é o Sr. Henry Hall, diretor de uma grande escola chamada Hall Institute e a Sra. Amelia Moore, a coordenadora. Todo ano eles vêm a Aston Academy para oferecer uma bolsa de estudos ao melhor aluno do terceiro ano. E eles escolheram você! — Layla saltitava de orgulho.
Melhor aluna. Só um poder muito forte para fazer alguém acreditar nisso.
— Eu soube, Layla. Fico lisonjeada com tamanha honra, senhores — Olhei para as duas figuras que esboçaram dois grandes sorrisos com dentes brancos e perfeitamente alinhados. Por um momento pude jurar que os caninos pareciam mais afiados que o normal.
Minhas pernas vacilaram um pouco, mas me desafiei a manter a compostura.
Amelia deu um passo em minha direção e disse — É uma honra ter você em nossa escola, Elise. Se você aceitar, é claro.
Seu cabelo parecia brilhar e os fios eram tão perfeitamente ondulados, as maçãs do seu rosto com o tom ideal de vermelho e tudo parecia desenhado a mão. E o homem que a acompanhava era tão bonito quanto ela.
Se todos da escola forem que nem eles, meu auto estima será ainda mais estilhaçado. Voltei a fitá-los e percebi que eles estavam esperando eu dar uma resposta.
—Uh... Claro! Claro que quero — Forcei um sorriso rezando para que Layla acredite ser natural.
Na verdade, não me importo que eles acreditem ou não. Eles sabem que minhas opções eram: ou vai ou morre.
— Fantástico. Vamos adiantar a papelada com o diretor da Aston e assim que tudo estiver nos conformes, iremos entrar em contato. Mas já pode se considerar uma aluna da Hall Institute, Lise —Henry diz com um tom genuinamente animado. Cara, eles eram bons nisso. Como se já estivessem preparados.
No caminho para casa, Layla não parava de tagarelar sobre minha nova escola. Ela disse que suspeitava que eu era inteligente, mas não sabia o quanto. E isso foi o mais longe que ela já chegou de um elogio. O que ela não sabe é que eu não fui escolhida para escola alguma.
Eu fui recrutada.
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