A Imortal
5 Um Velhinho Barbudo
Quando estava voltando para a aula, encontrei Annie no corredor, felizmente meu primeiro tempo não foi com ela nem Louis, então eles não saberiam da minha falta.
—O que você acha de a gente ir no Dom depois da aula? -Annie perguntou.
—Sempre uma boa opção- subíamos as escadas- hoje realmente preciso de um doce.
—Aconteceu alguma coisa? -Annie sabia como doces eram minha válvula de escape.
—Nada relevante a ponto de contar, é história pra criança dormir- ela me olhou confusa- o Louis vai também?
—Não sei, ele ia treinar com a equipe de natação. Se chegar a tempo talvez vá.
—Ok.
—Tem mais uma coisa.
—O que?
—Estava conversando com minha irmã, sobre Tasha –diminui o ritmo que subia os degraus e a olhei, curiosa- ela não está machucada.
—O quê?
—Nem com um arranhão -Annie deu de ombros- quando perguntei sobre pra Aline ela se assustou falando que sabia que você a machucou, mas que não foi nada demais.
Tinha certeza de ouvir seu braço quebrando, e alguém não gritaria daquele jeito apenas por um machucadinho.
—Ainda não acabou- ela suspirou- Na enfermaria Tasha contou que você a agrediu, e ligaram pra sua mãe. Ela não comentou nada com você?
Instantaneamente procurei meu celular, que não estava lá.
—Agora quero ir no Dom mais do que antes- suspirei- se ela está bem, não entendo o porquê da confusão! Foi ela que avançou em mim!
—Eu sei- Annie lançou um olhar de dó- mas você sabe como ela é. Não se preocupe, sua mãe vai entender.
Duvidava disso, minha mãe odiava agressão, até mesmo verbal. Em casa nós nunca nem mesmo alterávamos o tom uma com a outra. Mas ainda assim segui Annie para sala, e tentei não pensar nisso. Não na reação da minha mãe e sim em como o braço de Tasha havia se curado.
(...)
Enquanto ia embora com Annie me surpreendi ao notar que estava olhando em volta, à procura de Kylor. Não o havia visto desde nossa conversa. Ou ele realmente teria ficado chateado, ou desistiu e voltou para onde quer que ele havia saído. Esperava que fosse a segunda opção, sentia que enquanto ele estivesse aqui, mais entranha minha vida ficaria. Com menos de um dia da presença dele, eu quebrei o braço de uma garota, tive um sonho que nem sei explicar, o braço dessa mesma garota magicamente se curou, e o pior, ouvi a história mais bizarra da minha vida. Sentia que quanto mais ele ficasse a minha volta, mais aquela história deixaria de ser bizarra. Algo que realmente não desejava.
Quando chegamos ao Dom Annie foi ao banheiro após fazer nossos pedidos. Notei que o homem que se sentou na mesa ao lado, me encarava desde que entramos, e estava extremamente desconfortável com isso.
Meu milk-shake de oreo e minhas fritas chegaram, o pedido de Annie também foi deixado na mesa, mesmo que ela ainda não havia retornado. Comecei a comer, ainda me sentindo observada, enquanto assistia a uma reportagem qualquer que passava na televisão.
—Foi mal a demora- disse ela sentando- estava falando com Louis, ele está vindo também. Parei no balcão pra fazer o pedido dele.
—Sem problema.
Ela começava a comer, e falávamos sobre um trabalho qualquer da escola, de como estávamos ansiosas para esse ano acabar e podemos começar a faculdade. Nada muito interessante. Até Louis chegar.
—Oi- disse se sentando do nosso lado, depois de dar um selinho em Annie- o que pediu pra mim?
—Um hambúrguer.
—Show- então Louis se virou pra mim- Ca, você sabia que tem uma cara que não para de olhar pra você? Reparei quando ainda estava lá fora, ele parecia que estava tirando foto.
Nós três olhamos para trás, onde o homem estava sentado. Ele sorriu pra mim, e fez um sinal de tchau com a mão. Então se levantou e saiu. Louis fez com que ia levantar também, mas eu o segurei, sentia algo muito ruim vindo daquele homem, e não me importava em ele me encarar contando que meus amigos não se envolvam.
—Tá tudo bem, relaxa- disse tentando esconder meu medo- deve ter sido impressão nossa.
—Endoidou? — Louis perguntou bravo- ele literalmente acenou pra você.
—Relaxa- disse, ainda o segurando.
Seu hambúrguer chegou em ótima hora, pois isso tirou a atenção dele.
Terminei de comer e decidi ir embora mesmo que meus amigos ainda estivessem lá, queria ir para casa. Me despedi e saí, durante o caminho todo até o carro me senti observada, e antes de entrar olhei nos bancos traseiros, só por garantia. Não havia ninguém, então entrei e segui caminho.
Quando cheguei, havia um senhor na porta.
—Oi- disse me aproximando- o senhor precisa de algo?
Ele se virou, e ao me ver, sorriu animado.
—Carrie! Como você cresceu!
—Desculpe, nos conhecemos?
—Bom- ele riu- suponho que não. Eu conheço você claro, desde quando era bebê. Perdemos contato, infelizmente.
Ele disse pensativo, então começou a acariciar sua longa barba.
—Vejo que parou de pintar seus cabelos. Sabia que quando nasceu eles eram louros? Mas aí ficaram brancos depois do...
—Fell!- minha mãe quase berrou, se aproximando com uma sacola de compras- o que faz aqui?
—Oras, recebi sua mensagem e vim imediatamente. Estava conversando com Carrie- ele disse animado- certamente você lembra quando...
—Vamos entrando- minha mãe interrompeu, sem graça, e eu ainda estava parada, sem compreender — não precisava vir até aqui.
— De forma alguma, minha presença aqui é extremamente necessária- entramos- além da urgência do assunto, não é algo que deveríamos conversar por telefone, não dá pra saber as formas de escuta dos...
—FELL- dessa vez, ela definitivamente havia gritado- venha, me ajude a trazer um café.
—Ham, mãe — me assustei com o comportamento dela- deixa que eu ajudo, ele é apenas um senhor.
— Você mocinha, nós conversaremos depois. Até lá, fique no seu quarto- a olhei assustada, o que estava havendo? — Ande, Carrie.
—Evelyn, acho necessário que Carrie participe dessa conversa também, afinal a envolve. Carrie querida- ele se virou para mim- você ainda não sabe do despertar?
—O que?
—Suba Carrie –minha mãe suspirou- ele já está caduca com a idade.
—Caduca? Evelyn, mas foi você que...
—Fell, por favor! -ela o olhou como se implorasse algo, que ele claramente não entendeu.
—Mãe, quem é ele?
—Um amigo. Você pode, por favor, subir?
Decidi que iria para o meu quarto após esse pedido, sua expressão já estava em um nível de desespero, supus que a questionaria sobre depois. Enquanto subia, o velho me acompanhava com o olhar, e uma expressão confusa.
(...)
Estava olhando meu celular, havia mensagens de Louis, Annie, chamadas perdidas da minha mãe, o de sempre. Minha vida era uma rotina, estava sempre com as mesmas pessoas, frequentando os mesmos lugares. Lembrei de quando era criança, minha primeira amizade foi o Louis, ele foi minha dupla na aula de natação, e foi uma das únicas crianças que se aproximou de mim sem perguntar sobre a cor do meu cabelo. Hoje sei que não era na maldade, éramos apenas crianças, mas toda vez que falavam do meu cabelo anormal, me sentia ofendida e definia que a pessoa que falou não seria mais meu amigo.
Bom, desde essa aula nos tornamos inseparáveis. Só ia à escola nos dias que Louis ia, e vice versa. Até que um dia estávamos em uma aula na páscoa e os professores distribuíam bombons para a turma, nesse dia Louis descobriu que era extremamente alérgico à amendoim e teve que ser lavado ao hospital. Eu fiquei sozinha, até no recreio, quando duas garotas se aproximaram de mim e perguntaram sobre o meu cabelo, uma delas falou que o achava feio. E foi aí que Annie entrou, falando que achava lindo, e o invejava muito. Logo depois descobri que uma das meninas era sua irmã, Aline. As duas não tinham nem um ano de diferença, e não eram irmãs de sangue, seus pais haviam se casados quando elas ainda eram pequenas. O pai de Annie nunca a assumiu e largou a mãe assim que ela engravidou, época em que ela conheceu o pai de Aline, que tinha engravidado uma garota em uma festa e prometeu que criaria a criança, para que ela não abortasse. Assim eles criaram as duas como irmãs e com o tempo, acabaram se casando também. Uma história meio louca. Enfim, desde que Annie me defendeu, deixamos de ser só eu e Louis, a dupla fantástica e nos tornamos o trio fantástico.
Ouvi batidas na porta, e isso me tirou do meu devaneio.
—Ei Carrie- minha mãe entrou- podemos conversar?
—Claro. O senhor já foi embora?
—Sim.
—Sobre o que era tudo aquilo?
—Já falei que ele estava em um delírio.
—Mãe, qual é. O que você está escondendo de mim?
—Nada, acho que é você quem está escondendo algo de mim- ela mudou o assunto- que história é essa que você quebrou o braço de uma garota na escola?
—Eu não quebrei, como você ficou sabendo disso?
—Eles me ligaram.
—Pois ligue de novo e questione isso, te garanto que não quebrei braço algum- quebrei, mas não estava mentindo- estava apenas me protegendo de uma garota, que ia puxar meus cabelos. A segurei pelo braço, mas foi só isso. Não tá quebrado, te garanto!
Ela suspirou, como se soubesse que algo estava podre nessa história. Mas não rendeu, parecia cansada. Apenas por isso não insisti no assunto dela com o velho e fiquei calada quando ela saiu do meu quarto, com a mão na testa e suspirando. Sabia que algo estava errado, não queria a forçar a me contar, mas me magoa muito ela querer guardar isso de mim.
No fim, o dia de hoje teve acontecimentos de sobra para colocar na lista de coisas estranhas que ocorreram desde a chegada de Kylor. Inconscientemente agradeci minha mãe por não compartilhar sua conversa com aquele velhinho, pois sentia que se ela me contasse, a história de Kylor estaria a mais um passo de se tornar real.
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