Dois anos depois de tudo acontecer, Reginald passeava a cavalo pela floresta de Arandril. Harold ia ao seu lado e os soldados atrás atentos a cada movimento. Era começo de primavera e as flores estavam por todo o lugar; uma cerimonia importante acontecia na floresta sagrada. Era época das fogueiras, ritual que os feiticeiros e feiticeiras da Grande Torre celebravam a vida. Geralmente nasciam muitas crianças e depois eram criadas para sucederem seus pais como feiticeiros ou no caso dos meninos, o grande Mago. Mas o rei não se importava com isso, ultimamente não se importava com nada.

—Tenho pensado muito em Druton, Harold. — Disse ele sem virar o rosto.

—Exatamente sobre o que pensou?

—Que eles não pagam a dívida mesmo depois de todas as oportunidades que esse reino tem proporcionado a eles.

—E o que pretende fazer?

—Uma guerra. Vai ser bom, colocarei aquele reino no lugar deles, e também será divertido, a vida anda muito parada.

—Vai lançar uma guerra por que está entediado? — Harold falou em voz baixa, mas Reginald ouviu.

—Às vezes eu me pergunto o porquê de deixar vivo? Talvez por que sinta pena de sua insignificância ou talvez seja por que seja um verdadeiro desperdício de corda.

—Desculpe senhor. Vou alertar o general para preparar o exército.

—Isso, e diga que quando invadirem Druton façam uma busca detalhada alegando que o governo de Druton possa ter em posse meus filhos.

—Não entendo.

—Vamos alegar que desconfio que o rei de Druton mandou sequestrar minha família em troca de dinheiro que precisa para pagar a dívida.

Harold abaixa a cabeça pedindo paciência para os deuses.

—Darei as ordens assim que voltarmos ao palácio. — Anotou mentalmente que precisava também falar com Helder.

~~*~~

No norte, Alene vivia como uma espécie de prisioneira, isolada e sem poder sair. A cada dia Harold se sentia pior a respeito de tudo o que havia feito e lembrar de Alene aumentou sua preocupação. A carta que foi enviada junto com ela continha algumas instruções, mas ele não sabia quais eram. E se ela foi para a morte? Esta seria uma maneira discreta de se livrar de Alene sem parecer cruel. E novamente teve que recorrer a Helder, o único homem que ele conseguia confiar.

Helder era rápido em seus serviços e pouquíssimo tempo depois estava no norte. Havia dois soldados guardando o fosso que protegia o pequeno e antigo castelo. Mostrando o mandado de Harold ele entra no castelo que agora parecia deserto. Uma ou outra empregada passavam de vez em quando. Era um lugar sombrio e silencioso demais. Ele vê um movimento. E já adivinhando que era a rainha, foi atrás. Fugindo pelos fundos da cozinha ela carregava um embrulho com cuidado. Helder corre e a alcança, segura o braço dela e percebe que ela levava uma criança nos braços. Ele arranca a criança dos braços da rainha que desesperada corre. Helder olha para a criança e sem saber direito o que fazer a leva para Arandril e a prende nas masmorras.

~~*~~

Dessa vez dentro do castelo na corte, Helder conta sua viagem:

—Por que a trouxe pra cá? — Harold ficou atordoado com a notícia.

—Todos os filhos dele estão trancados lá. -Disse ele distraído.

—Ela não precisava ser presa, podia ter sido criada lá mesmo.

—Agora é tarde.

—Você não fez seu trabalho direito! Era algo tão simples, ver se a rainha estava viva e voltar.

—Acho que está brincando com fogo. — Helder o olhava de lado com um olhar sanguinário e ameaçador. — E afinal de contas lhe prestei um favor pois me livrei já de algo que Reginald com certeza não queria. Ele não se livrou da outra filha também?

—Como sabe disso?

—Você fica bêbado depressa. Contou essa historia varias vezes. — Disse ele com tédio.

—É o ultimo trabalho que fará. Pode ter certeza. — Ele pensou na rainha que sabia que estava viva, mas não por muito tempo, morreria logo se não tivesse abrigo no norte. Mas não se permitiu sentir remorso.

—Meu pagamento.

—Você não fez o trabalho direito, pode sair daqui. E sinta-se agradecido por não mandar executa-lo. — Guardas o levaram arrastado.

Harold pensou em tirar a criança das masmorras, mas achou que seria trabalho em vão. Ele se livrou de Taylor e ela voltou. Poderia acontecer a mesma coisa. Que a criança continuasse ali mesmo. Mais tarde entregou algumas roupas velhas. Mesmo que tentasse não pensar neles, não poderia simplesmente larga-los a própria sorte. Eram crianças e cresciam depressa. Ele não conseguia mais dormir direito. Tudo estava saindo do controle. Era um absurdo manter crianças nas masmorras, mas não queria mata-las muito menos perder o pescoço. Mas no momento ele se perguntava como pode ter deixado escapar que Alene foi embora grávida? Com certeza ela deve ter subornado alguém para que não lhe emitisse essa informação. Mas em uma coisa Helder tinha razão, acabou por fazer um favor a ele, a menina deveria ser escondida e ele já o fez. A menina não iria ficar oculta para sempre. Voltou as masmorras.

—Mais água, comida e lenha?- O velho asqueroso anotava tudo. -Isso vai sair caro.

—Os prisioneiros são meus. Eu faço com eles o que desejar.

—Tem minha palavra. — Ele sorriu daquele modo asqueroso que só ele conseguia fazer.

—E tem meu pagamento. — Jogou alguns Litus em cima da mesa do carcereiro, que pareceu satisfeito.

Em uma noite agradável, um mensageiro andava apressado a caminho do castelo. Chegando lá falou com os guardas que autorizaram sua entrada. Ele estava cansado e machucado, mas ninguém se preocupou com ele. Queriam apenas saber das notícias. Ele vinha do norte, saiu despreparado e seu rosto estava machucado, mal conseguia falar, pois sua garganta estava seca, Amélia que nunca mais foi a mesma desde o suposto sequestro da filha, deu água para ele que bebeu tudo em um único gole.

—Trago notícias ruins para o rei.

—Fale logo. -disse Harold entediado.

—A rainha está desaparecida.

—Explique-se melhor. — Harold fingiu não saber de nada.

—Eu trabalho no castelo do norte onde o senhor sabe que Alene está se tratando de uma doença...

Como o homem podia ser tão ingênuo? No norte, curando uma doença?

—Sim... E?

—A rainha sumiu... E junto dela a criança...

—Venha conversar em meu escritório. -Falou Harold ainda indiferente. -Acha que foi sequestro?

—Não sei senhor. Procuramos por três dias e não tivemos nenhuma pista, então resolvi vir aqui e avisar. Afinal a criança agora parecia ser a única herdeira desse trono. -Ele parecia exausto- Pode me dar mais água?- Pediu humildemente o mensageiro.

Harold engoliu a seco. Suas mãos começaram a suar e começou a se sentir tonto. Serviu mais água para o homem e por pouco o jarro não escorregou de suas mãos.

Voltaram para a cozinha onde as cozinheiras conversavam sobre a rainha.

—Alene, arranje um lugar na casa do servos para este homem.

—Sim senhor.

Amélia pensava se os homens que sequestraram a rainha teriam sido os mesmo que levaram o príncipe e sua filha. Assim que instalou o mensageiro foi para o pequeno jardim de rezas dos empregados e pediu que os deuses cuidassem da vida da rainha, de sua filha e de Taylor onde quer que elas estivesse.