A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
10 Capítulo 9
Cerca de três anos haviam se passado, no castelo o rei fica doente. E todos na corte comentam que é fatal. “-O rei é viúvo e sem herdeiros. O que será de Hastorn, entregue a própria sorte?” “Como se ficasse muito diferente, o rei não se importa com nada além dele mesmo. Torço para que morra de uma vez.” Até mesmo Harold que conhecia o segredo, ficou preocupado. Será que o elixir era mentira? Quem sabe o elixir impedia o envelhecimento externo e não garantia a vida eterna. O que aconteceria se o rei morresse? Eu estaria livre, pensava ele. Ele suspira de alivio. Espero que seja grave. E entrou no quarto onde Reginald o aguardava.
—Harold!
—Sim, majestade?
—Não estou feliz.
—Por que, majestade?
—Me sinto fraco. Isso não era para acontecer. E sabe do que mais?
—Não faço a menor ideia.
—Olhe para isso. – E segurava um fio de cabelo branco.
—Isso é normal. Vossa alteza já possuía alguns exemplares desse quando bebeu o elixir.
—Mas esse é de um lugar novo, eu decorei onde havia cada fio de cabelo branco e de onde eu tirei esse fio, não havia nenhum antes.
—O que posso fazer para ajudar?
—Chame os feiticeiros da Torre, e diga que isso é uma ordem urgente.
—Pensei que não ligasse para os feiticeiros.
—Não perguntei sua opinião seu insolente. — E tossiu- Me diga, conseguiu a informação que eu pedi?
—Já mandei perguntar se havia algum velho lá dentro. E me informaram que o prisioneiro mais velho tem 40 anos.
—Era como eu pensava, o velho está morto.
—Quem?
—O feiticeiro que fabricou esse elixir. Se ele estivesse vivo o mandaria mata-lo por ter errado na fabricação.
—Que gracioso de sua parte, senhor.
—Não lhe dou permissão de falar comigo nesse tom, Harold.
—Por que me usa como conselheiro então? A maioria dos reis não se restringem as pessoas comuns como seus conselheiros, eles usam os feiticeiros, entre outros, me pouparia trabalho não precisar procurar alguém sempre que o senhor deseja algum feitiço.
—É simples, um feiticeiro pode ser poderoso ou não, isso acarreta vantagens e desvantagens, veja: Enquanto um feiticeiro me faz feitiços bons, ele é útil; porém se um dia quiser se vingar de mim, não irá se importar em me lançar um feitiço forte, pois os domina bem. Se for um feiticeiro ruim os feitiços que fizer serão sempre ruins, e ele será inútil, entretanto dificilmente conseguira uma boa vingança.
—Mas por que apenas a mim como principal conselheiro?
—É mais fácil controlar, você, um subordinado qualquer não tem nenhum poder nenhum para se vingar, prefiro pagar pelos feitiços terceirizados e ter alguém que eu sei que nunca vai se voltar contra mim, seja por vontade própria ou não.
—Que bom que tem consciência disso, por que se dependesse de mim já teria ido embora há muito tempo. Às vezes penso que gosta de mim e por isso não me deixa ir. — ele arriscou.
—Hahahah, você me faz rir. Mas sempre consegue me surpreender, pensei que já tivesse tirado essa ideia da cabeça, eu já tenho inclusive um substituto para quando você morrer e ele tem se mostrado muito mais eficiente e leal que você.
—Por que não fica com ele logo e me deixa livre?
—Seria fácil demais para você. Além do mais sei que você tem medo da morte. E isso me diverte tanto.
Harold se remoía de raiva por dentro. Sabia que o rei não era confiável, mas rir da cara dele desse jeito?
—Harold!
—O que foi senhor?- Disse engolindo o ódio que crescia com cada vez mais força.
—Mudei de ideia. – ele sorriu irônico. – Como foi insolente comigo, agora faço questão de um feiticeiro anônimo, alguém não reconhecido pela Torre, busque por todo o reino se preciso for.
—Mais alguma coisa?
—Sim, reúna o resto dos conselheiros para uma reunião aqui em meu quarto mesmo. Tenho que avisa-los que não morrerei tão cedo para que parem de disputar o trono entre si.
No sul de Hastorn, na vila Tagom, onde se localizava a fazenda de Olavo, os quatro estavam completamente acostumados àquela vida tranquila no campo. Havia o trabalho na lavoura, plantando trigo, que era pouco comparado ao que a maioria dos camponeses fazia e sempre sobrava algum tempo livre, que Conrad investia na casa de Pavel. Olavo não se importava já que com as poções de Conrad era possível acelerar a colheita e assim ganhar mais dinheiro. Às vezes ele permita que Conrad ajudasse Pavel com a venda de algumas poções no mercado.
—Faz um belíssimo trabalho, meu jovem aprendiz.
—Obrigado mestre.
—Já lhe disse que não precisa me chamar assim... Terminou? Ah deixe me ver. — E apertou os olhos para enxergar melhor o liquido que seu aprendiz havia preparado. – Está perfeito... — ele suspirou triste. — Mas é uma pena que não vou estar aqui para ver você prosperar mais.
—Não diga isso.
—Mas é verdade. E você precisa estar preparado.
—Não sei se quero.
—Mas você precisa, eu confio em você. Na verdade eu só confio em você. — e tocou em seu ombro.
—Como assim?
—Não vou falar e sim mostrar. — E com esforço ele se levanta. Procura entre alguns livros e puxa justamente o livro azul que Conrad foi proibido de tocar. Ele abre em um pagina especifica e tira um frasco pequeno com um liquido que parecia água.
—Está vendo isso, meu caro? — ele sacudia o frasco.
—O que é?
—Minha maior e melhor criação. — E se aproximou dele para ter certeza que ninguém mais ouvisse.
—O elixir da vida eterna.
—O senhor me perdoe, mas isso é impossível. Apenas as fadas possuem essa formula.
—Mas eu peguei do livro escrito pela própria rainha.
—Está querendo me impressionar? Eu já ouvi uma historia parecida do vendedor...
—Jamais duvide da minha palavra! Estou lhe dizendo a verdade. Existe uma biblioteca no castelo em Arandril, onde está escondido o livro sagrado das fadas. Um livro tão antigo que nem nome possui.
—O senhor me falou dele. Era o mesmo livro que foi escondido pelo Mago da época, na guerra da traição.
—Exatamente. Aquele maldito Mago furtou da rainha das fadas e se apossou dele como se fosse um dos Deuses. Maldito Malquerô.
—Mas como assim, ninguém o impediu?
—O Mago é o líder supremo da Grande Torre. Ele controla toda a magia existente fora do Bosque dos Mil Sonhos. Nenhum mero feiticeiro se arriscaria a interrompe-lo.
—Me conte mais sobre o livro.
—Malquerô, assim que foi feito Mago, ele era muito jovem na época, mas já possuía grande conhecimento da magia, mas ele queria mais. Então invadiu o Bosque sem ser percebido, provavelmente usando de magia negra e roubou o livro do trono da rainha das fadas, que só percebeu algum tempo depois; e você sabe que fadas tem uma noção de tempo diferente da nossa, e por isso levou 45 anos para ela perceber o furto. Enquanto isso ele usufruía de toda a magia que o livro proporcionava, fazendo inclusive feitiços ocultos e mortais, foi por isso que Hastorn venceu a guerra. Quando a rainha percebeu, ficou furiosa e o amaldiçoou fazendo-o ingerir veneno conscientemente. Mas é claro que o conselho da Grande Torre não ficou contente com isso e para não alarmar as pessoas, foi dito como versão oficial que foi morto pelas tropas inimigas na época.
—Mas o livro não deveria estar na Grande Torre e não no castelo?
—Sim, mas Malquerô era esperto e tratou de decorar o máximo de feitiços possíveis, depois o guardou na parte oculta da biblioteca do castelo. Todos dizem que ele escondeu o livro para protegê-lo das tropas inimigas, mas era para esconde-lo de outros feiticeiros.
—Inacreditável.
—Quer saber mais?
—Sim.
—Quando eu era jovem, um pouco mais velho que você, eu entrei na Grande torre, como aprendiz de feiticeiro, eu amava aquele lugar. Aprendia tantos feitiços, e quando me formei fui trabalhar no castelo, nos primeiros anos de reinado do rei Godard. Eu tinha acesso total à biblioteca e um certo dia, acabei tropeçando em um dos tapetes e descobri um alçapão, fiquei curioso e arrombei os todos os cadeados mas não havia nada lá. Não me dei por satisfeito e desci novamente, mas com um lampião, encontrei dessa vez, enterrado no chão, uma garrafa com um papel dentro, e lá havia instruções de como encontrar alguma coisa, que depois entendi que era o livro.
—E como era exatamente o tapete?
—Eu já estou muito velho, minha memoria não funciona mais... — ele apontou para sua cabeça e depois continuou- Eu obviamente já havia ouvido falar desse livro e lembro que nunca havia me sentido tão feliz até aquele dia. Dei uma foleada e li um feitiço que falava de eternidade. Não lembro exatamente seu nome. Estava escrito em uma linguagem antiga e a letra era quase impossível de ler, mas eu era um aluno esforçado e consegui decifrar boa parte. É claro que levou semanas, mas valeu a pena, ou pelo menos eu achei que valesse. A tradução eu anotei em um papel separado e guardei em meu bolso... Ah Conrad, fui abençoado pelos deuses que me fizeram esquecer onde ele estava, somente quando terminei a tradução que fui correndo avisar o conselho da Grande Torre.
—E você foi saudado? E premiado?
—Pelo contrario Conrad. Fui expulso como um cão sarnento da Grande Torre.
—Por quê?
—Por que eu não deveria ter interferido na vontade do Grande Mago. Nunca contei a ninguém sobre a minha anotação. Infelizmente como não consegui traduzir tudo, mas acredito que tenha sido o suficiente.
—Tem certeza?
-Com certeza se tivesse a receita completa teria mais efeito. Mas eu tenho certeza sim.
—Não estou entendendo.
—Veja bem Conrad, percebi que só causa efeito completo em criaturas jovens. — E apontou para um filhote de gato que sempre estava por ali. Pela primeira vez Conrad percebeu que o gato jamais envelhecia, ou simplesmente deixava de ser um filhote.
—Esse foi o teste final. Ele está assim, faz aproximadamente 40 anos. – Ele pegou o gato e colocou confortavelmente no colo do aprendiz. – Veja. Examine-o!
—O que tem? Quer dizer, eu já vi que ele é um filhote, mas o que mais?
—Olhe nos olhos dele. — Conrad levantou da cadeira e foi parta perto da janela para ver melhor. Cataratas. Os olhos estavam repletos delas.
—Mas como?
—Como eu lhe disse meu jovem. Não tive acesso à receita completa. Não sei se ele vai durar para sempre, mas vejo que ele é afetado pelo tempo de alguma forma. Isso mostra o quanto meu elixir é repleto de defeitos. Porém ele possui uma grande vantagem.
—Qual?
—A de cura. Uma gota diluída em um barril de água, pode curar até o ferimento mais profundo. Se ingerida ou posta em cima da ferida.
—É genial.
—Sim. Quando percebi isso, o que levou cerca de 20 anos, procurei o rei.
—Reginald?
—Sim. Ele deveria estar muito triste, pois nessa época seu primogênito Conrad. – Então parou e virou-se para ele. – Coincidência não? Você ter o mesmo nome, e se não me engano nos cálculos, a mesma idade do príncipe.
—Tenho que lhe confessar uma coisa.
—Mas que seja depois de minha historia, não me interrompa mais.
—Sim senhor.
—Como estava dizendo, o rei deveria estar triste com a morte de seu primogênito então eu achei que estaria fazendo um grande bem a ele e que seria altamente recompensado... – Ele parou pensativo.
—E o que aconteceu?
—Você! — E apontou o dedo longo e enrugado para o aprendiz.
—Que foi? — Suspirou ele cansado de tantas interrupções.
—Você é o príncipe... Como consegui ser tão tolo assim? Passei todos esses anos ensinando o futuro rei dessa terra e nunca percebi? ... Mas é logico. Não existem coincidências, tudo faz parte de um grande plano. Por quê? Por que nunca me disse? Talvez a velhice tenha me atingido a um ponto que simplesmente ignoro as coisas obvias e dedico toda minha atenção em complexidades.
—Vá, vá embora seu traidorzinho. Enganou-me todo esse tempo. Sai já.
—Mas mestre...
—Ande logo. – E empurrou Conrad até a porta, fechando-a em sua cara.
Na mesma noite durante o jantar, alguém bate a porta e o tradicional barulho de conversas e objetos colidindo uns nos outros é substituído por um profundo silêncio quebrado por Nanael.
—Olavo, vá você, nenhuma pessoa decente bate uma hora dessas na casa de alguém. –Disse em voz baixa.
Olavo abre a porta e se depara com a figura estranha de Pavel. Vestia uma túnica aveludada que ia até os pés e de cor verde; estava repleta de buracos de traças, e exalava um forte cheiro de mofo, provavelmente ao longo tempo que ficou guardada. Também usava um chapéu pontudo de um tom de verde mais escuro.
—Eu quero falar com o Conrad, eu sei que ele mora aqui. — Impôs o velho e todos olham para ele espantados e curiosos.
—Pensei que não quisesse mais me ver Mestre Pavel.
—Pensou errado menino atrevido, se você não tivesse um pai. – E olhou para Olavo. – E te dava umas palmadas.
—Quem é ele Conrad?
—Esse é o meu tutor, Mestre Pavel, quem me ensina poções todos esses anos.
—Vá logo, quero jantar em paz.
Assim que a porta se fechou os dois puderam ouvir os comentários de todos a respeito do ocorrido.
—O que aconteceu? -Indagou Conrad, todos esses anos e nunca me procurou em casa.
—Nunca foi necessário. Entre. — Pavel falou ao chegarem no chalé.
Conrad estava ansioso, deveria ser algo muito importante o que Pavel iria mostrar ou fazer. Havia livros por todos os lados e o balcão de experimentos estava repleto de instrumentos de alquimia e frascos de todos os tamanhos e formas.
—E então?
—Percebi que não havia terminado a historia.
—É claro, o senhor me expulsou antes disso.
—Eu fiquei confuso... Detesto estar confuso. Mas agora estou bem...
Pavel não era sempre assim, tinha seus momentos de lucidez e era quando estava ensinando, mas sempre quando começava uma historia, entrava em uma espécie de transe que era difícil de ser quebrado. Conrad estava acostumado a elas e não foram poucas as vezes que se limitou a dar um “Boa noite” para o vazio enquanto Pavel continuava a falar com as paredes. Mas aquela vez foi diferente, ele se auto retirou do transe devido a confusão mental causada pela nova informação. Mas olhando os trajes em que ele se encontrava ele deveria ter voltado ao passado, achando que ainda era um jovem aprendiz da Grande Torre.
—Então continue. Foi pra isso que me trouxe aqui não foi?
—Onde eu parei mesmo?
—Ah sim. Ofereci a poção ao rei que ficou exatamente como eu imaginava: alegre e contente. Mas ele não me permitiu maiores explicações e mandou que os guardas me prendessem nas masmorras.
—Ele gosta de fazer isso.
—Agora eu entendo que deve odiar seu pai verdadeiro, já que ele o trancou nas masmorras como fez comigo, um pobre velho.
—Como sabe disso?
—Não posso revelar todos os meus segredos, aprendiz. Mas é por isso que lhe chamei aqui.
—Para falar do meu pai?
—Sim. Uma explicação e então meu pedido... Estando eu, um pobre velho preso nas gélidas paredes de pedra, pedi aos guardas que não sabiam direito o motivo de minha prisão, a me soltarem.
—E eles o fizeram.
—Não. Eu tive que enfeitiça-los, mas no final eu consegui me livrar. Não é fantástico? — disse ele emocionado.
—Agora eu entendo o porquê dele ter se livrado também de Gaherd. Mas precisava de todo esse espetáculo?
—Eu gosto de me vestir assim à noite, para me sentir jovem.
—Por que nunca bebeu o elixir?
—Eu bebi, mas percebi que ele me apenas atrasava meu envelhecimento. Quero morrer logo, não ficar prolongando essa minha vida miserável.
—E quem vai me ensinar?
—Eu já lhe ensinei tudo o que podia Conrad. — E de repente ele toca o peito e começa a cair. Conrad o apoia e o leva até sua cama.
—É por isso que eu lhe trouxe até aqui, esta noite... – Dizia Pavel com esforço. – Senti que minha hora estava perto.
—Não, o senhor apenas teve uma dorzinha. Vai passar com uma boa noite de sono.
—Não seja tolo, meu filho. — Dizia ofegante Pavel. – Quando eu finalmente fechar meus olhos essa noite será para sempre.
—Pai... Por favor, não faça isso. – Conrad se abraçou em Pavel, que gemeu de dor.
—Pai? – Um sorriso brotou no rosto de Pavel e lagrimas de alegria começaram a brotar. Segurou o rosto de Conrad com as duas mãos fracas e o colocou em frente ao seu, dizendo com a voz rouca quase inaudível.
—Meu filho Conrad, você foi à única pessoa em quem confiei em toda minha vida e que não me decepcionou, por favor, continue com seu trabalho aqui mesmo em minha casa e não se esqueça de mim quando virar rei. Peço que dedique não mais que um minuto para lembrar-se do seu velho pai nesse dia. E sorriu. Sua respiração sessou no mesmo instante. Ele levantou-se do lado de Pavel sem derramar uma lágrima e foi avisar Olavo.
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