O grupo acordou às três da manhã. Se pensavam em invadir a área protegida não poderia ser à luz do dia. Kaio foi o primeiro a despertar. Tomou um banho rápido e reuniu tudo o que precisava. Aos poucos todas foram se encontrando no saguão do pequeno hotel. Cidade pequena, hotel pequeno. Não havia ninguém na recepção. Ótimo, assim poderiam sair sem ninguém ver eles. Saíram pela rua deserta. Não havia ninguém, a não ser um pequeno cachorro. A menos de oitocentos metros do hotel ficava a grade que delimitava a área indígena. Andaram rápido. Já estavam próximos quando Ronaldo, o físico, olhou uma garota observando eles. Pelo tamanho, Ronaldo estimara que ela tinha uns doze anos. Ela fazia um gesto de “não” com a cabeça como se dizendo “Não façam isso”. Enquanto movia a cabeça Ronaldo pôde ver, graças a um poste de luz que ficava próximo à janela de onde a menina estava, uma pequena cicatriz em seu pescoço. Assim como no da atendente era em formato de “x”. Aquilo era estranho e Ronaldo sentiu um arrepio subir por seu corpo.
Jonas tinha um alicate na mochila para cortar a grade, além de um canivete e algumas ferramentas para coletar terra. Afinal, se a terra realmente brilhava durante a noite ele poderia coletar um pouco e levar para o laboratório. Quando olhou o canivete não pensou duas vezes e o pôs nas meias. Poderia ser necessário pensou. O alicate era um dos grandes, comprado na principal loja de ferramentas da cidade. Dinheiro não era problema para Jonas. Ele abriu um buraco suficientemente grande para todos passarem. Antes de Luciana passar, a que estava mais atrás no grupo, ela percebeu que a poucos metros havia outro buraco na cerca. Ela deu de ombros e passou pelo buraco que Jonas fizera. Agora estavam em território da tribo Kushyaki.
– Kaio, pra onde agora? – Perguntou Alexis
–Porra cara, não faço ideia.
Em frente então pensou Alexis. E o grupo o seguiu. Ouviram barulho de corujas. Viram alguns morcegos. Kaio colocou seu óculos de visão noturna, algo que tinha desde que tinha dezesseis anos. Jonas também comprara um e o colocou nos olhos. Eles dois lideravam o grupo. A mata era fechada. Poderiam ter que andar quinze ou até vinte quilômetros até chegarem perto dos Kushyaki. Começaram a se mover. Alexis, sem os óculos de visão noturna deixou de ir na frente. As meninas principalmente ainda estavam com muito seno. Luciana ouviu um barulho que era algo como “ssssssss” e ficou assustada. Nesse momento Jonas olhou para ela e disse:
–Caralho Luciana não te mexe. – Ele podia ver com seus óculos de visão noturna- Tem uma porra de uma cobra perto dos teus pés.
A cobra era uma jararaca venenosa. Havia muitas na ilha, principalmente longe da cidade. A cobra se movimentava perigosamente perto de Luciana. Ela pensara em correr mas como não podia ver muita coisa respirou fundo, tentou controlar seu medo e ficou parada. Se soubesse que era uma jararaca talvez tivesse corrido, visto que seu veneno é suficiente para matar uma pessoa. A cobra agora se arrastava por cima do tênis de Luciana.
–Fica parada caralho, não te mexe – susurrava Jonas.
A cobra fora embora. Provavelmente havia acabado de se alimentar. O susto havia passado. Poderiam seguir em frente. E assim o fizeram. Luciana entretanto caiu aos prantos. Chorava assustada nos ombros de Jonas. Precisaram de dez minutos para se acalmarem. O grupo se entreolhou como se pensando “Se quisermos voltar a hora é essa”. Mas então Ronaldo disse:
–Vocês me arrastaram até aqui. Agora vamos em frente.
E o grupo prosseguiu.
Alguns minutos depois Kaio vira uma colmeia de abelhas. Pensou no seu amigo virtual Rodrigo Boulhosa. Mas achou melhor não dizer nada. O dia já estava amanhecendo. Eram cinco e pouco da manhã quando o sol começou a dar as caras. Todavia, a escuridão ainda predominava. Já haviam andado cerca de dois quilômetros. Foi quando Ronaldo viu. O solo estava brilhando. Muito fracamente mas estava. Ele não acreditava nisso. Seu cérebro clínico para desvendar fenômenos naturais não conseguia pensar em nenhuma explicação. Pegou um punhado de terra nas mãos. Quando estava em suas mãos o brilho desaparecera. Só brilhava quando ficava no chão.
–Foda! –Exclamou ele – O que diabos é isso?
Ninguém sabia. Alexis brincou neste momento.
– Tu não é o fodão? Diz ai pra gente!
Mas Ronaldo permaneceu calado. Não fazia a mínima ideia do que era aquele brilho azulado fraco que iluminava o chão de terra em seus pés.
–Vamos continuar – Dissera Tereza – Quem sabe não encontramos a explicação mais a frente?
Falou isso olhando para trás, para o grupo. Quando se virou deu de cara um menininho de cerca de dez anos. Seu olhar era sombrio. Seu cabelo, negro como a noite mais escura. Tinha poucas vestes em seu corpo. Em sua mão havia uma faca. O coração de Tereza pulara. Havia disparado. Não esperava ver isso. Depois de muito tempo discutindo sobre os Kushyaki os seis jovens se depararam com um bem a sua frente. Não tiveram tempo de perguntar nada. Ele correu e desapareceu no meio da floresta densa.
Neste momento todos tiraram suas máquinas de fotografar e deixaram de prontidão em suas mãos. Caso vissem qualquer coisa iriam documentar. Seus trabalhos de conclusão seriam os melhores da universidade.
O grupo começou a andar novamente. O sol começava a aparecer imponentemente no céu. Kaio e Jonas guardaram seus óculos de visão noturna. Começavam a avistar a imensidão da floresta a frente. Alguns se perguntavam se não era loucura o que estavam fazendo. Mas todos prosseguiam Contavam com duas pessoas que sabiam falar o idioma dos Kushyaki e não iriam embora até conhecer um pouco de sua cultura. Para Jonas o que valia era a viagem mas daquele território ele queria fazer um trabalho memorável. Nunca se ouvira falar de um solo que brilhava e ele era o geólogo que poderia mostrar algo novo ao mundo. Já Ronaldo queria saber o porquê daquele brilho e não iria embora até descobrir. Em sua cabeça ainda não conseguira imaginar nem uma explicação plausível.
Continuaram a andar. Já estavam um pouco sujos. Em alguns lugares o terreno era lamacento e constantemente tinham de afastar galhos de árvores com as mãos. As mãos dos jovens já apresentavam alguns ferimentos. Enquanto andavam, Kaio tinha a estranha sensação de que estavam sendo vigiados. Poderia ser apenas influência dos seus livros de vampiros e lobisomens que lhe estava dando um pouco de medo, mas ele tinha a nítida sensação de que havia visto um par de olhos a alguns instantes. Provavelmente só o cansaço fazendo surgir seus efeitos. Um pouco mais a frente, Luciana gritara. Jonas e Alexis correram para acudi-la. Mas era um grito de felicidade. Ela havia localizado um pequeno lago. Depois de uma cobra passar por seu pé e ver um menino que mais parecia o capeta, ela achava justo lavar os pés, as mãos e o rosto no lago; ainda era cedo e estava um pouco frio para tomar um banho.
–- Vamos Tereza, vamos lavar esses nossos rostos que estão imundos. É justo uma paradinha.
Tereza a seguiu. Os rapazes também. Todos queriam se lavar. Ronaldo lavara rapidamente as mão e se encaminhara para uma área um pouco mais distante.
–-Onde você vai Ronaldo? – Perguntara Alexis
–-Tirar água do joelho, companheiro.
Realmente o frio da madrugada fez com que a vontade de urinar fosse grande em Ronaldo. Ele se dirigiu a uma área não muito afastada. Começou o serviço a que se propôs a fazer. Quando estava acabando, sentiu uma coisa metálica na sua nuca.
–- Vire-se bem devagarzinho – Disse um estranho.
Assim ele o fez. Colocou as mãos para cima. Quando olhou havia dois homens e duas mulheres encarando-o. Eram mais velhos tinham seus trinta e poucos anos. Foi quando o que apontava a arma disse:
–-Escuta aqui amigo, não queremos ir para a prisão. Sabemos que estamos em território proibido mas vamos fingir que isso nunca aconteceu. Nós daremos o fora e você não contará pra ninguém que nos viu seu policial.
–Eu não sou policial! – Praticamente aos gritos disse Ronaldo – Sou físico! Estou aqui tão ilegalmente quando você! Vim com o meu grupo para estudar os Kushyaki. Quero saber a fonte da luz misteriosa. Por favor, não me mate. Eu e meu grupo não queremos confusão!
– Não é policial? – Perguntara o homem enquanto fazia um gesto com a cabeça para que seu amigo revistasse Ronaldo – Você não está me enganando não?
–Não senhor! Nem policiais podem entrar aqui sem autorização do governo e dos Kushyaki. Por favor não me mate, apenas me deixe voltar para meus amigos.
Foi quando os amigos apareceram. Quando viram a situação que se desencadeava, todos, sem exceção levantaram as mãos.
–Calma ai amigo – Disse Alexis.
–- Não queremos briga! —Jonas exclamou.
O homem que agora estava nervoso. Eram demais para ele e seus amigos. Somente ele possuía uma arma.
–-Nem eu – exclamara o homem – Só viemos aqui para tentar encontrar meu irmão. Veio para esta maldita ilha semana passada estudar esses índios e desapareceu desde então. Tentamos alertar a polícia mas eles disseram que era uma tremenda burocracia para entrar neste território. Então eu vim com minha, meu amigo e sua mulher para encontrar meu irmãozinho. Vocês o viram por ai? Tem mais ou menos a idade de vocês, é loiro, deste tamanho – fizera o tamanho com as mãos – e se chama Fred.
–Desculpe parceiro, não vimos nada – Disse Alexis.
–Já que estamos todos amiguinhos você pode apontar a arma para outro lugar – Perguntou com uma voz sarcástica Ronaldo.
–Desculpe parceiro – O homem guarda a arma – Proteção pessoal. Meu nome é Pedro. Esta é a minha mulher Pietra, que insistiu em vir – Ele lança um olhar para a mulher – Meu amigo Roberto e sua mulher Paula. Todos se cumprimentam.
Pedro era um homem relativamente baixo. Mas ainda assim era assustador no primeiro contato. Tinha uma grande barba e seu rosto estava sujo. Seus olhos eram castanhos e ele era consideravelmente forte. Seu irmão desaparecera há exatos sete dias. Seu nome era Daniel e era um pouco mais velho que os seis jovens. Estudava arqueologia e acreditava que a ilha poderia esconder tesouros da humanidade, relíquias que poderiam dizer muito sobre o passado dos seres humanos. Quando ele não retornou para casa, Pedro contatou a polícia mas o que recebeu de volta foi um monte de papelada de requisito e soubera que deveria esperar até um mês para a polícia poder entrar no território dos Kushyaki, isso se conseguisse autorização do governo e da própria tribo. Pedro decidiu então procurar o irmão por conta própria. Disse à esposa que estava partindo para a ilha com seu amigo, Roberto, que prontamente ofereceu ajuda na busca. Quando Pietra, mulher de Pedro, soube que a ilha tinha algumas praias paradisíacas, ela praticamente o obrigou a levá-la. E Paula, mulher de Roberto, acabou indo na onda. Chegando lá, Roberto e Pedro disseram que elas ficassem no hotel (o mesmo onde os jovens estavam hospedados, afinal, era o único hotel da cidade) enquanto eles procurariam Daniel. Ambas concordaram. Roberto e Pedro fizeram um buraco na cerca e entraram no território dos Kushyaki (o que explica o buraco que Luciana havia visto algumas horas antes na cerca) algumas horas antes do grupo de amigos também fazerem o mesmo. Apenas meia hora depois Pietra e Paula se juntaram aos maridos, dizendo que iriam ajudar a encontrar Daniel. Afinal, oito olhos eram melhor do que quatro. Como já estavam em território dos Kushyaki e voltar sozinhas poderia ser perigoso, Pedro e Roberto consentiram que elas os acompanhassem, desde que tomassem cuidado.
Agora os dois grupos estavam juntos. O grupo dos seis amigos e dos dois casais. Eram um grande grupo de dez pessoas andando em território desconhecido. O sol agora já iluminava a todos. Já era próximo de oito horas da manhã.
–Acho que pode ser uma boa ficarmos juntos – Dissera Alexis – quanto mais ente melhor; Já nos deparamos com uma cobra e um ser que nos deu um baita susto. Quanto mais gente melhor não?
Ronaldo o chamou em particular.
–Você está louco caralho? Aquele filho da puta estava com uma arma apontada na minha cabeça? – Ele não percebeu mas já estava gritando.
– Posso garantir que isso não vai mais acontecer – Disse Roberto olhando para seu amigo Pedro – Nos desculpem, estamos tão tensos quanto vocês. O seu amigo tem razão. Andando em um grupo maior temos mais condições de nos defender de algum imprevisto.
– Sem contar que eu tenho isto – Pedro levantou sua arma.
Os olhares pareciam concordar com a ideia. A partir desse momento andariam todos juntos. E começaram a andar.
Meia hora depois da caminhada, o grupo se deparou com uma pequena horda de Kushyakis. Eram poucos, seis no máximo. Dentre esses seis havia três crianças, todas meninas, duas mulheres adultas e um homem. Sua estatura e seu corpo eram de impressionar. Luciana cochichou para Jonas:
– Esse tá bem melhor que você, Jonas.
Então Luciana se deu conta de algo.
–Pessoal, pelo que eu me lembro, os Kushyakis são rigorosamente monogâmicos.
–E daí? — retrucara Pedro que ainda olhava em volta à procura de seu irmão.
–Bem ali nós vemos duas crianças que claramente são filhos daquela ali – apontara para uma Kushyaki – E aquele menino parece ser filho daquele e daquela – Indicara com o dedo sobre quem estava falando.
E então Kaio fez a pergunta que se passava na cabeça de todos.
–E o outro homem, cadê?
Nesse momento um homem grande apareceu atrás de Tereza e colocou uma faca em torno de seu pescoço. Ele pressionava, mas não a ponto de cortá-la. E começou a falar:
–Kedri yushkara popaku heshi?
– Ele pergunta o que nós estamos fazendo aqui – Disse Luciana.
–Diz pra ele que a gente só quer encontrar meu irmão – Disse Pedro.
E Luciana começara a traduzir quando o Kushyaki disse algo surpreendente:
–Não vi irmão de ninguém por aqui.
Como um Kushyaki sabia falar nossa língua? Pensava Tereza, apesar de estar com uma faca no pescoço. Isso é simplesmente impossível. Eles vivem praticamente isolados aqui nesta ilha1 Como podem saber falar nosso idioma?
Parecia que os Kushyaki tinham muitos mistérios a revelar.
Poderia não ser perceptível para os outros, mas os olhos de Alexis demonstravam ao mesmo tempo preocupação e um olhar de “se você a ferir eu te mato”. E ele realmente o mataria. Não importava se o homem fosse muito maior ou muito mais forte, Alexis o mataria com suas próprias mãos. Este não era o Alexis calmo, tranquilo e estudioso de todos os dias. Parecia que estava tomado por um demônio. Se fosse um desenho animado, sairiam faíscas de seus olhos.
O Kushyaki então disse:
–-Vocês estão em meu território. Não podem sair sem antes ver o Chefe. Se tentarem algo eu mato a moça. – E então deu um grande assobio. Aos poucos surgiram Kushyakis de todos os cantos. Havia agora cerca oito grandes homens em volta do grupo. Todos com lanças ou facas. E seu olhar era hostil. Apesar de saberem falar o idioma dos visitantes, os Kushyakis não os revistaram. Talvez por inexperiência ou por puro esquecimento. Pedro agradeceu por isso. Sua arma estava em sua cintura pronta para ser utilizada.
– Andem – Disse um dos homens – Daqui a uma hora vocês conhecerão o Chefe e ele decidirá o que fazer com vocês.
Tereza já não mais estava com a faca em seu pescoço. Ela agora andava com o grupo que era escoltado pelos Kushyakis. Pedro fizera menção de puxar a arma, mas Roberto, mais cauteloso fizera que não com a mão. “Deixe a arma para uma situação emergência”, pensava ele. Aquela não era uma situação emergencial. Bem, pelo menos ainda não.
Pouco mais de duas horas depois, o grupo foi levado ao centro da tribo dos Kushyaki. Era um terreno relativamente grande. Havia cerca de duas dezenas de ocas. Crianças corriam por todos os lados, estranhamente eram todas meninas. Havia gatos e cachorros. Homens adultos andavam geralmente carregando lanças. Mulheres estavam perto das fogueiras assando peixes ou javalis. Afinal já estava perto da hora do almoço. Kaio olhou em seu relógio e viu que eram onze e oito da manhã. Mas todos olhavam para eles. Era algo espantoso todos aqueles olhares. E mais espantoso ainda foi notar que todas as mulheres tinham algo em comum.
–Kaio, você percebeu algo nas mulheres? – Perguntou com um tom assustado Ronaldo.
–Sim – Respondera Kaio, seu olhar talvez mais assustado do que o de Ronaldo.
O que os rapazes mais observadores do grupo viram foi que todas as mulheres, sem exceção tinham um “x” marcado em seus pescoços. Tanto adultas quanto crianças. Poderia ser apenas um ritual da tribo mas o espantoso era que as moças que eles viram na cidade também possuíam essa marca. Mas o pensamento fugiu da cabeça deles. Estava na hora de conhecer o Chefe.
O Chefe era na verdade o homem mais velho da tribo. Mas a diferença não era assim tão perceptível. Deveria ter no máximo dez anos a mais que oo resto dos guerreiros que haviam visto anteriormente. Também era o mais gordo. Suas orelhas eram enormes. A pouca roupa mal cobria sua imensa banha. Seu olhar dava medo.
–Olá intrusos. Meu nome é Potiguar. O que fazem em meu território?
–Queríamos conhecer seu povo, chefe Potiguar – Jonas começou a falar – Conhecer sua cultura e seus costumes.
– E eu quero achar meu irmão – Disse Pedro com uma voz ríspida.
–Nós não somos cobias de ninguém – Começou Potiguar – Mas eu permito que todos vocês passem a noite aqui. Está na cara que estão cansados demais para voltar agora. Não vão conseguir chegar à cidade antes de escurecer e podem ser alvo fácil de algum animal. Fiquem naquela oca. – apontou com o dedo – Em breve serviremos o almoço e vocês podem se juntar a nós. Enquanto isso descansem lá.
– Senhor Potiguar – perguntara Tereza com uma voz ainda de medo – Como vocês conseguem falar nossa língua se vocês vivem isolados nessa parte da ilha sem contato com o resto do mundo?
Você invade nosso território e ainda espera que lhe respondamos suas perguntas garotinha? – Potiguar lançara um olhar sobre a linda Tereza e então parou um pouco para pensar. – De noite posso lhe contar alguns dos segredos dos Kushyaki. Agora vão para a oca.
O grupo obedeceu. Estavam realmente cansados. Estavam andando há mais de sete horas. Precisavam descansar um pouco. Todos entraram na oca. Pedro agradeceu aos céus por ainda estar com sua arma. Ele desconfiara de todos. Paula, a mulher de Roberto, estava com seus cabelos ruivos todos sujos. Na verdade, ela estava toda suja. E assustada. Queria ajudar Pedro a achar seu irmão, Daniel. Mas naquele momento o que ela mais queria era voltar para casa. Apesar de encantados com a hospitalidade, nenhum dos jovens se sentia seguro.
Todos se deitaram e tiraram 2 horas de cochilo. Pedro roncava. Jonas também. Mas ninguém se importava. Estavam cansados demais para se perturbarem com o barulho. E então, cerca de uma hora da tarde foram acordados por um Kushyaki.
–- Hora da comida — dissera ele. – O chefe os aguarda.
Os jovens levantaram um a um e começaram a seguir o Kushyaki. Alexis e Kaio, como bons estudantes de história, anotavam tudo o que viam. Tereza e Luciana não serviriam mais como tradutoras pois os Kushyaki sabiam falar sua língua. Mas assim que descobrissem como, ambas teriam um trabalho interessantíssimo a mostrar. Jonas recolhera um pouco do material do solo e pusera na mochila. Agora precisava apenas de um laboratório para descobrir o que havia naquela terra que brilhava quando anoitecia. Ronaldo analisava tudo ao seu redor. Apesar de assustado – assustado não, apavorado – sua curiosidade científica era maior. Queria, precisava descobrir o que fazia aquela terra brilhar. Também, assim como Kaio, o leitor de coisas místicas, se perguntava o porquê de todas aquelas mulheres habitantes daquela ilha pareciam ter uma cicatriz em forma de “x” no pescoço. Não importava se eram habitantes da cidadezinha ou se eram kashyakis, todas pareciam ter a mesma cicatriz, não importando a idade. O grupo de Pedro, que era composto por ele, Roberto, Pietra e Paula estava mais preocupado com a segurança mas ainda assim olhava tudo ao redor em busca de qualquer sinal de Daniel, o irmão de Pedro. Na cabeça de Paula se passava apenas o fato de que ela queria sobreviver. Sentia-se ameaçada naquele local que para ela era hostil. Pietra apenas acompanhava o marido. Não sentia medo. Sabia que enquanto Pedro estivesse por perto ela estaria segura. Roberto era cauteloso. Procurava qualquer sinal de hostilidade que pudesse vir a se tornar um ataque. E Pedro... Pedro estava pronto para usar a arma no momento que fosse necessário. “Que bom que sabem falar nossa língua”, pensava ele. Assim vão me responder direitinho o que fizeram com meu irmão.
Mas agora o que queriam mesmo era comer. Estavam com fome. Há tempo não comiam. Foram convidados a se sentar perto da fogueira central onde havia um caldeirão de barro. Cada um recebeu um pouco da comida em uma pequena vasilha de barro. Começaram a comer. Parecia carne de porco. Não sabiam ao certo. Enquanto comiam, Pedro indagou:
–Onde está meu irmão? – Perguntara com um olhar sombrio para o chefe Potiguar – Onde ele está?
Potiguar o ignorou. E então Luciana disse baixinho:
– Senhor Pedro, é melhor não falar enquanto come. É considerada uma ofensa para os Kushyaki. – Luciana era provavelmente a maior perita dos Kushyaki no grupo, seguida por Tereza.
Pedro segurou a língua. Após o almoço os Kushyaki teriam de responder suas perguntas. E todos comeram o que havia em suas vasilhas de barro. Os Kushyaki não comiam. Provavelmente já haviam comido mais cedo ou simplesmente estavam curiosos com os visitantes. E um a um todos acabaram de almoçar. E um a um todos começaram a desmaiar. Todos. Todos estacam ficando inconscientes. A última coisa que Kaio vira antes de desmaiar foi o chefe Potiguar. Ele estava rindo.
Quando Pedro acordou todos ainda estavam dormindo. Todas com exceção de Alexis e Ronaldo. O estudante de física estava olhando o chão, que brilhava intensamente. Era um brilho azul forte e Ronaldo se perguntava o que poderia fazer com que aquele chão brilhasse tanto daquela forma. Tinha uma mente aguçada para resolver problemas mas não fazia ideia do que poderia estar ocorrendo. Alexis parecia ter acabado de acordar. Ainda estava sentado e uma de suas mãos estava em sua cabeça. A primeira que Pedro percebeu ao acordar foi a fato de estarem em o que parecia ser uma jaula gigante feita de toras de madeira. Estavam sem seus pertences. Sua arma e todas as mochilas dos jovens estavam um pouco distante deles, no lado de fora da jaula. Pedro levantou e percebeu que dois grandes Kushyaki estavam de guarda na frente da jaula. Quando olhou a sua volta deu por falta de alguém. Começou a analisar. Alexis estava sentado. Ronaldo parecia estar enfeitiçado com o brilho no chão. Kaio, Tereza e Luciana estavam em um canto embolados. Todos dormiam. Jonas estava no outro canto da Jaula. Dormia sentado. Pietra estava no meio da jaula, totalmente inconsciente e Roberto estava ao seu lado, também dormindo. E Paula... onde estava Paula? Pedro começou a olhar ao seu redor. O suor começava a escorregar de sua testa e cair no chão brilhoso. Paula não estava lá. E ele começou a gritar com os dois Kahyaki:
–Onde está Paula seus malditos? Onde ela está seus filhos da puta? O que fizeram com ela?
Os guardas riram e disseram para Pedro calar a boca. Com a gritaria todos foram acordando um a um. Quando Roberto acordou e se deu conta do que acontecia, ele simplesmente enlouqueceu. Sua mulher tinha sido levada. Começou a gritar escandalosamente.
–Filhos da puta! Tragam minha mulher. Seus putos, eu vou matar vocês. Não vou ter pieda...
Nunca acabara a sentença. Um dos guardas pegou sua lança e enfiou no meio do rosto de Roberto. Sangue espirrou para todos os lados. Uma grande parte de seu nariz caiu no chão. A ponta da lança arrancara pedaços do cérebro de Roberto. Os amigos tinham respingos de sangue pelo corpo. O guarda tirou a lança da cabeça de Roberto e disse:
– Mais respeito comigo, seu pedaço de merda!
As mulheres começaram a chorar. Não só elas, Ronaldo fora tirado de seu encanto e passou a chorar também. Jonas e Alexis estavam assustados e trocavam olhares apavorados. Kaio olhou um guarda com um olhar fixo. Não parecia com medo e sim interessado. Pedro abraçou sua mulher Pietra e pediu para ela não olhar o corpo de Roberto, agora jogado no meio da jaula.
O que fazer? Estavam todos presos, sem seus pertences. Havia um homem morto no meio da cela. Dois guardas que pareciam ter autoridade para fazer o que quisessem vigiavam a cela. Estavam todos em pânico. Será que era o último dia de suas vidas? O de Roberto fora. Enquanto refletia sobre tudo isso, Alexis ouviu o guarda dizer:
–Não façam ou tentem nada. Em breve o Chefe vem falar com vocês. Se alguém se meter a corajoso vai acabar como ele – e apontou para Roberto.
Não tinham realmente nada a fazer. Afinal estavam incapacitados de qualquer coisa. Jonas pareceu resmungar algo mas achou melhor ficar calado. Antes sem palavras do que sem vida pensara ele.
Depois de quase meia hora presos na jaula, viram alguém se aproximar. Pela banha, só poderia ser o chefe Potiguar. Sim, era ele. E ao seu lado estava uma mulher linda, mas certamente não era uma Kushyaki. Mais ainda, eles reconheciam aquela mulher. Era Paula. Estava desmaiada e era carregada por um guarda. A jaula ou cela fora aberta. Ela foi jogada no meio dos jovens. Havia gotas de sangue em sua blusa. Pedro a levantou. Viu que o sangue escorria de seu pescoço. Rasgou um pedaço de sua camisa e limpou o pescoço de Paula. Havia um corte em formato de “x”. Certamente deixaria uma cicatriz. Ronaldo olhou aquilo atentamente. Algo muito estranho acontecia com as mulheres naquela ilha. Por que diabos todas tinham aquela cicatriz no pescoço? Não conseguia pensar em nada. O principal a fazer era sair daquela maldita jaula. Apesar de sua imensa curiosidade, seu desejo de viver era maior e, assim como os amigos, tudo o que queria era voltar para casa. Mas não fazia ideia de como.
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