A Ilha
5 O Beijo da Discórdia

Taehyung arrumava folhas de bananeira entre alguns galhos, improvisando uma cobertura de sombra para proteger Yoongi e Jimin do sol forte.
— Está muito sol, e vocês são branquelos. Fiquem aí. — disse com rispidez, como se se obrigasse a manter o tom duro, mesmo quando o gesto era de cuidado. Não gostava de parecer cuidadoso. Principalmente com Yoongi.
— Vou ajudar o Jin. Achamos uma árvore de frutas, vou subir pra pegar algumas.
E saiu, como sempre, com aquela expressão séria e o cenho franzido, como se o mundo inteiro estivesse sob sua desconfiança.
Jimin o observou se afastar. Depois olhou para os próprios pulsos ainda algemados. Taehyung não estava disposto a soltá-lo, não confiava nele. E, de certo modo, Jimin entendia. Dois anos atrás, tinha conseguido fugir dele. E talvez, se fosse Taehyung, também manteria as algemas.
— Então... — Jimin quebrou o silêncio, olhando para Yoongi, que contemplava a praia de águas cristalinas com um ar distante. — O que tá rolando entre vocês?
— Entre nós? — Yoongi desviou o olhar, confuso.
— Sim, você e o senhor militar chato.
— Nada. — suspirou. — Infelizmente, não está rolando nada.
Jimin ergueu uma sobrancelha, um sorrisinho malicioso nos lábios.
— Hum... Infelizmente? Então você gosta dele?
— Isso não é óbvio?
— É, muito. Mas eu queria ouvir com suas palavras.
Yoongi hesitou por um segundo. Depois baixou o olhar.
— Sim. Eu gosto dele. Muito, na verdade.
Jimin se ajeitou, interessado, os olhos brilhando.
— Vocês não estão bem, né? Aconteceu algo? — Jimin amava uma fofoca. Adorava descobrir segredos ocultos, não era atoa que tinha se formado em arqueologia.
— Aconteceu…
— E? O que aconteceu? — Jimin estava na expectativa.
Yoongi respirou fundo.
— Eu... beijei ele.
Jimin arregalou os olhos e abriu a boca, surpreso.
— Que babado, menino! E ele? O que ele fez?
— Ele? — Yoongi suspirou de novo, ainda mais abatido. — Limpou a boca. Me xingou. Disse que quer distância de mim, que tem nojo de gays... foi isso — Yoongi ficou em silêncio por um momento, Jimin olhava para ele esperando a continuação da história — E agora ele tá me tratando assim. Não olha pra mim, não fala comigo, finge que eu não existo.
Jimin o observou por um instante.
— Taehyung é um grande escroto e babaca. Mas ele salvou sua vida, tá cuidando de você. Apesar de ser grosso, ele tá claramente preocupado.
— Você acha? — Yoongi o olhou de relance, uma pontinha de esperança aquecendo seu peito.
— Acho. Quando eu tava me afogando, ele te soltou primeiro. Só depois veio me ajudar. Tipo: “Vou salvar o meu amor primeiro, se sobrar tempo eu salvo o Jimin.” — Jimin riu. — Ele tá sempre de olho em você, viu? Sempre vendo se você tá bem, procurando fruta, água... fez até essa cabaninha aqui pra você não virar um camarão.
Yoongi balançou a cabeça.
— Ele fez tudo isso pra você também. Ele faz isso por todo mundo. O Tae gosta de ajudar as pessoas no geral, não significa nada. Não sou exclusivo.
— Eu sei. — Jimin deu de ombros. — Mas, mesmo assim, dá pra perceber. Se ele realmente te odiasse pelo beijo, se sentisse nojo, ele não faria nada disso por você.
Yoongi pegou um graveto e começou a rabiscar a areia, pensativo, deixando as palavras de Jimin ecoarem em silêncio.
—Tae não é uma má pessoa, só é preconceituoso. Sinceramente não entendo, eu não beijaria ele atoa, eu beijei porque achei que tivesse rolando algo entre nós, mas entendi tudo errado. Ele parecia interessado em mim, eu tenho certeza que a gente flertava disfarçadamente. Sabe o que mais? Quando ele bebe, sempre dá em cima de mim descaradamente. Mas quando eu beijei ele, pude ver em seus olhos o quanto ele me rejeita. O Tae é hétero e não dá pra mudar isso, eu preciso esquecer ele.
Jimin deu uma gargalhada e Yoongi o olhou indignado, estava abrindo seu coração e ele simplesmente riu.
— Desculpa isso foi muito engraçado — Jimin limpou os cantos dos olhos, chorou de tanto rir — Taehyung hétero? É sério? Essa foi a piada do ano. Aquilo ali é mais gay do que eu que dou pra dois caras. Taehyung é hétero com H de homossexual.
— Que bobagem. Você não o conhece direito. Peraí… dois caras? Ao mesmo tempo?
— Sim, dois caras ao mesmo tempo, você e ele. No dia você estava bêbado, por isso não lembra. Vocês adoram me foder — Jimin deu risada e mostrou os pulsos presos com as algemas — Voltando ao assunto, pelo visto, conheço ele melhor que você. Meu querido, são três anos nessa perseguição de gato e rato, conheço vocês o suficiente até pra saber que não estão bem. Sempre vi vocês juntos, sempre notei a química entre vocês. Uma vez, vocês estavam no carro, me espionando, e nossa, eu estava vendo tudo e comendo pipoca, me senti assistindo uma série BL. O jeito que ele procura qualquer desculpa pra te tocar, os olhares, os sorrisos… Ahhhh shippo demais!
— Sério? — Yoongi sorriu todo bobo — Espera… como você espionou a gente quando estávamos te espionando?
— Vocês eram muito bobinhos. Mas olha pelo lado bom, finalmente me pegaram. Voltando ao assunto novamente, por que não conversa com ele?
— Nem pensar! Ele não vai me ouvir e vai me ignorar.
— Ele é um idiota, eu teria zero paciência. Mande ele ir a merda.
— Não consigo — Yoongi respondeu choroso — Eu gosto tanto dele.
Jimin suspirou.
— Voce também é idiota.
— Eu sei disso. — A voz de Yoongi saiu baixa, embargada. — Se eu fosse mulher… o Tae ia gostar de mim.
— Se eu não tivesse com essas algemas, eu te dava um belo soco por falar uma merda dessas. — retrucou Jimin, sério. — Você não tem que se adaptar ao gosto de ninguém. Tem que ser você mesmo. E foda-se quem não gostar.
Yoongi não respondeu, apenas continuou encarando o chão de areia, onde desenhava círculos com o graveto. Fungou, limpando discretamente a lágrima que escorreu por seu rosto e caiu, silenciosa, molhando a areia quente.
Jimin balançou a cabeça.
— Vem cá. — disse, erguendo os braços algemados.
Yoongi o olhou, os olhos marejados, o nariz vermelho, o orgulho em frangalhos. E então, cedeu. Se enfiou no espaço entre os braços de Jimin, aceitando o abraço que tanto precisava.
— Eu poderia te dar um mata-leão agora e sair correndo. — Jimin provocou, com um sorrisinho.
— Você não faria isso. — murmurou Yoongi, apertando mais o abraço. — Você nunca machucou ninguém.
Alguns minutos depois, quando Yoongi já havia se acalmado, Jimin teve uma ideia nada boa, seu repentino sorriso malicioso denunciava isso.
— Se liga no que eu vou fazer quando o Tae voltar — Jimin riu maleficamente.
— O que?
— Vai vendo… Ele vai ferver de raiva e eu vou adorar.
Não demorou muito para Taehyung voltar com algumas laranjas e uma faca.
— Vou descascar as laranjas pra vocês, está calor e precisam se manter hidratados… não que eu me importe muito com isso.
— Ei Tae, vem aqui — Jimin o chamou.
— Que é?
— É sério, vem aqui perto, preciso te contar uma coisa ultra secreta.
Taehyung bufou, visivelmente irritado, mas ainda assim se sentou ao lado de Jimin. Inclinou-se com o corpo rígido, trazendo o rosto próximo ao de Jimin, o ouvido atento, pronto para ouvir alguma provocação ou piada idiota. Jimin sorriu com malícia, soltou-se do abraço de Yoongi com suavidade e, em um movimento rápido e preciso, envolveu o pescoço de Taehyung com os braços algemados. Antes que Taehyung pudesse reagir, Jimin o beijou.
Seus lábios tocaram os de Taehyung com firmeza, e por um segundo, o policial ficou estático, como se o mundo tivesse parado. Então Jimin foi além, passou a língua pelos lábios dele. Foi o suficiente para tirar Taehyung do transe. Ele o empurrou com força, o rosto em choque, o olhar imediatamente desviando para Yoongi, como se buscasse perdão.
— QUE PORRA VOCÊ PENSA QUE ESTA FAZENDO? — Taehyung se levantou abruptamente, limpando a boca.
— Me deu vontade de te beijar e… sabe que sou gay né, Tae Tae? — Jimin deu uma risadinha maléfica.
Yoongi segurou a risada, colocando a mão na boca.
— Odeio vocês, odeio gays, fiquem longe de mim! — Taehyung estava realmente furioso. Saiu o mais rápido possível.
— Jimin! — Yoongi soltou a risada — Meu deus, ele tá puto. Você pegou pesado.
Jimin deu de ombros.
— Que fique putinho. Ele é um babaca que falou merda pra você. Não fique com ciúmes, foi um beijo de zuera. Ele não faz meu tipo.
— De boas, não sou ciumento, mas se fizer isso de novo eu te mato.
— Ok ok, gatinho policial — Jimin levantou as mãos algemadas em sinal de rendição — Não irei mais mexer com seu homem.
Fale com o autor