A Ilha
30 A cidade dos Jeon's

O dia estava claro e, apesar do sol que brilhava naquela tarde, o clima permanecia agradável. A brisa fresca que serpenteava entre as árvores trazia alívio para todos, enquanto as copas densas filtravam a luz e os protegiam dos raios mais fortes.
Yoongi observava as costas de Taehyung enquanto caminhavam. Ele parecia distraído, conversando com Jungkook sobre os perigos da ilha e os caminhos mais seguros para seguir. Yoongi sorriu sem perceber. Gostava de olhar para Taehyung. Na verdade, observá-lo em segredo era algo que fazia há anos, era quase um hábito involuntário. Mas agora tudo era diferente, agora eles eram namorados. Taehyung havia se declarado e o tratava com uma ternura tão genuína que, às vezes, Yoongi sentia como se estivesse vivendo dentro de um conto de fadas.
Taehyung sempre foi protetor, gentil e atencioso com ele. Sempre esteve ao seu lado, cuidando dele, oferecendo carinho e apoio. A diferença era que, antes, Yoongi acreditava que tudo aquilo fosse apenas afeto fraternal. Agora, porém, percebia que talvez não fosse tão diferente assim. Talvez aqueles sentimentos sempre tivessem existido dos dois lados. Taehyung apenas não os compreendia completamente ou não estava pronto para aceitá-los.
Taehyung parou de caminhar, voltou-se para Yoongi, sorriu e segurou sua mão com carinho.
— Tudo bem com você, mocinho?
— Está sim, Tae — Yoongi respondeu com um sorriso suave.
— Então por que você ficou aí atrás?
— Não queria atrapalhar a conversa.
Taehyung franziu levemente a testa.
— Você nunca me atrapalha. Somos parceiros, sempre andamos lado a lado e, além disso... — ele sorriu com certa timidez — somos namorados agora. Quero você sempre ao meu lado.
O coração de Yoongi aqueceu ao ouvir aquelas palavras.
— Eu sempre vou estar ao seu lado, Tae. Independentemente do que aconteça, sempre estarei com você.
Taehyung o encarou por alguns segundos. As palavras eram bonitas, sinceras e exatamente o que ele queria ouvir. Ainda assim, algo na expressão de Yoongi o deixou inquieto.
— Yoon... tá tudo bem mesmo?
— Está sim, amor.
— Hum... — Taehyung estreitou os olhos, claramente desconfiado. — Você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, não sabe?
— Eu sei. Você é meu amor e o melhor namorado do universo.
Taehyung soltou uma risada.
— Do universo inteiro? Falando assim até parece que você é um extraterrestre fofinho disfarçado.
— Vai ver eu sou de outro planeta — Yoongi respondeu, entrando na brincadeira.
Então se aproximou, ficando na ponta dos pés para alcançar seus lábios.
— Seja como for, meu amor por você é tão infinito quanto o universo... e continua se expandindo a cada dia.
Antes que Taehyung pudesse responder, Yoongi o beijou. Foi um beijo suave, mas carregado de sentimento.
Toda vez que seus lábios se encontravam, Yoongi sentia a mesma onda de calor percorrer seu peito. Não importava quantas vezes acontecesse, a sensação nunca diminuía. Pelo contrário. Cada beijo parecia reforçar ainda mais a certeza de que, depois de tantos anos esperando, finalmente podia chamar Taehyung de seu.
…
Após uma semana de caminhada exaustiva, eles finalmente chegaram aos grandes portões da cidade dos Jeon.
Todos ficaram impressionados com a grandiosidade do lugar. Um enorme muro, tão alto quanto um prédio de dez andares, cercava toda a cidade, formando uma fortaleza imponente destinada a proteger seus habitantes. A estrutura não servia apenas para impedir invasões dos Muller's mais ousados, mas também para manter afastados os animais selvagens que habitavam a ilha.
No centro daquela muralha colossal erguia-se um gigantesco portão de madeira escura, adornado com entalhes de símbolos antigos que pareciam carregar séculos de história. A obra era tão impressionante quanto intimidadora.
Lá no alto, sobre as torres de vigilância, guardas observavam atentamente toda a movimentação do lado de fora, mantendo-se alertas a qualquer sinal de perigo.
Não precisaram esperar muito, poucos minutos depois, uma pequena abertura surgiu entre os enormes portões, e dela saiu um jovem oriental de cabeça raspada, postura impecável e estatura alta.
— Kang! — chamou Jungkook, abrindo um sorriso ao correr para abraçá-lo.
— Senhor Jeon — respondeu o rapaz com evidente satisfação ao vê-lo retornar. — Desta vez o senhor demorou mais do que o habitual. Vejo que sua viagem foi bastante produtiva e que fez muitos amigos pelo caminho.
O olhar de Kang percorreu Jimin e os demais sobreviventes.
— Ah, sim. Estes são meus amigos — explicou Jungkook com naturalidade.
Kang manteve a expressão educada, mas seu desconforto era perceptível. Ainda assim, limitou-se a fazer uma breve reverência antes de pedir licença. Em seguida, puxou Jungkook discretamente para o lado, longe dos ouvidos dos visitantes.
— Senhor Jungkook, com todo o respeito... o senhor enlouqueceu? — sussurrou. — Humanos? Está falando sério?
— Estou. Eles são humanos e são meus amigos — respondeu Jungkook sem hesitar. — Quero que os trate exatamente como trataria qualquer pessoa do nosso povo.
A firmeza em sua voz fez Kang endireitar a postura imediatamente.
— Sim, senhor. Perdoe minha imprudência.
O rapaz abaixou a cabeça em sinal de respeito.
— Não se preocupe com meu pai. Eu mesmo vou resolver essa situação com ele — continuou Jungkook. — Enquanto isso, leve todos para a Grande Casa. Quero que fiquem confortáveis e recebam tudo o que precisarem.
— Sim, senhor.
Kang assentiu prontamente, embora ainda parecesse processar a ideia de que seu príncipe havia retornado acompanhado por um grupo inteiro de humanos.
Jungkook retornou ao grupo com um sorriso tranquilo e acolhedor, tentando transmitir segurança depois de tudo o que haviam enfrentado até chegar ali.
— Meu amigo irá levá-los aos aposentos onde ficarão hospedados. Enquanto isso, preciso conversar com meu pai. Assim que terminar, voltarei para me juntar a vocês.
Jin sorriu com gratidão e pousou a mão sobre o ombro de Jungkook.
— Muito obrigado por tudo o que está fazendo por nós.
Jungkook balançou a cabeça suavemente.
— Não precisa agradecer. Vocês são meus amigos e farei tudo o que estiver ao meu alcance para protegê-los e garantir que voltem para casa em segurança.
Jimin aproximou-se e segurou seu braço com delicadeza. O sorriso que lhe dirigiu era carregado de afeto e gratidão, deixando claro o quanto valorizava tudo o que Jungkook havia feito por eles.
— Você vai demorar? — perguntou em voz baixa, apenas o suficiente para que Jungkook pudesse ouvir.
Os olhos do vampiro se suavizaram imediatamente.
— Não muito... — respondeu com um sorriso discreto. — Pretendo voltar logo. Não quero morrer de saudades.
Antes que Jimin pudesse responder, Jungkook inclinou-se e depositou um beijo carinhoso em sua testa.
Jimin sorriu, sentindo o coração aquecer.
— Está bem.
Então o abraçou por alguns segundos, aproveitando aquele breve momento de tranquilidade antes de se separarem novamente.
Quando os enormes portões se abriram, todos olharam ao redor completamente impressionados com o que viam.
A cidade parecia saída de um cenário cuidadosamente construído para um filme de época. Seus habitantes tinham uma aparência humana comum e, assim como Jungkook, eram todos asiáticos. As roupas lembravam o estilo vitoriano, embora adaptadas ao clima da ilha, com tecidos mais leves, cortes mais simples e peças que permitiam maior conforto durante os dias quentes.
A arquitetura era igualmente fascinante. As casas, construídas em madeira, possuíam formatos semelhantes, diferenciando-se principalmente pelas cores vibrantes que davam vida às ruas. Pequenas torres, janelas ornamentadas e telhados triangulares completavam a estética encantadora do lugar. As ruas de pedra eram cuidadosamente conservadas e decoradas com arbustos bem aparados, criando a sensação de estar caminhando por uma tranquila cidade do interior retratada em antigos filmes. Tudo parecia harmonioso, acolhedor e surpreendentemente bonito.
A mansão principal, residência do líder da cidade e pai de Jungkook, destacava-se acima das demais construções. Erguida em concreto claro e cercada por um amplo jardim florido, possuía uma elegante fonte que lançava água cristalina ao ar, criando uma atmosfera ainda mais nobre. Vista de longe, a construção lembrava um antigo castelo branco, imponente sem deixar de ser elegante.
Jimin observava tudo com admiração. Poucas coisas o fascinavam tanto quanto vestígios do passado, e caminhar por aquela cidade era como atravessar as páginas vivas de um livro de história.
O contraste com a realidade que haviam enfrentado era doloroso. Dos duzentos sobreviventes que escaparam da queda do avião, apenas quinze haviam conseguido chegar até ali. A maioria resistiu ao acidente, mas não aos inúmeros perigos que a ilha escondia.
Assim que entraram na cidade, todos foram conduzidos para quartos confortáveis e bem arejados, onde poderiam finalmente tomar um banho decente, trocar de roupa e descansar um pouco antes do jantar.
Jungkook tomou um banho antes de procurar o pai. Temia que o cheiro de sangue ainda estivesse impregnado em sua pele e em suas roupas após a batalha na floresta. Não queria que Ha Jun percebesse imediatamente o que havia acontecido ou fizesse perguntas antes que ele tivesse a chance de explicar tudo.
Seguiu em direção aos aposentos do líder dos Jeon enquanto ensaiava mentalmente o que diria. Precisava pedir ajuda para os humanos, precisava convencer o pai a acolhê-los e, acima de tudo, precisava falar sobre Jimin. Quando chegou à porta, bateu duas vezes. Após ouvir um tranquilo "pode entrar", girou a maçaneta e entrou na sala.
Jeon Ha Jun era um homem de cinquenta e dois anos cuja presença chamava atenção naturalmente. Os cabelos grisalhos combinavam perfeitamente com a barba escura e discreta que mantinha sempre aparada. Havia algo de misterioso em sua beleza madura. Jungkook herdara muitos de seus traços, mas Ha Jun possuía uma postura mais firme e imponente, típica de alguém acostumado a liderar um povo inteiro.
Vestia uma camisa preta de seda e saboreava vinho em uma elegante taça de cristal. Sobre a mesa, diversos rolos de pergaminho espalhados indicavam que estava ocupado com leituras ou assuntos administrativos da cidade.
Ao erguer os olhos e ver o filho, Ha Jun imediatamente sorriu com cordialidade.
— Meu querido filho, fico imensamente feliz com o seu retorno. Como está?
— Estou bem, pai — respondeu Jungkook, retribuindo o sorriso antes de se sentar na poltrona à sua frente. — Preciso conversar com o senhor.
— Imagino que tenha algo a ver com os seus novos amigos — comentou Ha Jun com um sorriso discreto antes de beber um gole de vinho.
— Sim, pai. Preciso ajudá-los. Eu... encontrei minha... — Jungkook suspirou, reunindo coragem. — Encontrei minha alma gêmea.
Assim que as palavras saíram de sua boca, ele baixou o olhar para o chão, preparando-se para alguma repreensão ou desaprovação, mas ela não veio.
— Essa é uma excelente notícia, filho.
— O quê? — Jungkook ergueu a cabeça, completamente surpreso.
— Encontrar a própria alma gêmea é algo raro. Uma bênção como essa merece ser comemorada, não lamentada.
— Pai... o senhor sabe que minha alma gêmea é um humano. Ainda assim está tudo bem?
Ha Jun levantou-se da cadeira e caminhou até ele. Então pousou as mãos sobre seus ombros e o encarou com seriedade.
— Filho, tudo o que eu quero é vê-lo feliz. Para mim, não importa quem seja essa pessoa. O que importa é que você a ame e que ela também o ame de volta. E, claro, que seja alguém de bom coração e caráter honesto.
— Honesto? — Jungkook soltou um longo suspiro antes de acabar rindo. — Será que podemos ignorar essa parte específica?
Ha Jun arqueou uma sobrancelha.
— Você se apaixonou por um ladrãozinho?
— É... mais ou menos isso.
Jungkook passou a mão na nuca, já imaginando a reação do pai ao ouvir a história completa.
— Acho melhor eu começar do começo. Preciso te contar sobre Park Jimin…
Ha Jun arqueou as sobrancelhas. Tinha a sensação de já ter ouvido aquele sobrenome antes, mas Park era um nome comum entre os humanos e, considerando quantas vezes visitava o mundo exterior, não seria estranho que tivesse cruzado com alguém da mesma família em algum momento.
Jungkook então começou a contar tudo. Falou com entusiasmo sobre a forma inusitada como conheceu Jimin, sobre os dias em que o observou escondido na floresta, sobre a personalidade irreverente do arqueólogo e sobre tudo o que havia descoberto a respeito dele. Contou também sobre a vida que Jimin levava antes de chegar à ilha, seus roubos de artefatos, suas constantes fugas da polícia, os sobreviventes do acidente e todos os perigos que enfrentaram juntos. Quando chegou à parte da batalha contra os Muller's, sua expressão ficou mais séria, mas ainda assim não conseguiu esconder o orgulho ao falar sobre a coragem que Jimin demonstrou em diversos momentos.
Ha Jun riu diversas vezes ao ouvir as histórias sobre as confusões envolvendo a polícia e as escapadas improváveis de Jimin. Quanto mais escutava, mais curioso ficava para conhecer aquele humano tão peculiar que havia conseguido conquistar o coração de seu filho. No entanto, seu semblante mudou quando Jungkook mencionou ter bebido do sangue de Jimin para obter força suficiente para enfrentar os Muller's. Aquela parte da história o preocupou profundamente. Ha Jun sempre foi totalmente contra o consumo de sangue humano, justamente pelos resultados das pesquisas conduzidas pelos cientistas de seu povo. Os estudos mostravam que o sangue humano realmente concedia força, velocidade e habilidades extraordinárias, mas o preço cobrado era alto. Quanto mais alguém o consumia, mais dependente se tornava daquela sensação de poder. Aos poucos, suas faculdades mentais eram comprometidas, seus instintos assumiam o controle e a pessoa acabava se transformando em algo muito próximo de uma fera irracional.
— Filho, eu quero muito conhecer esse rapaz chamado Park Jimin — disse Ha Jun com um sorriso surgindo novamente em seus lábios. — Confesso que estou extremamente curioso para ver de perto o ladrãozinho que conseguiu roubar o seu coração.
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