A Ilha

1 Capítulo Único


O homem dança em espasmos enquanto o sol caminha por sua pele e alcança seu rosto. Vejo-o despertar sob a luz do dia quente, ainda fraco, rastejando para fora da caverna. A terra está seca ao redor, mas graças à noite abafada, seu suor salgou o chão abaixo de si. Os olhos abrem com dificuldade, as pernas demoram a obedecer o restante do corpo. Ele se esgueira para fora, tomando cuidado, sem nem perceber que está nu, com uma desconfiança latejando em sua têmpora. O cascalho aliado a poeira dá lugar a uma mata fechada acompanhada de árvores; de troncos extensos, folhagem robusta, flora complexa. As cores carregam fascínio, pintadas em flores, brotos, musgos e sementes, ao mesmo tempo que enchem homem de uma agonia excruciante.

Então, ele corre.

Sem rumo, avança entre os galhos partidos, desvia das cascas de árvores, escapa dos cogumelos brotando abaixo de si. A respiração se fragmenta, atrapalhando o ritmo de seu coração, porém mesmo o membro cardíaco se expande ao acostumar-se ao novo ambiente, expulsando o máximo de seu vigor até que o corredor decida parar. Ele ouve algo, as orelhas se mexem a procura do som, e em seguida dá início a mais uma nova disparada até o local. A mata se abre aos poucos, os troncos se espalham, e ele nota o bioma mudar com a vista de um novo terreno, feito de areia. O mar está calmo, o horizonte engrandecido por portar tal paisagem. Mesmo a calmaria presente na leveza das ondas não é o suficiente, pois ele ainda se vê perdido. Dirige o olhar ao céu, buscando por algo, querendo saber de onde veio. Faz o mesmo fitando as pedras à esquerda na margem, procurando por uma origem através de um naufrágio. Contudo, sem descobrir nada, retorna à mata, desolado.

Pela primeira vez, sente fome.

A caminhada desta vez é confusa, e os elementos da floresta intercalam entre si. Mais à procura, vê cada traço frutífero à sua volta. Tudo é farto, repleto de variedade e nuance. Decide escalar uma dessas árvores, pega um fruto e desce para seguir sua exploração. O doce apazígua seu ronco intestinal, mas não seu desespero. O ambiente ainda o aperta, trazendo à umidade um desconforto, e na cobertura verde, um sufocamento. Ele termina a fruta em cima de um outro pé, dessa vez apreciando mais o gosto cítrico.

Depois, é a vez da sede.

Desce, procurando por uma fonte. Embora se lembre do mar, reconhece que não pode beber dali. Seria uma fonte infinita, com toda certeza; poderia entornar incontáveis conchas pela garganta e ainda assim sobrariam bilhões de litros. Procura por outra quando nota uma formação rochosa quase de sua altura, por onde entre arestas de pedra, vaza um filete que forma uma poça. Aproxima-se para observar a fonte, tão esguia e pura quanto poderia pedir para matar sua vontade. Abaixa-se, notando uma porção de girinos nadando no fundo. Espera que não os incomode, enquanto beberica direto do vazamento. Satisfeito, o homem vê-se sem necessidades, mas, ainda assim, desconfiado.

Até que ouve o barulho.

Afasta-se num pulo para trás, sem pestanejar, já que o ruído assemelha-se a um trovão. Contudo, o rugido vem da terra, não dos céus. Caminha devagar, tentando não emitir sons, circulando a fonte para descobrir a figura. Vê o pelo espesso, os membros musculosos, a pele rígida, a bocarra grande e as garras afiadas de um leão dourado. O homem paralisa, o medo circulando em suas veias. Erguendo-se de sua posição, o bicho fareja pavor, e vê sua presa pedir por misericórdia. O animal concede, oferecendo a juba para ser acariciada. Sem compreender a situação, o homem estende a mão, faz-lhe o cafuné, e a resposta vem na forma de uma lambida na mesma mão que havia descascado a fruta anterior. Agraciado, o homem esquadrinha em sua volta, buscando por uma alternativa que não a virtude do mundo que o cerca. Não encontra. Por consequência, mantém-se vagando pela ilha até anoitecer, ainda assustado, acuado e receoso sobre tudo. O novo assusta, mesmo que maravilhoso, e sua inconsciência presta-lhe um outro papel em deixá-lo apreensivo. Portanto, deixo-o dormir, para que o próximo raiar diga sua sentença.

Enfim, descansa.

Desperta no dia seguinte, ainda desacostumado à dureza da caverna que usa de abrigo. Os olhos manchados por uma aura turva e polvilhados por areia de sono. Levanta com dificuldade, com uma dor sacudindo-o num dos flancos, e quando toca para avaliar a ferida, sente falta de pele. No susto, busca algo para o proteger, e encontra uma rocha afiada o bastante para servir-lhe de arma. Porém, nessa busca por defesa, encontra meu presente, inofensivo. A criatura junto dele se mexe, também desperta, e levanta os olhos em busca dos do parceiro. A pele é seda, o cabelo é seiva, o olhar é ninho. Uma mulher.

— Adão? – escuto-a perguntar.

Em seus pensamentos, o homem entende quem é e o que faz na ilha. Sabe quem sou, sabe quem Eva é. Finalmente vejo-o sentir-se completo, e sei que este é o começo de sua era. Também sei, entretanto, que ainda que cercado desta completude, isso não durará pra sempre.

Avaliei o que vi, e enquanto mantive meu olhar, notei que era bom.

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