Notas iniciais
E então chegamos a triste despedida do quatro olhos com a garota insuportável.

Foi com certa tristeza que eu abri os olhos naquela manhã de domingo. Enfim era hoje o dia da partida de Sara. O meu desejo era de que aquele dia nunca tivesse chego. Mas ele chegou e eu tava péssimo por isso!

Suspirei desgostoso enquanto deslizava uma das mãos pelo braço de Sara que dormia com a cabeça sobre o meu peito.

E eu que lá atrás, logo após os primeiros dias de convivência com ela, desejei imensamente que chegasse o dia dela ir embora pra me ver livre de Sara, agora que vejo esse dia chegar, tô arrasado por me separar dela.

—Gil... Sara...!!

Ouvi a voz de minha mãe chamar-nos do lado de fora do quarto enquanto dava leves batidas na porta.

Resmunguei um baixo "já vai" e ainda assim meu modo de falar fez Sara despertar.

—Que foi, quatro olhos?

Ela quis saber ainda sonolenta.

—Minha mãe tá batendo na porta. — Contei tirando com cuidado meu braço debaixo da cabeça de Sara, pra logo em seguida me levantar da cama e me dirigia à porta, que já abria em poucos segundos. _Bom dia, mãe.

—Bom dia, querido! E Sara?

Virei o rosto em direção a minha namorada, que se encontrava entre meio acordada e meio dormindo

—Ela ainda tá acordando devagar.

Minha mãe sorriu.

—Bom diga à ela pra acordar logo. Tá na hora de vocês dois levantarem. Daqui a pouco temos que ir para o aeroporto.

—Tá bom, mãe.

—Vou descer e ir preparando o café.

Assenti pra ela, que deu-me as costas e seguiu pelo corredor. Fechei a porta e voltei pra cama, me deitando sobre Sara que naquele momento já estava mais acordada.

—Hora de levantar preguiçosa. — Dei-lhe um beijo na testa.

—Eu devia ter comprado passagem pra tarde.

"Também acho!", Pensei.

Jogando os braços em torno do meu pescoço, Sara me abraçou apertado e entrelaçou suas pernas às minhas.

—Tô com preguiça de sair dessa cama, Grissom.

Seu jeito manhoso ao falar, me arrancou um fraco sorriso. Naquele dia tava difícil sorrir de outra maneira que não fosse fracamente.

—Mesmo não sendo também a minha vontade, a gente tem que levantar.

—É, eu sei! — Ela ficou me fitando enquanto suas mãos agora deslizavam por meu cabelo. _Foi muito bom dormir essa noite com você. — Sara confessou-me após um breve instante em que já estava me fitando.

Pra mim também tinha sido muito bom dormir essa noite com ela. Tinha sido a primeira vez a qual passava a noite com uma garota.

—A gente merecia uma noite de despedida como essa que tivemos.

—Despedida! Ai, nem me fale essa palavra porque ela além de horrível, me dá urticária!

Confesso que naquele instante compartilho da mesma opinião que minha namorada.

—Bom, eu acho melhor ir pro meu quarto tomar banho antes que a minha mãe apareça aqui e veja que ainda estamos deitados.

Sara assentiu em concordância e eu sem um pingo de vontade saí de cima dela e de sua cama, pra posteriormente, sair de seu quarto.

Vim pelo corredor e logo já me encontrava em meu próprio quarto. Me dirigi diretamente ao banheiro.

Sob a água que caia do chuveiro, eu não deixava de pensar que em pouco tempo não teria mais Sara ao meu lado.

Como dói e é difícil se separar de quem a gente gosta!

Não imaginava que quando esse dia chegasse, eu sentiria tanta tristeza assim como já sinto. Era como se uma parte de mim tivesse partindo junto com Sara. O que não deixava de ser verdade!

Terminei meu banho. Me arrumei e desci. Encontrei na cozinha minha mãe e Sara começando a tomarem o café delas.

—Bom dia! — Cumprimentei as duas e me acomodei na cadeira vazia que havia ao lado de Sara. Sorri timidamente ao notar que minha namorada estava usando a camisa que lhe dei ontem.

—Falei agorinha com o Phil e ele já ia sair da casa dele pra vir nos buscar.

O namorado da minha mãe se prontificou a nos levar ao aeroporto, pois além de nos acompanhar, ele também queria se despedir de Sara lá.

—Ok!

Foi tudo que eu consegui dizer.

Àquele nosso café da manhã nunca foi tão silencioso como naquele dia. Podia ver Sara quieta como nunca antes e minha mãe triste, enquanto eu por dentro me encontrava arrasado.

Terminamos o café e arrumamos tudo ali. Assim que acabamos, a campainha tocou. Era o Phil. Não demorou nada e a mala com as coisas de Sara já era posta no porta-malas do carro de Phil e a gente já seguia para o aeroporto.

—Você tá mais calado que o seu habitual.

Sara me murmurou com a cabeça apoiada no meu ombro, bem próxima do meu rosto.

Eu que apenas olhava a rua pela janela do carro, desviei meus olhos daquilo e fitei Sara. A gente tava sentados juntinhos no banco de trás do carro.

—Eu tô sem muito ânimo pra falar! — Na verdade eu não tinha o que falar. Tava triste demais e não sentia a menor vontade de falar. _Não queria que esse dia já tivesse chego, Sara.

—Nem eu! — Sara segurou em uma das minhas mãos que descansava sobre minha coxa e entrelaçou nossos dedos. _Não achei que em tão pouco tempo fosse gostar tanto de um cara a ponto de... Me sentir tão mau por tá me separando dele.

...

No aeroporto encontramos Adélia, Leslie e May já nos aguardando. As três tinham vindo pra se despedir de Sara como disseram que fariam ontem na festa.

Ficamos ali próximo a área de embarque aguardando o chamado do vôo de Sara. E enquanto isso não acontecia, eu não saía de perto de Sara que conversava com as primas. Minha mãe, Phil e Adélia também conversavam, e somente eu estava calado observando a conversa da minha namorada com as primas dela.

Depois de uma esperava razoável, as despedidas começaram a ser feitas já que o vôo seria chamado em poucos minutos. Primeiro Sara se despediu da tia e das primas demoradamente. Depois veio a minha mãe — que derramou algumas lágrimas ao se despedir de Sara — e o Phil. E então chegou a minha de vez de me despedir de Sara.

—Tá sendo tão difícil fazer isso, sabia? Não queria tá me despedindo de você. — Forcei um sorriso. Minha vontade de verdade era de chorar que nem minha mãe fez, por estar me despedindo de Sara.

—Nem eu queria tá fazendo isso também. Detesto despedidas!

—Passei a detestar fortemente isso também a partir de hoje!

O sorriso dela ao fim de minhas palavras foi tão forçado quanto o que eu dei também.

—Então, Sara...

Eu comecei, mas não consegui continuar. Me detive ali e dali não saiu mais nada. As palavras não vinham e meu olhar se revesava em fitar ora Sara e ora as minhas inquietas mãos.

Como eu não queria estar ali! Como eu não queria que aquilo estivesse acontecendo!

E quando eu resolvi dizer algo, Sara foi mais rápida que eu.

—Vou esperar que nas próximas férias você vá me visitar em São Francisco.

Ela me disse e eu podia jurar que se segurava pra não chorar. Algo típico dela, sempre tentando bancar a durona e não querendo mostrar o seu lado sensível que tive oportunidade de ver uma vez quando ela me contou sobre a tragédia que aconteceu com seu irmão.

—Pode estar certa que vou! – Dei um fraco sorriso.

Há um mês, ela entrou na minha vida e no momento que a conheci, odiei-a. Mas aí, não sei bem quando ou em que momento, as coisas mudaram e a antipatia que eu tinha por ela se transformou em outra coisa. Jamais imaginei que algo assim pudesse acontecer num curto espaço de tempo, mas aconteceu. A hóspede que a princípio eu classifiquei como indesejável, tornou-se totalmente desejável. E mais ainda... Virou a dona do meu coração!

Completamente o oposto de mim, ela pôs de cabeça pra baixo minha vida tranqüila, e por mais inacreditável que fosse pra mim, acabou me conquistando de tal forma, que me descobri apaixonado por ela!

Senti meu coração se apertar dentro do peito, só de pensar que amanhã não a teria mais ao meu lado, me irritando, importunando e me chamando de quatro olhos. Queria muito que ela não fosse mais embora, que morasse pra sempre na minha casa, mas isso era impossível. A vida dela não era aqui em Las Vegas e sim, em São Francisco.

—Promete que vai?

—Prometo! – Sorri. Pretendia mesmo cumprir essa promessa. Iria até ela em São Francisco nas próximas férias. Já havia até dito isso a minha mãe.

Pra minha surpresa, ela me abraçou na frente de todos e eu desejei que aquele abraço durasse eternamente, mas não foi assim e logo nós desfazíamos o nosso abraço.

—Eu vou sentir sua falta, quatro olhos.

Ela socou meu braço como tinha virado seu costume fazer. Eu apenas sorri triste por aquela estar sendo a nossa despedida.

—Eu também vou sentir sua falta, garota insuportável.

Pela primeira vez, eu a via sorrir por tê-la chamado assim, geralmente, ela fecha a cara e me olha de um jeito assassino. Talvez, dessa vez, ela não tenha feito isso, porque estávamos nos despedindo.

—Não vai me esquecer, vai? Porque eu não vou te esquecer! – Eu lhe disse.

Ela entortou a cabeça e sorriu de um jeito matreiro.

—Como posso esquecer o quatro olhos mais nerd que já conheci na vida?

Nós sorrimos e o chamado de seu vôo nos lembrou que ela precisava ir. Nos despedidos com outro abraço, e dessa vez, quem surpreendeu fui eu ao beijá-la na frente de todos.

—Eu vou contar os dias pra te vê de novo. – Murmurei assim que nossas bocas se separaram.

—Desse jeito vai ficar paranóico, Grissom!

Eu sorri. Ela até podia não querer admitir, mas eu sabia lá dentro de mim, que ela também contaria os dias pra me ver novamente.

Então, ela seguiu para a fila de embarque e enquanto a via se afastar, pensei que não poderia deixá-la ir sem antes saber uma coisa, algo muito importante.

—SARA!! – Gritei e ela se virou pra me olhar. _EU TE AMO!

Seus olhos se arregalaram e depois do impacto de ter ouvido minhas palavras, ela me sorriu e deduzi que essa tinha sido sua resposta de que o sentimento era recíproco.

Aquela insuportável também me amava! Do jeito estranho e implicante dela, mas me amava!

E quando eu imaginei que ela fosse virar de costas depois das minhas palavras e seguir pra embarcar, vi Sara vir correndo rápido em minha direção e jogar-se em meus braços, abraçando-me tão apertado quanto eu a abraçava também.

—Eu também te amo! — Ela me murmurrou. Depois afastando seu rosto pra me encarar, deu-me um beijo rápido nos lábios.

—Agora vai. Senão eu sou capaz de te segurar e não te deixar mais ir. — Sorri.

Ela também sorriu. E então vi minha namorada seguir para o portão de embarque. A gente ainda trocou um último aceno e um último olhar antes dela sumir após cruzar o portão de embarque.

E assim ela foi embora!

Por você, eu esperaria até o final dos tempos
Até os meus dias, meus dias acabarem
E diga que virá e me libertará
Apenas diga que esperará, esperará por mim.

(Til Kingdom Come — Coldplay)

Notas finais
Agora falta só o epígolo que trará uma surpresinha. Até breve!