—Alô!

—Alô, Gil! Sou eu, Phillip.

—Ah, oi, Phillip!

Eu devia imaginar que ele ligaria a qualquer momento.

—Liguei para o celular da sua mãe, mas só deu caixa postal por isso resolvi ligar para o telefone da casa. Gostaria de saber como está a Beth.

—Ela tá bem!

—Hum... e eu poderia falar com ela?

—Um momento que eu vou chamá-la. — Resmunguei com insatisfação.

Deixei o telefone sobre a mesinha ao lado do sofá e fui até a cozinha avisar a minha mãe da ligação.

—Quem era ao telefone, filho?

—Phillip. Ele quer falar com a senhora.

Ela levantou de sua cadeira e saiu da cozinha na mesma hora pra ir falar com ele.

—Nossa! Quanta pressa pra ir atender a ligação desse homem. — Comentei, voltando a me acomodar em minha cadeira pra terminar o meu jantar.

—E você já tá com ciúmes da sua mãe.

—Que ciúmes o quê. Não viaja, Sara.

—É o quê então, quatro olhos?

—Não é nada, ora.

—Por que não admite que é um filho ciumento?

—Porque eu não sou!

—Você mente pessimamente!

—Não estou mentindo.

—Pois eu tenho quase certeza de que está.

—Dá pra parar?!

—O que o Phil queria?

—Saber como a minha mãe estava e depois pediu pra falar com ela. — Contei antes de beber meu suco.

—Você bem que podia chamar o Phil pra almoçar com a gente amanhã aqui na sua casa.

Eu imediatamente parei de beber meu suco e encarei Sara.

—Chamá-lo aqui? Pra quê?

—Pra ele fazer uma visita pra sua mãe, ora. Aposto que ele tá louco pra fazer isso, mas não faz por sua causa.

—Minha causa?

—Ele não quer se indispor com você. Phil sabe que não quer que ele venha aqui.

—Como ele sabe disso? Quem te disse uma coisa dessas?

—Quem você acha? Sua mãe, né.

—Ela falou pra ele que não o quero aqui?

—Nem foi preciso. Ela disse que ele mesmo deduziu isso. Bem que você podia fazer esse agrado a sua mãe e convidar o Phil pra almoçar aqui. Ela ia gostar tanto disso e ele também.

—É mesmo, é?! Mas infelizmente isso não vai rolar.

Eu não ia ligar pro Phillip chamando-o pra vir aqui. Tudo bem que eu estava em dívida com ele e que havia resolvido ser menos intransigente com o mesmo, mas era complicado pra mim isso.

—Por que não? Além do mais, seria uma ótima forma de você agradecer à ele pelos ingressos que ele te deu.

Ela não precisava me lembrar daquilo, pois eu sabia bem que tinha uma dívida com o Phillip.

—Sara, eu não vou fazer isso.

—Por favor!

Ela fez uma cara pidona que quase me convenceu, mas não!

—Na boa, não insiste nisso. Eu não quero. Tenta me entender, ok?

Ela bufou de raiva, mas não disse nada. Melhor assim!

Minha mãe voltou da sala e se acomodou à mesa com a gente. Ela contou que Phillip lhe disse que o outro bandido que faltava ser pego, havia sido morto em uma troca de tiros com a polícia. Agradeci mentalmente ao fato dela estar tão distraída contando aquilo, que sequer tinha percebido o clima diferente entre Sara e eu.

—Só é uma pena que as peças roubadas não foram recuperadas até agora. — Lamentou a minha mãe.

—Mas o seguro vai cobrir o prejuízo? — Sara quis saber da minha mãe.

—Sim, claro.

—Menos mal, então.

—Com certeza.

Terminamos de jantar e eu disse a minha mãe que ela podia ir pra sala assistir TV que Sara e eu arrumaríamos a cozinha. Eu precisava ficar sozinha com Sara pra saber dela se havia se chateado comigo pela conversa a respeito do Phil. Algo me dizia que ela havia, sim, se chateado, pois desde então ela pouco falou comigo.

Pra minha sorte a minha mãe aceitou sem objeção aquilo e seguiu sem demora pra sala, desse modo, só ficamos Sara e eu na cozinha.

—Tá chateada comigo pelo lance do Phil?

—Eu não vou mentir dizendo que não, quando a resposta é sim. Eu acho que está sendo muito crianção com esse ciúmes todo da sua mãe.

—Eu já disse que não é ciúmes. — Teimei em negar. Mas na verdade, eu sabia que era exatamente isso mesmo. Ela estava certa naquilo.

—E eu já disse que você mente pessimamente.

—Sara me escuta... é difícil pra mim isso. Por mais que eu tente me esforçar pra aceitar, ainda assim, tem certas coisas que não dá. Eu tenho que ir no meu tempo.

—Ou seja, um tempo de tartaruga, é isso?

—Olha, eu não quero discutir com você e muito menos, ficar nesse clima chato. Por isso, vamos encerrar a conversa, hum? Eu já disse que não vou ligar pro Phillip e você tem que aceitar a minha decisão, e principalmente, a minha opinião. Valeu?

Eu propus aquilo na maior paciência e tranquilidade, pois como havia lhe dito, eu não queria discutir com ela.

Achei que ela fosse rebater as minhas palavras, mas ela não fez isso. Sara aceitou o que disse sem dizer nada mais em resposta. Eu não sabia se aquilo era bom ou péssimo, pois pelo que eu já a conhecia, ela não era de aceitar tão passivamente algo e não debater mais sobre uma determinada questão. Aquela sua passividade me parecia estranha de mais. Entretanto, não quis comentar a esse respeito.

Nós então arrumamos e limpamos a cozinha, e assim que terminamos de fazer isso, fomos pra sala fazer companhia pra minha mãe por um bom tempo até a mesma resolver subir pra dormir, mas não sem antes nos dizer pra não ficarmos até tarde ali na sala.

Tão logo minha mãe sumiu, eu tomei a liberdade de ficar mais próximo de Sara no sofá.

—Eu acho que já vou dormir também! — Ela anunciou de súbito e já ficando de pé.

Como assim ela já ia dormir? Agora que a gente poderia aproveitar pra "ficar", trocar alguns beijos já que estávamos a sós, sem a minha mãe a nós espreitar, Sara iria dormir?

—Você tá brincando, né?

—Não. De repente bateu um sono. — Sara bocejou e eu não conseguir acreditar muito nesse seu sono repentino._Boa noite, quatro olhos.

Que boa noite quê nada! Ela não vai assim.

—Espera aí. — Segurei em seu braço antes que ela ousasse dar o primeiro passo pra se afastar de mim.

—O que foi?

—Vai assim só com esse "boa noite" e nada mais?

—E o que mais além do "boa noite", você quer de mim?

Ela só podia tá de zoação comigo.

—Um beijo pelo menos.

—Ah, isso?!... Sabe o que é, quatro olhos... não vai rolar beijo até você deixar de ser crianção e chamar o Phil pra almoçar aqui.

—Como é que é?

Não é possível que ela esteja me chantageando assim.

—É isso aí que você ouviu. Quer beijo? Então chama o Phil pra visitar sua mãe. Do contrário, não tem beijo nenhum.

—Você tá de sacanagem comigo, não é?

—Pior que não.

Está aí a aparentemente passividade dela em ter aceitado minha decisão. Ela fingiu que aceitou e não satisfeita, ela agora estava me chantageando na cara dura pra me fazer ceder naquilo.

—Sara isso não é justo. Pensei que tivesse entendido meu ponto de vista.

—Entender é uma coisa, aceitar é outra bem diferente. Agora, boa noite.

Vi Sara aproximar seu rosto do meu e por um momento, eu achei que ela fosse me beijar, mas não foi isso que aconteceu já que ela se afastou tão logo se encontrava a milímetros de mim.

—Bons sonhos pra você, quatro olhos. — Ela me murmurou com um sorriso irônico. Só podia tá querendo me enlouquecer.

—Você é a garota mais má e irritante que eu já conheci. — Resmunguei a ela que se afastava de mim sorrindo e fazendo pouco caso do que eu lhe disse.

Depois que ela sumiu, eu desabei no sofá em descontentamento. Sara não tinha o direito de me fazer aquela chantagem baixa e me pôr contra a parede daquele jeito.

—Isso não é justo!

...

Não é que ela tava levando aquela história toda a sério?! Eu juro que achei que fosse só algo que ela me disse ontem só pra me impressionar, ou pior, pressionar mesmo, mas não. Sara tinha falado muito sério. Já era a tarde do dia seguinte e nada dela me dar um beijo sequer durante o dia todo. É verdade que eu tentei algumas vezes roubar um beijo dela nas oportunidades em que ficamos sozinhos, mas ela não deixava. Tava fazendo jogo duro comigo. Dizia que só me daria um beijo se eu ligasse pro Phillip vir visitar a minha mãe.

—Sara isso que está fazendo não é legal, sabia?

Eu já tava perdendo a paciência com isso.

—E o que você tá fazendo com a sua mãe e o Phil, é legal por acaso?

—Eu não tô fazendo nada pra eles!

—Tá sim! Você está boicotando-os. Não deixando que eles se vejam aqui.

—E você está me boicotando ao não me deixar te beijar.

—Então pára de boicota-los, que eu paro de te boicotar também. Assunto resolvido!

Definitivamente, eu não ia ceder aquele capricho dela. Eu podia estar doido como fosse pra beijá-la, mas não ia ceder aquela chantagem barata de Sara. NÃO LIGAREI PARA O PHILLIP!

—Quer saber? Se você quer continuar com essa palhaçada, então vamos ver até onde consegui ir, porque eu não vou ligar pra ele coisa alguma.

Saí da cozinha deixando Sara sozinha lá. Subi as escadas e fui direto para o meu quarto. Me joguei na cama e suspirei enquanto encarava o teto. Coisa mais chata essa da Sara tentar me induzir a fazer o que não quero por meio daquela ridícula chantagem. Será que ela não entendia que eu não queria aquilo? E que me obrigar era pior?

Darei um tempo pra ela rever aquilo, porque ela tinha que se tocar que não era nada bonito o que ela estava fazendo.

Enquanto isso, resolvi que ficaria ali no quarto ouvindo música no meu celular. E sei que a qualquer momento a Sara iria vir me procurar.

—Droga! Esqueci o celular na cozinha.

Levantei e rumei de volta para onde havia deixado o celular.

—Seu filho é um cabeça dura, isso sim, tia Beth!

Ao me aproximar da porta da cozinha, eu ouvi essas palavras meio aborrecidas vindo de Sara. Parei, escondido ali próximo a porta e só fiquei espreitando o que viria a seguir naquele papo delas.

—Isso ele também herdou do pai.

Torci a boca com aquela confissão da minha mãe.

—Mesmo eu tendo dito que não o beijaria mais enquanto ele não chamasse o Phil aqui pra lhe ver, ainda assim, ele não cedeu.

Olha só, as duas estão mancomunadas nisso?!

—Eu acho melhor desistir disso, Sara. Ele não vai ceder. Conheço meu filho. Quando ele sentencia uma coisa é aquilo. Ele não volta atrás!

—Eu acho que a senhora devia chamar o Phil e se o seu filho ficar de cara amarrada deixa. Sabe por quê? Porque ele vai ter dois trabalhos, ficar assim e desficar.

Que ótima garota eu fui arranjar pra mim! Ela é um poço de sensibilidade pra não dizer o contrário.

—Não é assim, querida. Eu sei que eu tenho todo o direito de chamar o Phil aqui sem precisar do "aval" do meu filho pra isso.

—Então se a senhora sabe, por que não faz isso?

—Porque não acho que seria bom criar um mal-estar com meu filho. Além do mais, impor a presença do Phillip aqui em casa só fará o meu filho rejeitar o Phil, não acha?

—É, a senhora tem razão nisso.

"Claro que ela tem!", Pensei comigo mesmo.

—Eu gostaria tanto que o Gil desse uma chance ao Phillip de ser amigo dele. Os dois são muito importantes pra mim e nada me deixaria mais contente do que vê-los se dando bem.

—Mas pelo Phil isso poderia estar acontecendo. Quem não parece querer isso é o seu filho ciumento e cabeça dura. Ele não quer fazer o menor esforço pra deixar o Phil ser amigo dele.

—Por isso acho que insistir que o Gil aceite o Phillip a força não é o melhor jeito. Eu adoraria que o Phil viesse aqui me visitar, mas se isso causa desconforto no meu filho, então, eu prefiro não pedir ao Phil pra vir.

—Seu filho é um chato nessa situação, me desculpe. Poxa foi tão legal aquele dia nos quatro.

—Foi. Mas vamos deixar assim, Sara. Não insista mais com ele. Vamos dar tempo à ele.

—Se a senhora for esperar pelo tempo dele, então acho melhor esperar deitada, porque sentada vai ficar com dor nas costas de tanto esperar.

Que visão Sara faz de mim!

—Fazer o quê, né?!

—Eu não acho justo a senhora ficar se privando de trazer seu namorado aqui. Mas enfim...

—Amanhã como já voltarei a trabalhar, eu vou ligar para o Phillip e assim a gente marca de se ver e almoçar juntos.

—Que situação mais chata! Tudo por culpa do seu filho ciumento!

Ouvi minha mãe sorrir e resolvi sair dali. Já em meu quarto, eu não deixei de remoer a conversa que ouvi da minha mãe e de Sara.

" Eu adoraria que o Phil viesse aqui me visitar, mas se isso causa desconforto no meu filho, então, eu prefiro não pedir ao Phil pra vir."

Eu adoraria deixar aquilo por isso mesmo. Não dar bola e fingir que não ouvi nada. Mas não dava. A frustração e tristeza no tom de voz da minha mãe com aquela situação, era tudo que eu não queria nela. Sem contar, o descontentamento e o aborrecimento de Sara também.

—Droga! — Praguejei com insatisfação.

Eu tinha decidido ser menos intransigente com o Phillip e talvez, essa fosse a oportunidade perfeita pra mostrar isso. Mas era tão contra a minha vontade ter a presença dele ali. Todavia, depois de ter ouvido a conversa das duas lá embaixo, eu estava decididamente disposto a passar por cima da minha vontade e fazer esse "agrado" as duas mulheres que eu tanto gostava.

Notas finais
Pelo visto agora o Gil vai ceder e resolver deixar de lado a intransigência com o Phillip. Precisou ouvir essa conversa pra ele baixar a guarda. Agora é esperar pra ver o que o próximo capítulo reserva.