Notas iniciais
Sara pela primeira vez, vai ter um gesto de gentileza com Gil.

No outro dia de manhã quem disse que eu consegui me levantar? Os poucos músculos dos meus braços doíam, meu joelho esquerdo também, as minhas costas nem se fale. Eu parecia um velho sofrendo de reumatismo em todo o corpo. Deus! Tão cedo, eu não torno a jogar bola!

—Quatro olhos, você morreu aí dentro? São quase onze da manhã. Está na hora de levantar a não ser que esteja morto aí.

Revirei os olhos e tapei meus ouvidos com o travesseiro pra não escutar a voz de Sara. Aquela garota vinha só pra piorar mais ainda meu dia.

—Morreu, foi? – Ela forçava a porta que eu obviamente venho trancando desde o dia em que ela pôs os pés aqui. Não quero correr o risco de aquela doida invadir meu quarto na calada da noite pra me fazer alguma coisa. Ela é louca!

—Você adoraria que isso tivesse acontecido não é? Mas estou bem vivo pra sua infelicidade.

Do lado de fora do quarto escuto Sara rir alto do que eu disse.

—Dá pra você levantar e sair daí?! Tá um saco ficar sozinha lá em baixo. Sua mãe já saiu pra trabalhar que tempo e não tenho nada pra fazer e ninguém com quem conversar.

—E eu com isso?

—Levanta e vem me fazer companhia, vai?

‘’Deus! O que eu fiz pra merecer isso?’’

—Garota me deixa em paz, por favor!... Você não quer a minha companhia. Você quer é me atazanar!

Aquela altura eu que já tinha me levantado a muito custo, abri a porta e me deparei com Sara, escorada à parede ao lado da porta.

—Nossa, você não me parece legal. O que tem?

Acho que estava mais do que óbvio pela minha cara o quão mau eu estava!

—Parece que fui atropelado por um caminhão. Meu corpo tá todo doído de ontem. E se você rir de mim ou falar qualquer coisa a esse respeito, te expulso daqui e você vai passar o dia todo só lá embaixo. – Ameacei antes que ela tivesse a chance de bancar a engraçadinha.

—Ok!

—Ai, minhas costas! Até parece que levei uma surra. – Reclamei quando tentei me espreguiçar enquanto caminhava até a janela para abrir as cortinas.

—Sei fazer uma ótima massagem.

Lentamente me virei pra encarar Sara que continuava parada na porta do quarto. Por acaso perguntei alguma coisa a esse respeito pra ela?

—Que bom pra você! – Foi à única resposta que me veio à cabeça naquele instante.

—Se quiser posso te fazer essa massagem pra aliviar essa dor nas costas.

Oi?? Ela estava se oferecendo pra me fazer uma massagem? Por acaso, ela bateu com a cabeça ou esse tempo ociosa e sozinha na sala, afrouxaram alguns parafusos em sua cabeça?

—Você está bem? — Eu quis saber dela. Pra aquela garota se disponibilizar a fazer algo pra mim, é porque ela não estava bem da cabeça.

—Tô melhor do que você! E aí, vai querer a massagem?

—Obvio que não! Só se eu fosse maluco pra deixar você me fazer alguma massagem. É capaz de você acabar comigo mais ainda.

Ela riu.

—Eu sou boa. Vai ver que depois da massagem vai se sentir muito melhor.

—Não estou muito a fim de comprovar isso. Valeu!

—Você quem sabe então! – Ela saiu do meu quarto e eu me sentei na cama morrendo de dor.

Horas mais tarde a mesma dor persistia e agora eu podia jurar que ela estava mais intensa. Eu mal conseguia fazer as coisas em casa sem sentir uma fisgada na lombar e pra piorar tinha o meu joelho. Agora sinto as conseqüências de ser um sujeito sedentário!

—Tem certeza de que não quer a massagem?

Sara me interpelou da porta da cozinha. Há pouco tínhamos almoçado e por incrível que pareça, a insuportável da minha hóspede não tinha feito uma gracinha sequer até agora. E o mais incrível ainda, ela até tinha se disponibilizado a me dar uma mão na cozinha com o almoço e a louça. Acho que ela viu que eu realmente não estava legal das costas.

—Absoluta! Além do mais, eu tenho aqui um excelente relaxante muscular. — Mostrei a ela o remédio que pretendia tomar.

—Tomar remédio por conta própria não é legal. Sua mãe nunca te disse isso?

—Não ferra, Sara!

Não vou ficar ouvindo sermão dessa garota.

—Olha, eu tô querendo te ajudar, por que não aceita?

—Você querendo me ajudar? Por qual razão?

Agora eu fiquei sem entender. De onde surgiu esse interesse repentino de bancar a boa samaritana comigo?

—Porque eu não sou ruim como pensa. Tô vendo que você não tá legal. E eu posso te ajudar, cara. Ano passado, durante as minhas férias escolares fiz um curso intensivo de massoterapia. Na verdade foi a minha mãe que me obrigou a fazer essa porcaria de curso, mas enfim... Você vai ficar livre dessa dor num passe de mágica. Deixa de ser orgulho e aceita a minha ajuda.

—Você tá falando sério sobre essa parada de curso? – Eu não tava levando muita fé nisso.

—Mas é claro que eu tô. Se quiser ligo pra minha mãe agora e ela te confirma que me obrigou a fazer essa parada.

Depois dessa eu comecei a acreditar que ela estava falando sério.

Confesso que não esperava que essa garota tivesse feito um curso desses. Pra mim, quando ela se ofereceu pra fazer a massagem, juro, eu pensei que era só pra curtir com a minha cara. Jamais imaginei que ela saberia de fato fazer alguma massagem.

—E aí, qual vai ser? Vai querer a massagem?

Se for pra eu ficar livre dessa incomoda dor, então... Seja o que Deus quiser!

O máximo que pode ocorrer é eu ficar pior do que estou e se isso de fato acontecer, esgano essa garota!

—Tá bom! Eu aceito sua massagem. — Rendi-me e larguei o remédio sobre a bancada. _Mas juro que se você me deixar pior das costas, derrubo você pra minha mãe na parada do boliche.

—Você gosta de uma chantagem, hein? Vem, vamos subir até o meu quarto pra eu te fazer a massagem.

Subimos. E confesso a vocês que durante o caminho até o quarto, eu fui rezando para que aquela garota realmente me livrasse daquelas dores na lombar, ou do contrário, ela estaria em maus lençóis.

Chegando ao quarto, ela me ‘’pediu’’ pra deitar de bruços na cama e sem camisa.

—Quer que eu tire a camisa?

—Obvio! Como vou fazer a massagem por cima dessa camisa, quatro olhos? Tira isso! E não se preocupe que não vai me chocar com seus músculos de frangote.

—Tava demorando pra não começar o esculacho, né?

—Vai logo!

Meio acanhado, eu tirei minha camisa rápido e me deitei mais que depressa na cama morrendo de vergonha por ficar sem camisa diante de uma garota. Tudo bem, que a garota em questão não me interessa em nada, mas ainda assim, fico sem jeito de estar sem camisa na frente dela.

—Nossa, tudo isso foi pra eu não ver seus músculos de frangote? – Ela caçoou de mim.

—Dá pra começar logo com isso?

—Tá, mas antes deixa eu pegar uma coisa aqui pra facilitar a massagem.

Vi Sara ir até a cômoda e tirar de dentro de uma pequena sacola, um vidro ao que parece de óleo, mas não sei bem se era isso mesmo. Perguntei o que era aquilo, mas ela simplesmente me mandou: calar a boca!

—Você é tão educada!

—E você curioso!

—Mas eu tenho o direito de saber o que vai passar em mim. Dá pra me dizer?

—É um óleo corporal. Satisfeito? – Eu assenti. _Agora, cala a boca pra eu começar a massagem, quatro olhos!

Eu já ia abrir a boca pra lhe dizer uma grosseria por ter me mandado calar a boca de novo, mas emudeci assim que aquele cheiro de canela vindo do óleo dela invadiu minhas narinas e no instante seguinte, as mãos de Sara começaram a massagear as minhas costas.

Rapaz! Ela leva jeito pra massagem!

A garota pode até ser uma grosseira, mas sabe ser delicada com as mãos. Ela pegava nos pontos que mais doíam e era um alívio tão grande que eu sentia logo em seguia.

Não sei bem quando foi o momento em que ela parou com aquela massagem, pois no meio da coisa eu adormeci. Porém quando acordei e olhei no relógio já passava das cinco da tarde. Eu havia dormido umas quatro horas! Ela me aplicou uma massagem que me apagou completamente.

Ao me levantar não senti dor alguma! Milagre! Bem que queria acreditar nisso, mas a verdade era que aquela insuportável conseguiu me livrar mesmo das dores lombares e inclusive meu joelho não doía mais. Ótimo! Pela primeira vez desde que chegara aqui, Sara tinha feito algo de bom por mim. Eu teria que agradecê-la por isso!

Saí do quarto a procura da Sara pra agradecê-la. Fui primeiramente até seu quarto, mas ela não se encontrava lá. Se ela não se encontrava ali então só podia estar no andar de baixo na sala ou na cozinha. Desci e também não a encontrei nos cômodos dali. Estranhei! Onde aquela criatura estava? Saiu sem ao menos se dignificar a avisar. Minha mãe vai querer minha cabeça se alguma coisa acontecer a essa garota.

Peguei meu celular do bolso do short pra ligar para Sara a fim de saber onde ela havia se enfiado, quando a porta da sala se abriu e aquela criatura entrou toda sorridente e na companhia de outra garota que eu sequer conhecia.

—Ah! O ‘’belo adormecido’’ já acordou! – Sara brincou assim que notou minha presença na sala. _Essa é minha prima Leslie. Prima esse é o quatro olhos.

—Grissom! Meu nome é Grissom! – Corrigi de cara amarra por ela ter me apresentado assim.

—Olá, Grissom! – A garota me acenou, sorrindo. _Nossa! Pela forma como minha prima te descreveu pra mim, eu imaginei que você fosse diferente.

Era de se supor!

—Imagino! Aposto que me imaginou um pateta idiota, ou melhor, um nerd ridículo. Acertei? – Se duvidasse aquela garota me imaginava pior do que isso.

—Não exatamente!

—Eu não te pintei tão ruim assim pra ela. Disse apenas que você era um cara nerd com jeito bem nerd.

—Ah, claro!

Sara riu aquele seu sorrisinho de deboche o qual eu já conhecia bem.

—Bem... Como você apagou e demorava pra acordar. Eu liguei pra minha prima vir me buscar pra dar um rolê pela cidade.

—Podia ter deixado um recado avisando que saiu pra dar um... Rolê!

—Ah, que fofo! Ele ficou preocupado com o meu sumiço, prima. Bem que eu desconfiava que apesar de tudo, você gostava de mim. Senti a minha falta quando não estou por perto e até se preocupa comigo.

No sonho dela que isso aconteceria.

—Não viaja, garota. – Eu ri daquele despautério. _ Só era pra ter avisado, porque a minha mãe podia chegar e a primeira coisa que ela faria era perguntar por você, e eu teria que dizer algo.

—Sei!... Bem, eu deixei um recado bem aqui.

Sara levantou um papel que estava na mesinha perto do telefone. Como eu ia adivinhar que aquele troço estava ali?

—Da próxima vez deixa em um lugar mais visível, garota!

Ela riu.

—Se vocês me dão licença...

—Não quer saber onde fui? – Sara me interrompeu.

—Não! – O que ela faz e aonde vai pouco me importa mesmo.

—Melhorou das dores na costa e no joelho?

—Sim! E a propósito... Obrigado!

—Não ouvi direito o que disse. Pode repetir?

Olhei para a prima de Sara e ela se segurava pra não rir daquela palhaçada armada pela prima. Palhaçada, porque eu tinha agradecido num tom audível pra Sara, e ela fingiu que não tinha escutado só pra eu repetir aquilo novamente.

—Você ouviu sim! Não me faça repetir.
—Vai ter que repetir porque no momento em que você falou, os meus ouvidos falharam e não consegui te ouvir, quatro olhos.

—Já agradeci. Agora se você não escutou o problema não é meu. Com licença e Leslie foi um prazer te conhecer.

Sai da sala em direção a cozinha e ainda pude ouvir a risada de Sara e o comentário da prima dela lhe dizendo que "ela era terrível".

Eu que o diga isso! Sei muito bem o quão terrível é aquela garota.

Notas finais
Beijos e até o próximo.