A Híbrida - laços de sangue

1 Viagem no tempo - parte um


Anos antes...

"Oldeom finalmente minha!" Pela vigésima vez esse pensamento ecoava pela mente do demônio. Não fora fácil tomar o controle de Oldeom, talvez tenha sido sua maior dificuldade nos seus trinta milênios de vida.

— O que tanto pensa Trevor? – perguntou Donna ao marido, que observava a cidade pela enorme janela de seu escritório.

O homem de postura inigualável e porte físico invejável virou-se à sua mulher, revelando seus olhos amarelados e seus cachos louros esvoaçantes pelo vento que percorria pelas entradas do Castelo de Amur. Este castelo composto por trezentas suítes, quinze cozinhas, vinte bibliotecas, um salão principal, trinta banheiros, e vinte torres externas ao castelo, mas interligadas.

Trevor pensou um pouco antes de responder.

— Nossa glória. – um sorriso cínico e malicioso surgiu nos lábios corais do demônio. – Foi muito complicado, porém valeu a pena! – ele voltou a olhar as construções de Oldeom.

Donna se aproximou, passando as mãos pelas costas do marido. Ele se virou a ela, e de forma delicada puxou-a para si tomando-lhe os lábios. Um beijo calmo e suave, sem alterações hormonais bruscas.

— Sentes saudades dos tempos em Herdest? – perguntou com um semblante sério.

A mulher sentiu um frio na barriga ao lembrar-se de seu passado. Fora um tempo sórdido de dor, sofrimento e pura maldade. Contudo, muito excitante. Gostava de sentir o prazer que os gemidos de sofrimento causavam si, o modo de como fugir das autoridades era emocionante. Donna foi responsável por mortes cruéis, covardes e temíveis ao ponto de Trevor não querê-la como inimiga. Mas um dessas mortes era especial, Damon Spiriks.

Tal homem possuía fama tão grande em Herdest, que no dia de sua morte fora decretado feriado planetário. Damon era príncipe de Galzec, um dos sete de planetas – todos destruídos por Trevor e Donna – da dimensão de Herdest, uma das mais evoluídas e ameaçadoras aos demônios. Donna planejou e concretizou sua morte. Pegou-o ainda quando dormia e enfiou em seu peito, uma adaga infernal. Ele era seu marido, ex-falecido marido.

— De maneira alguma, meu amor. – ela abriu um sorriso malicioso. – Damon era um bom homem, – alguns momentos íntimos com o falecido passaram-lhe por sua mente. – mas nunca chegará a tua altura.

Trevor e Donna mais uma vez, juntaram-se num beijo. Agora ardente, profundo e cheio de desejo carnal dilacerante. Ele se afastou.

— Espero que continue assim Donna. – disse firme. – Caso contrário, não terei o mínino de pena de tua mísera vida. – arqueou as sobrancelhas e foi à mesa de bebidas.

Trevor, em nenhum momento, deixou de ressaltar seus únicos interesses em Donna. Dar-lhe os filhos, a sua periculosidade – a qual Trevor não quer sua oposição – e sua sede de poder. A início a ideia de casamento de interesses parecia boa, porém com o passar dos séculos percebeu que não havia apenas interesse por sua parte. Donna estava realmente se apaixonando. Porém seus interesses sempre falaram mais alto.

O demônio serviu-se um gole de whisky e pegou uma dose para sua esposa,que bebeu num só gole. Trocaram sorrisos perversos, com os pensamentos mais imundos que podem existir.

As portas de seu escritório abriram. O único que tinha tal liberdade era Robert, o filho mais velho do casal. Era a quem Trevor depositava toda sua confiança. Robert, em alguns aspectos puxou ao pai. Seus cachos louros, e sua personalidade maligna. Além disso, seus cabelos eram mais longos vinham até o ombro, os olhos negros como as noites de eclipse e puxadinhos, sua pele alva, contrastava com as marcas vermelhas feitas pelos demônios quando nascido. Uma marcação de demônios de primeiro escalão.

— Pai, mãe. Rúbion os chama para dar-lhes boas notícias. – ele abriu um curto sorriso.

— Já iremos. – respondeu a mãe.

O casal se entreolha ou seguiram o primogênito até a sala de magia, também conhecida como Sala de Rúbion. A sala possuía duas mesas centrais, onde se tinha milhares de frascos laboratoriais vazios, alguns livros de capas escuras e grossas. Alguns castiçais espalham-se pelo cômodo, e o iluminavam juntamente a uma lareira no canto da sala. As paredes totalmente brancas misturavam-se aos coloridos das enormes prateleiras de livros e as pedras de granito escuro no chão. No fim do cômodo jazia um homem, sentado e muito concentrado em, no que parece, um ritual mágico.

— Rúbion, – chamou o pai. – Como andam os rituais que eles fazem? – perguntou Trevor.

— Angleton. Texas, Estados Unidos. Catedral de São Pedro. – disse eufórico. – Fazer um ritual satânico numa igreja. – ele riu e todos presentes juntaram-se a ele. – Bem, ontem à noite, foi o último. Porém, temos um padrão nesses cultos todos fracassados.

— E qual seria esse padrão? – perguntou o pai.

— Todas as últimas sextas e as primeiras quartas feiras da lua cheia. – respondeu passando a mão pelos seus negros cabelos.

O demônio olhou as horas ansioso. Aquela seria última sexta da lua cheia. A próxima seria apenas a três meses lunares em Oldeom. Aquela seria a noite mais importante de suas vidas. A noite que seria concebida a híbrida, filha de Trevor. O destruidor de mundos. A oitava na linhagem de oito filhos. Teria quer ser essa noite. Essa criança seria a mais forte criatura sobrenatural já existente em todo o universo conhecido.

•♥•

Passaram-se algumas horas desde aquela conversa familiar sobre o mais novo membro da família. O casal de demônios permaneceu trancado na sala do trono, conversando sobre como iriam pegar essa criança e como a trariam para Oldeom.

Em alguns momentos, foram interrompidos por questões do reino. Mandados de morte e prisão, traições ao reino, problemas entre agricultores. Era um completo tédio para Trevor ficar nesse lugar. O regime totalitarista que havia implantado ainda era pouco para ele.

Quando o relógio apontou exatamente à meia-noite, ele já estava preparado para aparecer pela primeira vez em milênios, aos humanos. Ele podia sentir a euforia tomar conta de si, a excitação em suas veias. Seu corpo emanava o desejo.

A família estava toda reunida em volta do portal interdimensional. Os filhos e Donna de um lado e Trevor do outro. Todos estavam felizes, exceto Donna. Para tal ato teria que ser traída e não gostaria de um par de chifres em sua cabeça.

O chamado do demônio fora feito. Ele escutou as palavras: Et Satanico sint uos creatura, malum est. Venit ad discipulos suos. Trevor atravessou o portal. A princípio sentiu seu corpo queimar, e os ossos derreterem e voltar tudo ao normal em questão de segundos. E finalmente pôde ver o que queria.

A igreja estava lotada. Era um ritual coletivo. Poderia escolher qualquer uma daquelas mulheres que ali estavam, havia louras, morenas e ruivas. Mas uma questão chamou-lhe atenção. Uma loura sentada no último banco da igreja. Ela estava de capuz e apenas podiam-se ver seus cabelos.

Um homem, cujo apontou ser o padre, aproximou-se dele, olhando-o assustado.

— É Lúcifer? – perguntou o homem, com um sotaque britânico e aos ouvidos de Trevor, aquilo era terrível.

Trevor olhou para o homem e sorriu ironicamente.

— Isso é um insulto ao meu nobre pai. – e riu. – Creio que um anjo, não faria isto. – Trevor mostrou seus olhos amarelos mais intensos e com a mente jogou o padre longe.

Trevor caminhou por entre os fiéis e viu o medo percorrer suas veias. Podia sentir o sangue pulsando em suas veias e se controlou para não atacar nenhum deles ali, seu objetivo maior era encontrar a mulher que geraria sua filha. O que o mantém imortal e devorar almas de todos os tipos de seres. Ele se aproximou da mulher de capuz e tirou-o de sua cabeça.

— Venha comigo. – ordenou.

A mulher levantou seus olhos para encará-lo. Trevor viu algo como nunca antes havia visto. Os olhos dela estavam em chamas, e um sorriso provocativo apareceu em seu rosto. Então, ela piscou e a coloração de seu olho mudou para um cinza escuro. Os traços delas soavam tão delicados e seus lábios eram muito convidativos.

— Bruxa. – afirmou com toda a certeza.

— Sim. – a mulher respondeu. – Bruxa.

As pessoas se desesperaram. Um demônio e uma bruxa num local sagrado. O mais interessante é que, Trevor não podia pisar em solo sagrado, mas algo lhe deixava pisar ali.

— Vamos. – disse o demônio enquanto via as pessoas correndo para lá e para cá, e com os seus pesadelos em sua mente.

Trevor estava controlando a mente de todos. Mostrando-nos seus piores pesadelos, e tentou colocar isso contra a bruxa, porém não conseguiu. Ela era imune a sua telepatia.

— Qual seu nome? – perguntou esperando uma resposta, mas não obteve.

Com um estalar de dedos, Trevor os teleportou para as ilhas do Caribe. Um hotel de luxo à beira-mar, localizado numa das ilhas paradisíacas.

— Foi você que me chamou, não é mesmo? – perguntou.

— Achas mesmo que foram eles? – ela riu sarcástica. – Não mesmo docinho.

— Você está muito confiante. – disse desconfiado. – O que você quer?

Ela se afastou um pouco do demônio, não estava tendo uma boa sensação e estava muito tonta. O demônio aprontou para cima dela.

— O que você fez maldito? – perguntou convicta que fora dopada de alguma forma.

Trevor sentou-se no sofá que se dispunha na varanda do hotel. Cruzou as pernas e sorriu provocativo, e estalou os dedos fazendo aparecer um dos champanhes mais caros que existem, quer dizer, a mais cara "Blood of Diamonds*", com valor em volta de 3,8 milhões de reais.

— Conhece esse? – disse mostrando o vidro cheio do líquido. – É o mais caro que existe.

— Regna terrae, cantate deo, psallite dominio. Tribuite virtutem deo...

— Acha mesmo que esse tipo de exorcismo barato, vai me mandar pro inferno? – ele colocou champanhe numa taça que apareceu do nada. – Tenho passagem direta para o inferno. Você não vai me prender lá. Sou interdimensional minha doce Kate Wlandynsk.

Nesse momento Kate, já estava totalmente sem foco de visão e enxergava três a cinco Trevor's. Mas ainda tinha uma breve consciência.

— Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omininas satanica potes tas, omnis incuriso infernalis adversarii, omnis legio, omnis congredatio et secta diabolica...

— Faz cócegas. – ele tomou um gole do champanhe rindo da bruxa. – Esses exorcismos de bruxas são no mínimo ultrapassados para mim. Sou Trevor Marduk, destruidor de mundos. Muito prazer em conhecê-la Kate Wlandynsk. É uma mulher muito bela.

O demônio pôde perceber que Kate já apresentava sintomas do feitiço. Então, levantou e pôs-se a segurá-la para não cair no chão assim que desmaiasse.

Kate sentiu os olhos fecharem e suas forças saírem de seu corpo. E um borrão foi tomando conta de sua visão, fazendo o mundo desaparecer e apenas um borrão enxergar. Ela pensou que estaria sem consciência, mas não. Ela podia escutar e sentir tudo o que se passava ao redor, porém não poderia se mexer bem ver. O que a assustava em completo.

— Vamos ter uma noite maravilhosa Kate. – ele gargalhou ao colocá-la na cama. – Prometo.

•♥•

O barulho irritante das máquinas, as paredes tão brancas que doíam os olhos e a presença de um homem a sua frente com uma prancheta denunciaram o lugar onde Kate estava. Um hospital.

Não sabia como havia parado ali, o que havia acontecido, ou o porquê de estar num hospital. Apenas sentou e se viu diferente e sua barriga maior, muito maior.

— Quem é você? – disse assustando o homem, que aparentava ser o médico. – E por que estou aqui?

Ele arregalou os olhos, abriu um largo sorriso ao ver Kate finalmente falando e suspirou em alívio.

— Meu nome é Aaron Watson, sou residente aqui no hospital. – respondeu. – Venho acompanhando seu desde que chegou aqui, há seis meses. Um homem te encontrou na rua, toda ferida e tinha traços de estupro. Aí descobrimos que estava grávida, dois dias depois. Não sei como essa criança sobreviveu com você em coma Sra. Wlandynsk.

— Não acredito. – ela deixou as lágrimas caírem lentamente pelo seu rosto. – Aquele demônio desgraçado.

— Bem, se serve de consolo, a equipe médica conseguiu identificar o suspeito, através de pêlos encontrados em seu corpo. – disse um pouco desconfortável. – Ele se chama Cassy Odjack, mas foi encontrado com vários tiros, dez dias depois que você deu entrada aqui.

— Não vai adiantar. Demônios não morrem com balas normais. – pensou alto.

— O que disse Sra. Wlandynsk? – perguntou o residente.

— Nada, apenas não acredito que estou grávida de um demônio. – ela riu pelo nariz, ironicamente e ficou observando pela janela os corvos e anus atravessarem o céu da cinzenta cidade...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.