A Hospedeira 2 - Depois do fim
17 Capítulo 17
Notas iniciais
POV — Lua
Quando chegamos em casa, já era noite. John entrou para o banho enquanto eu preparava algo para comermos. Resolvi que faria apenas uma torta salgada.
Nosso passeio foi suficiente para que eu soubesse o amor que sentia por John era incrivelmente grande. A cada momento que estávamos junto eu podia sentir meu coração disparar e minhas mãos suavam frio. Eu sabia que teria de ir para casa o mais depressa possível. Eu precisava levar Peg e Alice para sua casa, precisava levá-las de volta para Ian, para Melanie, para Jamie, para Jared. Lavá-las para aqueles que eu amava e nem, se quer, sabiam que eu existia. Era preciso. Alice precisava de seu pai, Peg precisava de sua família e eu, bem, eu precisava de John, precisava de Peg, precisava de Alice, precisava de Ian, precisava de Mel, precisava de Jamie, precisava de Jared, precisava da família que adotei como minha e quem sabe de minha existência. Um aperto no peito percorreu todo meu corpo ao frágil pensamento de que nada pudesse dar certo. Peg parecia assentir para mim, algo que me confortou. Minha irmã. Minha amada irmã. Era ela que me dava forças para continuar. Passei a mão por minha barriga e Alice à chutou. Sorri. Junto a elas eu decidi partir esta noite. Eu iria para casa essa noite. Deixaria para trás um pedaço do meu coração: John. Ele ficaria chateado, mas teria que entender. Ele iria entender. Coloquei a torta no forno e fui para meu quarto. Aproveitei que John estava no banho e coloquei minhas poucas roupas numa mochila junto as poucas roupas de Alice. Deixei uma calça jeans, uma blusinha de cetim azul clara, um casaquinho preto e meus tênis também pretos dentro do armário para que não demorasse muito a sair. Ouço a porta do banheiro se abrir e jogo minha mochila em baixo da cama.
— Tudo bem Lua? — John aparece na porta apenas com uma calça de moletom cinza e os cabelos louros molhados.
— Tudo, tudo sim! — respondi um pouco nervosa. — Vamos comer? Estou morrendo de fome! — digo correndo até a cozinha e tirando a torta do forno.
— Também estou com fome e essa torta está com um cheiro maravilhoso. — foi até a geladeira e pegou uma jarra com suco.
Cortei uma fatia e coloquei em seu prato o entregando. Ele serviu dois copos de suco e se assentou num dos banquinhos do balcão e começou a comer. Eu mal toquei no meu prato, apenas fiquei brincando com a camida. Eu tinha de conversar com John. Esperei que ele terminasse de comer para falar.
— John... você sabe que eu vou ter de ir embora algum dia, não sabe? — perguntei encarando meu prato.
— Como assim? — perguntou me encarando meio confuso.
— Eu tenho que devolver Peregrina e Alice para a família delas John! Eu preciso fazer isso. — continuei com a voz calma.
— Não entendo. Peregrina não existe mais! Alice agora é sua filha. E a família dela nem sabe de sua existência. — seu olhar era frio mas o tom de sua voz era calmo.
— Peregrina existe! — disse um pouco mais alto. Ele me olhou surpreso. — Ela existe e precisa ter sua vida de volta! — continuei determinada.
— Ela... ela fala com você? — perguntou assustado.
— Não! — menti. — Mas eu sei que ela ainda existe. Ela merece sua vida de volta John. Ela merece sua família de volta. Ela merece participar da vida da filha. Ela é minha irmã! Minha família! Alice precisa do pai. Alice precisa da mãe! — eu disse determinada.
— Mas Lua. — ele parecia desesperado. — Você não pode se arriscar dessa forma. E você? Você merece sua vida também. E você também é mãe de Alice tanto quanto Peregrina. Você pode continuar aqui! Você tem que continuar aqui. Eu preciso de você aqui. — algumas lágrimas começaram a descer por sua bela face. — Eu te amo Lua! — agora eu também chorava. — Você não entende? Eu te amo. Eu posso ser o pai de Alice. Nós cuidaremos juntos dela. Ela vai receber todo amor e carinho do mundo.
— Eu acredito em você! Eu sei que você seria um ótimo pai para ela. Eu te amo John. — segurei seu rosto com minhas mãos. — Entenda isso. Eu te amo. E sempre vou te amar. Mas eu preciso fazer isso. Por Peg. Por Alice. Por mim. Eu te amo tanto.
— Então... então... me deixe ir com você. Eu posso te ajudar. Nós faremos isso juntos. Lua, nada mais importa... eu só preciso de você aqui comigo... nada mais... apenas você! Me promete que não vai me abandonar. Promete pra mim Lua. — implorou.
Não respondi. Apenas o beijei da forma mais carinhosa possível. Ele retribuiu o beijo que se intensificavam a cada instante. Nossos lábios se moviam em perfeita sintonia, como uma dança ensaida por meses. Éramos apenas nós dois ali. Juntos. Ninguém mais. Apenas nós dois. Era um beijo calmo, ao mesmo tempo acelerado, cheio de amor e carinho. Eu sabia que precisávamos um do outro, mas eu não podia o deixar se arriscar indo comigo até as cavernas. Os humanos são perigosos. Muito perigosos. Nos separamos por falta de ar e colamos nossas testas respirando avidamente.
— Eu te amo! — disse a mim. Sua voz era um sussurro baixo.
— Eu te amo! — respondi também em um sussurro.
Nos levantamos e fomos para a sala. Ele se assentou na poltrona e colocou-me em seu colo me abraçando carinhosamente. Repousei minha cabeça em seu peito e fechei os olhos. John puxou meu rosto levemente e colou nossos lábios novamente num beijo amoroso. Nos desvencilhamos e continuamos abraçados por um longo tempo até que ele dormiu. Esperei mais alguns minutos e me levantei com cuidado para não acordá-lo. Caminhei com cuidado até meu quarto e troquei meu vestidinho pela roupa que já havia separado. Peguei a mochila debaixo da cama pus meu vestido ali dentro e escrevi um bilhete para John. Saí do quarto depressa com a mochila nas costas, coloquei o bilhete sobre o balcão da cozinha, peguei as chaves do carro e fui até John depositando um último beijo em seus lábios antes de sair.
Já na garagem do prédio, apertei o botão da trava do carro e entrei. Eu não sabia dirigir mas, Peg sabia. Deixei que o volante fosse dominado por ela e fomos pensando sobre o que faríamos por todo caminho. Ela me mostrou toda a rota pelas estradas escuras e desertas, por sorte já estava amanhecendo. Peg estava tão animada. Eu, de certo modo, também estava, mas a tristeza por deixar John acabava me dominando. Foquei os pensamentos nas coordenadas passadas por Peg.
Assim que chegamos perto de um pequeno armazém chamado Picacho Peak, Peregrina se alvoroçou.
"Ali! Estamos perto! Pare lá! Precisamos de mantimentos!" — assenti e estacionei numa das vagas do estavionamento vazio.
Respirei fundo, ajeitei o casaco e entrei no estabelecimento. Meu estomago se contorcia em piruetas à medida que avançavamos. Eu estava com medo de ser descoberta. Estava com medo de tudo dar errado. Um senhor simpático olhou para mim assim que entrei pela porta.
— Posso ajudá-la senhorita? — perguntou sorrindo.
— Hum... — pensei um pouco antes de responder. — O senhor teria agumas mochilas? — perguntei pensando em como prosseguir.
— Oh, claro. — disse apontando para uma prateleira à minha esquerda.
Assenti e comecei a andar a procura de galões d'água.
"Pegue dois com quatro litros. Deve ser o suficiente." — Peg começou a dizer analisando os galões.
"Não vamos conseguir carregar tudo isso!" — protestei.
"Claro que vamos! Ande, pegue logo!" — fiz o que ela mandou pegando um dos galões com quatro litros outro com dois. Ela bufou.
"Precisamos de comida!" — sugeri.
"Escolha coisas leves! Há algumas barras de granola ali. Pegue-as." — ordenou.
Peguei alguns pacotes com bolachas, alguns mini bolinhos de chocolate — que foram reprovados por Peg — os galões de água e as barras de granola. Levei tudo ao caixa e o mesmo senhor olhou para mim e logo depois para as minhas compras. Um imenso frio na barriga me dominou.
— Vai fazer uma trilha querida? — perguntou enquanto eu adcionava um mapa e duas bolsas às coisas sobre o balcão.
— Sim. Esta um dia lindo lá fora. — respondi engolindo em seco.
— Sem dúvida! Mas tome cuidado. Há bastante casos de desaparecimentos nessa área. — disse se preocupando verdadeiramente comigo.
— Tomarei cuidado. — ele me entregou as sacolas.
— Boa sorte e divirta-se! — sorriu.
— Obrigada! — respondi apenas e fui para o carro.
Ajeitei minhas malas no banco ao meu lado, peguei um pacote com bolinhos, dei partida no carro e adentrei no deserto depois de ter certeza que ninguém me observava. Meu pensamento vagou em John. O que ele estaria fazendo agora? Já teria visto meu bilhete? Estaria magoado comigo? Estaria furioso comigo? Eu não poderia saber. John estava a milhares de quilômetros daqui e não nos veríamos mais. Eu teria sorte se vesse a luz do dia outra vez. Peg me prometeu que encontraria uma hospedeira para mim assim que eu a libertasse. Eu confiava nela. Apenas duvidava se os outros humanos iriam me querer por perto. Os humanos que eu amava mesmo sem conhecer. A minha estranha família que nem era realmente minha. Alice se mexeu dentro de minha barriga e eu sorri instantaneamente. "Estamos quase lá meu bem!", sussurrei para ela afagando minha barriga por cima da blusa azul clara. Peg também se contorcia dentro do meu pensamento. Ela estava imensamente feliz.
Depois de muito andar dentro daquele carro, o sol começava a ficar forte demais o que fazia minha cabeça doer. A água estava na metade e só sobravam poucas barrinhas de granola. Desliguei o carro e o deixei ali mesmo, perto de algumas pequenas árvores esqueléticas. Eu precisava encontrar uma sombra rápido. O ar abafado do carro junto ao calor do sol não me fazia bem. Desci do veículo e me senti incrivelmente tonta. Caminhei trocando as pernas até uma das árvores finas de poucas folhas e minhas forças estavam se esgotando. Peregrina gritava agudamente em minha cabeça fazendo-a doer mais e mais. "Seja forte Lua. Você consegue! Precisamos chegar lá!!", ela gritava repetidas vezes. Levei as mãos em minha cabeça e a segurei forte tentando, sem sucesso, fazê-la parar de girar. Era assim que iríamos terminar? Eu iria morrer no meio de deserto escaldante!
Todas as forças presentes em meu corpo se extinguiram e eu caí no chão em um baque surdo. A pouca sombra em meu rosto o fez parar de arder mas não evitou que eu desmaiasse ali, no chão arenoso do deserto. Meu último movimento foi levar as mãos a minha barriga a abraçando. Alice... pobre Alice...
Fale com o autor