A Hospedeira 2 - Depois do fim
15 Capítulo 15 - Infinito roubado
Notas iniciais
POV — Melanie
Desde o dia em que perdemos Peg naquela incursão, as coisas não têm sido mais como antes. Tudo está mais sombrio, os sorrisos alegres vistos quase todos os dias, não são mais tão frequentes. Já se passaram quase quatro meses e não creio que as coisas voltem a ser como antes tão cedo. O ambiente anda pior do que quando Peg e eu chegamos aqui num só corpo. Jamie só é visto de cara fechada, andando pelos cantos sem falar uma só palavra com os demais, às vezes o pego chorando escondido mas, não é pra menos, Peregrina foi uma irmã para ele. Jared voltou a ser aquele homem sombrio sem sorrisos que era eu cheguei aqui enjaulada dentro de meu próprio corpo. O que dizer de Ian. Ele mudou. Não sai do quarto a não ser para trabalhar arduamente. Ele sai logo pela manhã trabalha sem, ao menos, comer nada e volta para o quarto no fim da tarde. Não diz nada, não sorri. Ele se prendeu na dor que nunca vai conseguir esquecer. Seu quarto, antes cheio de vida, agora escuro. Todas as entradas de luz foram cobertas. As roupas de Peg continuam espalhadas na cama, como ela deixou antes de saírmos naquele dia. Os livros que ele costumava ler para Ian durante a noite, antes de dormirem, ficam abertos na última página lida por ela e espalhados pelo quarto. Ian costuma ficar relendo essas páginas sentando numa poltrona encostada num canto do quarto. Seus olhos safira, antes vivos e cheios de alegria e amor, agora são frios, cheios de dor. Lembro-me do quanto ela amava aqueles olhos, do quanto ele amava aquele homem. Tenho certeza de ela não gostaria do que ele se tornou. Eu, por minha vez, tenho tentado fazer as coisas voltarem a ser como antes. Sempre que posso tento falar com Ian, tento levantar o astral de Jamie, tirar algum sorriso do rosto de Jared, mas não consegui. Eu nunca conseguirei ser como Peg. Como minha irmã, que foi arrancada de mim, arrancada de todos nós. Junto com ela, foram levadas a vida dentro das cavernas. Eu sinto tanto sua falta.
Um bom tempo antes, quando ela pensou que íamos deixá-la morrer para me devolver minha vida, eu fiz uma promessa a ela: Eu cuidaria de todos que ela amava, de toda sua família, inclusive de Ian. E eu iria cumprir essa promessa, por mais difícil que fosse, eu a cumpriria. Era doloroso demais ver como a vida se seguia dentro das cavernas. Era doloroso ver o que estava acontecendo com Jamie, com Jared. Era doloroso ver o que Ian havia se tornado. Eu não podia fazer nada a respeito. Não podia simplesmente apagar o acontecido. Mas, de qualquer forma, eu não iria desistir, nada é impossível a menos que você acredite que seja. Eu iria ajeitar tudo, mesmo que demorasse a minha vida toda. Eu faria isso pela minha irmã.
Os suprimentos estavam acabando. Desde o acontecido não havíamos saído novamente para buscar mais coisas. Por sorte o furgão havia conseguido escapar e trazer todos os suprimentos que havíamos conseguido. Iriamos precisar sair a qualquer momento. Sempre que a palavra incursão entrava por meus ouvidos as imagens da maldita noite vinha a minha cabeça como flashs. Era como um filme. Passava por meus olhos sem nenhuma interrupção, sem nenhuma falha.
Gritos. Somente gritos. Tudo o que eu conseguia fazer era gritar e me debater nos baços de Jared para sair e ir buscar Peg, que estava caída no meio de toda aquela areia e sangue. Ian estava caído ao meu lado, inconciente, por causa do sonífero que Jared havia dado a ele para que não sentisse dor pelo tiro levado no ombro. Alguns buscadores haviam ido embora em direção a cidade para levar o que foi atingido na perna por Jared. Outros ficaram esperando para ver se ainda conseguiriam nos pegar, caso saíssemos do meio dos arbustos. Eu ainda chorava agarrada ao peito de Jared. Por quê? Por quê isso tinha de acontecer? Se eu tivesse tomado mais cuidado. Se e não tivesse olhado para aquela recepcionista para me despedir. A culpa era minha. Toda a culpa era minha.
Mais tarde, quando os buscadores restantes já tinham ido embora e levado Peg com eles — o que me fez chorar ainda mais -, Jared saiu em busca de ajuda. Afinal ele não conseguiria levar Ian sozinho de volta para as cavernas. Depois de um longo tempo ele voltou acompanhado de Kyle, Aeron e Jeb. Com um pouco de dificuldade conseguimos levar Ian de volta para as cavernas. Todos vinham até nós perguntando sobre o que tinha acontecido, querendo saber onde estava Peg e tudo o que eu fiz foi me assentar no chão e chorar, chorar como nunca havia chorado antes.
Estava tudo acabado!
Tio Jeb me tirou de meu devaneios quando entrou na cozinha e me chamou para uma reunião na sala de jogos. O segui, ainda sem entender muito bem o motivo da reunião repentina. Ao chegarmos lá, todos já estavam me esperando, todos os presentes, no caso: Jared, Kyle — de braços cruzados e com o rosto franzido numa expressão contrariada — , Sunny, Aeron e Lilly. O tema da reunião já estava bastante claro para mim: uma nova incursão e, pelo visto, Jeb queria que Sunny fizesse parte dela, aí o motivo pela cara fechada de Kyle. Eu o entendia perfeitamente. Tio Jeb começou dizendo o motivo por todos estarem ali: o fim dos suprimentos.
— Pessoal. Como todos sabem, precisamos repor o nosso estoque então, os chamei aqui para informar que a incursão devera sair o mais depressa possível e para que as coisas se tornem mais fáceis, Sunny deverá ir com vocês. — agora a coisa ia ficar feia!
— Calma aí Jeb! — Kyle protestou elevando o tom de voz. — A Sunny não vai a lugar nenhum! Se você está achando que vou deixá-la sair para que aconteça o mesmo que aconteceu a Peg, você está muito enganado! Ela permanece aqui e sem protestos!
— Kyle! — Sunny gritou meio tímida. — Eu quero ajudar! E se eu puder ajudar, eu vou ajudar!
— Arriscando a sua vida lá fora? No meio de todos aqueles assasinos? Só por cima do meu cadáver! Você viu o que aconteceu com Ian, não viu? Você sabe o que aconteceu com Peg! Eu não quero que você se arrisque desse modo e acabe como ela! Você está vendo como as coisas mudaram! Eu não quero que nada aconteça à você!
— Mas e das outras vezes? Tudo deu certo! Só porque deu errado uma vez, não quer dizer que dê errado sempre! Você devia confiar em mim! Eu posso fazer isso! — Sunny disse as últimas palavras e se levantou correndo em direção a porta com as mãos no rosto para esconder as lágrimas.
— Sunny! Espera! Eu confio em você! Eu só... tenho medo! — ele gritou e saiu correndo atrás dela! Essa era nova! Kyle O'shea? Com medo?
— É, então vamos ter que continuar comendo ração de caverna pro resto da vida! — Tio Jeb disse vencido.
— Espere Jeb! Podemos sair como antes. Sem a Sunny. — A voz grossa de Jared se manifestou.
— Não. Kyle vai se acalmar. Até lá nos manteremos como sempre foi. — Tio Jeb respondeu dando dois tapinhas nas costas de Jared. Aproveitei para sair da sala.
Saí andando por todos os locais mais frequentados das cavernas. Havia poucas pessoas nos campos, o trabalho tinha sido feito na parte da manhã, então ficamos com o restante do dia de folga. Decidi ir a procura de Ian, não o havia visto em parte alguma o dia todo. Como de costume, ele estava trancado no quarto, como sempre.
— Ian? Posso entrar? — perguntei enquanto batia na porta. Não houve resposta. Apenas o som dos movimentos forçados de Ian para abrir a porta.
— Você deveria sair um pouco daqui. Está tão abafado aqui dentro. — Disse já passando pela porta. — Devia ir comer um pouco, deve estar com fome. — ele apenas negou com a cabeça e se sentou na poltrona de costume. — Ian, você não pode continuar assim. Olhe para você. Está acabado!
— Sim Mel, eu posso! Não só posso como vou! Tudo o que eu tinha foi tirado de mim. Minha vontade de viver foi embora com ela! — seus olhos estavam marejados, ele lutava para não derramar uma lágrima se quer, mas não conseguiu. Acabou chorando. Chorando como nunca vi antes.
— Mas Ian, você acha que ela iria gostar se te visse assim? Ela te daria uma bronca isso sim! — disse o abraçando.
— Não, ela não gostaria. E eu daria de tudo para ouvi-lá me xingar novamente.
— Eu também, eu também!- o abracei ainda mais forte e ele se acabou em lágrimas mais uma vez. Ficamos assim, abraçados por alguns minutos, até que ele se acalmou e se desvencilhou do abraço enxugando as lágrimas.
— Jeb decidiu que vamos continuar a comer ração de caverna por um bom tempo, depois que Kyle se negou a deixar que Sunny saísse conosco em uma incursão. — tentei mudar de assunto.
— Muito bem fez ele.
— Não se culpe Ian! Você não teve culpa alguma.
— Eu sei. — santa ironia.
— Bom, eu vou indo então. Já que você não está precisando de mim, acho que já vou. — me dirigi para a porta.
— Melanie! Espere. — ele se levantou e tirou um embrulho do bolso. — Peg pediu para que eu lhe entregasse! — peguei o embrulho e agradeci com sorriso fraco e um aceno de cabeça saindo quarto.
Era um pacote pequeno. Um saquinho de veludo vermelho. Abri e deixei que o que estivesse lá dentro escorregasse para minhas mãos. Era uma correntinha de ouro. Delicada demais. Combinava mais com ela do que comigo. Nela um pingente em formato de coração. Dentro desse coração o simbolo do infinito. Abracei aquele pingente e escorreguei pela parede até chegar ao chão. Ainda com o pingente abraçado me permito chorar. Eu ainda não havia me permitido chorar desde aquele dia. O dia em que o infinito nos foi roubado!
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