Os tiros começaram no parquinho da escola junto das mortes de todas as crianças e monitoras que estavam lá. Um grupo de pessoas invadia nossa casa. Acabaram com a nossa pouca monotonia e levaram nossa família. Todos tentando salvar uns aos outros. As últimas palavras de uma garota com um tiro foram “Me deixem aqui”. Ela morreu depois de ver a morte do irmão gêmeo.

E mais uma vez a verdade nua e crua batia à nossa porta.

Das 29 pessoas, sete saíram de lá vivas. Eu era uma delas. Meus pais, não. Os vi sendo espancados e esfaqueados antes de fugirmos pelos fundos, e não consegui fazer nada.

Depois de alguns longos quilômetros caminhando em meio à floresta paramos em uma casa afastada para descansar. Mas nem o tempo de nos recuperarmos passou e outro choque veio, Isabela havia sido mordida.

A sua morte foi uma das mais dolorosas. Porque nós a vimos. Vimos a febre começar, vimos ela debilitada e a vimos não abrir mais os olhos. Quem a feriu na cabeça depois da morte? Bruno. Ele se indicou para fazer o “serviço”. Foi algo que derrubou todos, parece que uns mais do que outros. Durante uma manhã acordamos com um monstro batendo na porta da pequena casa abandonada de algum caçador em meio à floresta. Era Bruno. Ele havia desistido de sobreviver.

Mas a vida tinha de continuar. Por falta de suprimentos voltamos à região urbanizada da cidade. No caminho encontramos um carro que facilitou nossa locomoção. Foi quando o combustível acabou que fomos obrigados a continuar a pé.

Viramos uma esquina e avistamos a horda de seres que se aproximava de nós. Infelizmente nos viram também. Começamos a corre. Mais monstros surgiam. Então nos vimos cercados.

Os esforços não pareciam suficientes, Já nos preparávamos para o final quando tiros vieram de algum lugar matando os seres e nos salvando. Um grupo de pessoas se aproximou. Se apresentaram e nos acompanharam até o local onde estavam alojados. Pareciam pessoas boas. E a esperança de arranjar uma nova casa era tentadora depois de tudo.

Enquanto conversávamos, um pedaço de madeira veio por trás da cabeça de Sandro com tanta violência que o pôs para dormir para sempre. Assim como um facão atravessou Alice, deixando só a ponta ensanguentada evidente do outro lado de seu corpo. Nossa reação foi imediata. Enfiei minha faca na mulher que estava ao meu lado e Nicolas, se aproveitando de sua habilidade lançou, também facas, nas outras pessoas, impedindo mais feridos, não sem antes um tiro atingir Manuela. Ela caiu no chão com uma bala no abdômen. No mesmo instante um garoto saiu apavorado de um dos quartos e se atirou aos choros em cima de uma pessoa do grupo, seu pai.

Numa atitude imediata, ignorando a criança, me pus a socorrer Manuela. Com ajuda de Nicolas e de nosso kit de primeiros socorros estanquei o sangramento. Mesmo assim precisaríamos de materiais mais específicos. Com sorte conseguiríamos chegar a um laboratório medicinal que havia a poucos metros dali.

Já nos preparávamos para deixar a casa quando Manuela, esgotando suas forças, nos lembrou que não podíamos simplesmente abandonar a criança ali. Ela não tinha culpa dos atos de sua família.

O menino permanecia imóvel deitado ao lado do homem. O puxei pelos braços e o levei conosco enquanto Nicolas carregava Manuela debilitada. Corremos nos últimos metros, até arrombarmos a porta de entrada do local, deixando do lado de fora um grupo grande de monstros. Analisamos o laboratório e encontramos o que precisávamos. Então o procedimento.

Com uma pinça arranquei a bala de chumbo alojada em seu abdômen e após limpar o ferimento fechei-o dando pontos. Durante todo o momento Nicolas me auxiliava e vigiava a criatura que continuava sem se mover sentado no chão encostado em uma parede. Antes de descansar precisaríamos nos livrar dos monstros que ameaçavam derrubar a porta de entrada do laboratório.

Nosso plano estava montado. Colocaríamos fogo em algum estabelecimento por perto para atrair os seres. Vamos combinar que incendiar uma construção a alguns metros não é fácil quando se tem apenas a mira e a força dos braços. Por sorte Nicolas foi preciso. E a ultima coisa a se preocupar era a criança em estado de choque que leváramos com nós.

Conseguimos prendê-lo sem relutos com cordas à uma cadeira em outra sala que ficaria trancada. Depois disso pudemos descansar junto à Manuela.

Passamos quase um mês no laboratório. Nesse meio tempo Manuela pôde se recuperar e nos ajudou com o menino que estava sem falar e comendo pouco há dias. Pelo menos o seu nome descobrimos. O mudinho se chamava Henrique.