Segui o caminho todo em silêncio, sentindo o cano gelado da arma em minha nuca. Eu sentia que iria morrer mas, por estranho que possa parecer, não estava preocupada com isso. Estava sempre observando pela janela do carro em busca de uma garota de vestido preto.
Foi em vão, estavam rápido de mais para que pudesse enxergar direito.

Foram aproximadamente 20 minutos dentro do carro até chegarmos na entrada do que parecia ser um condomínio fechado, rodeado por muros reforçados e vários postos de observação. Os portões se abriram e adentramos, era um lugar rustico, quase lembrava uma prisão. Eram visíveis dois galpões ao longe e algumas salas espalhadas pela imensa área aberta, no fundo esquerdo do local dava pra ver o que parecia ser uma estufa, o movimento ali era intenso, mas não tive muito tempo para avaliar o que realmente era. O carro parou em uma das salas mais afastadas, em frente a um enorme barracão.

Me fizeram descer do carro e amarraram minhas mãos com uma corda, a qual usaram para me puxar para dentro da sala, a arma ainda apontada para que eu nem pensasse em sair correndo.
Entrei, contra minha vontade, era uma sala pequena, apenas um comodo mal iluminado, uma mesa de madeira encostada no canto direito e duas cadeiras bem no centro, em baixo da unica lampada do local.

"A área do interrogatório ou da tortura. Tipico!" — Pensei deixando escapar uma risada baixa e nervosa. Temia por minha vida, sabia que provavelmente não sairia dali viva, a menos que acontecesse um milagre.

Fui sentada na cadeira e minhas mãos amarradas atras da mesma, sem possibilidades de me mexer, fui amordaçada e logo em seguida os brutamontes, que ali estavam comigo, saíram da sala, me deixando sozinha por minutos que pareceram eternidade.
Fiquei olhando em minha volta, ouvia movimento do lado de fora, vozes aleatórias e desconhecidas, conversas sem nexo e alguns sotaques desconhecidos.

Aonde estava e o que queriam comigo, alem de vingança? Eu não sei. Eles poderiam ter me matado assim que me pegaram, mas me trouxeram para esse lugar e não encostaram um dedo se quer em mim. O que estava acontecendo? Ou melhor, o que estava pra acontecer?

Perdida nos meus pensamentos estava desesperada, olhando em volta a todo momento esperando o que pudesse vir a acontecer, ate que por fim a porta foi novamente aberta e dela passou duas figuras distintas.
Um era justamente o cara que me trouxe naquele lugar, o maldito que passou uns bons minutos me ameaçando com sua preciosa arma.
A outra figura me fez paralisar. Levantei o olhar, a porta foi fechada, analisei aquela pessoa, olhando-a lentamente dos pés até chegar em seu rosto, que foi iluminado pela luz fraca.

"Bom vê-la de novo Ana..." — Scarlet sorriu parada bem em minha frente com um sorriso sínico nos lábios. Arregalei os olhos, não podia acreditar no que estava vendo. Scarlet era uma das refugiadas do seu antigo grupo de sobreviventes daquele inferno. Ela não estava morta ? O que fazia ali ?
Minha mordaça foi retirada e a outra cadeira foi colocada bem em minha frente, aonde a morena sentou e ficou me encarando ainda com o mesmo sorriso sínico.

"Você... ? Mas eu te vi fugir... Eu achei que... O QUE FAZ AQUI?"— Fui bruscamente interrompida pelo baruto de uma arma sendo engatilhada e voltei a sentir o frio cano de ferro em minha nuca, o que me fez engolir seco.

"Shii, shii minha queria. Se acalme. Não é fantástico ? Finalmente nos vermos de novo... Como esta seu namoradinho? ... "- O sorriso se alargou de uma forma macabra — "Ah, é mesmo, me desculpe, esqueci que o Carlos ai o matou..." — Ela apontou pro rapaz com a arma atras de mim, o qual estava com uma feição seria mas um visível sorriso de canto.

"Você tem ideia do quanto foi difícil te achar? Mais de uma semana te procurando Aninha, isso não se faz, sumir dos amigos assim?... O que estava pensando?" - A mulher se levantou e veio em minha direção. Um segundo e senti meu rosto queimar com um tapa que Scarlet acabara de me dar.

"Achou mesmo que ia ficar impune depois de matar MEU IRMÃO? SUA CADELA SUJA!" — Outro tapa e em seguida senti sua mão apertar meu pescoço, fiquei sem ar, ela apertava com força e suas unhas faziam parecer que minha garganta seria rasgada em algum momento. Meu olhar era de desespero 'Irmão? Como assim irmão?'- Só conseguia pensar até vir a cena do atropelamento durante minha fuga, o que me fez arregalar ainda mais meus olhos.

Scarlet me soltou e sorriu novamente — "Então agora você se lembrou não é? Teria sido tão mais fácil se tivessem se entregado logo de uma vez, mas não. Seu namoradinho tinha que reagir e meus garotos fizeram o que tinham que fazer, matar quem se colocasse contra o novo futuro da humanidade, lixos inúteis são descartáveis. Achei que vocês podiam ter algum futuro, aquele mês que passei com vocês... Foi bem difícil achar uma brecha para chamar os garotos. " — Ela voltou a se sentar na cadeira, levantou a mão como um sinal para Carlos e voltou a me encarar.

Vi Carlos ir até a porta, falar com um dos caras que estava do lado de fora e voltar para seu posto, atras de mim com sua maldita armar.
"Então... Você mentiu pra nós esse tempo todo Scarlet ? E como... ? Como me achou?" - Perguntei com dificuldade, meu pescoço ainda doía pelo apertão dado pela mulher.

O sorriso de Scarlet se estendeu, divertido, como se ela estivesse esperando por essa pergunta o tempo todo. — "Não foi tão fácil te achar, graças a você e seu namoradinho, naquele dia perdemos muitos dos nossos guerreiros pro causa de uma horda de zumbis que foram atraídos pelo barulho dos tiros... Inclusive, desse tiro ai... "- Ela apontou pra marca em meu ombro, engoli seco novamente e quando abri a boca para responder, ela interrompeu outra vez, cruzou os braços e se reencostou na cadeira. "Alias... bela mascote você foi arranjar não é ? Garota inteligente, mas muito descuidada. Deixa rastros por onde passa... Você não a ensinou bem não é?"- Fiquei pálida, qualquer medo de morrer desaparecera naquele instante, eu só conseguia pensar em uma pessoa naquele momento e tinha certeza agora do porque ela não havia voltado pra casa.

"M-Maya... "- Minha voz saiu roca e fraca. — "O que fez com ela ? Cadê ela ? Ela não tem nada haver co... " — Novamente interrompida, o cano da arma prensando ainda mais em minha nuca me fez calar. Scarlet se levantou e foi até a mesa e voltou, parando bem em minha frente e me mostrando o que parecia ser uma mexa de cabelo preto. Sem dizer nada ela voltou a me amordaçar e seguiu pra fora da sala junto com Carlos, mas não sem antes olhar pra trás com um sorriso macabro no rosto, que fez eu sentir um frio na espinha.

"Foi minha culpa. Eles a mataram e foi minha culpa. Ela era só uma garota..." — Meus pensamentos estavam perturbados e sentia lagrimas rolarem por meu rosto sem parar.

~Eu não pude protege-la, me perdoa Maya, me perdoe por favor...~

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.