Notas iniciais
***Oneshot de presente de aniversário para Sion Neblina! Amada amiga, sinta-se abraçada com este singelo presente! Te amo!

Esta história foi escrita com sangue, amor e morte. Ninguém nunca soube se ela foi verdadeira ou se foi, apenas, um conto extraído da imaginação fértil de algum trovador. Entretanto, o lugar que se tornou palco dos acontecimentos ainda existe e todo aquele que se sente traído ou desesperado de amor, vai até lá e deposita um lírio que dizem ser a flor que os redimiu... Vocês devem estar se perguntando do que estou falando, não é mesmo?

Bem, reza a lenda que a rocha das lágrimas foi o local onde dois amantes tão diferentes como a água e o azeite morreram juntos... Eles se conheceram pela benção dos céus, diriam alguns ou pela trama do demônio, afirmariam outros. O fato é que o amor surgido entre eles ameaçou poderes além da nossa compreensão e a própria situação de cada um deles tornou-se um espinho doloroso que os levou à morte.

Mas, existe outra versão para o que aconteceu. Eu, que era apenas uma menina, naquela época e não sei se parte do que me lembro foi fruto de minhas fantasias ou se, realmente aconteceu. A única certeza que tenho e que ouso dizer a vocês é que eles adormeceram como crisálidas e, no tempo determinado, voaram livres como borboletas...

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Irlanda, no ano de 1344...

Ikki Amamiya saiu de sua cama no meio da noite. Não acendeu uma vela, pois os vigias da amurada de sua casa perceberiam a claridade. Abaixou-se junto ao leito, encostando o rosto no piso frio, para resgatar as roupas que tinha escondido ali. Lançando olhares furtivos, atrás de si, seguiu até a entrada do aposento e tocou a porta pesada. Com muito cuidado, abriu-a bem devagar para que o ruído das dobradiças velhas não o denunciasse. Saiu correndo, esgueirando-se pelos corredores até chegar aos degraus de pedra. Entretanto, quando ia descer os degraus, uma voz grave e firme o fez estancar:

— Aonde pensa que vai, rapazinho?

— P-Pai... Eu... Eu não quero ser padre! – gritou o menino moreno, cujos olhos eram mais azuis que as safiras do oriente.

— Sua mãe e eu fizemos uma promessa, meu filho. Se a gravidez dela vingasse, nós o entregaríamos a Deus. Estamos entregando nosso primogênito, assim como Abraão ofereceu seu filho Isaac. Você já tem sete anos, é quase um homem! Vai desonrar a promessa que fizemos pela vida de seu irmão ou irmã por covardia?

O menino sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas nada disse. Baixou a cabeça e depois tornou a enfrentar o olhar de seu pai.

— Não, meu pai.

— Então venha, vamos fazer uma penitência para que seja perdoado de seu pecado. – disse Tatsumi tocando o ombro de Ikki.

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Dez anos depois...

— Já chega! – A voz do cardeal era um tanto esganiçada, mas seus olhos miúdos e negros pareciam duas adagas a serem lançadas. – Ouvi a todos vocês durante horas, agora saiam e me deixem descansar.

Ikki preparou-se para deixar o aposento quando o cardeal o chamou.

— Você, não. Venha até aqui, quero ouvir o que acha de tudo isso.

O jovem moreno suspirou e sentou na cadeira ao lado da cama do cardeal. Mantinha uma expressão séria e não queria entrar no mérito de toda aquela discussão. Nunca quisera e nem tinha a chamada vocação para ser padre, mas obedeceu seus pais e assim que ingressou na Ordem tornou-se um exemplo de disciplina e conhecimento. Cumpria com todos os rituais com competência e respeito. Entretanto, havia em seu coração muitas dúvidas que guardava para si...

O cardeal Guilty havia criado um grupo de elite chamado Os soldados do Senhor. Basicamente, eram padres jovens que investigavam casos de possessão demoníaca, heresia e conspiração contra a Santa Sé sem, no entanto, ser tão implacáveis e mortais como a Inquisição, afinal, estavam na Irlanda e muitas tradições anteriores ao catolicismo ainda sobreviviam no imaginário popular. Ikki era o seu preferido, porque era justo e dono de um raciocínio rápido e sagaz. Nada lhe escapava e ele era incorruptível, algo raro dentro da Igreja...

— Acredita mesmo que o bispo Saga mantém relações com um feiticeiro?

Ikki deu de ombros com aquela afirmação. Sabia que muitos inventavam casos e fofocas contra seus desafetos, criando discórdia e problemas dentro do clero. Na maioria das vezes, era apenas a ignorância ou a ganância falando mais alto...

— Eu pouco saio do mosteiro, porém nunca vi e nem acredito em feitiçaria. Mas, quanto aos prazeres da carne, não posso afirmar que o bispo não tenha caído em tentação, ainda mais que o colegiado dos bispos vive junto da nobreza e das tentações da corte. Afinal, religioso ou não, ele é um homem. – respondeu Ikki.

— Pois bem, quero que investigue e me dê o seu parecer. Enviei uma ordem para Saga para que ele o acolhesse em sua casa por uns tempos a título de que aprendesse a rotina de um bispo.

— Eu? – disse Ikki, surpreso.

— Sim, você. Para todos os efeitos, quando completar seu tempo como servidor de Deus e tiver idade, vou indicá-lo para o cargo. Enquanto isso, não confio em nenhum outro para uma tarefa tão delicada. Você o vigiará e assim, saberemos a verdade.

— Farei o que me pede Vossa Eminência.

Na manhã seguinte, Ikki chegou à casa do bispo bem cedo e o criado levou-o até uma saleta nos fundos. Quando fez, exatamente uma hora que estava ali, o bispo apareceu e o jovem padre estranhou em vê-lo com vestes normais, as quais se restringiam aos leigos. Saga sorriu e seus dentes alvos se destacaram mostrando beleza e amabilidade. Ele devia ter, no máximo, 25 anos, mas sua vocação se revelara muito cedo e ali, estava ele, num alto cargo dentro da Santa Sé e com forte indicação para tornar-se cardeal e de chegar ao papado, em Roma, quando atingisse a idade. Isso se não for comprovado o que dizem...

— Já que veio aprender mais da rotina de um bispo, ou seja, me espionar... espero que não se surpreenda com a minha rotina, meu rapaz. – disse ele estendendo a mão para um cumprimento.

Ikki franziu o cenho, mas apertou a mão forte do bispo. Não sabia o que dizer frente àquele comentário, então permaneceu calado. No entanto, mais surpreso ficou quando um jovem loiro adentrou a saleta com uma bandeja e olhou-o, indiferente e altivo. Por um instante, viu-se prisioneiro do simples piscar de olhos daquele homem que parecia não ter uma idade definida, sentindo uma estranha palpitação no peito. Por isso o acusam de feitiçaria... Um olhar... somente um olhar dele pareceu devassar-me a alma! Pensou, enquanto sentia dificuldade para engolir a saliva.

— Esse jovem é Shaka, meu... criado particular.

— Criado? – deixou escapar Ikki.

— Sim, trouxe-o do Oriente em uma de minhas viagens. Na verdade, ele é para mim como um filho, mas... para todos os efeitos, trabalha para mim.

Cada vez mais confuso, Ikki não sabia o que pensar. Enquanto isso, Shaka lhes servia o chá que trouxera e deixava a sala, tão silencioso quanto entrara.

Parecendo achar tudo muito divertido, Saga levou a xícara aos lábios e bebericou o líquido quente com uma expressão de puro prazer.

— Não vai beber? – perguntou vendo que Ikki permanecia mudo e quieto como se estivesse petrificado.

— Hã... Sim, obrigado. – disse por fim.

Saga abriu um sorriso malicioso.

— Ele o deixou extasiado, também, não? É tão belo que muitos acham ser uma obra do demônio. Mas, eu prefiro acreditar que ele é o suspiro perfeito dos deuses antigos...

A última frase fez Ikki quase engasgar. Como assim dos deuses? Saga era um bispo católico e não havia outros deuses a não ser o Deus único.

O bispo deixou escapar uma gargalhada ao perceber a palidez do jovem padre.

— Acostume-se, meu rapaz! Não sou como a maioria destes religiosos ignorantes que acham que tudo se resume à vontade de um Deus único.

A frase deixou Ikki ofendido.

— Pois acho que devia ter mais cuidado, Vossa Excelência Reverendíssima. A Inquisição não precisa de muito para levar um herege à fogueira e as suas palavras me soam como tal!

— Acalme-se, jovem soldado, ainda precisa aprender muito.

Ikki levantou-se da cadeira, deixando a xícara intocada. Então, quando fazia menção de retirar-se, Saga ficou sério. Em seguida, outro Saga adentrou a sala com as vestes eclesiásticas de bispo, fazendo com que o jovem padre arregalasse os olhos.

— Pelo que vejo já conheceu meu irmão, Reverendo. – falou o verdadeiro Saga.

Kanon fez uma expressão contrita, como se pedisse de forma silenciosa que Ikki não o denunciasse para o irmão.

— Sim, já tive esse... prazer, Vossa Excelência Reverendíssima.- falou o jovem padre.

Saga olhou na direção de Kanon como se adivinhasse o que havia acontecido. Inspirou, profundamente e indicou a porta, pra que Ikki o acompanhasse.

— Vamos conversar em outro local mais amplo e arejado. Siga-me, vamos até os jardins.

Embaixo do caramanchão onde pendiam algumas trepadeiras visçosas, Saga ouvia Ikki e se perguntava o que Kanon teria feito na sua ausência. Seu irmão gêmeo era sua eterna dor de cabeça e seria sua passagem direta para o Inferno se não conseguisse trazê-lo para a fé. Achara que se ele ficasse um tempo sob o mesmo teto, poderia convertê-lo, no entanto, para sua surpresa, Kanon trouxera um jovem consigo sob o pretexto que estava fazendo caridade e ele suspeitara que antes de trazê-lo, Kanon vivia em pecado, embora negasse.

— Então o cardeal quer indicá-lo para bispo... Diga-me, Reverendo, o que Guilty deseja, na realidade?

— Antes de responder, posso saber se todos sabem que o senhor tem um irmão gêmeo?

Olhando dentro dos olhos de Ikki, Saga inspirou fundo e então respondeu.

— Não. Eu e Kanon não crescemos juntos e, somente há pouco eu o reencontrei em uma de minhas viagens à Grécia, meu local de nascimento. Porém, chegando lá descobri que ele... Bem, ele continuava adepto dos rituais pagãos que permitem obscenidades e relações pecaminosas. Estou tentando trazê-lo para perto e ele jurou que este jovem que o acompanha é apenas alguém que ele salvou de um destino cruel, aceitei-o em minha casa para vigiá-lo de perto e cuidar de sua salvação.

Ikki apiedou-se do bispo. Também ele tinha um irmão mais novo e sabia muito bem como era esse tipo de amor e responsabilidade. Sua sorte era que Shun era um jovem adorável, amoroso e obediente que nascera com alguns problemas de saúde, mas nunca dera trabalho a ninguém e vivia com os pais, ajudando nos negócios.

— Creio que seria melhor esclarecer as coisas no colegiado, Vossa Excelência Reverendíssima. Todos pensam que é o senhor que...

— Pode dizer! Todos pensam que sou eu quem tem um amante, somente pelo fato deste jovem ser dono de uma beleza ímpar e viver em minha casa. Consegui fazer com que a presença de Kanon não fosse revelada a muitos... Eu temo que ele acabe fazendo alguma bobagem e atraia a ira da Inquisição. – disse o bispo, exasperado. – Eu sei que conversas já chegaram aos ouvidos de Guilty e como ele não sabe da verdadeira situação, deseja comprovar se há fundamento em tudo isso que está sendo dito contra mim. Não é mesmo, Reverendo?

Ikki ficou sem saber o que dizer. Por um lado, entendia que aquela situação era grave, mas por outro, não era o bispo quem tinha de pagar pelos desatinos do irmão. Então tomou a decisão que mudaria a sua vida para sempre e aceitou permanecer ali...

— Talvez seja melhor assim, eu ficarei hospedado com os senhores e poderei testemunhar que nada disso é verdade. – disse, por fim.

Nos dias que se seguiram, Ikki tornou-se um hóspede que já estava integrado à rotina daquela casa. Comeu e bebeu, assim como orou e continuou agindo de forma comedida. O bispo pareceu gostar da companhia madura e inteligente do jovem padre. Kanon pouco aparecia, assim como o jovem criado que ficava, a maior parte do tempo, cuidando dos jardins ou confinado em seus aposentos.

Por algum tempo, o jovem padre achou que tudo estava sob controle e, mesmo sentindo vontade de conhecer Shaka e saber mais de sua vida, permanecia comedido e acompanhava o bispo em suas orações e incursões para dar a benção aos enfermos na cidade.

Então, uma noite, Ikki acordou em meio à madrugada ouvindo gemidos baixos... Num primeiro momento, acho estar sonhando, mas depois viu tratar-se de algo real e levantou-se da cama, tomando o cuidado de não acender nenhuma vela. Abriu a porta com cuidado e teve um déjà vu ao sentir o piso frio sob os pés descalços. Andou devagar pelos corredores da casa até que viu a porta de um dos aposentos, entreaberta. Não queria espiar, porém a curiosidade foi mais forte e o que viu o fez arregalar os olhos e ficar de boca aberta...

Shaka estava de costas sobre a cama, estremecendo e mordendo os lábios com força, enquanto a boca e o corpo de Kanon agiam sobre ele. Os lábios do gêmeo do bispo viajavam com lenta sensualidade por sua barriga, pelos mamilos até lhe encontrarem a boca. A língua avançava com avidez, enquanto o corpo poderoso o cobria, buscando posição para penetrá-lo.

Apesar do erotismo da cena, Ikki percebeu que o rosto crispado de Shaka era uma mistura de dor e... ausência de emoções. Kanon avançava por entre as suas pernas abertas e gemia, enquanto ele permanecia mordendo os lábios e se agarrando com força aos lençóis.

— Olhe para baixo... Olhe para nós... – murmurou Kanon convencendo Shaka a acompanhar o movimento de seu falo para dentro do corpo jovem.

Ikki ficou em choque de ver tudo aquilo acontecer, de ver um homem se unindo a outro daquela maneira perturbadora e da excitação que sentiu ao fitar o corpo esguio e belo do jovem que se deixava possuir.

Por sua vez, Shaka ofegou com a dor súbita da penetração e, quando o som abafado escapou de seus lábios, Kanon já o tinha preenchido por completo numa única e violenta investida. O gêmeo do bispo ficou parado, os cotovelos apoiando seu peso, os olhos fixos nos de Shaka...

Os belos olhos do jovem criado haviam se fechado e seu rosto estava pálido sob o corpo forte e musculoso. Ele mais parecia uma escultura pagã, inerte e lânguida em contato com a pele ardente de Kanon.

— Faça por mim... Satisfaça-me, para que eu não cometa um pecado maior. – sussurrou Kanon acariciando-lhe os cabelos.

Shaka virou o rosto e deixou que Kanon movesse os quadris, adentrando seu corpo com força e violência. Com os dentes cerrados, o irmão de Saga moveu-se cada vez mais rápido até gozar, urrando e apertando a carne alva do corpo junto ao seu.

— Perdoe-me... se o machuquei, mas... Sabe que eu preciso fazer isso, não é? – murmurou Kanon rente ao rosto afogueado de Shaka que se mantinha quieto e passivo sem mostrar nenhuma expressão.

O jovem nada disse, apenas levantou-se quando Kanon saiu de dentro de si. Vestiu o camisolão, enquanto o gêmeo do bispo exibia um semblante satisfeito e continuava nu e recostado à cabeceira da cama larga.

— Vou lavar-me e voltar ao meu quarto. – disse Shaka, por fim, e deixou o aposento.

No corredor, Ikki viu quando o jovem dirigiu-se ao lavatório, caminhando devagar. Não soube a razão de ter feito aquilo, mas interpelou o jovem, segurando-o pelo braço e olhando bem dentro da imensidão triste e azul daqueles olhos...

— Você está bem? – perguntou aflito.

Em um momento inicial, Shaka surpreendeu-se com a atitude do jovem padre, depois se desvencilhou dele, sem dizer nenhuma palavra e retomou o seu caminho como se nada tivesse acontecido.

Ikki foi tomado por sentimentos e pensamentos conflitantes e não sabia o que fazer. Acabou voltando ao quarto onde não conseguiu mais dormir. Orou e pediu respostas que não vieram e, pela primeira vez, usou do cilício, não para oferecer seu sacrifício a Deus e sim para conter o misto de desejo e repugnância que o assolou ao lembrar-se da cena presenciada...

Perdão, meu Deus! Perdão! Por favor, diga-me o que fazer! Murmurava, enquanto apertava a corrente em volta de sua coxa, mortificada pelas pontas de metal que adentravam sua carne...

Quando a manhã chegou, Ikki ainda rezava ajoelhado, aos pés da cama. O bispo encontrou-o suado e pálido, questionando-o sobre o motivo de tal estado. O jovem padre olhou dentro dos olhos de Saga. Se dissesse o que havia presenciado, certamente teria de deixar aquela casa e reportar os acontecimentos ao cardeal. Era o que devia fazer e era o que... não faria. Não podia deixar Shaka à mercê daquele homem!

— Creio ser apenas uma indisposição. Estou orando e pedindo minha recuperação a Deus... – respondeu Ikki.

— Pois bem, venha comigo. Tive uma ideia para que possa me ajudar a trazer meu irmão para o caminho certo. Ordenei a Shaka tomá-lo como seu confessor. Quem sabe se trouxermos o jovem para a fé, Kanon não o acompanha?

Ikki estremeceu e, ao mesmo tempo, foi tomado por uma estranha euforia. Seria essa a resposta as suas orações? Talvez se convencesse Shaka a deixar aquela casa e aquele homem!

— Terei prazer em ajudá-lo, Vossa Excelência Reverendíssima.

— Ótimo, amanhã mesmo quero que tome a confissão dele e institua as penitências necessárias. Vamos aproveitar que meu irmão está resolvendo alguns negócios em Nápoles. – disse Saga.

— Está bem. – respondeu Ikki de forma lacônica, enquanto mil indagações passavam por sua mente.

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Shaka deixou o aposento e dirigiu-se à pequena capela da propriedade do bispo. Aparentemente, exibia uma expressão serena, mas interiormente, havia uma revolução acontecendo dentro do seu peito. Sem se dar conta, levou a mão ao peito e sentiu o movimento de sua própria respiração. Então, inspirou fundo com os olhos fechados e murmurou uma prece que aprendera em sua infância. Que a paz recaia sobre mim como o orvalho se deposita nos campos! Fortaleça-me, matter... Fortaleça-me...

Ikki voltou-se, no exato momento em que Shaka adentrou a capela. Resolvera esperá-lo fora do confessionário e, quando seu olhar recaiu sobre a bela face, seu coração ficou oprimido e, ao mesmo tempo, descompassado. A cena erótica voltou-lhe a mente e ele teve de fazer um esforço para varrê-la de suas lembranças.

— Bom dia, senhor Shaka. Como já sabe, serei seu confessor pelo tempo que permanecer nessa casa. Mas, antes, gostaria de conversar um pouco.

Os olhos azuis, emoldurados por longos cílios, encararam-no com reserva e distanciamento.

— Se me permite um conselho, Reverendo, deixe esta casa.

— Sei que deve estar constrangido pelo que aconteceu, mas... quero que saiba que não o culpo. Eu gostaria de compreender... Apenas, isso. – falou Ikki com sinceridade.

Aquela resposta desarmou Shaka e o deixou ainda mais preocupado com o jovem padre.

— Eu... Eu não posso falar mais do que já falei. Nada é o que parece, Reverendo e eu vejo em seus olhos que sua alma é pura. Conserve-a e deixe esta casa. – retornou o jovem fazendo menção de deixar Ikki às sós.

— Espere! Por favor, não me deixe na escuridão da ignorância... Se tem algo a dizer-me, fale sem medo. Prometo não julgá-lo, nem revelar a outrem. Diga-me, é um prisioneiro nesta casa? Está sendo coagido ou abusado?

Shaka sorriu triste e, sem dar-se conta, levou a mão delicada ao rosto do jovem padre, porém interrompeu o ato antes de concretizá-lo.

— Sou aquele que adentra o que a sua crença acredita ser o Inferno por ter feito uma escolha infeliz, Reverendo. Agora ouça o meu conselho, deixe essa casa sem olhar para trás.

Ditas as palavras, Shaka deixou Ikki sozinho e sem saber o que dizer ou pensar. O padre dirigiu-se até a capela e lá orou, fervorosamente, para que Deus lhe mostrasse a verdade. Quando chegou a hora das refeições, um criado foi chamá-lo e avisar que o bispo se ausentaria por mais tempo que o desejado e pedia que ele permanecesse na casa e continuasse o trabalho de confessor e também para que recebesse algumas pessoas que buscavam benção e consolo espiritual.

Ikki decidiu ficar e, ao cair da tarde, chamou todos os criados para uma pequena celebração na capela. Deixou bem claro que queria todos ali e logo, Shaka adentrou a capela vestindo uma túnica clara, os cabelos presos em uma longa trança e uma expressão, novamente, indiferente. O loiro altivo ajoelhou-se como os outros, mas não participou das orações, nem dos cantos. Quando chegou a hora de comungar, ele sentou-se e esperou.

O jovem padre nada disse, nem se mostrou abalado com tal atitude. Abençoou os demais e os dispensou para que voltassem aos seus afazeres. Shaka aproveitou a chance e levantou-se, quando Ikki o interpelou:

— Senhor Shaka, fique. – disse, secamente.

Shaka respirou fundo e encarou o padre bem dentro dos olhos. Por alguns segundos, Ikki viu-se devassado e preso ao azul cristalino que o fez engolir em seco. Não conseguia explicar o que era, mas os olhos daquele homem não pareciam humanos...

Por sua vez, o jovem loiro franziu o cenho ao deparar-se com tanta energia e vigor num homem. Diferente de Kanon que era denso e dominador, o padre era de um magnetismo ardente e uma profunda... solidão. Sentia vontade de tocá-lo, de dar-lhe prazer, porém sabia que se o fizesse, estaria condenando-o e, mesmo que devesse lealdade à Kanon, não desejava a desgraça daquele que se importara consigo.

Ikki tinha um discurso preparado, porém, Shaka o encarava com aqueles olhos estranhos e brilhantes. Era possível contar cada cílio grande e curvado... E a boca delicada permanecia apertada, como se... Pedisse por um beijo...

— Por Deus... quem é você? – murmurou Ikki sem conseguir reter as palavras. O desejo martelando cada fibra do seu ser e, ao mesmo tempo a culpa insinuando-se em sua alma.

— Sou aquele que lhe trará dor se insistir com isso! – respondeu Shaka.

O padre ignorou a fala do jovem e segurou-lhe o rosto com as duas mãos. Um sentimento profundo o tomou, enlevando-o como nunca sentira antes. No entanto, nenhum dos dois estava preparado para o que ocorreu, a seguir. Quando os olhares se aprofundaram, uma faísca percorreu o corpo inteiro de Ikki e ele foi arremessado de encontro à parede da capela. O ar escapou de seus pulmões, seus ouvidos zuniam e os olhos queimavam por dentro.

Shaka afastou-se, o rosto antes corado, agora estava lívido. Levando a mão aos lábios ele os tocou, estarrecido, e, em seguida, aproximou-se de Ikki que estava um tanto estonteado.

—Perdoe-me... Eu...não quis feri-lo...

Horrorizado, Ikki levou a mão ao crucifixo que trazia no pescoço. Entretanto, contrariando seu medo e tudo que aprendera sobre demônios e feitiçaria, ao ver as lágrimas nos belos olhos de Shaka ele não viu o mal, apenas, sofrimento. O mesmo sofrimento daquela noite em que o viu sendo possuído por Kanon de forma violenta.

— Diga-me que ... não é um demônio. Conte-me quem é e o que significa tudo isso. – disse Ikki, ofegante.

Shaka mordeu o lábio inferior, inspirou e, finalmente, revelou-se para o jovem padre:

— Sou um dos filhos de Aine de Knockaine.

— Você está dizendo que pertence à civilização lendária da deusa Dana, os Tuatha Dé Danann? – perguntou Ikki.

— Sim, embora isso possa ser incompreensível para você, é a mais pura verdade. Ao desejar vivenciar um corpo mortal, eu acabei sendo visto e aprisionado por um humano que viajava por nossas terras. Então, tornei-me servo daquele que conseguiu ver além da névoa. Ele me trouxe e, pela lei antiga, devo ser leal e submisso a ele. Quando isso acontece, somente o sangue pode nos libertar. Um sacrifício de sangue que permite o nosso retorno ao reino mágico e dá amplos poderes ao humano que nos aprisionou.

— Isso é loucura! Como pode uma lenda, contada para crianças, ser verdadeira? A Igreja é a única fé e condena a superstição e toda a forma de magia. Esses deuses pagãos nunca existiram!

— Igreja de quem?— questionou Shaka. – Meu povo não vive à custa da crença dos seus padres e líderes. Você acredita ser de carne e osso somente porque tem alguém que diz que isso é verdade? Claro que não! Você é tão real quanto eu... Você sentiu a magia quando nos tocamos...

Ikki franziu o cenho.

— Sim, eu senti e mesmo que acredite nisso, onde Kanon entra nessa história? Um sacrifício de sangue, você disse... Quem ele quer sacrificar e por quê?

— Uma alma pura e crente, levada a sacrificar-se de livre e espontânea vontade trará poder a quem deseja o proibido. Sua religião traz culpa e sombra sobre certas relações e Kanon... pretende romper com isso, sacrificando-o no momento e hora certos.

— O que está dizendo? Kanon quer me sacrificar?

— Kanon ama e deseja o seu próprio irmão. Ele deseja o poder para poder seduzi-lo e fazê-lo aceitar o seu amor. A religiosidade do bispo impede que ele veja o irmão com outros olhos e ergue uma barreira contra os sentidos. Meu povo é capaz de despertar desejos irracionais nos humanos e nossa sexualidade é isenta de culpas e apegos. A energia criativa que envolve nossos corpos aumenta o poder mágico e a excitação que nos leva de encontro aos nossos parceiros é natural demais para gerar sentimentos mais profundos que tolham a nossa liberdade. Fazemos amor pelo prazer, apenas isso. Mas, os humanos, quando se unem a nós desejam aprisionar-nos e com isso cometem as maiores loucuras e atrocidades. Kanon quer que eu o seduza, Reverendo. Por isso, deve deixar essa casa!

— Quando eu era criança, tentei fugir quando meus pais me entregaram para a Ordem. Eu nunca quis esse destino, mas desde que vesti a batina, tornei-me um soldado da Fé. Não permitirei que essa abominação continue, vou falar com Saga e contar-lhe a verdade. Ele há de saber o que fazer.

— Se continuar aqui... não haverá o que fazer. Por favor, Ikki, deixe essa casa... – implorou Shaka.

Ao ouvir o seu nome dito daquela forma, Ikki sentiu o coração disparar e fez o sinal da cruz. Shaka tinha um apelo irresistível e, mesmo que orasse e pedisse proteção, ainda assim sentia desejo, muito desejo.

— Vá para o seu quarto e permaneça lá. Vou orar e jejuar para saber o que fazer. – disse o padre.

— Você não entende! Se ficar, será irresistível para mim e para você! Ele já fez com que nos visse aquela noite. Vamos acabar indo de encontro ao outro e... Ah, não adianta, você é tão ou mais teimoso que o próprio Kanon! – falou Shaka deixando a capela.

Ikki viu-o correr e perguntou-se se conseguiria resistir. Naquela noite, orou e usou o cilício até que rompesse a carne. O sangue escorreu, mas mesmo assim, nem ele, nem a dor excruciante silenciaram seus instintos. Seu corpo ardia de desejo como jamais havia sentido. Era uma insanidade que o levava a visualizar o corpo de Shaka e querer tocá-lo, estar dentro dele, beijá-lo, amá-lo, mesmo que nunca tivesse tido relações com ninguém...

Ao mesmo tempo, em seus aposentos, Shaka sentia o mesmo apelo do desejo. Diferente do padre, ele conhecia a energia sexual que fortalecia o corpo e era mais dolorido ansiar pelo que já sabia ser prazeroso. Entretanto, diferente das outras emoções que tivera com parceiros de sua raça, essa era intensa e mexia com algo dentro de si. Queria o bem de Ikki, mesmo que nunca tivessem se tocado de forma íntima e não suportaria que nada de mal acontecesse a ele. Foi então que tomou uma decisão contrária aos ensinamentos de sua alma, mas que libertaria o homem que tocara seu coração.

Levantou-se da cama e deixou seus aposentos. Lá fora, a lua cheia se insinuava no céu como um imenso globo amarelado e as estrelas cintilavam como pequenas lágrimas no firmamento. Na propriedade havia um caminho que levava até algumas pedras altas que formavam uma espécie de dólmen, chamado de a “Rocha das Lágrimas” um antigo local onde Kanon pretendia levar adiante com seus planos. Seria ali que toda aquela loucura iria acabar...

Foi até a cozinha e retirou um punhal de prata que jazia entre os utensílios culinários. Pegou-o, sentindo a vibração do metal... Sua mão estremeceu, mas sua alma já havia decidido. Libertaria a si mesmo daquele pacto mesmo contrariando as antigas leis que subjugavam a vida de todos, somente ao amor e poder da Deusa.

Em seu quarto, Ikki ofegou ao sentir sua carne ser lacerada, mas continuou a orar e apertar o cilício até que seu corpo inteiro estivesse banhado em suor. Por mais que fosse disciplinado, ainda assim o tormento não arrefecia e ele caiu exausto, mas ainda tomado por aquele sentimento que tentava expurgar.

Quando fazia menção de levantar-se, ouviu as batidas tímidas na porta. O criado, acostumado a não fazer perguntas, apenas confidenciou ao padre que vira Shaka deixar a casa.

— Eu estranhei, porque quando os senhores estão em casa, o jovem fica, somente, em seus aposentos. E o senhor Kanon sempre me pede para vigiá-lo... – disse o homem velho cujos olhos estavam, totalmente, esbranquiçados pela catarata. –

— Obrigado por me avisar. – respondeu Ikki pela fresta da porta.

De imediato, Ikki ajeitou as vestes e deixou o aposento. Foi-lhe indicada a direção que Shaka tomara e ele se foi, angustiado e tenso. O que Shaka estaria planejando? Seria uma armadilha? Errara em confiar naqueles olhos suplicantes que o enfeitiçaram desde o início? E se, no final, todos tivesse razão e existissem feiticeiros e Shaka fosse um?

Com todas as dúvidas e inquietações martelando em sua mente, Ikki chegou ao lugar, vendo que Shaka estava de joelhos sobre uma pedra alta. A lua iluminava o rosto alvo, dando-lhe a verdadeira aparência de um ser sobrenatural que, de tão belo, chegava a dificultar a respiração. Foi então, que junto do brilho lunar, o padre percebeu um reflexo prateado, que logo vislumbrou ser um punhal. O grito morreu em sua garganta quando viu Shaka segurar o artefato com ambas as mãos e levá-la ao peito. Ikki correu e atirou-se sobre ele. Ofegante, com os lábios entreabertos e as lágrimas escorrendo pelo belo rosto, Shaka enfrentou o olhar transtornado de Ikki.

— Por que fez isso? Deixe-me acabar com isso e libertar a nós dois!

— Você não vai nos libertar! Como pode dizer isso? Tirar sua própria vida vai lançá-lo no fogo do Inferno. – disse o padre puxando o jovem para si.

Shaka sorriu com desprezo.

— Não tenho as suas crenças, Ikki. Eu não iria para nenhum lugar horrendo, apenas teria que retroceder uma vida e voltar em outro Reino... Cristal, pedra, borboleta... Poderia ser um destes ou o simples pólen de uma flor. Nada é eterno, inferior ou imutável para nós.

— Mesmo assim... Eu não suportaria perdê-lo. – disse Ikki e, sem perceber, ambos estavam abraçados e banhados pela luz do luar.

Nenhuma faísca se precipitou do contato íntimo. Um manto acolhedor envolveu os dois e Ikki fechou os olhos, beijando Shaka no alto da cabeça.

O perfume de lírios e brisa noturna se fez sentir quando o padre se permitiu continuar com Shaka em seus braços e o jovem Elemental pressionou o ouvido no torso musculoso, ouvindo o coração de Ikki batendo em total descompasso.

— Não devíamos... Eu não quero que nada o fira, Ikki.

— Nada pode me ferir... Não se você estiver comigo. – disse o padre e, naquela hora, sentiu que nada mais importava, nem mesmo a religião e a fé que defendera desde que entrara para o mosteiro.

Os olhos azuis de Ikki fitaram o rosto delicado de Shaka e a respiração de ambos estancou. Levado ao monastério, ainda criança, o jovem padre jamais havia vivenciado o sexo, porém seu corpo estava em ebulição, ardendo por um desejo estranho e natural, tudo ao mesmo tempo... Devagar, os rostos foram se aproximando e quando os lábios se tocaram, não houve furor e sim um resvalar carinhoso, como se a boca de Shaka fosse pétalas de uma flor e a de Ikki, uma abelha sedenta, porém delicada...

O jovem padre estremeceu e, quando os dois braços o enlaçaram pelo pescoço ele segurou Shaka com força e foi correspondido com ardor e um beijo mais profundo. As línguas se tocaram numa perfeita união de ternura, erotismo e paixão criando um momento único e, verdadeiramente, mágico.

Os beijos ardentes desceram para o pescoço alvo e Shaka deixou escapar um gemido de prazer ao sentir os lábios grossos de Ikki em sua pele. O desejo que o inundou por inteiro o fez perceber que tudo aquilo era diferente e, pela primeira vez, sentiu-se inteiro em um corpo humano... Enterrou os dedos nos cabelos negros e revoltos do padre, fechando os olhos e entregando-se ao prazer que jamais sentira daquela forma violenta e crua que chegava a ser doloroso.

— Ikki... – sussurrou Shaka, enquanto suas mãos febris se esforçavam para livrá-lo da batina.

O jovem padre não resistiu, deixou-se despir, assim como buscou livrar Shaka das roupas, também. Desejavam sentir a pele um do outro e nada lhes pareceu proibido ou constrangedor. Havia somente a necessidade, a fome que os levava a provar-se e fundir-se num só.

Os corpos nus foram iluminados pelo luar e os dois deixaram a pedra fria para deitarem sobre o leito de folhas secas... Alguns galhos e pequenas pedrinhas espetavam as costas de Shaka e ele tinha o poder de, simplesmente, tornar suas costas imunes ao incômodo, mas não o fez. Havia a necessidade de sentir e reverenciar aquele sentimento novo, mesmo que seu coração e sua mente gritassem em plenitude e estranheza...

Ikki tocou o rosto suave e deixou-se tragar por aqueles olhos que o haviam prendido em sua teia de enigmas e segredos desde o primeiro minuto em que o conhecera. E quando Shaka sorriu, o jovem padre encontrou todas as respostas emocionais que a religião nunca lhe dera...

O ruído do vento noturno batendo nas árvores foi amortecido pelo som de suaves beijos úmidos que Ikki depositava no corpo abaixo do seu e as mãos de Shaka deslizavam pelas costas fortes, ao mesmo tempo em que as suas coxas sentiam o palpitar do sexo ereto que o jovem padre já não podia esconder...

Shaka gemeu e arqueou as costas para ele.

— Pela Deusa... Venha para mim... – murmurou o Elemental, seus dedos cravando-se nos ombros fortes, sentindo o volume dos bíceps que sustentavam a maior parte do peso de Ikki o suficiente para manter o contato pleno dos corpos e fazer com que o falo rijo pulsasse junto ao seu...

Quando Ikki sugou seus mamilos túrgidos, Shaka contraiu os músculos abdominais e sentiu-se estremecer... Sem controle, deixou escapar um gemido longo dos lábios avermelhados...

O jovem padre agia por puro instinto e se deliciava em provar da pele perfumada e macia, sua língua imprimindo calor a cada centímetro... Suas mãos apertando e marcando a carne alva, seu corpo inteiro tomado pela luxúria e pela paixão...

Ikki escorregou para baixo, a umidade da boca a requeimar o caminho. Abriu as pernas torneadas, empurrando cada joelho para cima de seus ombros e começou a acariciar-lhe a virilha e o falo com longas lambidas, arrancando ofegos de Shaka e apertões fortes em seu corpo.

O jovem padre sentia a urgência do Elemental e também a sua. Mas temia o furor do próprio corpo...

— Eu... tenho medo de machucá-lo... Eu nunca fiz... – murmurou com a voz rouca e trêmula.

— Eu sei, mas não vai me machucar... Saiba que sou o ser menos frágil que você já conheceu. A única maneira de me ferir é recusar-me... – respondeu Shaka ofegando e mordendo o lábio inferior com força.

As palavras e o tom quente e aliciante com que foram ditas foram o bastante para que Ikki o abraçasse com mais força e num único movimento sensual se erguesse e o penetrasse bem fundo, preenchendo-o por completo, sentindo o acolhimento quente e estreito da cavidade úmida do corpo que se entregava a si...

Shaka entreabriu os lábios num gemido carregado de erotismo e passou as pernas em torno das nádegas rijas, colando-se a ele e acompanhando as investidas, indo de encontro aos movimentos fortes e ritmados de Ikki.

Intenso e ferozmente, o jovem padre adentrava o corpo febril, gemendo e fazendo Shaka arfar em arquejos curtos e cada vez mais rápidos... Os corpos moviam-se, convulsos e sincrônicos, o latejar do clímax se aproximando, reunindo forças para a explosão do prazer...

Uma fração de segundo antes que Ikki liberasse o sêmen dentro do seu corpo, Shaka sentiu-lhe a tensão e ambos se olharam, trêmulos... Com um arquejo enrouquecido, o loiro gozou ao sentir as estocadas finais e contorceu-se em espasmos múltiplos, imerso naquele ápice violento, enquanto Ikki urrou e, de súbito, ficou imóvel, repetindo o nome de Shaka com os dentes semicerrados, enquanto estremecia por inteiro.

Caíram frouxos, suados e exaustos, braços e pernas entrelaçados... Shaka encarou-o com um sorriso que Ikki jamais vira na bela face do Elemental.

Por Deus... Pensou Ikki e, ao evocar o nome do Criador, a culpa quase encontrou lugar em seu coração ao perceber-se tão feliz como jamais o fora.

Shaka escorregou a ponta dos dedos de um jeito preguiçoso pelo braço do padre.

— Dizem que o seu Deus já foi terrível, mas depois que ofereceu o Filho em sacrifício pelos humanos, tornou-se amoroso. Nesse aspecto, ele e a Deusa se parecem, não acha? – perguntou ele.

Ikki suspirou e rolou de lado, saindo de cima dele.

— Devotei minha vida a Ele... Fiz votos e... E descobri que nada disso era suficiente. Bastou tê-lo em meus braços, Shaka, para compreender a dimensão do humano e do transcendente. Eu te amo... Que Deus possa perdoar-me, porque o que eu sinto por você é maior que tudo, até mesmo da minha fé. – confessou Ikki.

O Elemental jamais ouvira a melodia inebriante daquela frase. Para o seu povo, o amor era uma emoção presente e diluída em todas as coisas... Não havia posse, nem paixão. Então porque seu coração ainda palpitava ao som daquelas palavras?

— Eu... também te amo, Ikki. – deixou escapar percebendo que sentia o mesmo e essa emoção nova o fazia ver tudo mais vívido e colorido.

Os lábios de Shaka se abriram para seu amado e Ikki invadiu-lhe a boca, explorando o gosto doce da língua, admirando os dentes alvos e perfeitos... Prendeu-lhe o lábio inferior entre os seus para depois beijá-lo com avidez e sentir, novamente, aquela emoção de ter o loiro em seus braços, agora com ternura e saciedade...

Os dois permaneceram deitados por mais algum tempo sem dizer nada. A ondulação das folhas, o vento assobiando baixinho e o calor dos corpos entrelaçados trouxe paz a Ikki, embalando seu sono mesmo no chão...

Por sua vez, Shaka continuava desperto, uma energia intensa percorria o seu corpo e aquele sentimento novo parecia ter aberto uma nova perspectiva em sua vida. As paisagens adquiriam outro significado e outras indagações...

Rolando para o lado e apoiando o corpo sobre o cotovelo o belo Elemental estudou as feições de Ikki, adormecido a seu lado. Ele estava vulnerável demais, as marcas do cilício visíveis na coxa forte... Tocou seu rosto com delicadeza e então, ouviu o som de passos pesados sobre as folhas e galhos secos. Sincronicamente, Ikki abriu os olhos e vislumbrou a figura delicada de Shaka, em meio às sombras, se erguendo em sua direção.

— Alguém está vindo... – sussurrou ele.

Ikki buscou a batina jogada ao chão e vestiu-a, enquanto Shaka fazia o mesmo com as suas roupas. Porém, quando terminaram, uma voz grave pareceu encher o ar.

— Ora, ora... Você devia ter me esperado, filho de Aine... Ou será que quebrou mais uma lei e se apaixonou pelo padre? Por aquele que condena tudo o que você é!

— Deixe-o em paz! – ordenou Ikki colocando-se na frente de Shaka.

Uma gargalhada sonora e doentia escapou de Kanon e, sem que ninguém esperasse, ele sacou de um punhal, esfaqueando o padre p´rofundamente no ventre.

— Ikki! – gritou Shaka vendo que o jovem se agarrava aos ombros de Kanon.

Kanon retirou o punhal ensanguentado e Ikki caiu, sendo segurado por Shaka.

— Sangue e sêmen... Tenho tudo para realizar o ritual! Você me deu isso, meu caro e agora, vamos – vociferou Kanon pegando Shaka pelos cabelos e afastando-o de Ikki que ainda tentava levantar-se, mas o sangue vertia, abundante, de seu ventre.

— Shaka... – murmurou Ikki sentindo o sangue invadir-lhe a boca.

O Elemental olhou para aquele que amava e depois para Kanon. No céu claro, nuvens escuras tomaram conta do céu, cobrindo a lua e um trovão ecoou junto com a voz de Shaka:

— Largue-me, seu maldito!

Uma faísca azulada percorreu o corpo de Kanon e ele estancou. Em desespero, ele vislumbrou o olhar mortal e intenso de Shaka. O vento elevava-se, produzindo pequenos redemoinhos com as folhas secas e um som terrível semelhante a um lamento, a terra tremia como se estivesse sendo ferida...

— Por Deus, pare! Você não pode se voltar contra mim! – gritou Kanon sentindo todo o seu corpo enrijecer e ser tomado por uma dor terrível e excruciante.

— Seu Deus não irá ajudá-lo, não esse deus terrível e patético que a sua Igreja defende. Você deseja o poder e o terá, mas seu corpo mortal não poderá suportá-lo! – disse Shaka.

Os belos olhos do Elemental faiscavam, seus fios loiros flutuavam dentro de uma aura eletrificada e todo o seu corpo estava tenso como se ele fosse uma escultura de mármore.

Kanon caiu de joelhos, os cabelos se tornando brancos, o rosto crispado de terror... Como último recurso, cobriu os olhos com as mãos e sentiu o sangue escorrer deles como se chorasse lágrimas de sangue.

Então Shaka voltou-se para Ikki que jazia pálido e tomou-o nos braços.

— Meu amor... – sussurrou e Ikki abriu os olhos.

— Você... está bem? – perguntou Ikki com a voz trêmula e fraca.

Shaka sorriu triste. Então o amor é assim? Ele está morrendo e, mesmo assim, se preocupa comigo. Junto ao pensamento pousou as mãos macias nas laterais da cabeça de Ikki e aproximou os lábios dos dele.

— Tudo o que sou e tudo que serei será dado a você... — sussurrou o Elemental.

Ao invés de uma faísca ou um facho de luz, labaredas fumegantes envolveram o corpo do jovem padre. Ikki jamais sentira tanta agonia e em sua dor, ele vislumbrou a figura de um imenso pássaro de fogo possuindo seu corpo. No desespero, ele tentou afastar a boca dos lábios de Shaka, mas o Elemental continuava. Seu rosto parecia coberto por uma máscara gelada em sinal de profunda concentração e suas mãos mantinham o corpo de Ikki bem próximo a si numa tremenda demonstração de força e poder.

Ikki gritou quando, por fim, o imenso pássaro de fogo se evanesceu. De súbito, tudo voltou ao normal e uma leve brisa substituiu os ventos fortes. A terra acalmou-se e a noite voltou a ser silenciosa.

O jovem padre abriu os olhos, tocou onde Kanon o havia apunhalado e nada havia ali, nem mesmo uma cicatriz. Olhou para o lado e viu Kanon ajoelhado como se estivesse reazando. Seus cabelos longos estavam, totalmente, brancos e ele dizia palavras desconexas, balançando o corpo para frente e para trás.

Só então, ele o viu.

Shaka estava estirado no chão com os braços abertos e mãos que mais pareciam lírios. Seu rosto estava sem cor, lívido pela máscara da morte. Desesperado, Ikki o tomou nos braços percebendo que não havia movimento do tórax e nem o nariz se dilatava com a respiração.

— Não! Não! – gritou na mais profunda agonia.

Estreitou-o, ainda mais nos braços, sentindo o corpo que antes era quente, inerte e frio. Olhou para o rosto de seu amado e, de novo, percebeu a curva perfeita dos cílios. As linhas ao redor dos olhos estavam mais profundas do que havia visto antes... Olhou para os céus e para a lua, que agora parecia avermelhada.

— Deusa, por favor, eu sempre acreditei em um Deus único, mas Shaka disse ser seu filho... Então é a senhora que eu apelo! Permita que ele viva! Permita que eu possa devolver a vida que ele me deu. Traga-o de volta! Tire a minha, mas deixe-o viver! – gritou Ikki em prantos.

Uma figura brilhante materializou-se junto dos dois. Era uma mulher jovem e delicada que sorria de forma amorosa. Suas vestes pareciam uma mistura de flores e folhas, cristais e nuvens...

Ah o amor... Preferimos amar de forma menos passional, porque grandes amores sempre acabam em tragédia. Mas você... Você sempre buscou o contato com os humanos, meu amado filho. Terá valido a pena? Disse a voz musical daquele ser de luz.

Ikki levou a mão aos olhos. A luz era tão ampla que parecia penetrar em sua pele e ossos. A mulher tocou o rosto de Shaka e soprou entre seus lábios semiabertos. Aos poucos, ele sentiu um fluxo de energia percorrendo o corpo de Shaka. Uma onda de calor permeou todos os membros e por fim, cobriu-o por inteiro, fazendo-o abrir os olhos.

— Mãe... – murmurou ele.

As lágrimas escorriam dos olhos de Ikki e ele acariciou a bela face que voltava a ter cor.

— Obrigado! Obrigado! – repetia o jovem padre.

A mulher suspirou e olhou para os dois abraçados. O brilho intenso da Rainha das Fadas iluminou os mais escondidos e obscuros recônditos do lugar. As pequenas criaturas noturnas se esconderam, a grama ressequida ficou viçosa e os lírios floresceram em plena noite...

Ia perguntar qual seria a sua escolha, Shaka, mas vejo que já decidiu... Dor, pesar, prazer, êxtase... A eterna dicotomia humana presente na paixão. Está certo que deseja mesmo isso para si?

Shaka aconchegou-se junto a Ikki e encarou os olhos dourados de sua mãe.

— Eu o amo. Nunca soube o que era esse sentimento até agora e... é muito bom! Não sei como será, mas quero vivenciá-lo o tempo que eu puder.

Está feito, então. Sabe que ficar no mundo dos homens os fará levar uma vida isolada e perigosa. Ainda chegará o dia em que as escolhas serão livres e pautadas, apenas pelo livre arbítrio, mas séculos se passarão antes disso... Ofereço-lhes a nossa hospitalidade já que doou parte de sua essência para este jovem e despertou uma antiga criatura para resgatá-lo. A pergunta que faço é, ele terá coragem de deixar tudo aquilo que ama e conhece neste mundo para ficar com você, meu filho?

Ikki olhou em volta, aquele era o seu mundo, um mundo imerso na ignorância e na obscuridade religiosa que excluía aquilo que não podia explicar. Pensou em seus pais e em Shun, o irmão que amava e por quem devotou sua vida a uma vocação que não possuía. Então percebeu que a madrugada, lentamente cedia ao amanhecer e que sua decisão implicava em deixar a realidade conhecida para viver algo novo e surpreendente. Tomou a mão de Shaka na sua e olhou para a mulher que vibrava misturando-se às brumas, ao ar e ao cheiro da terra molhada pelo orvalho.

— Eu também o amo e desejo ficar ao seu lado. – disse olhando para Shaka.

Aine sorriu e gesticulou formando uma bruma suave e perfumada. Kanon continuava alheio a tudo, apenas rezava e pedia perdão por seus pecados. Quando a bruma o tocou, ele reviu o que tinha feito. Eu os matei! Matei e enterrei aqui! Preciso me confessar, preciso ser perdoado!

Quando Saga chegou, encontrou a batina suja de sangue e Kanon continuava ajoelhado, pedindo perdão.

— O que você fez? – perguntou Saga ajoelhando-se ao lado do irmão.

— E-Eu... os matei.... eu vi... eles eram demônios! Perdoe-me, irmão... Perdoe-me!

Saga tratou de criar uma história convincente para explicar o drama que se formara ali. Espalhou-se a história que um demônio havia se disfarçado no belo Shaka e que a piedade de Kanon o havia envolvido nas teias do mal. Os cabelos brancos testemunhavam a luta do irmão contra o demônio e o jovem padre que fora subjugado a ele. Ambos, demônio e padre haviam perecido perante a fé e assim, Kanon não deveria ser julgado pela lei dos homens e sim ser protegido e confinado ao mosteiro.

Todos aceitaram a palavra do bispo, até mesmo o cardeal e Saga decidiu, também, se recolher ao mosteiro.

Naquela noite, enquanto Kanon continuava com o olhar perdido e repetindo as orações que lhe vinham à mente perturbada, seu irmão também orava em sua pequena e fria cela. O cilício apertava sua coxa, porém a dor não era maior que a de seu coração... Perdão, meu Deus! Perdão! Tudo isso aconteceu por meu pecado secreto, meu amor doentio por meu irmão... Foi minha culpa! Achei que deixando-o com aquele jovem, jamais cairia em tentação... Perdoe-me! Perdoe-me!

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Um ano se passou e a trágica história foi sendo contada de diversas formas. Saga retirou-se da vida pública de bispo e foi para o mosteiro. Lá, fez voto de silêncio e reclusão perpétua, assim como Kanon que ficou ao seu lado e também se tornou padre. Os dois viveram juntos o resto de seus dias e, quando chegou a hora, morreram juntos devido ao excesso de penitências que se autoinfringiam para não cair em tentação...

No túmulo que jazia junto à Rocha das Lágrimas, cresciam lírios em meio às ervas daninhas. A propriedade abandonada, agora estava vazia e todo aquele que desejava conhecer o local da grande tragédia, podia adentrar ali.

Shun decidira ir ao local à despeito da proibição de seu pai. Ali, em frente àquela natureza abandonada, ele se perguntava se Ikki se encontrava no túmulo simples, indicado apenas por uma cruz de madeira, sem nada escrito... Uma lágrima escorreu pelo rosto delicado e ele tocou no lírio branco que crescera sobre o pequeno monte de terra.

— Custo a crer que está aí, Ikki... – murmurou ele.

Um barulho de passos leves se fez ouvir e Shun virou a cabeça encontrando um par de olhos semelhantes aos seus. Era uma menina bonita que lhe sorriu com um lírio branco. Ela se aproximou e colocou a flor sobre o túmulo.

— Você os conhecia? – perguntou ela.

— O padre era meu irmão. O outro nunca conheci. Custo a acreditar no que falam. – respondeu Shun, triste.

Esmeralda franziu o cenho e mordeu o lábio inferior decidindo se devia contar ou não. Entretanto, ao sentir o sofrimento daquele garoto bonito, resolveu arriscar.

— Olhe, eu vou contar algo que vi e que nunca revelei a ninguém. Eu... as vezes acho que imaginei, mas depois tenho certeza que vi.

— Do que você está falando?

— Os dois não morreram, eles foram levados por um anjo!

— Como assim?

— Eu só sei que aquele dia eu havia levantado de madrugada para ajudar minha mãe no serviço da casa. Eu me encarreguei de acender o fogo e vim até aqui para juntar gravetos secos. Quando eu estava ali – disse ela apontando para a direção da pequena estrada. – Eu vi o irmão do bispo ajoelhado e pedindo perdão, enquanto o anjo levava os dois... Eu juro que é verdade!

Shun olhou para a menina de olhos tão verdes e vivos quanto os seus. Ela está dizendo a verdade, eu sinto. Pensou ele.

— Mas... essa cova...

— Não tem ninguém aí, mas o anjo fez todo mundo acreditar que tem. Porque ele fez isso eu não sei...

O jovem olhou, novamente, para a cruz e as flores.

— Meu irmão nunca quis ser padre, eu sei. Nossos pais fizeram uma promessa por minha causa e ele teve de cumprir. Fico feliz que ele esteja no Paraíso junto desse anjo que você disse ter visto.

— Ele está, pode ter certeza! – disse Esmeralda sorrindo.

Shun também sorriu e olhou, mais uma vez, para os lírios que pareciam refletir a bela luz dourada do sol. Eu desejo que esteja feliz, irmão. Onde quer que você esteja!



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As cores eram tão vivas e pulsantes que seus olhos custaram a se acostumar. O Pôr do sol, ali, era de uma delicada intensidade e parecia conversar com a sua alma. Era possível enxergar pequenos arco-íris nas gotas de orvalho e deslumbrar-se com os pássaros cujas asas iridescentes que os faziam parecer pontos luminosos flutuando no ar. Aquele era o mundo do homem que amava e que o acolhera tornando-o livre e feliz!

Shaka aproximou-se, enlaçando-o pelo pescoço e beijando-o com paixão.

— Está pronto para essa noite? – perguntou o loiro rente aos lábios do amado.

— Sim. – respondeu Ikki mordiscando o lábio delicado de Shaka.

— Puxa, a resposta foi dada com prontidão. Tem certeza?

— Absoluta!

O Elemental sorriu e a natureza ao seu redor pareceu sorrir também. Naquela noite celebrariam mais um século juntos, uma espécie de aniversário de casamento que era celebrado no mundo humano. Ambos receberiam a benção de Aine, haveria uma grande festa e a alegria reinaria entre eles, trazendo amor e fertilidade àquelas terras...

Ikki olhou bem dentro dos olhos de Shaka e neles reconheceu o elo profundo que tinha com o Criador. Seu amado tinha razão, a verdadeira religião estava em tudo, na natureza, no amor, no sexo sem culpa.

Sorriu, sentindo-se abençoado e beijou os lábios delicados. E quando a noite chegou e os vagalumes iluminaram os campos, a grande festa começou e as bênçãos da Rainha das Fadas penetrou em todos os lugares do reino e nos corações dos dois amantes.

Eu te amo, Shaka...

Eu também te amo, Ikki... Hoje e sempre!

FIM



Notas finais
Obrigada a todos que lerem, comentarem, deixarem a sua impressão. Bjs!!! XD ***matter = mãe. ***Aine ou Éire é uma das três rainhas dos Tuatha Dé Danann e originou o nome Irlanda. É chamada de Rainha das Fadas e considerada uma deusa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!