A Hora Morta
1 Capítulo 1
Desperto e olho para o lado: o ponteiro do relógio indica que são 3:05 da manhã. Engulo em seco e logo sorrio, tentando afastar os pensamentos ruins. Horas antes de dormir, li algumas matérias que falavam sobre a ''Hora Morta'', um fenômeno que ocorre entre as 3:00 e 3:59 da madrugada, quando acredita-se que portais do outro mundo se abrem e espíritos vagam pela Terra.
Para ser sincero, não sei por quê me sinto tão desconfortável. Nunca vi vultos, tampouco ouvi vozes. Sou um cara de mente sã e não acredito em histórias de fantasmas. Apesar disso, sinto como se houvesse algo diferente no ar. A sensação de estar sendo observado no escuro me apavora.
Acordo com sede e decido ir até a cozinha tomar um copo d'água, mas algo me impede de me movimentar. Um pânico crescente toma conta de mim enquanto tento entender o que está acontecendo. Respiro fundo e tento mexer minhas pernas, sem sucesso. Após 2 longos minutos de um desespero silencioso, enfim retomo o controle de meu corpo.
Me levanto rapidamente e acendo todas as luzes que encontro pelo caminho, até chegar à cozinha. Logo, abro a geladeira e despejo um pouco d'água em um copo. Mas não é o suficiente. Céus, estou com tanta sede... É como se eu não ingerisse líquidos há dias. Bebo mais água na esperança de conseguir me saciar e quando percebo, esvaziei a garrafa, que antes estava totalmente cheia. Agora, mais aliviado, deposito o copo em cima da pia e decido voltar para o quarto.
Ao apagar a luz da cozinha, ouço breves risadas infantis atrás de mim. Paro instantaneamente, acendo a luz novamente e olho ao meu redor, mas não encontro nada. Talvez seja algum gato atrevido à procura de comida. Mas gatos riem? Não, até onde sei... O que acabei de ouvir não se parece nem um pouco com um gato.
— Não foi nada, apenas ilusão da minha cabeça. — pensei — Volte logo a dormir. Alguém está com a vida ganha, e com certeza esse alguém não é você.
A sensação de estar sendo observado apenas aumenta. Olho de relance para os cantos, como se esperasse que alguma aparição espreitando da escuridão me atacasse de surpresa. Mas nada acontece. E por que raios eu deveria esperar por isso?
— Preciso parar de ler esses contos de terror antes de dormir. — falei para mim mesmo
Os risinhos novamente surgiram, dessa vez acompanhados por passos leves. Abro rapidamente a gaveta do armário da cozinha e pego uma faca. Decido averiguar, torcendo para que fosse apenas algum invasor a fim de assaltar minha casa. Me movimento, relutante, enquanto procuro ouvir qualquer barulho ou movimentação estranha. Analiso a cozinha e os fundos da casa, mas para minha sorte (ou seria azar?), mais uma vez não encontro nada.
Volto quase correndo para a cama, me esquecendo totalmente de apagar as luzes que deixei acesas. Tranco a porta do meu quarto, apago a luz e me meto debaixo das cobertas, como se elas fossem o escudo mais poderoso que o homem já fez. Quando olho novamente para a porta, percebo uma movimentação de sombras na sala, por trás da porta, como se alguém caminhasse para lá e para cá.
Olho para o relógio novamente e para minha surpresa, ainda eram 3:05 da manhã. Mas como seria possível!? Acordei há pelo menos 20 minutos... Bom, talvez ele tenha parado. Mas tudo bem, isso é algo que pode ser resolvido amanhã.
Está tão frio aqui... Me viro para o lado e o luar que clareava timidamente o quarto me permitiu perceber um volume por baixo do cobertor, ao meu lado, como se alguém ali dormisse. Enquanto ouvia a sua respiração baixa e rouca, eu rezava para que pudesse viver para ver o dia amanhecer, ao mesmo tempo em que me arrependia amargamente por ter decidido morar sozinho tão cedo.
Mas não pude concluir minhas preces a tempo. Aquilo que se deitou ao meu lado não gostava de orações.
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