A Hora Das Bruxas

1 O Sétimo Filho Do Sétimo Filho


Notas iniciais
Primeiro conto, espero que gostem. :D

O sétimo filho do sétimo filho, entendem? — indagou Rhys, com aquele fino sussurro que insistia ser sua voz verdadeira. Segurava uma lanterna embaixo do queixo; seu rosto estava sinistro sob o fraco jorro de luz. Estava em cima de um monte de livros velhos e antigos que encontraram na biblioteca do Sr. Fligh. Tony sabia que não deviam estar ali, mas Nancy e Millie insistiram em ir. Elas eram secretamente apaixonadas por Rhys, o problema é que todo mundo sabia daquele segredo. — É o título da história.

Rosie estremeceu. Dentro de sua camisola com estampa de ursinho de pelúcia, era a mais nova dali, e também irmã de Nancy. Tinha o mesmo cabelo louro que a irmã, mas enquanto os olhos de Nancy eram castanhos, os de Rosie eram azuis. Não devia ter mais que oito anos, Tony julgava.

— Não gosto daqui — disse Rosie. De fato, o sótão do velho Sr. Fligh era assustador. Teias de aranha pendiam das vigas do teto, e cada vez que pisavam numa tábua de madeira, Tony tinha a impressão de que ia desabar. Até mesmo ali, parados em volta de Rhys, um ruído sinistro de madeira se desfalecendo imperava no ambiente. — Quero ir para casa — choramingou.

— Cala a boca — rosnou Nancy, logo depois dando um bonito sorriso a Rhys. Tony teve vontade de meter-lhe um prego entre os dentes. — Nem sei por que trouxe você. É só uma criança.

Nancy também era só uma criança, não devia ter chegado nem aos doze anos.

Rhys pediu que fizessem silêncio.

— Como eu dizia… — ele sussurrou, pretendendo começar a história. — Há muitos anos, existiu uma família nessa cidade, os Mayfair. Era formada pelo pai, pela mãe, pela mãe da mãe e pelos seus sete filhos.

“O pai era um lavrador pobre, sendo o único que trabalhava na família. A mãe era dona de casa, os filhos eram pequenos e a avó era inválida. Um certo dia, um vendedor chegou à cidade. Vestia traje antigo e formal, parecendo ter saído de outra época. Começou a oferecer um elixir cor-de-rosa às pessoas, dizendo que as tornaria ricas e fortes da noite para o dia, e pedia por ele apenas que entregassem seu bem de maior valor ao poço dos desejos da antiga floresta da cidade. O poço não era mais usado e estava cheio de lodo, sendo que a pedra estava bem desgastada.

“O vendedor foi logo repudiado pela maioria das pessoas, que o aconselhavam a deixar a cidade, pois não gostavam daquelas coisas fantásticas. O vendedor tocou a porta de todas as casas da cidade, sendo rejeitado por todos. Ninguém queria o elixir, ninguém acreditava em suas propriedades.

“Quando chegou à última casa, à casa do pobre lavrador, de sua mãe, sua esposa e seus sete filhos, o vendedor, porém, decidiu tentar uma abordagem diferente. Ao invés de falar com toda a família de uma vez, o vendedor foi primeiro ao pai.

“‘É a melhor coisa que poderá algum dia ter tomado’, disse o vendedor ao pai. O pai olhou-o de soslaio, sabendo da opinião pública sobre o vendedor, sendo que nem ele mesmo acreditava naquelas coisas. ‘Vamos fazer assim’, disse o vendedor. ‘Você pega o elixir agora e o toma. Se funcionar, o senhor paga o que deve. Se não funcionar, eu vou embora da cidade.’ Prontamente, o pai aceitou.

“Na manhã seguinte após ter tomado metade do elixir de uma vez, o lavrador acordou com a maior alegria possível. Olhando-se no espelho, viu-se muito maior e mais forte, até mesmo a rala sopa de repolho de sua esposa parecia mais saborosa e revigorante. O dia parecia mais bonito, havia uma no ar uma força de vontade que ele nunca presenciara antes. Naquele dia, o lavrador conseguiu cuidar da terra por mais de doze horas seguidas, sem parar para descansar.

“Ele deu o elixir a todos os seus sete filhos, que afinal eram todos homens. Os jovens rapazes logo adquiriram jovialidade acentuada e saúde extrema, ajudando o pai na lavoura, mesmo que teoricamente não tivessem força nem para levantar uma enxada. Com a nova enxurrada de força na família Mayfair, a lavoura logo cresceu e a família enriqueceu. Mudaram-se para uma casa maior e passaram a contratar criados para fazer o trabalho pesado. O lavrador tornou-se o patrão, e seus filhos administravam sua riqueza.

“Os anos passaram-se sem que se tivesse sinal do vendedor, o qual o pai nunca mais viu. Os habitantes se perguntavam o que dera ao lavrador aquela sorte repentina, aquele enriquecimento tão absurdo e admirável. ‘Força de vontade’, ele dizia. Mais alguns anos se passaram e o pai foi envelhecendo, e seus filhos todos se casaram e lhes deram netos. Os netos começavam seus próprios negócios e tinham sucesso instantâneo neles. A família Mayfair era conhecida como a mais bem-sucedida, rica e respeitada família da cidade.

“Chegou um dia em que a esposa descobriu que o marido tomara o elixir oferecido ao antigo vendedor. Como não podia deixar de ser, associou tudo aquilo ao demônio, dizendo como estavam todos amaldiçoados e logo morreriam. Insistiu tanto naquela ideia que logo a cidade inteira começou a pensar que era louca. A mãe morreu num ataque de histeria, engasgada com a própria língua.

“As pessoas começaram a perguntar ao pai se era verdade o que ela dizia, ao passo de que o pai mostrava-se indignado. Como poderiam as pessoas dizer aquilo dele? Como poderiam duvidar de que enriquecera por seu próprio esforço? De que sua família não estava amaldiçoada, como dizia sua louca esposa, mas sim abençoada por Deus? Absurdo, absurdo total…

“A avó, a mãe da mãe, porém, sabia que a filha falava a verdade, mas tivera o cuidado de não falá-lo a ninguém. Àquela época, era tão velha que não tinha forças nem para se levantar. Em seu leito de morte, confidenciou ao pai seu terrível segredo: ela era uma bruxa, e por hereditariedade sua filha também era, e assim o era todos os seus descendentes e assim seria por todas as gerações. Dizia que eles podiam fazer coisas que ninguém mais podia. Disse-lhes que podiam ler pensamentos, fazer levitar as coisas, podiam também fazer mal a quem bem entendiam. Também disse que ela sabia que ele aceitara o elixir e que um dia o vendedor apareceria para cobrar seu preço.

“Quando a avó morreu, uma terrível tempestade acometeu a cidade por toda a noite. Nunca em sua história havia ocorrido uma tormenta como aquela. Várias grandes casas foram derrubadas, colheitas foram perdidas, pessoas morreram. Milagrosamente, a casa e a colheita da família Mayfair permaneceram intactas, e nenhum dos familiares morreu. O pai, porém, foi acometido de uma doença que o debilitou.

“O vendedor, afinal, voltou. Assim como o fizera na primeira vez, apareceu apenas ao pai, que dormia tranquilamente em seu quarto quando abriu os olhos e o viu lá, exatamente como o vira há tantas décadas. Não envelhecera um único dia, não tinha um único fio de cabelo branco. As roupas eram as mesmas, antigas para a época. Agora mais antigas ainda.

“‘Vim cobrar o preço do elixir’, ele disse. O pai, assustado e indignado, ladrou: ‘Não sei do que está falando. Saia da minha casa antes que eu chame os criados!’ O vendedor, para sua surpresa, sorriu, assentiu e virou-se, desaparecendo na escuridão. O pai chegou a pensar que tudo ficaria bem e que o vendedor fora ilusão de sua mente, mas descobriu-se errado. Terrivelmente errado.

“Pouco a pouco, a família Mayfair começou a desmoronar. O primogênito do pai, seu herdeiro, morreu numa terrível queda de cavalo, e assim se sucedeu com seus dois filhos. Um morreu atropelado por uma carruagem e outro estava no topo de um morro quando escorregou nas pedras e caiu. O segundo filho, agora o mais velho, também morreu, e assim foi com seus três filhos, todos das maneiras mais acidenteis possíveis. Eram eletrocutados por raios ou tinham seus crânios esmagados por troncos de árvores que caíam bem em suas cabeças. Outros recebiam pedradas na testa e outros eram assassinados em assaltos. Alguns caíam de cavalos. Outros eram atacados por doenças horrendas que lhe comiam o estômago. Um a um, todos os membros da família Mayfair eram exterminados, e ninguém sabia por quê.

“Os negócios também andavam mal. As terras dos Mayfair foram definhando, os frutos nasciam podres, as plantas morriam. A cidade passou por uma terrível seca, mesmo que o tempo sempre estivesse nublado. Diziam os mexericos que uma maldição tomava a cidade por causa de seus pecados. É claro que todos viraram os olhos para os Mayfair, que pareciam ser os mais afetados. Afinal, apenas três membros sobreviviam.

“O pai, seu sétimo filho, e o sétimo filho desse sétimo filho, chamado Petyr. Petyr era um jovem e bonito garoto de cabelos louros e olhos azuis de dez anos, ou talvez doze. Não havia na cidade quem não gostasse do menino, nem quem não soubesse de sua generosidade para com os mais pobres e de sua gentileza para com todos. Era tão amado quanto apreciado. Vários senhores de terras ofereceram suas filhas para que se casassem com Petyr, ambicionando que seus filhos herdassem as terras dos avós.

“Um certo dia, quando o pai estava agonizando sob forte tormenta, o vendedor voltou. Estava envolvo por uma sombra escura feito de névoa densa, seu rosto possuía uma terrível neutralidade gelada, e sua voz era cortante como gelo. ‘Vim cobrar o preço do elixir’, ele disse, e a essa altura o pai estava tão desesperado que imaginava se a morte não seria um caminho melhor. ‘Nunca morrerá’, disse o vendedor. ‘Viverá para sempre sob agonia, a não ser que pague.’ O pai então suplicou que o vendedor dissesse-lhe seu preço. O vendedor sorriu. ‘Quero o sétimo filho do sétimo filho.’”

“O vendedor sumiu após isso, simplesmente dissolveu no ar como névoa. O pai ficou desesperado, pensando logo em Petyr, no garoto que todos amavam e que amava a todos. Nesse momento, um raio atingiu o topo da mansão da família Mayfair, fazendo sua torre mais alta pegar fogo. O pai teve de ser levado para fora pelo sétimo filho, o pai de Petyr, pois a casa começou a pegar fogo.

“Hospedaram-se numa estalagem. No dia seguinte, o pai levantou-se com uma disposição que não sentia desde o dia em que tomara o elixir pela primeira vez. Era como se trinta anos tivessem sumido de suas costas e ele fosse um jovem garoto enérgico de novo. Sabia também, porém, que era temporário. O vendedor lhe dera aquela dádiva para fazer o que tinha de fazer. E, com um grande aperto no coração, o pai o fez.

“Pensava que ninguém jamais saberia. Ele sairia de noite com o jovem Petyr para um passeio e o levaria à antiga floresta. Lembrava-se bem da antiga e primeira exigência do vendedor. Quem tomasse o elixir deveria entregar seu bem de maior valor ao poço de desejos da floresta, que há anos não era mais usado. O pai não via outra alternativa. Se fizesse o que o vendedor lhe ordenara, as maledicências parariam e a família Mayfair se tornaria próspera novamente. Poderia até tomar outra esposa e fazer mais filhos, e seu atual único filho poderia lhe dar outros netos tão bons quanto Petyr. Poderia dizer que o menino escorregou e caiu no poço… se quebrasse o pescoço assim que chegasse ao fundo, poderia imediatamente chamar os aldeões, fingindo desespero, para que lhe ajudassem com o neto caído.

“Naquela noite, o pai chamou seu neto Petyr para dar uma volta pelos arredores da cidade. Queria mostrar-lhe a cidade onde viviam, queria mostrar-lhe sua primeira casa, onde vivera antes de enriquecer, queria que ele compreendesse suas origens. Não havia necessidade de alertar seu pai sobre o passeio. Seu bom avô já o fizera por ele.

“E lá foram eles, o pai e o neto, pelo caminho mais escuro e deserto da cidade. O pai não queria que houvesse testemunhas. Ninguém poderia saber, afinal. Tinha que parecer um acidente. Depois que tudo estivesse terminado e ele entregasse o sétimo filho do sétimo filho, tudo voltaria a ser como antes, ou até melhor. Petyr lhe seguiu sem hesitar. Adorava a companhia do avô e o poder que ele transmitia.

“Era uma noite fresca e, pela primeira vez, não havia nuvens no céu. O ambiente parecia colaborar, e o pai perguntou-se se o vendedor não teria algo a ver com aquilo. Seguiu com Petyr pela trilha paralela à floresta até o antigo poço, que ficava numa clareira não muito adentro da mata, onde a luz mal chegava.

“A pedra do poço estava coberta de musgo e lodo; também estava desgastada e quebrada em várias partes. Não havia mais um suporte para descer o balde, não havia nem balde. Era apenas um buraco no chão, escuro e sem fundo.

“‘Não é bonito, Petyr?’, indagou o pai, com a mão no ombro do jovem neto. ‘Há muitos anos, algo incrível veio desse poço.’ ‘O quê, vovô?’, Petyr indagou ingenuamente, ao passo de que o pai sorriu. ‘Dizem que, se você olhar fundo dentro do poço, você consegue ouvir uma voz melancólica e triste cantar uma música.’ Petyr ficou extasiado. Queria imediatamente tentar ouvir a voz. O pai deixou, afinal.

“‘Ouça comigo, vovô’, pediu-lhe Petyr. O avô aproximou-se com ele no poço e ambos enfiaram as cabeças no buraco. Antes que o pai pudesse empurrar o neto, Petyr olhou-o com os olhos mais brilhantes que já vira em sua vida. ‘Ouve?’, perguntou. Sem saber por que, o pai fez que não. Petyr empurrou-lhe poço adentro com uma força sobre-humana, esperando para ouvir o corpo bater no fundo. ‘E agora, ouve?’, perguntou suavemente.”

“O vendedor chegou por trás de Petyr logo depois, que dirigiu-lhe um suspiro cansado. ‘Ele esqueceu que também é sétimo filho de um sétimo filho.’”

Rhys terminou o relato com um olhar sinistro, mas depois sua expressão tomou um brilho alegre, como sempre era. Rosie estava com os olhos do tamanho de duas bolas de golfe, ao passo que Nancy e Millie estavam morrendo de medo. Tony estava como Rosie, profundamente perdido nos olhos cinzentos de Rhys.

— É uma história real — disse Rhys com um ar jovial. Tony tinha certeza de que ele estava mentindo, mas se arrepiou mesmo assim. — A família Mayfair até tirou uma foto com toda a família reunida. Ficou do tamanho de um pôster.

Rhys passou a remexer num antigo baú do sótão do Sr. Fligh, marrom e de madeira. Tirou um rolo de papel enorme enrolado e abriu-o no chão. Tony e Rosie se aproximaram para olhar, Millie e Nancy o fizeram por obrigação.

— Aí está — disse Rhys, em pé, por trás de todos, com um grande sorriso.

A fotografia tinha um profundo tom de sépia. O homem do topo era velho e grisalho, com uma grande barriga e um bigode maior ainda. A sua esquerda, uma velha mulher de longos cabelos brancos e a sua direita, uma mulher jovem com um olhar apático.

Havia sete homens abaixo dele, e abaixo de cada sete, uma porção de garotos e garotas, enfileirados por ordem de idade. Tony passou os olhos pelo primogênito e por seus filhos, depois foi para o segundo e para o terceiro… até chegar ao sétimo. Então tomou um susto.

— Rhys — começou a dizer, olhando para trás —, eu… acho que… conheço esse homem.

Rhys sumira.

Tony olhou de novo para os filhos do sétimo filho. O sétimo era Rhys.

Notas finais
Comentem, por favor. :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.