A Holandesa do Guarda-chuva
1 Só procurar pela mancha vermelha no colorido daqui
Era um grupo de quatro amigos: Marck, Jackson, Larry e Andrew. Se conheciam desde... quem sabe a geração de seus pais. Sempre se se deram muito bem, mesmo com um Larry mais intelectual, um Marck mais festeiro e galanteador, e um Jackson curtidor e despreocupado. Mas, vamos falar mais do Andrew. É um garoto meio descrente da vida e das coisas, nunca acreditou em uma força maior, seja Deus (ou qualquer um que seja intitulado tal divindade), sejam energias da vida, até mesmo a ciência lhe causavam dúvidas. Sua relação com os pais não ia muito boa, e pelo menos tinha os amigos pra contar nas horas complicadas.
Continuando com os respectivos acontecimentos, os quatro se formaram no ensino médio, já eram maiores de idade, e, como comemoração, decidiram viajar. Mas o lugar era uma questão interessante, a cidade onde tudo pode: Amsterdã. Marck e Jackson insistiram. Com a concordância, Larry decidiu procurar visitar os lugares mais históricos: a casa de Anne Frank era um exemplo.
Chegando, a dupla dinâmica da pegação já contava os minutos para a primeira noite. O hotel já estava reservado, os quartos separados – duplos, por sinal. Larry com Andrew, Marck com Jackson.
Sem entrar em muitos detalhes chatos como, que eles desfizeram as malas, pesquisaram sobre a cidade e blá-blá-blá. Eles simplesmente fizeram isso.
☂☂
Marie caminhava serena pelas ruas da cidade de Amsterdã, onde vivera toda sua vida. As flores multicoloridas até que lhe agradavam, mas os fantasmas do seu passado não a permitiam apreciar as coisas bonitas da vida. O guarda-chuva vermelho estava pendurado em seu braço, não aberto, como costumava gostar. Fazia calor esse dia, o sol estava radiante. Marie se sentou em um dos bancos, tomando seus cabelos cor de fogo nas mãos, os jogando totalmente para o lado. Era estranho não ser notada. ☂☂
Por parte dos meninos, foi quase uma semana inteira de festa, bebida, mulheres e muita farra. Parecia carnaval brasileiro, onde já passaram um tempo. Na quinta-feira, mais especificamente, Andrew começou a pensar se tivesse ido à Amsterdã por outro propósito, e não toda essa comemoração. Se retirou do clube onde a música altíssima e o clima de embriaguez, cheiro de álcool e nicotina pairavam, além do odor de maconha e ópio.
Ao fazer o que pretendia sem irrupção alguma, começou a observar a cidade; começando pela rua em que se situava. Um guarda-chuva vermelho quase flutuava, se não fossem duas pernas não tão visíveis. O objeto foi mexido, e podia-se ver agora o fim do cabelo e do vestido branco que a garota usava. Ela estava parada de costas, a sombra do poste de luz, fina e comprida, cobria toda sua extensão, até se acabar no meio-fio. No início, julgou ser fruto da imaginação, causada pelo pouco uísque que tomara, e a fumaça das substâncias que ingerira, mas ela era real. Era real quando foi tocado.
Quem apareceu ao sentir o objeto que segurava ser pressionado, foi sim uma garota. Uma garota linda, podia-se dizer com certeza. Era ruiva, tão ruiva que quase não era possível ver a cor dos cabelos, com a escuridão da sombra do guarda-chuva. Os olhos, verdes? Castanhos? Também não era possível distinguir. O tal vestido ia até a altura dos joelhos, um pouco antes. Andrew era encarado com um olhar curioso.
-Olá, estranho. – Finalmente pronunciou as palavras que saíam quase involuntariamente – Quem é você e por que gostaria de falar comigo?
Ele pareceu surpreso pela garota falar seu idioma.
-Sou Andrew. É que... queria me livrar de tudo aquilo, e aí te vi aqui fora, e pensei que seria bom começar a socializar com locais verdadeiros, e até mais sociáveis.
A jovem não fez mais do que concordar com a cabeça e olhar para os sapatos.
-Hum. Bom que decidiu por isso. E sim, sou daqui mesmo. Mas, talvez não saiba, não é de meu agrado ter uma conversa com alguém externamente e artificialmente alterado, se não foi falta de educação falar assim. Podemos conversar, quando estiver mais sóbrio, sim?
-Ah, claro! – ele fez menção de se virar e tomar o caminho de volta, mas virou novamente para a garota, com a dúvida já nos lábios. – Mas... como vou te encontrar? Como é seu nome?
A desconhecida abriu um sorriso e apontou para o guarda-chuva com a cabeça.
-Só procurar pela mancha vermelha no alaranjado de Amsterdã. Nos vemos em algum momento desses.
Ainda sorrindo, ela se virou e começou a andar por um rumo diferente do que ele tomaria. Andrew, de primeira vista, gostou dela, a achou simpática, e ainda enigmática. O que ele não sabia era que essa desconhecida por ele, era conhecida por todos. De duas formas.
-Ei, Andrew! – chama Jackson do lado da porta do clube. – Marck é simplesmente incrível, conseguiu mais três pra gente!
Era visível que o amigo estava cem por cento tomado, assim também a garota do seu lado. Por mais que Andrew fosse indeciso, e segue sempre pela maioria, pensou duas vezes nesse caso. A certeza que ele tinha é que não queria uma vida desse jeito; já estava criando uma certa sensibilidade ao álcool, e começando a desejar um pouco daquelas drogas que se misturavam no local fechado. Rejeitou a proposta de mais uma noite de sexo, optando pela conversa com a ruiva no outro dia. Foi, sim, xingado pelo loiro, e se dirigiu ao hotel se sentindo melhor por ter decidido algo ele mesmo.
Larry estava lendo, como sempre faz pela noite, recostado confortavelmente na poltrona de frente à janela com visão de um canal da cidade. A porta quase não fez um ruído, mas o garoto tinha a habilidade de conseguir ouvir tudo a sua volta, e se virou para Andrew, levantando o olhar por baixo dos óculos de armação negra.
-Que cedo... E não tem ninguém contigo. – comentou com um sorriso no canto dos lábios e voltou o olhar para o livro – Aconteceu alguma coisa?
Andrew estava pouco ofegante pela pequena corrida que fizera.
-Aconteceu... Aconteceu que eu caí na real. Agora... acho que eu preciso dormir um pouco. – se sentiu meio grosseiro por falar desse jeito, mas o sorriso de Larry permaneceu.
-Alguma hora tinha que acontecer. Foi alguém que te deu um beliscão?
-Foi. – disse, a voz meio abafada pelo fato de estar escovando os dentes – Quase isso. Você vai passear na cidade amanhã?
Continua...
Fale com o autor