A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
16 Lucas: O instinto selvagem
Tatiane ponderou a ideia, mas Vitor esfregou a mão na testa e suspirou impacientemente.
_Como você pretende fazer isso gênio?
_Não sei._ Rangi os dentes, mas por falta de paciência, não discuti com Vitor. _Mas, aparentemente, a sede dos Revolucionários não era tão distantes da sede do Governo.
_E daí?
_E daí..._ Disse Tatiane antes de mim, o que foi bem conveniente, porque eu estava prestes a tacar minha mala em Vitor. _que o líder dos Revolucionários não deve estar muito longe do governante.
Vitor suspirou de novo.
_Tá, deixa eu falar pra vocês, não é tão perto assim.
Eu o ignorei.
_Podemos tentar achar semelhanças entre o presente e o futuro. Entendem o que quero dizer?
Tatiane olhou pra mim como se eu fosse um gênio, o que foi um alívio depois de tudo.
_Acho que eu sei por onde começar.
Era umas onze horas da noite, e a rua estava vazia e escura. Se tem algo que eu tema mais que o escuro, é o isolamento. Eu comecei a andar pela rua, esperando e torcendo. Vi um homem andando na direção contrária, e imediatamente soube que era ele, apesar de não se parecer nada com o mesmo. O brilho verde reluzia onde seus olhos estavam.
_Então, você é o tal escolhido pela mãe-natureza?_ Perguntou o líder dos Revolucionários.
Eu arqueei as sobrancelhas.
_Na verdade é Lucas, mas beleza.
Ele sorriu, de um modo calmo.
_É, pode ser. Então, sabe por que estou aqui?
Eu inclinei a cabeça pro lado.
_Vender cosméticos?
Ele suspirou, de um modo impaciente.
_Eu quero ajudar-lhe a entender as coisas que estão acontecendo ao seu redor.
Eu assumi uma expressão séria.
_Por quê?
_Porque você quer, e porque você precisa. Você precisa entender tudo, estar apenas com ideias claras na cabeça, pra saber o que fazer quando a hora da escolha chegar.
Eu retesei.
_Você quer dizer que quer me ajudar a fazer a escolha entre os Revolucionários e o Governo?
Ele assentiu de modo calmo, e começou a andar.
_Eu sou uma pessoa bem mais... lúcida, do que pareço ser. Sou bem mais justo que o Governante.
Eu quase retruquei, mas fiquei quieto. Naquele momento, eu realmente não saberia dizer quem era mais justo.
_Infelizmente, parece que minha organização e... bem, você, não tiveram encontros agradáveis.
Eu demorei um segundo para processar tudo, e mais um segundo pra franzir a testa.
_Como assim, eu?
Ele apontou pro nada e suspirou.
_Bem, talvez você não se lembre, mas estava lá. De um modo diferente, claro.
Eu fiz uma cara de confusão, e esperei ele falar. Não demorou muito para que ele começasse a explicar.
_Sabe quando seus olhos ficam verdes? Tipo assim?_ Ele apontou pro próprio rosto. _Você se sente mais forte, mais rápido, melhor, em todos os sentidos. Já deve ter percebido que isso acontece com Fernando também.
_Sim e daí?
Ele ficou andando de um lado para o outro.
_Isso se chama instinto selvagem. É um dom que a mãe-natureza deu a vocês, a mim, ao governante, e ao seus amigos. O que acontece é que a mãe-natureza precisava que você e Fernando se entendessem de alguma forma, que suas escolhas ajudassem Fernando, e vice-versa.
Ele se silenciou, e eu comecei a pensar. As palavras começaram a fazer sentindo, uma de cada vez, não todas juntas. Eu olhei pra ele.
_Isso significa que eu e Fernando temos o mesmo instinto selvagem.
O Revolucionário assentiu, em um sinal de aprovação.
_Assim como Vitor tem o instinto selvagem de Felipe e Tatiane tem o de Letícia.
Mais uma vez, silêncio. Ele estava me esperando analisar a situação. Ele estava esperando a minha fala.
_Mas por que a gente?
Ele deu de ombros.
_Eu sei muito, mas eu não sei de tudo. Isso você vai ter que perguntar a ela.
Eu suspirei.
_Quer um conselho?_ Perguntou o Revolucionário.
_Um conselho seu é a última coisa que eu iria querer.
Ele deu de ombros.
_Seja cuidadoso. Os seus desafios e os desafios de Fernando passarão a ser bem mais similares. Espero que quando a hora chegar, faça a escolha certa, seja ela qual for. Como eu disse, posso não parecer, mas sou um homem justo. Sei que posso estar errado.
E assim, os olhos verdes deixaram de ser verdes, e em minha frente só tinha uma pessoa muito confusa.
Eu voltei pro hotel o mais rápido possível, e contei a conversa pros meus amigos. Eles olharam pra si mesmos depois de eu terminar.
_Uau!_ Disse Vitor.
_Melhor definição._ Eu disse.
_É por isso que temos as visões?_ Perguntou Tatiane.
Eu olhei pro nada por alguns momentos antes de responder.
_Não sei, mas acho que sim. Vou perguntar tudo isso a ela hoje.
Tati e Vitor olharam pra mim.
_Como assim?_ Indagou Tati.
Eu me sentei na minha cama.
_Eu vou falar com ela hoje. No meu sonho.
_E como você vai fazer isso?
_Vai dar certo._ Falei, um pouco mais agressivo do que gostaria. _Só... confiem em mim.
Vitor suspirou.
_Ok, vamos dormir então. Ah, minha mãe falou com o prefeito. Ele disse que assim que estivéssemos prontos iríamos pro Norte.
Eu assenti e me deitei. Meus amigos fizeram o mesmo.
O sono veio quase que instantaneamente, e eu dormi depois de cinco minutos.
E a prisão mais uma vez apareceu na minha mente.
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