Tatiane ponderou a ideia, mas Vitor esfregou a mão na testa e suspirou impacientemente.

_Como você pretende fazer isso gênio?

_Não sei._ Rangi os dentes, mas por falta de paciência, não discuti com Vitor. _Mas, aparentemente, a sede dos Revolucionários não era tão distantes da sede do Governo.

_E daí?

_E daí..._ Disse Tatiane antes de mim, o que foi bem conveniente, porque eu estava prestes a tacar minha mala em Vitor. _que o líder dos Revolucionários não deve estar muito longe do governante.

Vitor suspirou de novo.

_Tá, deixa eu falar pra vocês, não é tão perto assim.

Eu o ignorei.

_Podemos tentar achar semelhanças entre o presente e o futuro. Entendem o que quero dizer?

Tatiane olhou pra mim como se eu fosse um gênio, o que foi um alívio depois de tudo.

_Acho que eu sei por onde começar.

Era umas onze horas da noite, e a rua estava vazia e escura. Se tem algo que eu tema mais que o escuro, é o isolamento. Eu comecei a andar pela rua, esperando e torcendo. Vi um homem andando na direção contrária, e imediatamente soube que era ele, apesar de não se parecer nada com o mesmo. O brilho verde reluzia onde seus olhos estavam.

_Então, você é o tal escolhido pela mãe-natureza?_ Perguntou o líder dos Revolucionários.

Eu arqueei as sobrancelhas.

_Na verdade é Lucas, mas beleza.

Ele sorriu, de um modo calmo.

_É, pode ser. Então, sabe por que estou aqui?

Eu inclinei a cabeça pro lado.

_Vender cosméticos?

Ele suspirou, de um modo impaciente.

_Eu quero ajudar-lhe a entender as coisas que estão acontecendo ao seu redor.

Eu assumi uma expressão séria.

_Por quê?

_Porque você quer, e porque você precisa. Você precisa entender tudo, estar apenas com ideias claras na cabeça, pra saber o que fazer quando a hora da escolha chegar.

Eu retesei.

_Você quer dizer que quer me ajudar a fazer a escolha entre os Revolucionários e o Governo?

Ele assentiu de modo calmo, e começou a andar.

_Eu sou uma pessoa bem mais... lúcida, do que pareço ser. Sou bem mais justo que o Governante.

Eu quase retruquei, mas fiquei quieto. Naquele momento, eu realmente não saberia dizer quem era mais justo.

_Infelizmente, parece que minha organização e... bem, você, não tiveram encontros agradáveis.

Eu demorei um segundo para processar tudo, e mais um segundo pra franzir a testa.

_Como assim, eu?

Ele apontou pro nada e suspirou.

_Bem, talvez você não se lembre, mas estava lá. De um modo diferente, claro.

Eu fiz uma cara de confusão, e esperei ele falar. Não demorou muito para que ele começasse a explicar.

_Sabe quando seus olhos ficam verdes? Tipo assim?_ Ele apontou pro próprio rosto. _Você se sente mais forte, mais rápido, melhor, em todos os sentidos. Já deve ter percebido que isso acontece com Fernando também.

_Sim e daí?

Ele ficou andando de um lado para o outro.

_Isso se chama instinto selvagem. É um dom que a mãe-natureza deu a vocês, a mim, ao governante, e ao seus amigos. O que acontece é que a mãe-natureza precisava que você e Fernando se entendessem de alguma forma, que suas escolhas ajudassem Fernando, e vice-versa.

Ele se silenciou, e eu comecei a pensar. As palavras começaram a fazer sentindo, uma de cada vez, não todas juntas. Eu olhei pra ele.

_Isso significa que eu e Fernando temos o mesmo instinto selvagem.

O Revolucionário assentiu, em um sinal de aprovação.

_Assim como Vitor tem o instinto selvagem de Felipe e Tatiane tem o de Letícia.

Mais uma vez, silêncio. Ele estava me esperando analisar a situação. Ele estava esperando a minha fala.

_Mas por que a gente?

Ele deu de ombros.

_Eu sei muito, mas eu não sei de tudo. Isso você vai ter que perguntar a ela.

Eu suspirei.

_Quer um conselho?_ Perguntou o Revolucionário.

_Um conselho seu é a última coisa que eu iria querer.

Ele deu de ombros.

_Seja cuidadoso. Os seus desafios e os desafios de Fernando passarão a ser bem mais similares. Espero que quando a hora chegar, faça a escolha certa, seja ela qual for. Como eu disse, posso não parecer, mas sou um homem justo. Sei que posso estar errado.

E assim, os olhos verdes deixaram de ser verdes, e em minha frente só tinha uma pessoa muito confusa.

Eu voltei pro hotel o mais rápido possível, e contei a conversa pros meus amigos. Eles olharam pra si mesmos depois de eu terminar.

_Uau!_ Disse Vitor.

_Melhor definição._ Eu disse.

_É por isso que temos as visões?_ Perguntou Tatiane.

Eu olhei pro nada por alguns momentos antes de responder.

_Não sei, mas acho que sim. Vou perguntar tudo isso a ela hoje.

Tati e Vitor olharam pra mim.

_Como assim?_ Indagou Tati.

Eu me sentei na minha cama.

_Eu vou falar com ela hoje. No meu sonho.

_E como você vai fazer isso?

_Vai dar certo._ Falei, um pouco mais agressivo do que gostaria. _Só... confiem em mim.

Vitor suspirou.

_Ok, vamos dormir então. Ah, minha mãe falou com o prefeito. Ele disse que assim que estivéssemos prontos iríamos pro Norte.

Eu assenti e me deitei. Meus amigos fizeram o mesmo.

O sono veio quase que instantaneamente, e eu dormi depois de cinco minutos.

E a prisão mais uma vez apareceu na minha mente.