A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
18 Lucas: Eu e meus amigos ganhamos novos corpos
Como sempre, ela estava no final do corredor. Porém, dessa vez, agia estranhamente. Estava com uma cara irritada, como se eu tivesse um compromisso com ela e houvesse me atrasado.
_Pensei que nunca chegaria._ Disse ela.
Eu revirei os olhos.
_Estava conversando com uns amigos, mamãe!_ Falei rispidamente. _E por que deveria chegar cedo afinal, depois de tudo que tem me feito ver ultimamente?
Ela realmente parecia minha mãe naquele momento. Olhou pra mim, estreitando os olhos.
_Estou querendo ajudar você.
_Já ouvi isso o suficiente. De você, do Governante, e do Revolucionário. Você não está querendo me ajudar. Está querendo ajudar a si mesma.
Seus olhos faiscaram, e eu pensei que tinha ido longe demais. Preparei-me pra virar uma árvore ou algo do tipo, mas ela simplesmente suspirou, e assumiu uma expressão sincera de vergonha.
_Desculpe. A hora de sua escolha está chegando mais rápida do que eu gostaria, do que eu previ. Preciso fazer isso.
Eu suspirei também.
_É o meu futuro também._ Não sei porquê, mas de alguma forma eu me apeguei a mãe-natureza. Talvez por causa do instinto selvagem que eu compartilhava com Fernando.
Ela olhou pra mim, e me deu uma permissão, sem que eu precisasse pedir. Permitiu que eu fizesse perguntas.
_O pai de Fernando disse muitas coisas, e pareceu falar sobre alguma coisa sobre o destino do pai de Felipe e Letícia...
_Não tenho como saber o que vai acontecer. Mas eu não o levaria a sério. Como seus amigos disseram: ele está louco.
Eu assenti.
_Quanto à questão daquela cena no farol: eu estou certo? Devemos mesmo ir pro Norte? Pro Amazonas?
Foi a vez dela de assentir.
_Seu amigo Vitor pensou muito bem, devo dizer. Ir para a cidade da Floresta Amazônica, o lugar onde as pessoas conseguem ficar mais próximas de mim... mas uma vez lá... bem, as coisas vão ficar mais complicadas.
Eu dei de ombros. As coisas sempre ficam mais complicadas, pensei, mas nada falei. Tinha a estranha sensação de que o meu comentário sobre ela querer ajudar só a si mesma realmente havia a irritado.
_Por que temos as visões de coisas com acontecem com Fernando, Felipe ou Letícia?
Ela teve que ponderar um pouco, mas percebi que não era porque não sabia a resposta. Ela estava pensando no jeito certo de responder.
_Creio que Tiago lhe explicou o que é o instinto selvagem.
Eu franzi a testa por causa do nome.
_Está falando do Revolucionário?
_Sim._ Ela falou, parecendo só então perceber que havia citado o nome do líder dos revolucionários. _As visões existem pra ajudar Fernando a escolher. Lembra da última vez que teve uma visão sobre Fernando?
Eu assenti. Lembrava da feira, onde ao tocar numa camisa azul, tive uma visão de Fernando num lugar parecido com um armazém, segurando uma granada e olhando um grupo de revolucionários correr em sua direção. “O que está esperando?”, gritei. “Jogue a granada”. Ele obedeceu na hora, com se tivesse me ouvido.
Um trovão fez o corredor tremer. A mãe-natureza suspirou.
_Tenho que ir Lucas._ Pude ver uma pontada de preocupação passar pelos seus olhos.
_Espere!_ Falei. Lembrei-me de uma pergunta que me perguntava desde que lembrei do sonho de Fernando sobre o assassinato da mãe. _O pai de Fernando. Ele também tinha o instinto selvagem né?
Ela assentiu, e pude ver que estava com medo da pergunta que ia fazer.
_Não era pra ser Fernando que deveria comandar aquela missão._ Adivinhei. _Era o pai dele. E o pai de Vitor tinha o instinto selvagem dele. E a mãe de Fernando tinha o instinto selvagem da minha. E...
_A mãe de Tatiane tinha o instinto selvagem da mãe de Felipe e Letícia, e seu pai tinha o instinto selvagem do pai dos mesmos, e por aí vai..._ Disse ela. _As coisas que deram errado aqui acabaram sendo refletidos lá, só que de modo muito pior. É por isso que estamos tentando te “ajudar” dessa maneira. Se alguma der errado na missão de vocês..._ Ela estremeceu. _O resultado no futuro poderia ser catastrófico.
Eu estava prestes a fazer outra pergunta quando outro trovão fez o corredor estremecer, e eu acordei, assustado.
Eu estava sentado, suando frio. O sol estava nascendo lá fora. Eu olhei para meus amigos, e o que eu vi fez meu coração dar uma cambalhota. Aonde devia estar Tatiane, estava Letícia, e aonde devia estar Vitor, estava Felipe. Eu olhei para minhas próprias mãos, mas elas não eram minhas. Minhas roupas não eram as mesmas. Eu fui pro espelho, e vi... aonde devia estar no meu reflexo... estava Fernando.
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