A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
11 Fernando: Eu me vingarei
Notas iniciais
Eu me recusava a acreditar. Eu não conseguia.
_Fernando..._ Sussurrou Letícia, fazendo aquilo parecer um pouco mais real.
Eu li o relatório do meu pai, procurando a última linha, a que dizia o que ele fez, os últimos momentos deles. E dizia... que ele estava vivo. Que ele ainda estava vivo, preso na prisão do Governo. Mas vivo. Eu comecei a sentir raiva. Um desejo horrível de vingança.
_Eu acho que sei o que quer fazer._ Disse Felipe._ Saiba que, por enquanto, acho uma péssima ideia.
Letícia parecia não ter a menor ideia do que ele queria dizer.
_Ah, sabe é?_ Falei, cerrando os dentes.
_Sim. Você quer vingança. Eu entendo perfeitamente. Mas agora temos coisas mais importantes.
Eu me levantei e olhei pra ele.
_Como...?
_Ouso?_ Emendou. _Fernando, eu sou seu amigo, entendo o que quer. Mas acredite, você não vai querer fazer isso nesse momento.
_Você não sabe o que eu quero. Não sabe o que é melhor pra mim.
_Sei que a vingança é o que você quer, e isso vai te fazer bem. Mas tem que ser paciente. Se você fizer isso agora, vão descobrir o que você fez, e você vai ser julgado e preso. Quer ter o mesmo destino do seu pai?
Eu olhei pra ele com raiva e ele respondeu com um olhar de calma. Eu segurei o impulso de soca-lo na cara. Mas ainda estava com raiva, e ainda queria ignorar tudo o que ele dizia.
_Fernando, meu irmão tem razão._ Letícia disse. _Ninguém vai te impedir de fazer o que você quer. Mas seja paciente. Por favor, por nós. Por mim.
Eu olhei pra ela, e senti meu rosto esquentar. Eu não sei exatamente o porquê. Então, eu suspirei, guardei minhas coisas, e deitei na cama. Meus amigos me acompanharam.
Eu demorei um tempo pra dormir, e pensei em muitas coisas. Será que Felipe e Letícia se importavam comigo? O que levou meu pai a matar minha mãe? Eu senti um desespero crescendo dentro de mim. Aquele, com certeza, era o pior momento da minha vida. Eu não tinha certezas, não tinha nada, só a contínua sensação de que o amanhã seria pior. E então, eu dormi.
Pra sonhar. Ou ter pesadelos.
Eu estava numa clareira, num dia nublado. Estava fazendo um pouco de frio. “Que época é essa?” foi a primeira coisa que pensei. Eu não havia vivido muitos dias frios, então, pra mim, a sensação de frio é estranha. De qualquer maneira, estava lá na clareira quando um barulho vindo da floresta me chamou a atenção. Passos, apressados, aparentemente de uma pessoa e um animal. E, de repente, eles saíram. O animal era um cervo, e a pessoas... era meu pai. Eu retesei.
“É um sonho”, pensei. “Apenas um sonho”.
Meu pai corria atrás do cervo, com uma faca. Ele estava quase o alcançado, quando... ele simplesmente caiu. Do nada. E então, eu comecei a ouvir sussurros. Uma voz feminina, falando algo que eu não conseguia entender.
_Cale-se!_ Gritou meu pai.
Mas ela não se calou. Então, meu pai levantou, com os olhos verdes, e uma expressão tenebrosa. Então, ele voltou correndo, pelo caminho da onde veio. Eu o segui. Corremos pelo que pareceu uns 20 minutos, sem parar. Acho que por ser um sonho, eu não me cansei. Depois dessa correria, chegamos à minha casa. Eu franzi a testa, mas as coisas se encaixaram antes mesmo de eu sequer tentar.
Meu pai entrou na casa, ainda correndo.
_O que foi querido?_ Disse minha mãe.
Minha mãe era muito mais bonita em sonho do que na foto do relatório. Tinha cabelos ruivos e olhos castanho-claros.
_Calada._ Disse meu pai, rudemente.
_O que houve?
_Calada!
Ela não andou pra trás. Pelo contrário. Uma expressão displicente tomou conta do rosto dela.
_Não fale assim comigo!
E aconteceu, mais rápido do que eu podia imaginar. Meu pai virou e esfaqueou minha mãe. A lâmina era longa o suficiente para atravessar o corpo dela. Eu pude ver a ponta saindo pelas costas dela. Ela deu um último olhar a ele, surpresa. Então, ela caiu, sem vida, no chão.
Meu pai se virou de repente pro meu berço. Num canto da sala, simples, feito de madeira, lá estava meu berço. E dentro dele, estava eu, um bebê com alguns cabelos pretos. Meu pai levantou a faca pra mim... mas de repente, Pedro entrou na casa e derrubou meu pai. Na porta, estava Erica.
Pedro e meu pai começaram a brigar no chão, ruidosamente. Erica me pegou do berço, e saiu da casa comigo no colo.
_O que você fez cara?_ Gritou Pedro.
Meu pai deu uma risada tenebrosa.
E essas risadas se transformaram em batidas na porta.
Eu acordei com as batidas, suando frio e tremendo.
_O pessoal daqui não dorme!_ Exclamou Felipe.
_Entra._ Disse Letícia.
Jaqueline abriu a porta, e entrou. Olhou pra cada um de nós.
_O que foi dessa vez?_ Perguntei. _Mais um treinamento? Pensei que os domingos eram dias de folga.
Ela continuou olhando pra nós, muito séria.
_O Governante quer ver vocês.
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