A História de Karin
31 Mais que um sonho
Notas iniciais
Soul Society
Karin encontrava em transe, atordoada pelo efeito químico das múltiplas revelações. Direccionou uma mão até sua testa pressionando o local, incerta do que deveria pensar.
— Por quê… Porque nunca me contaram antes? Porque me deixaram na ignorância!?
— Karin-sama nos perdoe… Mas não era o momento certo.
— “Não era o momento certo”!? Estou farta dessa desculpa! Deveriam…
— Deveríamos contar que você e o capitão estavam interligados quando ainda temia que ele amasse Hinamori Momo, pequena shinigami?
Por um momento, a Kurosaki trava as acusações, percebendo agora o que esta queria dizer.
— Karin, esta ligação não tem por base o amor mas a confiança. Se você ainda não confiasse nele plenamente, enquanto não eliminasse os seus medos, não podíamos contar. Você acabaria por cometer o mesmo erro que os outros que padeceram.
— Desculpem.
— Não se preocupe Karin-dono, é compreensível. É muita informação para assimilar.
A morena encosta-se novamente em sua cama, sentindo-se ligeiramente culpada pelo tratamento que deu às suas zanpakutous. Sabia que elas a tentavam proteger mas odiava que escondessem as coisas, mesmo que por vezes fosse necessário.
— É melhor dormir, pequena shinigami.
Ela quase como tivesse recebido uma ordem, fecha as pálpebras, relaxando os músculos instantaneamente. Mas antes de se entregar completamente ao sono profundo, seu consciente a bombeia com uma última e fundamental questão.
— O Toushirou sabe?
— Neste momento, não.
— Mas sabemos que o Hyourinmaru-san pretende revelar brevemente.
Por fim a morena adormece, embalada pelo vento de Fujin a reconfortando. Iniciando uma viagem intensa ao mundo dos sonhos. Normalmente, a Kurosaki nunca se recorda de seus sonhos mas este era diferente. Algo nele fazia a sentir desperta, como se na realidade nunca tivesse adormecido.
— Karin.
Imediatamente a morena se vira bruscamente, aquela voz lhe era familiar. Será alguma entidade que invadiu seu inconsciente para falar com ela? Isso era ao menos possível? Já nem sabia o que acreditar.
A shinigami fora transportada para um humilde jardim, e momentaneamente sentiu as lágrimas queimarem seus olhos com as breves recordações que surgiram em sua mente. Momentos compartilhados em família, quando ela ainda estava viva…
— Karin?
— Oka-san, é você?
— Me reconheceu filha. Estou tão feliz por a rever.
No cerne do jardim surgiu a fisionomia de sua mãe surge ofuscada por um brilho cintilante, e irracionalmente Karin corre em direcção a ela como se fosse a mesma criança de três anos quando a perdeu. Ao saltar para os braços maternos, sentindo estes a entrelaçarem, pela primeira vez em anos ela desmanchou-se num imparável pranto.
— Tive tantas saudades.
— Eu sei filha. Mas tem de ser forte.
Ela depositou a mão no couro cabeludo moreno, atraindo a atenção da Kurosaki que ergueu o olhar para ela. Por fim, após a emoção inicial de rever sua mãe, Karin começou a racionalizar.
— Como está aqui, oka-san? Era para estar…
— Através de Fujin.
— Fujin? Como ela conseguiu?
— Não se esqueça minha filhinha querida, agora ambas estamos mortas. Por isso Fujin conseguiu procurar minha alma para a encontrar.
— Fujin sempre faz o que quer.
A morena enruga a testa, numa careta cómica, por novamente sua zanpakutou agir sem a consultar, se bem que lhe deveria agradecer pela agradável surpresa. Mesmo amuada com ela, lhe estava eternamente grata por aquele momento.
— O meu tempo esgota-se… Eu vim para lhe dizer que apoio.
— Apoia? O quê?
Como se estivesse a reviver o passado, assistiu a sua mãe rir descontraidamente provavelmente por sua incompreensão e confusão com determinados assuntos. Certas coisas nunca mudam. Apesar de uma característica irritante para Karin, ela tinha saudades disso.
— Os capitães do décimo bantai são os mais bonitos não concorda Karin?
— O-oka! Que raio de disparates está dizendo!?
Karin sentiu um rubor escarlate crescente em sua face, aumentando com a descontracção e gargalhada de sua mãe… Ela nunca pensou que teria uma conversa deste género com alguém.
— Filha, eu já tive a sua idade. E tal como você me apaixonei por um capitão. Um amor proibido.
— A Fujin deu com a língua nos dentes, não é?
— Não seja tão rabugenta querida. Isso não importa.
— Importa sim! Eu e o Toushirou… Não temos nada.
Apesar de tudo, ainda doía a Karin afirmar isso.
— E não é uma suposta ligação invisível ou o destino que mudará isso. Eu não acredito nessas coisas, você sabe isso oka-san.
— O que eu sei, é que você deve lutar por quem ama. Assim como eu e seu pai.
— O velho tarado?
Novamente a mãe começou a rir e Karin relaxou com o rumo da conversa. Estava extremamente curiosa com a relação de seus pais, uma vez que o ex-shinigami nunca lhe revelara nada.
— Já deve ter ouvido falar de Aizen Sousuke?
— Sim, foi o shinigami que Ichi-nii derrotou. Depois de me ter convertido shinigami, ele contou-me sobre toda a traição de Aizen.
— No tempo em que Aizen prosseguia seus experimentos com a hollowficação, o seu pai veio ao Mundo Real para solucionar problemas da Sociedade das Almas. Mas deparou-se com um desses experimentos e lutou com ele. Eu estava perto, senti a reaitsu maligna e fui em sua direcção quando vi um shinigami a lutar bravemente. Acho que foi amor à primeira vista… Quando o vi só pensava em sua beleza.
— Oka! És pior que o velho!
Aquilo era extremamente vergonhoso. Sempre cogitara que seu pai era um velho babão que perseguia mulheres bonitas, no entanto fora o contrário! E para agravar sua mãe nem constrangida se encontrava com essa acusação, como se ainda confirmasse.
— Talvez… Enfim, deves saber quem são os quincys. E que…
— Você era uma.
— Sim. Por isso eu ataquei o hollow, salvando o seu pai. Mas fui infectada com um vírus. Urahara, amigo de teu pai na altura, propôs uma salvação para mim que seria prejudicial para o Isshin. Ele deixou de ser um shinigami por mim. Porque seus poderes foram selados dentro de meu corpo para conter meu poder espiritual quincy.
— Para que foi isso?
— A hollowficação é a junção da alma do shinigami com o hollow, no meu caso seria de um quincy. Para me salvar era necessário neutralizar ambas as partes separando essas almas, implementando o reishi humano para neutralizar o lado hollow. Afinal todo o hollow já foi um humano.
— E o velho não se importou com isso? De perder seus poderes?
— Não foi fácil. Ele nunca disse, mas eu vi a dor em seu olhar… Como também vi a felicidade dele quando nos casámos, e quando tivemos lindos três filhos.
A emoção era descrita no olhar de Karin, e principalmente orgulho. Satisfação de ter uns pais com uma história tão bonita, por seu pai… Ser mais do que aparenta. Ele tinha um coração enorme. E apesar de suas brigas, ela o amava.
Inesperadamente um brilho incomoda os olhos de Karin, e ela depara-se com sua mãe a espairecer-se em milhões de cristais brilhantes.
— Oka-san!
— Está na minha hora.
— Onegai… Não vá já. Eu preciso de si, eu não sei o que fazer…
A shinigami tentava-se manter forte, não se rendendo às lágrimas na inevitável despedida. Apesar de seus poderes adquiridos pós-morte, ela continuava a ter um coração humano.
— Não desista dele, Karin. Pela vossa felicidade, luta.
Masaki aproxima-se cautelosamente, a abraçando, desaparecendo enfim nos braços da filha, deixando um ligeiro sussurro.
— Eu apoio a vossa relação.
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