A História de Karin
41 Bankai
Notas iniciais
Soul Society
FLASHBACK ON
Estava quente. Supostamente quando se morre não devia ter-se frio?
Remexendo as costas na areia espessa, escutou um estalo forte na coluna. Quase suspirou de alívio. Apesar de o sol embater directamente sob suas pálpebras, conseguiu abrir totalmente os olhos turquesa. Buscou por um indício de terceira vida, mas o único que encontrou foram suas vestes negras rasgadas, e uma Hyourinmaru estendida ao seu lado, juntamente com sangue voando com os grãos de areia.
De supetão, o rosto de Karin invadiu sua mente. Levantou-se brusco, imediatamente seu corpo resmungou pelos movimentos rápidos demais para alguém que quase morreu.
— O que aconteceu…?
— Oh, acordou! Como se sente príncipe encantado? Pensei que precisava de uma dama para o acordar, com um beijo de conto de fadas…
— Fujin.
— Que cruel me interromper, Maru-kun!
— Pare com isso.
— Quem é você!? Como posso ter duas vozes na minha cabeça!?
O capitão percebeu uma neblina espessa o rodear, aliviado também notou a queda baixa da temperatura. Sentia-se mais confortável. De alguma forma, seu corpo parecia completamente curado. Percebeu que estava em seu mundo interior e à sua frente estava Hyourinmaru com uma mulher incrivelmente bela. Perdeu-se alguns segundos a admirá-la, até que sorriu jocosa.
— Aviso que o meu Maru-kun é ciumento.
— "Maru…kun..."?
Toushirou buscou a face inexpressiva de sua zanpakutou mas fora violentamente surpreendido ao deparar-se com veias a saltarem em seu pescoço, e o rosto encarnado. Nunca tinha visto o dragão de gelo irritado, com nada.
— Fujin, voltemos aos assuntos sérios.
A neblina em sua volta pareceu arrefecer ainda mais, não que o desagrade mas não o deixava tão calmo como antes, estava apreensivo.
— Respostas e mais respostas. Bom, senhor capitão, eu sou Fujin. Zanpakutou de Karin, e não se atreva a interromper-me. Odeio ter de me repetir. Como pode ver: está vivo, mas não sabe como nem o que eu faço em seu mundo, certo? Karin o salvou, usando a sua zanpakutou para o curar, porém, isso teve consequências. Ela perdeu a memória e seus poderes de shinigami, o mais certo é nunca os recuperar, mas ela acreditava que você iria conseguir. Já eu, tenho minhas dúvidas. O facto é que devido a esse processo me fundi à Hyourinmaru. Já agora, nós somos namorados.
— Quê!?
— É verdade, mestre. Tudo.
— Mas a Karin está bem, certo?
— Sim, fisicamente. Psicologicamente pode nem estar tanto. Mas Yukino cuidará dela.
— Quem é a Yukino?
— Uma parte da bankai de Karin. Ela só usou-me a mim para o curar, que sou a sua shikai. A pequena shinigami está algures em Rukongai, foi o único que pude perceber.
— E o distrito? — Fujin fechou os olhos, acenando negativamente, para desespero do albino que a encarava.
— Como assim!? Rukongai é enorme! E se ela está num distrito acima do número oitenta!? Ela pode estar em perigo!
— Ela sabia disso! Mas confiou em si!
A voz exaltava, quase chorosa, demonstrou o desespero da deusa perante a situação que a sua dona enfrentava mas queria acreditar que ela estava bem. Que havia tempo de a encontrar.
— Procure-a, só isso. As respostas podem vir depois.
— Não preciso que o diga.— Aquele foi o último contacto visual que teve com Fujin e a sua zanpakutou antes de regressar ao seu corpo.
Os músculos contorciam-se em dor. Apesar de Karin ter conseguido curar seus ferimentos, as horas deitado contra o piso duro, desajeitado, estavam a demonstrar seus efeitos.
— Querido, não me contou que este shinigami anão estava com doenças de velho.
— Fujin, não me trate assim.
— Calados os dois!
— Simpático como a pequena shinigami, são o par perfeito.
Toushirou, por um momento, sentiu que tinha uma Matsumoto em sua cabeça. A zanpakutou de Karin o ignorava de todo, o provocava, sua raiva só aumentava sua gargalhada… talvez, aquela fosse mais uma versão da Karin, uma mais atrevida. Bom, se fosse esse o caso, nem seria tão mau assim. O rubor que nasceu na face do capitão foi discreto, porém, não se manteve tímido durante muito tempo, rapidamente alastrou-se catastroficamente.
— Pensamentos pervertidos com uma subordinada? Que coisa feia capitão Hitsugaya… A Karin vai gostar de saber!
— Dá para sair da minha mente!? Droga!
— Trate bem as visitas, capitão!
— Hyourinmaru…
— Sim, mestre. Ela sempre foi assim. Daqui cem anos irá acostumar-se.
Sinceramente, ele não sabia qual dos dois era pior. Primeiro um hollow, agora tinha duas zanpakutous para lhe infernarem a cabeça com múltiplas conversas!? Iria ficar doido desse jeito!
Optou por começar a ignorar os comentários de Fujin, arrastando as pernas, numa tentativa de procurar Karin. Escutava os dois em sua mente o recriminando, acusando que ele precisava de descansar primeiro para a poder encontrar. Mas ele não aguentaria esperar, trancado numa sala, quando ela podia estar em qualquer lado de Rukongai, sem ter como defender-se. E conhecendo-a como conhecia, sabia que os Kurosaki tinham o dom para arrumar confusão.
Sua atenção foi roubada por soluços roucos. Buscou com o olhar alguma fisionomia, encontrando sua amiga de infância, lembrando-se inesperadamente que Hinamori estava lutando com Kira, que encontrava-se no mesmo estado que ele. Sentiu um gosto amargo em sua boca, quando avistou Hinamori chorando sob o corpo do tenente loiro, morto. Claro, nem todos poderiam ter a sua sorte. Ele ainda nem sabia como Karin o conseguiu salvar. Com alguma dificuldade, ele foi em direcção de Momo, na intenção de ajudar sua amiga.
— Não. Vá embora.
— Fujin? Que raio está dizendo!? Não percebe? Eu não a posso deixar sozinha nesse estado!
— Idiota! Quem não percebe é você!
— Como assim?
— Mestre, Fujin está certa. Olhe com atenção para Hinamori-san.
Extremamente confuso, encarou o estado penoso da amiga, ainda não compreendendo o que as zanpakutous tentavam lhe transmitir. No entanto, imagens do passado remoeram seu interior. Quando Hinamori o atacou, em lágrimas, para defender Aizen. Hitsugaya percebeu a anomalia da sua tristeza, supostamente, eles eram amigos um pouco distantes…, porém, seu choro era mais profundo que uma amizade. Talvez houvesse um outro motivo para seu sofrimento, para além da perda de um amigo. Hinamori aprendeu a amar Izuru.
Imaginou como seria se fosse ele a abraçar o corpo de Karin, sem vida… Seu corpo tremeu violentamente só de lembrar-se do corpo frio da Kurosaki em seus braços. Com certeza, ele não iria querer ninguém ao seu lado, muito menos que o tentassem consolar. Por que não importa o que diriam ou fizessem, nada consolaria essa perda.
Sem pronunciar uma única palavra, escondendo seu poder espiritual, ele sumiu no shunpo. Entendendo que aquela vitória foi amarga para muitos shinigamis. Alguns iriam permanecer de luto até ao fim.
FLASHBACK OFF
Quantos dias passara? Uma semana? Os sobreviventes foram recolhendo os restos dos destroços tentando reconstruir suas casas, e sobretudo suas vidas. Aos poucos, a rotina estava a voltar, junto com a tranquilidade.
Hitsugaya buscou a terceira oficial sem descansar. Todas as noites, fugia do bantai e procurava por um mísero sinal sem nunca encontrar nada. Começara as buscas pelos piores distritos, na esperança, de ela não estar lá. Naquele momento, encontrava-se no distrito oitenta e seis, quando sentira a primeira alteração de reaitsu perto de si. Um conflito? Aparentemente. Não entendeu por que seguiu para a origem de um problema que não lhe interessava, mas provavelmente, ele poderia encontrar alguma resposta lá. Essa era sua convicção.
Karin tinha ido comprar legumes como de costume para o almoço, a vovó gostava de comprá-los cedo por estarem mais frescos. Ela achava essa atenção culinária desnecessária e que implicava esforço demais para a bachan, mas ela insistia e acabava por a vencer. Era muito persuasiva para alguém da terceira idade. Contudo, as sacolas que carregava espalharam-se no chão, quando ela ao chegar perto da porta de casa, encontrou sua avó presa nos braços de um dos rufias que jurara vingança por o ter humilhado durante uma luta.
— Maditos! Não passam de covardes! O vosso problema é comigo! Solte-a!
Apesar das súplicas e apelos, eles não a soltaram. Aproveitaram a distracção da morena para a socarem no estômago. Os cantos de sua boca ficaram empapados pela saliva que escorria, ela os encarava com raiva, e quanto mais seu olhar prepotente mantinha-se, mais a acertavam, divertindo-se.
— Karin-chan!
— Quieta, velha.
Quando este lhe ia acertar na cabeça, no intuito, de a abrir em duas; um haori branco com o símbolo do décimo esquadrão tapou sua vista, bloqueando o ataque. Num impulso, ele afastou bruscamente a alma de Karin, colocando-se à sua frente.
— Karin, se proteja!
— Como ele sabe meu nome…!? Quem é ele?
Toushirou não teria problemas em derrotar aquele grupo. Eram fracos. Contudo, um deles usava a sua vovó como refém, empunhando uma lâmina contra o pescoço dela. Não pode ficar durante muito na surpresa, nunca cogitou que Karin estaria aos cuidados de sua bachan. Karin estava desesperada com a situação, e pode perceber que ela os conhecia. Obviamente isso não o apanhara desprevenido. Sabia que ela ia colocar-se em encrencas.
— Capitão, largue essa espada. Ou quer que aquela velha inútil morra?
— Largue a avó seu covarde!
— Cale-se garota!
Vendo com desprezo, o sorriso sarcástico do líder, largou sua zanpakutou a atirando longe., ficando próxima de Karin. Assim que Hitsugaya cumpriu a ordem, dois dos membros o atingiram com um objecto no pescoço, o atirando para o chão, espancando-o. Procuraram atingi-lo sobretudo em pontos mais débeis, como o rosto.
Karin sentiu um forte aperto em seu peito, não sabendo se era pelo perigo que sua vovó corria, ou pela visão que presenciava do shinigami sendo maltratado por sua culpa. Algumas lágrimas ameaçaram seus olhos, estava com medo, ela queria ser forte, para poder ajudar aquele rapaz de cabelo branco.
— Karin, me use. Lembre-se de mim… de nós… dele…
Sua cabeça latejava. Quem eram aqueles estranhos? Porque todos a conheciam, mas ela não se recordava de ninguém? Quem era ela? Apoiou-se, debruçando, em suas pernas, agarrando sua cabeça tentando parar todas aquelas vozes.
— Karin, fuja! Prometo que ajudarei a vovó mas saía daqui!
Ele só precisava de um momento de distracção, só isso. Assim que afastassem um milímetro a lâmina do pescoço da avó, ele faria questão de o converter em gelo.
Contudo, Karin não conseguia escutá-lo. Ela assistia aqueles bandidos pontearem o shinigami, com um desses movimentos, o kimono abriu ligeiramente, percebendo uma cicatriz em seu peito. Ele estava ferido… Aquilo lhe dava a sensação de lembrar algo, mas ela não conseguiu pensar em nada nitidamente. A raiva estava-a cegando. Sua vista direita foi clareando até o mais puro branco, ela não permitia que o ferissem ainda mais.
— Bankai!
Pela segunda vez, Toushirou vira os cabelos de Karin completamente brancos como os seus. Notou também outros detalhes como gelo em seus braços e pernas. Com o shupo, a Kurosaki agarrou a lâmina que ameaçava avó entre seus dedos, causando um ferimento leve. Não teve dó quando socou o indivíduo na face. Perante o espanto, os companheiros do atacante afastaram-se ligeiramente de Hitsugaya, preparando-se para fugir.
Mas ela não permitiu. Aproveitou uma rajada de vento lhe trazendo a Hyourinmaru, empunhando-a. Os golpes foram eficazes e rápidos, mal podendo ser acompanhados pela visão. Era como se fosse Hitsugaya a empunha-la. Ele não conseguia compreender… como Karin podia controlar a sua zanpakutou?
— Essa é a ligação que ambos compartilham, mestre. A lenda que a união de duas zanpakutous poderiam unir seus portadores.
— Lenda?
— Certo, não é uma lenda. Quando duas zanpakutous decidem unir-se isso irá influenciar seus portadores. Haverá uma união para além de amor, é companheirismo. Companheiros de armas.
— Hyourinmaru, você está dizendo que por ter escolhido Fujin, eu estou destinado a amar Karin?
— Me perdoe, mestre.
Toushirou sorriu perante a culpa mal disfarçada na voz de sua zanpakutou.
— Não seja idiota. Não importa nada essa lenda, mesmo que não tivesse acontecido… Eu ainda teria amado Karin.
— Oh, o senhor capitão sabe ser fofo como o Maru-kun!
Era incrível como Fujin, em questão de segundos, dava cabo de toda a sua paciência. Será que ela e Karin eram melhores amigas? Não duvidava nem um pouco disso.
O ambiente à sua volta transformou-se. Apesar de os atacantes terem sido golpeados para longe, Karin mantinha a bankai, ficando petrificada encarando o céu; enquanto sua pele se convertia em cristal. O seu olho direito ia criando uma espessura alva mais grossa, não compreendeu o que estava acontecendo, mas aquilo não o agradava.
— Mestre, ela está a congelar! Ela ainda não está preparada para lutar com meu gelo! Desse jeito ela morre!
— Depressa, a salve!
— O que devo fazer!?
— Senhor capitão você é idiota por acaso!? Você é o único que a pode ajudar! O poder que a consume é seu!
Karin acaba por perder a força nas pernas, desabando, entre o gelo sob seus pés. Tremia de frio, com os olhos opacos. Apesar do frio, seu corpo queimava violentamente. Um par de braços rodeou seus ombros, desviando as íris nessa direcção, viu entre o manto branco total, pequenas esferas turquesas, reconhecendo por uma ínfima sensação o shinigami que a ajudou.
A mão que segurava a zanpakutou foi confortada pela do capitão, enquanto este beijara com carinho sua testa. Porque ele a tratava tão bem? Ela não era ninguém. Era mais uma naquela pobreza.
— Quem é você?
Para sua frustração, ele não respondeu.
Apesar de estar grata pelo que ele fez, estava irritada por ele ignorar suas perguntas. Por estar praticamente cega, Karin não vislumbrou Hitsugaya agachar-se até ao olho direito desta, beijando-o com a mesma ternura como o fizera na testa. O gelo acumulado naquela região, começara a derreter, fluindo pela sua bochecha, como se fossem lágrimas doces.
A Kurosaki ficou espantada, levando os dedos tocando sua pálpebra, desde que se lembrava sempre fora cega daquele olho. Agora conseguindo enxergando na plenitude o albino, sorrindo para si, ela ficou ruborizada. Tanto pela situação, como pela proximidade. Não voltou a perguntar quem ele era, sabia que ele não a responderia. Será que ela já o conhecia?
O gelo maciço que criara uma camada sobre a pele da morena, para a proteger, também foi derretendo, molhando as vestes de ambos.
— Pequena shinigami, você estava certa. Voltámos-nos a encontrar.
Observou, perplexa o taicho, ainda não entendia de todo o que acontecia. Será que ele lhe daria respostas sobre a voz que não calava em sua mente? Sentiu os sentidos a abandonarem, deixando-a à mercê de um sono profundo. Apesar ter sido instantâneo, mesmo não tendo a certeza que se lembrava de algo, ela falou algo cravado em si; que desejava dizer à muitos dias atrás.
— Toushirou… você veio.
A Hyourinmaru brilhou ainda na mão trémula, dividindo-se em duas katanas. Fujin voltou a ser zanpakutou de Karin Kurosaki.
Num colapso de emoção, Toushirou beijou os lábios adormecidos da sua subordinada, retribuindo o beijo roubado que esta outrora lhe dera, mesmo que ele não sabendo disso. Ainda.
Quase enterrada numa camada de neve, com o frio quebrando seus frágeis ossos, a avó sorriu enxergando a felicidade de seus dois netos. Sentia que ela os unira de alguma forma, dando uma razão para sua pobre existência, sua missão -se ela teve alguma- estava feita. Seus netos cresceram e não precisavam mais dela. Sabia que eles teriam saudades, mas isso faz parte de qualquer percursor da vida.
Um novo ciclo se iniciaria com a partida dela. Cedendo aos ferimentos, ela permite que a sua alma se converta em partículas espirituais da Sociedade das Almas.
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