A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
1 Fernando: Sonhos de morte
Notas iniciais
No meu sonho, eu estava numa cidade que era cheia de casas pequenas e tinha poucos prédios. O Sol brilhava sobre a cidade tão fortemente, que eu tinha a impressão de que mesmo em sonho, eu podia sentir o calor dele.
Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Várias casas estavam pegando fogo. A rua estava cheia de pessoas que ou estavam chorando, ou com uma expressão de descrença. Essas pessoas estavam sendo consoladas por outras que estavam usando camisas vermelhas. Médicos, eu pensei, me lembrando do folheto que havia visto há algumas semanas atrás, na primeira cidade que eu e meus amigos havíamos "visitado". Os médicos tocavam as testas e os pescoços das pessoas com as costas das mãos, para checar a temperatura, eu acho, e procuravam por queimaduras.
Eu comecei a andar, me perguntando aonde aquele sonho me levaria. Em cada casa incendiada, três soldados entravam, e alguns minutos depois, voltavam com algumas pessoas (na maioria, crianças). Os médicos, então, as levavam para a multidão. Eu continuei andando, vendo a mesma cena se repetir várias vezes, até que senti um formigamento no lado direito do meu corpo. Eu olhei naquela direção. Não havia nada de diferente. Só a mesma cena de sempre. Mas eu tinha a impressão de que não havia sentido aquele formigamento à toa. Andei na direção daquela casa.
Havia duas médicas e um médico esperando do lado de fora. O médico tinha o cabelo preto e os olhos cinzas. Ele não exibia nenhuma reação, só olhava para a casa incendiada quase com um olhar crítico. A médica que estava mais à esquerda era ruiva e tinha olhos azuis. Ela roía as unhas nervosamente, e batia os pés no chão. A outra médica, que estava mais à frente, tinha os cabelos pretos e os olhos verdes. A expressão dela não estampava apenas nervosismo, igual a outra médica, mas também preocupação. Ela estava com as mãos unidas sobre o peito, como se estivesse segurando o coração para controlar seu batimento, e sussurrava algo como se estivesse torcendo.
Os três soldados saíram de dentro da casa, um atrás do outro. O primeiro era forte, não muito alto e o cabelo era raspado. Quando se aproximou dos médicos, pude ver que tinha os olhos cor de mel. O segundo era alto e magro. Tinha cabelos e olhos completamente pretos. E o terceiro era... o pai de Felipe e Letícia! O cabelo raspado, os olhos castanhos escuros... era mesmo Pedro, apenas uns 20 anos mais jovem.
Os três chegaram até os médicos. Entregaram as crianças. O soldado dos olhos cor de mel tocou a bochecha da médica de olhos verdes. Eles trocaram um olhar apaixonado. Os pais de Jaqueline, pensei. Na verdade, foi mais como algo sussurrado na minha cabeça do que um pensamento mesmo.
Os médicos se afastaram e os soldados se voltaram para a casa. O pai de Jaqueline gritou:
_Vamos lá rapazes! Falta pouco!
Eles começaram a correr, e entraram na casa na mesma ordem que saíram. Os médicos voltaram aos lugares de antes, com as mesmas expressões de antes. Alguns minutos depois, apenas o cara de cabelo preto (Tinha algo nele que me incomodava) e Pedro voltaram. Depois que entregaram as crianças aos outros dois médicos, a mãe de Jaqueline os parou. Ela perguntou, com a voz trêmula:
_Cadê o Átila?
O soldado de cabelo preto franziu a testa.
_Ele ainda não chegou?
Ela balançou a cabeça, e na mesma hora, a casa explodiu. Alguns estilhaços voaram, mas nenhum grande o suficiente para poder machucar alguém. A casa foi reduzida à uma pilha de destroços em chamas. A mãe de Jaqueline gritou, e quase correu na direção da casa, mas os soldados a seguraram.
Aquela cena continuou por alguns segundos até que o sonho mudou.
Estava de noite. A mãe de Jaqueline estava sentada numa cadeira, olhando para o chão. Uma tenda enorme havia sido colocada sobre a rua inteira. Havia fileiras de sacos de dormir no chão. Cada membro das famílias resgatadas tinha uma lanterna. Algumas crianças brincavam com elas num canto. Os adultos conversavam com os médicos. Havia uma van num canto mais distante, onde os soldados estavam.
Pedro e o soldado do cabelo preto se aproximaram da mãe de Jaqueline. Estavam com mochilas penduradas nas costas.
_Estamos indo, Sara._ Anunciou Pedro.
Sara assentiu distraidamente.
_Ok rapazes. Obrigada pela ajuda.
Os dois soldados se entreolharam. O de cabelo preto perguntou:
_Quer que contemos para Henrique sobre o que aconteceu?
Ela suspirou.
_Não, Nicolas. Conte pra minha irmã e deixa que ela decida se conta pra ele ou não._ Ela colocou as mãos no rosto para que os dois não a vissem chorando. _Como eu vou contar pra Jaqueline quando ela crescer? Eu não vou conseguir.
Pedro colocou a mão no ombro dela.
_Você conta o que Átila era. Uma pessoa bondosa e corajosa.
_Vai ser difícil pra ela entender no começo._ Completou Nicolas. _Mas ela é filha das duas pessoas mais duronas que já pisaram no Governo.
Um sorriso se abriu no rosto de Sara.
_Obrigada rapazes.
Então ela se levantou e deu um abraço nos dois. Os soldados se viraram e andaram até a van. Antes de Nicolas entrar nela, ele olhou para onde estávamos. Havia realmente algo de errado com aquele cara.
A van começou a andar. Sara acompanhou seu movimento até ela se perder na escuridão da noite. Mesmo quando não se dava mais pra vê-la, Sara continuou olhando para o horizonte. Então se virou e tossiu. Ela olhou para sua mão.
Talvez a escuridão não a tivesse deixado ver, mas havia sangue na mão dela.
E, mais uma vez, o sonho mudou.
Eu estava no refeitório do Governo. Pedro e Nicolas estavam sentados numa mesa onde a maioria dos outros soldados estavam. O clima de abatimento era pesado ali. O pai de Jaqueline realmente era uma pessoa querida.
Uma voz masculina soou por todo o refeitório.
"Pedro Marques e Nicolas Lima: Por favor, compareçam a meu escritório o mais rápido possível"
Os dois se entreolharam com as testas franzidas. Depois se levantaram e saíram do refeitório. Eu os segui. Eles trilharam os corredores infinitos (que me davam dor de cabeça) até pararem em frente a uma porta com os dizeres "Sala do Líder". Eles entraram, e eu fiz o mesmo quando a porta estava quase fechada, portanto eu a atravessei (dica: se você for uma espécie de fantasma em qualquer sonho, jamais tente atravessar uma parede ou uma porta. A experiência não é nada agradável). A sala não tinha muitos detalhes. Havia apenas uma mesa e uma estante pequena nela. A coisa mais curiosa era que, atrás de onde o líder do Governo estava sentado, havia uma porta onde estava escrita "Sala de Controle".
O líder tinha cerca de 60 anos. Todos os fios de cabelo estavam grisalhos e os olhos castanhos mostravam a experiência adquirida durante os anos. Ele estava sentado com as mãos unidas, como se estivesse segurando as ideias que surgiam em sua mente.
Ao lado dele, apoiado na mesa, estava Mário. O ex-sargento do exército já tinha algumas rugas ao redor dos olhos verdes desde aquela época, mas não havia nenhum fio grisalho no cabelo ruivo. A expressão fechada deixava claro que as notícias não eram nada boas.
O líder do Governo pediu para que Pedro e Nicolas se sentassem.
_Rapazes, temos um assunto muito sério para falar com vocês.
O líder olhou para Mário, que suspirou e se voltou para os dois soldados.
_Hoje recebemos uma notícia de Alexandre, o líder dos médicos._ Ele fez uma pausa antes de contar a notícia. _Ele disse que Sara não acordou essa manhã. Ela faleceu de madrugada, enquanto dormia.
A temperatura caiu uns cinco graus na sala. O silêncio tomou conta daquele recinto. Pedro parecia desmoronar por dentro. Nicolas esfregou a mão na testa e sussurrou algo que eu não consegui entender.
O líder do Governo apoiou as mãos na mesa e disse:
_Trouxemos vocês dois aqui pois são as primeiras pessoas vivas e com condições de escolha na lista pra cuidar da filha deles. Vocês deve escolher o destino dela, Nicolas, pois está a frente de Pedro na lista.
O primeiro olhou para o segundo, como se quisesse garantir que não havia ressentimentos por causa daquela escolha. Depois, olhou para o nada e disse, forçando a voz para ela não falhar:
_A garota vai precisar endurecer para conseguir absorver tanta tragédia. Coloquem ela no exército quando ela fizer seis anos, e não contem nada sobre os pais dela até os dez. Por enquanto, deixem ela sob os cuidados da tia.
Pedro assentiu, aprovando a decisão do amigo. O líder se recostou na cadeira.
_Ok. Podem ir agora rapazes.
Os dois se levantaram e fizeram uma leve reverência para o líder. Depois, fizeram o mesmo para Mário. E então saíram da sala, fechando a porta atrás de si.
_Precisa de mais alguma coisa, senhor?_ Perguntou Mário.
_Não. Pode ir descansar, Mário.
O sargento agradeceu e saiu da sala. O líder do Governo ficou olhando para a porta por alguns instantes.
_Descansem, rapazes, pois tempos difíceis estão pra começar.
Eu acordei ouvindo batidas na porta e suando frio. Felipe e Letícia acordaram assustados também, mas acho que foi mais pelas batidas repentinas na porta.
Jaqueline entrou na sala, junto com os dois soldados que haviam nos recebido no dia anterior, Henrique e Leonardo. Os três seguravam camisas brancas e calças jeans novas.
_Vamos lá, acordem!_ Disse Jaqueline, sorrindo. _A segunda parte do nosso tour pelo Governo começa agora.
Felipe olhou para o relógio e gemeu .
_São seis e meia da manhã. Não podiam esperar mais um pouco?
Os soldados colocaram as roupas nas nossas camas.
_Achei que vocês, eco sobreviventes, estivessem acostumados a acordar cedo._ Disse Henrique.
_Tente ter uma semana tão maluca quanto a nossa, e vai agradecer toda vez que dormir uns minutos à mais._ Respondeu Letícia rudemente.
Jaqueline riu, o que me fez lembra do sonho com o pai dela.
_Vamos logo._ Disse Leonardo, nem um pouco entusiasmado.
Os três soldados saíram e fecharam a porta. Felipe pegou a roupa com um olhar mal-humorado, e disse, tentando imitar a voz de Jaqueline:
_Bem vindos ao Governo. Sintam-se em casa. Agora, façam o que a gente manda.
Letícia riu, mas parou assim que viu a minha expressão (que devia ser bem perturbadora, pela cara que ela fez).
_Você está bem, Fernando?
Eu peguei a camisa e a calça e fui para o banheiro. Joguei a roupa num canto, abri a torneira, lavei o rosto e depois me apoiei na pia.
O sonho foi informação demais. O pai dos meus amigos quando ainda era um soldado do Governo, a morte dos pais de Jaqueline, o líder dizendo que tempos difíceis estavam chegando... eu precisava de tempo para entender tudo aquilo. Mas tempo era uma coisa que eu não tenho há duas semanas.
Como se tudo isso já não fosse perturbador, havia algo martelando na minha cabeça. Eu ergui os olhos para um espelho que estava acima da pia.
Nicolas. O cabelo e os olhos pretos, o físico esguio... mesmo sem nunca ter visto pessoalmente aquele homem, eu o reconhecia.
Afinal, todo o filho reconhece seu pai.
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