A História de Karin
39 Versão das Zanpakutous
Notas iniciais
A neblina ondulava sob a escuridão predominante daquele mundo. Açoitava com uma brisa fresca os corpos de compostura erecta. Mantinham a expressão impassível, apesar da perturbação que suas auras carregavam.
— Será que fizemos o certo, Fujin? Poderá Karin-dono recuperar as suas memórias, sem o seu apoio?
A albina prosseguiu com seu silêncio monótono. Encontrava-se de costas para a outra zanpakutou, numa curta distância. Ela não conseguia se arrepender. Todavia, teria sido a melhor decisão? Não sabia responder com clareza. A sua portadora tornara-se um oco de lembranças, porém, do que adiantaria mantê-las se essas a fizessem sofrer posteriormente? Fujin não suportaria assistir a Kurosaki perder-se na amargura da morte de quem amava, lembrando dele todos os dias. Numa infinita tortura.
— Hyorinmaru. O que você acha?
O famoso dragão de gelo de olhos vermelhos intimidantes, transformara-se em sua forma humana, encarando a deusa pela densa neblina de seu habitat. Conseguia detectar a pressão negativa que emanava desta, reflectia num jeito de a tranquilizar. Contudo, as circunstâncias não eram, de facto, favoráveis. Deveria iludi-la?
— Karin-dono percebeu que lhe apresentaram a dois mundos interiores diferentes? O seu coberto de espelhos, e o de Yukino: o campo coberto de neve?
— Não. Quando a trouxe até o meu mundo, ela estava perturbada com o reencontro do capitão. E insegura sobre o que fazer a respeito da luta. Creio que, infelizmente, que esse detalhe passou totalmente despercebido à pequena shinigami.
— Isso não facilita a nossa situação.
Uma leve tontura fez com que Fujin cambaleasse de leve. Provavelmente, ela também sentia alguns efeitos coletareis por a shinigami ficar com amnésia. A fragilidade da zanpakutou não escapou do olhar atento de Hyourinmaru. Contudo, este optara por não se manifestar, conhecendo o temperamento de sua nova companhia.
— Então, ela não percebeu que possui duas zanpakutous diferentes. Nem sabe que só transferiu apenas os seus poderes para o mestre, mas que Yukino permanece nela. Talvez, deveríamos ter revelado que Yukino é, na verdade, uma subdivisão minha para protege-la do meu poder.
— Mesmo que o tivéssemos feito, ela não se lembraria de nossas palavras.
— Fujin, é mais fácil lembrar daquilo que foi dito do que aquele que permaneceu no silêncio.
A deusa dos ventos cerrou as pálpebras, massageando-as. Karin estava certa ao exigir explicações dela, Hyourinmaru também. Ela devia ter revelado mais sobre si, isso poderia ajudá-la naquele momento. Era uma mísera hipótese, mas, que poderia ter feito a diferença.
— Tenha calma, nada está perdido. Podemos ter esperança, afinal a Yukino ainda está do seu lado. Ela pode conseguir despertar seu poder, novamente.
— Mesmo que assim seja, isso não garante que ela recupere as memórias. E mesmo que assim fosse, ela irá necessitar da sua marca para eu voltar a ser a sua zanpakutou. Só através da marca, o capitão pode transferir meus poderes para ela de novo. Por outro lado, ele também só o pode fazer se ela confiar plenamente nele outra vez. Assim como o capitão terá de confiar numa nova Karin. O que será extremamente complicado, ele sempre se recordará da anterior e não da actual… Isso pode abalar a sua relação presente.
— Não estou a reconhecer você, Fujin. Nunca foi do seu feitio desistir.
— Hyourinmaru, não estou desistindo. Somente analisando as várias perspetivas deste dilema, que não são nada favoráveis.
Constatou que os ventos ao seu redor ficaram mais agressivos, mantendo a suavidade. Açoitando-o. Sorriu discretamente, ela estava zangada pelo seu comentário anterior. Realmente, Fujin mantivera o seu temperamento sensível.
— A pequena shinigami também permanece cega do seu olho. A vantagem, talvez a única, é que o gelo concentrado naquela região, atice sua curiosidade, a forçando a procurar. Nesse caso, Yukino consegue reencontrá-la em sonhos como eu fiz ou então…
— … deparara-se com o mestre.
— Porém, em nenhuma dessas circunstâncias, ela poderá utilizar a bankai! Não, enquanto não souber quem é o Hitsugaya-san! Só a tentativa causaria morte instantânea!
A zanpakutou do gelo suspirou longamente. Fujin tinha razão no que afirmava. E mesmo que a terceira oficial recuperasse as memórias, seria na mesma muito arriscado ela clamar pela bankai nem que fosse por um treinamento ou um experimento supérfluo. Seu corpo ficaria eternamente congelado, tornando a figura feminina num simples reflexo dentro de um cristal.
— Se ao menos soubéssemos como aquela marca surge… Mas só eles podem o descobrir. Nem nós, conhecemos esse segredo. Não fazemos ideia do seu aspecto ou funcionamento pleno.
— É compreensível. Aquela marca não está relacionada com os seus poderes, logo não nos inclui. É uma junção de duas almas.
— O que você sugere então?
— Tenho que reconhecer que a situação é delicada. O único que podemos fazer é confiar em nossos mestres. Da mesma forma como eles acreditam em nós nos seus combates.
— Sempre com uma resposta sábia pronta, não é?
Fujin sorriu para a outra zanpakutou, em forma de agradecimento, redirecionando seu rosto encarando os olhos verde aguados.
— Arigato, Maru-kun. Fiquei mais tranquila, você sempre me acalma.
Engoliu um ligeiro rosnado em sua garganta, ficando ligeiramente irritado com o seu costumeiro apelido que Fujin inventara ocasionalmente. Nesse aspecto, ele compreendia na perfeição o que o seu capitão sentia quando não o tratavam respeitosamente. No entanto, manteve a aparência em sua feição e no seu tom, prosseguindo com a calma e sensatez de costume.
— Não me trate desse jeito, Fujin.
— Ora… Que timidez é essa, poderoso dragão de gelo? Com vergonha da sua companheira? O tempo em que estivemos longe o afectou tanto assim? — Claro, ela nunca desistiria facilmente de o provocar. Tinha esquecido, por instantes, essa peculiaridade da albina.
Pela visão periférica, Hyourinmaru reparou no sorriso malicioso crescente na face alva. De imediato, quebrou o contacto visual, fechando calmamente os olhos, cruzando os braços sob o peito.
— Você não muda, continua a mesma…
Com seus ouvidos aguçados, o dragão escutou a passada lenta dirigindo-se a si. Seu corpo tremeu, ao pressentir a aproximação dos pés descalços quase planando. A deusa dos ventos era uma entidade angelical para todos, inclusive sua portadora, por vezes, com momentos rebeldes. Contudo, sempre que ficavam sós, ele revia uma personalidade completamente distinta da conhecida.
“Caçando um dragão”, como ela adorava descrever aquelas fases efémeras.
Fale com o autor