A História de Alastair Tremaine
2 O garoto da padaria
Dividiram as tarefas domésticas, embora todos as fizessem mal porque nunca aprenderam devidamente quando tinham tudo na mão, graças à Cinderella: Lady Tremaine administrava a casa e a limpava com a ajuda de Alastair, produzia alguns vestidos que este levava à vila para vender e Daniel cuidava da horta e dos animais. Alastair também fazia as compras. Nenhuma moça queria nenhum dos rapazes Tremaine embora a mãe não poupasse esforços para casá-los.
Na verdade, Alastair já havia desistido de se casar. Sentia-se ofendido e incomodado com o assunto e evitava que fosse trazido à tona a todo custo. Daniel, por sua vez, apenas havia desistido de um título na nobreza e estava tentando conquistar uma das camponesas, pois era melhor que nada.
Em uma das visitas de Alastair à vila, reconheceu um rapaz na padaria como o filho tão repreendido do padeiro, de quem ria quando era criança, nos tempos que iam fazer compras com Cinderella. Há tempos não o via. Devia ter se mudado e voltado para a vila há pouco e assumido o lugar do pai porque não conseguiu nada melhor na vida. Ainda que não estivesse em posição de julgar, Alastair ainda o fazia, pois era uma das únicas coisas que sabia fazer muito bem.
O filho do padeiro tinha mais ou menos a mesma altura de Alastair, talvez um pouco mais alto. Tinha cabelos muito claros caindo por sua testa e quase cobrindo seus olhos. Seus cabelos também estavam sujos de farinha. Era rechonchudo como um porquinho para o abate e suas roupas não lhe serviam muito bem: as apertadas mangas longas de sua camisa verde por baixo do avental não eram tão longas assim para ele.
— Gostaria de seis pães de manteiga, por favor. – pediu o ruivo.
O garoto sujo de farinha o olhou debaixo para cima, com ombros encolhidos, ainda fosse um pouco mais alto que o ruivo. – É pra já, senhor. – e preparou-se para recolher os pãezinhos.
Alastair percebeu, quando o garoto se virou para pegar os pães, que havia uma marca abaixo de seu olho direito e na sua lateral, no caminho entre sua sobrancelha e seu cabelo. Quando o rapaz esticou o braço e estendeu-lhe o embrulho de papel com os pães, sua manga apertada recuou um pouco, revelando mais manchas roxas por ambos os braços.
O ruivo pegou o embrulho, encarando-o boquiaberto. O padeiro percebeu e afastou-se de ré, forçando um sorriso de canto e esticando as mangas da camisa sobre os braços. – Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
Demoraram alguns segundos para que o jovem Tremaine respondesse. Perguntou então se ainda faziam o pão recheado. Ao ser respondido que sim, pediu um desse e mais alguns doces antes de ir embora.
No caminho todo, ficou pensando no que podia ter acontecido. Levantou hipóteses de que o rapaz tivesse caído de um cavalo ou de um lance de escadas. Mas no fundo sabia que aquilo só poderia significar que tinha sido agredido pelo pai e queria afastar essa ideia da cabeça, pois se lembrava de rir dele na infância e se sentia mal.
Chegou em casa com as compras e foi surpreendido com uma carruagem deixando o local. Cinderella havia mandado outra caixa de presentes para eles e uma carta passivo-agressiva que reforçava o quanto ela era boa e generosa com a família mesmo depois de tudo que passaram. Eles consideravam as cartas uma afronta, basicamente serviam para massagear o ego da própria princesa. Mas não estavam em condições de recusar os presentes.
— Tem algo pra mim!? – o ruivo perguntou empolgado, deixando as compras no chão mesmo e correndo para a mesinha no centro da sala onde uma bonita caixa de madeira decorada estava depositada, cercada por Daniel e Madonna Tremaine.
— Tem isso aqui. – respondeu Daniel levantando uma vestimenta nobre em cor salmão e detalhes brancos, cuidadosamente dobrada. – Eu já peguei o conjunto verde-água e sobrou esse pra você, ninguém mandou chegar por último! – Alastair deu de ombros e pegou a roupa, tinha gostado mesmo assim.
A princesa costumava mandar caixas de madeira com os mais variados presentes, desde vestimentas a utensílios domésticos e alimentos que achava que podia faltar na casa dos Tremaine. Desta vez, havia ainda dentro da caixa dezoito moedas de ouro, um relógio parado marcando doze horas, que só podia ser uma provocação nada sutil de Ella, perfumes, vestidos para Lady Tremaine e, ainda, dentro havia uma caixa menor com temperos caros, muito bem embalados para que não tivessem contato com os demais itens da caixa maior.
— Esperem… – balbuciou Lady Tremaine que ainda terminava de ler a carta. – Um baile! Cinderella está os convidando para um baile!
Os garotos se entreolharam, confusos. Daniel tomou a carta de sua mãe e leu em voz alta o último parágrafo.
— "Por fim, quero lhes convidar, sem ressentimentos"... Sei, sem ressentimentos uma ova. — e revirou os olhos — "ao baile de máscaras a ser realizado ao sábado da semana seguinte. O baile de máscaras é uma tradição antiga do reino e será uma oportunidade para Daniel e Alastair conhecerem moças que, com sorte, roubem seus corações. Com carinho, Ella. PS:. Estou mandando trajes adequados e também máscaras ao fundo da caixa".
Neste momento, Daniel atirou a carta em algum canto e, ferozmente, ele e Alastair quase se atiraram dentro da caixa à procura das máscaras, jogando para fora os vestidos de presente à sua mãe. – Seus moleques! Devagar! Tenham modos! – ela disse furiosa presenciando a cena.
Havia uma máscara preta para o traje verde, combinando em detalhes no mesmo tom de verde. Era esculpida elegantemente em formato de penas, com chifres igualmente ornamentais. Ela cobria da testa ao nariz, com um contorno que descia ao redor da boca, como um sorriso de cabeça para baixo. Para o conjunto salmão, uma máscara simples na mesma cor e um luxuoso chapéu decorado com longas penas na lateral, tingidas também em cor salmão.
— Nós iremos! – bradou Daniel com um sorriso que ia de uma orelha à outra.
— É claro que irão! — respondeu a mãe. – Não há sombra de dúvidas disso.
Alastair não disse nada, mas estava igualmente empolgado com o baile de máscaras, embora ficasse nervoso com a ideia da mãe lhe perguntando depois sobre seu êxito em conquistar alguma moça pois já pressupunha que não iria ter sucesso.
Quando deitou-se para dormir, o garoto dividiu seus pensamentos entre os curiosos hematomas no padeiro e o baile de Cinderella até pegar no sono.
No dia seguinte, não resistiu a experimentar sua roupa, sua máscara e o chapéu. Transbordava-se de rir de como parecia um nobre chique e enjoado. Depois de trocar-se novamente, desceu as escadas para tomar café, ajudou o irmão a tratar dos porcos e foi ler um dos livros deixados para trás por Cinderella, pelos quais tomou gosto. Lia aventura, mistério e romance.
Daniel foi então praticar piano, o que atrapalhou a leitura do mais novo, causando uma discussão entre os irmãos e fez Lady Tremaine perguntar-se onde errou pela centésima vez.
Quando chegou a semana seguinte, Alastair retornou à vila para as compras, dessa vez acompanhado pela mãe, que tinha ido vender alguns dos vestidos que recebeu na caixa de presentes de Cinderella, só os que eram de péssimo gosto, mas que precisava negociar ela mesma porque não queria o garoto sendo passado para trás.
Como de costume, passaram por último na padaria. Alastair estava esperando por esse momento o caminho todo. Sentia-se num livro de mistério e ansiava por desvendar o segredo por trás das marcas do padeiro e sua personalidade peculiar.
Abriu a porta para sua mãe entrar na frente e, neste momento, quando a porta tocou o sino à entrada, percebeu o jovem do outro dia limpando o rosto apressadamente como quem seca as lágrimas e sentiu-se estranho. Fitou sua mãe que observava o rapaz com um olhar severo por algum motivo. – Onde está seu pai, rapaz? Quero ser atendida por ele. – a mulher vociferou.
O jovem padeiro a fitou da mesma forma que fizera com Alastair na semana passada: debaixo pra cima, encolhido, ainda que fosse mais alto. – Me desculpe, senhora, creio que não será possível. Meu pai se aposentou e também não está em casa. – disse olhando por cima do ombro para a porta às suas costas que emendava a padaria à casa da família. – Estou em seu lugar agora.
A madame Tremaine fez uma cara de quem comeu algo e não gostou. Alastair assistiu a tudo calado. O jovem padeiro só olhou nos olhos do outro rapaz por um breve momento. Alastair pôde jurar que o rapaz havia formado um quase triste sorriso de canto, mas não tinha certeza porque foi muito rápido. Aquele jovem parecia sempre cabisbaixo e abatido, desconfiado como um animal de rua, com medo de ser chutado por alguém a qualquer momento sem o menor motivo.
Depois de sua compra, Lady Tremaine agradeceu brevemente e foi embora acompanhada pelo filho. Já na rua, foi abordada por uma mulher que soube por alguém que Tremaine tinha alguns vestidos à venda e queria dar uma olhada se ainda fosse possível. Como havia um que não conseguira vender, Tremaine não achou má ideia.
Alastair então pediu umas moedas à mãe para voltar à padaria e comprar chocolate para uma receita, já que a padaria também tinha uma pequena parte de confeitaria. Distraída, ela lhe deu as moedas e disse para que andasse logo.
— Olá… – ele murmurou entrando vagarosamente ao adentrar o recinto outra vez.
— Boa tarde… – respondeu o jovem padeiro, enquanto terminava de atender uma mulher. Percebendo-a ali, Alastair esperou sua vez torcendo para que sua mãe demorasse mais um pouco.
— Então, eu… vou querer um pouco de chocolate. – disse depois que a mulher foi embora.
— Claro. – respondeu timidamente o padeiro
— Desculpe, eu não sei seu nome, você é…? – perguntou o jovem Tremaine, olhando para um canto no chão enquanto o outro jovem estava de costas. Percebeu que hoje ele estava mancando.
— James. — respondeu depois de uma longa pausa, sorrindo em sua direção. Era a primeira vez que Alastair via seus dentes. Bastante bons, por sinal, para alguém de sua classe social. – Desculpa, é que não costumam me perguntar meu nome. Ou já me conhecem desde pequenininho por causa do meu pai ou só me chamam de "padeiro" mesmo.
— Quer que eu te chame de padeiro então? – Alastair também exibiu seus dentes, longos e brancos.
— James está bom, obrigado. E você é?
Alastair já havia se esquecido de se apresentar da mesma forma que já havia esquecido do chocolate. É que estava mais interessado em ouvir o padeiro, James, que antes era tão quieto.
— Sou Alastair. Alastair Tremaine. – e fez um movimento cabeça, como quem diz “É um prazer!”.
— Espera. Tremaine? Como a princesa Ella?
Alastair suspirou e cruzou os braços. – Bom… sim, exatamente como a princesa, mas não, não como a princesa. – pensou sobre como sua família herdara o sobrenome do pai de Ella e praticamente o mancharam, acabando com sua linhagem e em pobreza extrema, enquanto a irmã tinha se unido à família dos Encantados e se tornado princesa. Mas não estava a fim de explicar nada, então deixou por isso mesmo e preferiu não elaborar que era, de fato, irmão-postiço de Ella Tremaine.
— Entendo, Alastair Tremaine. — ele pronunciou o nome vagarosamente saboreando cada sílaba do imponente sobrenome e colocou uma caixa com barras de chocolate amargo sobre o balcão e repousou o rosto sobre um dos braços. – Como deve saber, ou não, já que não sabia meu nome, venho de uma longa linhagem de Adalberts, os padeiros. Frederic Adalberts I e II, Jhonatas Adalberts e Marcel Adalberts I, II e III, até chegar em mim, James Adalberts, primeiro de meu nome, fadado a viver sob as paredes dessa padaria até que magicamente apareça alguma moça querendo se casar comigo para que eu tenha um filho homem que possa tomar meu lugar.
— Soa como uma maldição sob a qual sua família está vivendo a séculos. – brincou Alastair, rendendo uma risadinha síncrona dos dois.
— Creio que sim. Aproveite sua liberdade. Aliás, como é lá fora, depois das paredes da padaria? — James brincou também.
No mesmo momento, puderam ouvir lá de fora a mãe do garoto a chamá-lo: "Alastair? Alastair, querido? Venha, vamos embora!"
— Bom, eu tenho que ir. – o ruivo lamentou-se, desapontado. Não tivera tempo suficiente de encontrar uma oportunidade de abordar qualquer assunto que servisse para descobrir alguma coisa sobre o estado físico que o pobre rapaz da padaria sempre estava. – Quanto é o chocolate?
James sorriu. – Não, é pra você. – fechou a caixinha e empurrou-a na direção de Alastair. – Um presente para o primeiro amigo que fiz na padaria e a primeira pessoa que perguntou meu nome.
"Alastair?", a voz de sua mãe se aproximava. O jovem queria negar o presente e insistir em pagar, mas foi ficando nervoso com a voz da mãe e achou que seria mais fácil aceitar e ir embora rápido. – Obrigado. – ele levou suas mãos à caixinha, esbarrando sem querer nas mãos de James que ainda a segurava e só então se lembrou de soltá-la. – Bom, se já conseguiu fazer amigos na padaria não deve ser tão difícil uma noiva, não é? — debochou amigavelmente como se não fosse difícil o suficiente para ele mesmo "lá fora", como diria James.
— É… quem sabe. – o jovem padeiro balançava a cabeça negativamente enquanto sorria para as próprias palavras, desacreditado.
— Eu sei como é a vida de solteirão. – Alastair disse caminhando até a porta. – As mulheres não estão querendo nada com nada ultimamente. – E então já com a mão na maçaneta acrescentou – Bom, boa sorte pra nós no baile de máscaras do reino então, certo?
James franziu o cenho e começou a rir. – Baile de máscaras? O que te faz pensar que eu seria convidado para um baile da nobreza?
Alastair parou pra pensar um pouco. Como assim um baile da nobreza? Quando o príncipe deu o baile no qual conheceu Cinderella, todas as garotas do reino foram convidadas, com título de nobreza ou não. E assim que Cinderella agia agora? Excluindo os pobres das festanças do reino? Ele não disse nada, apenas sorriu, abriu a porta e saiu.
Pegou sua mãe pelo braço e devolveu-lhe as moedas. Disse ser o troco, que ela guardou sem conferir. Estavam quase saindo da cidade para pegar a estrada para o castelo na fazenda quando uma carruagem com um mensageiro passou anunciando em alto e bom tom "O príncipe Henry e a princesa Ella comunicam o adiamento do baile! O evento acontecerá na próxima semana!".
Lady Tremaine e o filho arregalaram os olhos, surpresos. – Ótimo! — disse o garoto, surpreendendo a mãe, que até então achava que estavam pensando a mesma coisa.
— Ótimo!? Como pode ser ótimo!? Quanto mais depressa melhor!
— Teremos tempo e eu vou requisitar uma reunião com Cinderella. É inadmissível ela realizar um baile só pra nobreza. – retrucou confiante o garoto em passos largos, quase arrastando a mãe pelo braço.
— Era só o que me faltava! Por que diabos você quer essa mazela da sociedade em um baile real se você tem a oportunidade de encontrar-se somente com uma parcela filtrada das melhores pessoas de todos os reinos? – Lady Tremaine apertou o passo. Sabia que nem eles mesmos poderiam ser considerados nobres, eram apenas pobretões que se passavam por ricos. Mas eram a família Tremaine! A senhora Tremaine por vezes se apresentava como membro da família real para impressionar as pessoas. – Assim é muito mais garantido que você e seu irmão encontrem moças decentes, interessantes, estudadas e com posses, o que é o mais importante!
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