A História de Alastair Tremaine
1 Cinderella e o resto dos Tremaine
Notas iniciais
Era uma vez um reino muito distante, rico em tradição e romance. Em um modesto castelo, viviam Sir Francis, um mercador de tecidos muito bem sucedido, sua amável esposa Madonna e seus dois filhos, Daniel e Alastair.
Daniel possuía cabelos negros, como os do pai um dia já foram e Alastair era ruivo como sua mãe que, agora, já começava a apresentar cabelos brancos. Os irmãos estavam sempre correndo pela casa, brincando, brigando, nunca era muito claro. Às vezes, brigavam até mesmo para decidir quem faria carinho no gato, Lúcifer, um filhote gordo de pelos pretos que parecia entender e se gabar da disputa de atenção que recebia.
Um dia, em uma viagem de negócios a um reino muito próximo, uma tempestade tomou conta de toda região e causou um trágico acidente com a carruagem de Sir Francis, quando este voltava para casa. Somente três dias depois que um mensageiro trouxe a notícia da tragédia à Madonna que se já se encontrava em desespero, no anseio de notícias do marido.
A comoção foi generalizada na comunidade. Sir Francis era um homem muito querido. Todos prestaram suas homenagens ao falecido e se dispuseram gentilmente a ajudar à sua viúva no que ela precisasse. Ora, e no que diabos ela iria usufruir da ajuda daqueles pobres? Nada que fizessem traria Francis de volta e ele era tudo que importava para aquela família. A senhora deprimia-se mais e mais conforme as semanas se passavam. Os filhos ficaram doentes. Lúcifer era o único que parecia não se importar com a situação.
A viúva enrijeceu-se e fez o seu melhor para dar continuidade aos negócios do marido como podia na loja de tecidos, mas o dinheiro já não entrava como antes. Surgiram dívidas, os filhos davam maior despesa conforme cresciam e Madonna se recusava a dar uma educação mediana aos garotos, que aprendiam diferentes línguas, tinham aulas de canto e piano. Eles eram a esperança da família e precisavam se casar com mulheres da nobreza. Se tivesse que jazir na pobreza, Madonna pretendia fazê-lo sozinha.
Um dia apareceu em sua loja o, também viúvo, Lord Tremaine, a procura de um tecido especial para encomendar um vestido para o aniversário, dali alguns dias, de sua preciosa e mimada Ella: uma garotinha de cabelos loiros e olhos azuis como céu.
Tremaine era um homem de estatura elevada, cabelos e bigode negros e boníssimos modos, embora extremamente abobado e digno da pena de Madonna. Sempre ficava nervoso na presença dela. Ela já havia notado há anos como ele a olhava com encanto e repreendia-se desviando o olhar abruptamente por pudor.
Naquele dia, suas mãos se tocaram por acidente quando Lord Tremaine foi sentir a textura de um dos tecidos. Seu rosto tentou sorrir de felicidade e espantar-se com pânico ao mesmo tempo, gerando uma feição quase incompreensível.
Quase, porque Madonna entendeu perfeitamente como ele se sentiu e aquilo lhe deu uma ideia. Lord Tremaine era um homem de muitas posses, certamente a desejava desde que era casada. Agora seu caminho estava livre para cortejá-la, mas não o faria certamente por sua timidez. Madonna por sua vez, precisava de uma figura paterna para os filhos, precisava de um marido para ser respeitada diante da sociedade, e, acima de tudo, precisava de dinheiro para sobreviver às suas dívidas. Decidiu que se casaria com aquele homem não por amor, mas por necessidade. Seria uma troca de favores em que todos sairiam beneficiados.
Ela orquestrou tudo e deu pistas e brechas necessárias para que Tremaine tomasse cada atitude que ela queria, até o dia em que finalmente deixaram de ser viúvos e se tornaram oficialmente cônjuges e Madonna tornou-se Lady Tremaine.
Ela não tinha se casado por amor, mas caiu-se de amor mesmo assim por aquele homem tão cuidadoso e apaixonado. Tratava os garotos de sua esposa como se fossem seus e os enchia de presentes.
A pequena Ella, tímida como o pai, não se misturava muito com os garotos que já eram extremamente unidos e aprontavam todas juntos, mas tinha admiração pelos irmãos mais velhos e desejava ser notada por eles para brincarem juntos. Estes se sentiam inteligentes e maduros demais para brincarem com a garotinha. Ainda assim, todos se davam bem.
Eram uma família feliz até que a morte veio visitá-los novamente. Veio sem pressa, adoentado Lord Tremaine aos poucos e trazendo dor e angústia àquela família já abalada por perdas, até que por fim o levou.
Lady Tremaine revoltou-se contra Deus: deveria odiá-la para fazê-la passar por tudo aquilo de novo. Será que nunca poderia ter paz, conforto e felicidade? Estava condenada ao fracasso e à miséria? Seus meninos se tornaram rebeldes. Faziam maldades com os criados e até com a irmãzinha, Ella. Esta por sua vez, ficou introspectiva e sofria em segredo.
Daniel apelidou a garota de “Cinderella” por um dia ter se sujado com as cinzas (cinder) da lareira enquanto ajudava uma criada e sua mãe o repreendeu, mas o garoto insistiu em chamá-la assim, divertindo ao irmão, que também passou a chamá-la pelo apelido.
Ella brincava sozinha, sentindo-se cada vez mais rejeitada pelos irmãos. Mas ela só brincou até o fatídico dia em que quebrou um anjo de louça da Madrasta e aquilo causou fúria em Lady Tremaine. O anjo teria sido o último presente de seu primeiro marido e era um de seus bens mais preciosos. Daquele dia em diante, passou a ser "Cinderella" também para a mulher.
Esta inclusive obrigou todos empregados a chamarem a garota assim se quisessem continuar trabalhando no castelo. Sem terem outra opção, obedeceram-na e tratavam a tão querida Ella pelo apelido dado por Daniel. Não por muito tempo, entretanto. Mais uma vez as dívidas começaram a bater às portas da família de Madonna Tremaine e ela foi dispensando os empregados um a um até que não houvesse ninguém no castelo além dela, seus filhos e Ella.
Lady Tremaine ensinou os afazeres domésticos a Ella de forma impecável, ainda que não suportasse olhar nos olhos da garota sem lembrar-se de seu pai, fazendo-a segurar as lágrimas. Por isso, tratava a garota com muito rigor e a deixava pensar que tudo ainda era uma represália por conta do incidente com o anjo de louça. Mas, na verdade, ela não suportava a ideia de demonstrar-se vulnerável e precisava projetar toda culpa de sua frustração em alguém e esse alguém era a garota que constantemente a lembrava de sua perda.
No começo, faziam os afazeres de casa juntas, até que Cinderella foi se aperfeiçoando e se tornando mais responsável e competente, ao ponto que se tornou, sem perceber, a empregada dos Tremaine na própria casa, como se não pertencesse mais à família.
A senhora Tremaine começou a dar aulas de piano em casa, ensinando os filhos de outros burgueses da região, o que salvou a economia da família por um tempo. No entanto, ela às vezes usava seus filhos de exemplo e os comparava às outras crianças de forma infeliz, desmerecendo-as para engrandecer os meninos. Isso fez com que sua escola de música falisse e, novamente, a família via-se economizando cada centavo e vivendo de desespero e do que a fazenda fornecia, com seus animais e a pequena horta que Ella cultivava.
Daniel começou a cortejar uma moça que não lhe deu muita atenção e casou-se com outro, mudando-se dali. Se existia como, o menino tornou-se ainda mais rebelde depois deste fato. O jovem Alastair não tinha tanto talento para cortejar, embora fosse ligeiramente mais bonito e mais apto nos modos e nos dotes musicais.
Lady Tremaine teve de vender a carruagem e o último cavalo, então tinham de ir à vila a pé para fazer compras. Compravam alguns tecidos baratos pois a matriarca entendia de costura e ensinou Cinderella para que fizesse roupas para eles e também alguns vestidos para vender por mais alguns trocados.
Nas visitas à vila, passavam no açougue, no mercado de rua e antes de ir embora, na padaria. O padeiro, um homem velho e gordo de cara zangada, insultava e dava safanões em seu filho que tinha dificuldade de aprender o ofício. Lady Tremaine dizia em voz baixa à Cinderella toda vez, que ela era tratada com muita moleza e por isso não fazia nada certo. Que deveria tratá-la como o padeiro tratava aquele garoto para que ela visse o que era bom. Aqueles cochichos divertiam os seus garotos, que se acabavam de rir. Na volta, Cinderella carregava o máximo de coisas que conseguisse sozinha.
Um dia o príncipe deu um baile para eleger uma possível noiva. Apesar de todos esforços para impedirem Cinderella de ir, a garota de algum modo acabou escapando e por incrível que pareça, chamou a atenção do príncipe, mas acabou voltando para a casa à meia noite. Dali alguns dias, capachos do príncipe apareceram com um sapatinho de cristal para testar no pé de qualquer donzela na casa na missão de voltarem com a dama que mexeu com o coração do príncipe.
— Hmpf. Vocês têm certeza que é ela? Digo, não pode ter só uma mulher no reino com esse tamanho de pé. – resmungou Alastair quando o sapatinho de cristal serviu perfeitamente nos pés de Ella.
A loira lhe lançou um olhar irritado como se, muito farta de suas implicâncias, finalmente lhe lançasse um "cale a boca!". Aquilo surpreendeu Alastair que nunca a vira revidar, sequer com o olhar.
Lady Tremaine suspirou nervosa e silenciosamente. Daniel foi trotando pelas escadas furiosamente até seu quarto. E no silêncio dos Tremaine em meio aos gritos de comemoração dos guardas e da própria Cinderella, a garota partiu rumo a uma vida de luxos e riquezas, deixando-os ali com dívidas, um gato folgado e outros animais dos quais não sabiam cuidar.
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