A História da Grand Chase
21 O Pântano do Esquecimento
Notas iniciais
Peço desculpas, mais uma vez, pela demora em postar os capítulos. Esses dias eu tive uma idéia nova e demorei a me decidir se colocava ela ou não, porque não é algo previsto na trama original do jogo, mas... como dizer... É uma idéia que talvez faça realmente parte da história do jogo, só que não sabemos se faz mesmo. Há suspeitas, mas não temos certeza. De qualquer forma eu venho tentando diminuir o número de palavras(ainda que eu sempre diga que o número não importa). Há muito mais que quero colocar, como as relações e intrigas entre as personagens, que não venho desenvolvendo muito por enquanto - já estamos no capítulo 21 e a Grand Chase só completou metade de Vermecia, é verdade... mas esta é uma história que pretendo que seja bem longa, porque não existe apenas a Grand Chase - também temos a história do Zero, Elyos e as outras dimensões, Calnat e os reinos dos anões e dos elfos... a fanfic é focada na Grand Chase, sim, mas eu não gostaria de escrever exclusivamente sobre o grupo de Elesis, Lire, Arme e o restante.
Obrigado por ler todas as 67.168 palavras que foram escritas até aqui. Se estou fazendo um bom trabalho, realmente espero continuar assim até além de Arquimídia...
Tinham se passado dias, talvez semanas desde que tinham entrado naquele túnel. Elesis não sabia dizer com certeza. Quando saiu, teve certeza de estar no meio de algo muito grande.
Um pandemônio estourava à sua volta. Monstros lutavam sob um chão de grama verde bem aparada, com montanhas no fundo e um céu azul de verão, pontilhado por criaturas voadoras. Parecia haver milhões deles — roxos, verdes, negros, com asas, escamas ou armaduras, os monstros estavam em toda parte e em todas as distâncias — uns eram grandes como mamutes, outros eram pontinhos pretos bem lá longe. Humanos lutavam contra eles, vestidos em roupões ou camisas e calças. Trajes ridículos pra uma batalha, ela pensou, comparado aos monstros. As pessoas tinham espadas e lanças, mas também havia arcos e um aparato estranho que disparava linhas de luz. Elesis viu um deles errar um tiro e acertar outro — a luz perfurou a armadura e saiu do outro lado do braço. O homem gritou e caiu sob um joelho. Foi logo dominado por um demônio roxo com asas de morcego.Para onde quer que Elesis olhasse, via mil criaturas, cada uma diferente da outra. No chão ou no céu, estavam em todo lugar, e o barulho era insuportável. Gritos, armas em choque, corpos de monstros caindo no chão. Somente então Elesis se lembrou de pegar a espada. Não se lembrava de quando tinha chegado ali, mas lembrava-se do túnel, do Vale do Juramento, de Lire sendo esmagada e depois encontrada...—Elesis! — era a segunda vez que Arme gritava.Elesis a viu correndo, uma coisinha frágil no meio de um caos de monstros. Ela estava exatamente como antes — vestia as roupas da Academia de Magos, violeta e branco, e seu cetro. Não trazia o pote de magia, embora os olhos estivessem se esforçando para ficar daquele tamanho. Elesis ficou surpreso por ela não ter chorando ainda.—Elesis, o que está acontecendo? Onde estamos? — a garota parecia querer gritar, em vez disso, berrou, para ser ouvida em meio a todo aquele barulho. Uma bola de fogo do tamanho de uma casa caiu muito perto de onde elas estavam. O chão chegou a estremecer, e Arme também — Ah meu Deus. Isso aqui é Canaban?—Decididamente não — Elesis gritou de volta. Também não era o Vale do Juramento — estava quente, mas era por causa do fogo e dos monstros. Arme parecia que teria um colapso a qualquer momento, então Elesis não demonstrou o que sentia — Precisamos encontrar a Lire. Depois, a primeira coisa a fazer é encontrar um humano, um tenente ou comandante, e perguntar o que está acontecendo. Vão precisar de nós — Elesis acrescentou, sombria. O ataque final tinha começado? Porque se aquilo não era obra de Cazeaje, Elesis não sabia o que poderia ser. Não, tinha que ser a Rainha da Escuridão. A Grand Chase tinha demorado demais. Quanto tempo passamos naquele túnel?.Elesis não se lembrava de quando saíram. A visão de tantas criaturas era tão arrebatadora que ela tinha a sensação de ter nascido ali, naquele exato lugar vestida e de espada na mão. Como tinham ido parar ali? Bem, Elesis descobriria isso depois.—Não vamos ficar paradas aqui — gritou — Vamos — e então ela viu — Minhas Deusas do céu, Arme, olha aquilo!No céu, entre todos aqueles monstros, havia uma figura tão bonita que parecia saída de um sonho. Tinha a pele clara, o corpo esguio e roupas brancas e verdes, entrelaçadas com pérolas, dignas da própria Rainha. Seu rosto pequeno, o nariz curto, as orelhas pontudas... era Lire, sem dúvidas, e era isso o que mais impressionava. Os cabelos eram maiores do que a própria elfa, de um amarelo tão claro que era quase branco, concluindo-se em anéis debaixo dos pés dela. Tocava uma flauta, embora as duas não conseguissem ouvir as notas. Olhá-la restaurou a esperança de Elesis.—Eu não sabia que ela podia voar — Arme comentou, igualmente surpresa. E então alguma coisa grande jogou ela longe.Por um momento, Elesis ficou sem reação. Aquele golpe... O monstro batera na garota e ela voara como uma boneca de pano, espatifando-se no chão a cem metros, no mínimo. E Elesis quase não acreditou quando viu a mão dela erguendo-se fracamente, o corpo estremecendo. Pelas deusas, ela deve ter quebrado todos os ossos do corpo. O monstro era alguma coisa branca, algum tipo de gigante, mas ela não prestou muita atenção. Ele chegou até onde Arme tinha caído com um salto e pôs-se a socá-la com mãos que eram maiores do que ela.Aquilo despertou o instinto lutador da garota. Elesis gritou quando girou a espada e correu, passando-a certeiramente pela nuca do inimigo. A espada atravessou com um som cortante, como se tivesse acertado um fantasma; Elesis perdeu o equilíbrio. O monstro nem olhara para ela. A espadachim tentou mais um ataque, que passou direto como se a criatura fosse feita de ar.O mundo todo pareceu girar, de tão atordoada que ela estava. O que estava acontecendo agora? O monstro tocava o chão, e claramente tocava Arme. Mas Elesis não conseguia alcançá-lo! Sua espada simplesmente não encostava nele. O pânico a dominou — nunca se sentira tão inútil antes quando estava armada. O monstro recolhia os punhos e batia na garota, e ela gritava, mas... Os olhos da garota brilhavam. Das mãos emanava uma energia roxa tão brilhante quanto seus olhos. O monstro agora tentava esmagá-la contra o chão, mas Arme estava resistindo[/i]. Ela, tão fraca e frágil... só podia estar usando uma magia. O monstro a apertava, mas as mãos pequenas e delicadas da garota empurravam mãos dez vezes maiores como se fossem feitas de ferro...
Elesis viu um clarão vermelho pelo canto do olho e colocou a espada em guarda, esperando um ataque que nunca veio. Um vulto passou por ela como um raio; a criatura foi arremessada para longe de Arme. O salvador usava uma espada também, tão longa quanto a de Elesis, porém mais fina. O monstro rugiu um desafio e baixou seus braços contra ele.Se Elesis não tivesse visto, não teria acreditado. Estava vendo o lutador de costas, e podia reconhecer a habilidade enquanto ele atacava. O salvador colocou a espada acima da cabeça, e os braços do monstro atingiram o gume. O espadachim contra-atacou, uma série de golpes tão feroz e rápida que Elesis pensou estar sonhando. Viu ataques vindos de todos os lados, cortadas com destreza incrível. Segurava na espada com as duas mãos e movia-se com inacreditável velocidade, tão rápido que monstro mal pôde reagir. Em segundos, as pernas dele tornaram-se fracas demais para sustentar o imenso corpo, que sangrava de meia centena de ferimentos. A criatura deu um passo para trás e caiu de costas, arranhado como um amolador de facas.Quando o salvador virou-se para Arme, o coração de Elesis parou.Mãe? Foi a primeira coisa que pensou, mas aquela não era sua mãe. Era uma mulher alta, forte e elegante, com cabelos ruivos como os de Elesis. Os dela, porém, iam quase até a cintura. Estava vestida com um casaco preto de luta, com vermelho e negro nas calças e nas botas. Tinha um rosto bonito, imperioso e determinado, o olhar de liderança que Elesis sabia ver numa pessoa. Só de olhar para ela a fazia sentir-se intimidada. A mulher caminhou até onde Arme estava caída e estendeu-lhe a mão... mas a maga estava diferente. Parecia mais velha, mais séria. Elesis não tinha palavras para descrevê-la, mas era uma maga da qual ela jamais zombaria novamente.—Arme, estais bem? Sabes que não podemos ser destruídas nesta forma, mas não quererá ser morta aqui.—Perdoai-me. Sabe que o o que fiz, faço por Ernas. Por que saíste de teu posto? E os inimigos?—Todos eles, mortos por minha espada. A hora chegou. Eles construíram a tal arma.—E mais cedo do que esperávamos — Arme respondeu. Ela virou-se para olhar Lire — Chamarei-na. Dize que não demorarás, e rezemos para que termine.A mulher espadachim deu uma sugestão de risada.—Rezam para nós, mas quem rezará por nós?—Nós — Arme respondeu.Elesis abriu os olhos.Estava deitada, encarando a escuridão fria e parada. Os gritos e sons de batalha tinham sumido. O rosto da mulher espadachim parecia flutuar à sua frente, vívido como ainda se lembrava dele. Mas tinha acabado agora. Foi um sonho. O sonho mais real que eu já tive.Elesis sentou-se e ficou olhando as paredes do túnel sem vê-las, mesmo quando seus olhos se acostumaram. Depois do que poderia ter sido um minuto ou dez horas, Arme acendeu o cetro e olhou-a, cansada.—Bom dia — Arme sorriu, a garota frágil que ela era — Já está acordada? Você chegou a dormir?—Não estava muito cansada — Elesis respondeu sem emoção.Não tinham como saber que horas eram, então comeram quando estavam todos acordados. As três garotas tinham as mochilas que Ronan lhes tinha dado, mas a única comida eram pães velhos e frutas secas. A maior preocupação era a água, que tinha se acabado. Devia fazer mais de vinte e quatro horas que sentiam sede.Elesis vinha pensando em sugerir que corressem pelo túnel o mais rápido que podiam. Seria cansativo e as faria gastar mais energia, mas não sobreviveriam outro dia sem água. Era encontrar a saída ou morrer ali dentro. O sonho, contudo, afastou todos os seus pensamentos. Elesis se viu pensando nele durante todo o percurso. Caminhou como uma sonâmbula, seguindo a luz no cetro de Arme sem saber bem para onde estava indo.O caminho inclinou-se para cima, e isso a despertou de seus devaneios. Elesis percebeu que o cetro de Arme tinha se apagado. Uma luz fraca vinha de cima, um buraco onde finalmente podiam ver o céu. Arme começou a andar depressa, ansiosa por sair, mas Elesis a segurou por um braço.—Espereis aqui — disse; Arme estranhou e olhou vivamente para ela, então Elesis sacudiu a cabeça — Você não entra num lugar desconhecido assim desse jeito, como se corresse pra uma loja de doces. Pode ter monstros ou bandidos, ou coisas piores. Se eu bater a espada duas vezes no chão, podem vir — avançou ela mesma, chacoalhando a reluzente armadura de metal. Não a tirara nem mesmo para dormir.Elesis saiu, e imediatamente soube onde se encontravam.Poderia ter sido uma grande floresta, mas as árvores não tinham folhas. Os troncos estavam ocos e retorcidos, e deviam estar tão cinzentos quanto a morte, mas um musgo os cobria como pele. O chão ali era sólido, mas por toda volta havia círculos que sugeriam poças de lama. Fiapos de fumaça verde saíam das poças e condensavam-se num denso nevoeiro, cobrindo o céu e transformando o azul num verde pálido. Não podiam ver o sol, mas Elesis sabia que era dia. Se estivesse de noite, estaria tão escuro quanto no túnel.Ela fincou a espada no chão duas vezes, e eles vieram. Lire torceu o nariz com o cheiro do lugar e Arme protegeu os olhos.—Isso é...—O Pântano do Esquecimento. Sim — Elesis assentiu.—Um lugar que merece o nome que tem — Ryan falou — Eu gostaria de esquecer que estive aqui. Geralmente os lugares que eu não gosto têm nomes que combinam. Floresta da Perdição, Bosques Assombrados, Pântano do Esquecimento.—Você também não gostou do Vale do Juramento — Elesis lembrou.—É verdade, e o nome tambám combina. Fiz um juramento de nunca mais voltar naquele inferno seco.A entrada do túnel era um buraco cheio de musgo nas bordas. Como bom soldado, Elesis liderou-os pelo pântano antes que tivessem tempo de reclamar dos sintomas daquele lugar. O nevoeiro não só bloqueava o sol, mas queimava os olhos como sabão. Ele também grudava na pele, colando-se como uma camada de repelente que pinicava, e dava a sensação de que mil formigas estavam rastejando pelo corpo. Arme foi a primeira a resmungar, como a espadachim sabia que faria. Também foi a primeira a pisar numa poça de lama e afundar até o tornozelo.—Areia movediça — Lire disse, e então Arme entrou em pânico.—Areia movediça? Você não pode estar falando sério. Me tirem daqui, por favor! — ela estendeu a mão freneticamente, sacudindo-se para tentar se libertar. Afundou ainda mais e começou a choramingar.Elesis deu uma gargalhada.—Pare de rir — Arme chorou — Eu estou afundando, não está vendo? Isso é areia movediça!—Não é assim que funciona — Elesis falou e agarrou a maga pela cintura, dando um puxão firme. A perna dela saiu da lama com um som chupado e molhado — Pronto. Você anda vendo muito teatro, menina. Todo mundo sabe que areia movediça não afunda de verdade.—Vovô sempre disse que eu não era todo mundo — a maga retrucou. Elesis não se dignou a responder.Arme ficou olhando para o buraco que ficou na lama. O chão parecia firme ali, com uma fina camada de musgo que parecia grudado em rochas, mas era enganoso. Depois daquilo, foi Lire quem passou a andar na frente, ela que tinha passo leve e seguro. Estava mais acostumada com florestas, embora não conhecesse pântanos, mas era mais capaz de encontrar terreno sólido do que os outros. Ela encontrou um galho de árvore e usou-o como teste, apertando-o contra o chão para medir a resistência do terreno. Quando o chão era duro, dava um passo naquela direção, e se não fosse, escolhia outro lugar e testava. Às vezes elas ficavam cercadas por lama e tinham que andar por ela, encharcando os pés com terra e lama. O percurso era lento, arrastando-se por minutos a fio.Algumas poças de lama eram mais ralas, mas ninguém queria beber nelas. O melhor que encontraram foi uma gruta onde a água era mais cristalina, embora com um gosto de decomposição e seiva de árvore. Mesmo assim, beberam até se fartar e encheram os cantis até a borda com elas — Ronan lhes tinha proporcionado três. —Estamos indo na direção certa — Ryan falou de repente.—Como você sabe? — Arme que saber.—Esse aqui é o Pântano do Esquecimento, só o nome já sugere que aqui tem coisa ruim. Chegamos aqui por um túnel escavado por monstros, mas o mais importante é que não encontramos nenhum. Os senhores da floresta me ensinaram isso. Se encontrássemos monstros, significa que eles estão guardando alguma coisa e não querem que nos aproximemos. No entanto, não há nenhum, o que nos encoraja a seguir em frente. Estão nos atraindo para uma armadilha, aposto.
—Isso não faz sentido — Elesis respondeu com uma careta — Não estamos vendo monstros porque eles são covardes demais pra nos atacar.—Os monstros nos atacaram em todos os outros lugares — Lire lembrou — No Vale do Juramento, no Templo Oak, na Torre Sombria.—Na Floresta do Desafio também — Arme completou — Será que eles sabem quem somos, e por isso nos temem? A Grand Chase era pra ser segredo.Isso é verdade, Elesis pensou. Se os monstros soubessem quem elas eram, podiam hesitar em atacar por medo de morrer. Mas não era possível. Ninguém mais sabia da Grand Chase exceto Ryan, e Ryan estava com eles. Ronan sabia também, mas ele fazia parte da Guarda Real de Canaban, um grupo composto por homens escolhidos a dedo e aprovados pela própria rainha. Nenhum deles a trairia; além disso, o próprio Ronan achara melhor não contar aos demais membros da Guarda que aqueles quatro compunham a Grand Chase. Elesis lembrava-se dos rumores que ouvira sobre aquele lugar: "Um pântano sombrio, úmido, marcado pela morte. Os que entram nunca mais saem, dizem, embora existam viajantes que aleguem tê-lo visitado e retornado para contar a história. Aparições, desaparecimentos e monstros enchem os relatos dos que dizem ter sobrevivido". Elesis podia concordar quanto à umidade e ao fato de o pântano ser um lugar desagradável, mas estava longe de ser assustador.Alguém gritou um lamento agudo de gelar o sangue. Elesis parou e puxou a espada num segundo.—WHOA! Não me assuste assim! — Arme reclamou.—Você está surda? Não ouviu... — Então o grito se repetiu, subitamente interrompido.—Elesis! — Lire gritou. A espadachim correu na direção do grito, onde o nevoeiro era mais espesso. Entrou nele e se arrependeu — a névoa ocultava quase completamente sua visão e ela não podia ver mais do que um metro à frente do nariz. Então o nevoeiro começou a se dissipar, e ela viu a mulher.Estava amarrada de encontro a uma árvore torta, presa por várias voltas de uma corda cujas pontas estavam amarradas a dois cavalos. Um grupo de homens esfarrapados dava risada e a rodeava, vestidos com roupas velhas e surradas. Um deles tinha uma tocha na mão e segurava-a perto dos cavalos, fazendo-os empinar.—Por favor — implorou uma voz, um homem preso a poucos metros da mulher. Não estava amarrado; uma coleira de couro estava em seu pescoço, ligada a uma corrente curta presa a um toco. Ele se esticava para chegar perto da mulher, mas a corrente não permitia — Não façam isso. Vocês vão matá-la!—Nós? — um dos homens apontou para o peito, fingindo incredulidade — São seus gritos que estão assustando os cavalos! Somos apenas viajantes honestos.—Viajantes honestos! — concordou outro — Mas sua amiga não pensou assim. Bem, olhe só o aperto que ela está agora — ele cutucou o ombro do outro e todos irromperam em gargalhadas.—Não temos nada para dar. Leve minhas roupas, os cavalos, o que quiserem! Por favor, só queremos chegar em casa — o homem choramingou.—Alguém disse "casa"? — o homem com a tocha pôs uma mão em concha ao redor do ouvido — É claro. Cavalinhos, para casa! — ele agitou a tocha contra o focinho deles. Os cavalos recuaram e ele foi para trás, ateando fogo na crina de um dos animais. Ele relinchou de agonia e começou a tentar correr, escavando a terra enquanto as patas forçavam caminho. O outro animal, assustado, tentou pular para fora, impedido pela corda.Os cavalos tentavam escapar, esticando a corda e apertando ainda mais a mulher contra a árvore. Ela já não gritava mais. Tinha uma mão erguida, os dedos agitando-se em agonia. O homem preso, enlouquecido com o sofrimento dela, tentou se libertar, mas a corrente puxava seu pescoço. Elesis viu como ele se parecia com os cavalos ao tentar correr. A coleira se apertava em volta de sua garganta, mas mesmo assim o homem não parava. Ele tentou investir uma vez, duas... Elesis escutou um estalido horrível. Então o homem caiu e não se moveu mais.Os homens ao redor da mulher moveram-se por toda parte, como fantasmas. Ela os enxergava borrados, como sonhos que desapareciam.Alguém pôs uma mão no ombro de Elesis. A espadachim se virou e lhe deu um soco bem no rosto, fazendo Lire cambalear uns bons metros para trás. A arqueira caiu sentada no chão. Elesis respirava com dificuldade e sentia o coração martelando no peito. A espada estava no chão ao lado dela, mas a garota não se lembrava de tê-la soltado.—Por que você fez isso? — Arme gritou, zangada. Elesis não sabia o que responder. Quando olhou de volta para onde tinha acontecido toda aquela cena, não viu sinal dos homens nem dos prisioneiros. Um toco de árvore coberto de samambaias podia ser aquele no qual o homem estava preso, mas...—Achei que tivesse alguma coisa aqui — Lire falou — Você tinha começado a correr, então... não, está tudo bem, sei que você não fez de propósito — ela recusou as desculpas. Os dentes do lado direito estavam cobertos de sangue que começava a escorrer pelo lábio — Você foi boa em responder. Se eu fosse um monstro...—Elesis teria perdido a mão — Ryan gracejou.Elesis não disse nada. Primeiro aquele sonho, e agora aquilo... o que estaria acontecendo com ela?—Gente — ela disse por fim, nervosa. Contou para eles a visão que tivera, mesmo que Arme a olhasse com aqueles olhos cheios de incredulidade — Eu... Eu juro pelas três deusas de Ernas, foi o que eu vi. Se algum de vocês insinuar que estou ficando louca...—Eu acredito em você — Lire disse com calma — Vejo em seus olhos. Você não está mentindo, Elesis, sei disso. Aquela névoa... sumiu quando chegamos perto de você, e foi quando você pareceu despertar. Arme?, o que você acha? É você quem entende mais... melhor de magia.—Mais melhor não existe — a garota falou — Assim como os bandidos que a Elesis viu, mas... eu não sei. Já ouvi falar em visões e coisas desse tipo. Nevoeiros costumam ser muito auspiciosos pra miragens e alucinações.—Não foi uma alucinação — Elesis fechou o punho — Eu sei o que eu vi.—Meu avô me levou ao hospício de Serdin uma vez. Eles também dizem ver muitas coisas — Arme retrucou com um sorrisinho.—Enquanto nós estamos aqui falando sobre isso, Cazeaje está criando mais uma centena de monstros — Ryan falou — O que você viu, Elesis, eu não sei, e também não me interessa saber. Não estão mais aqui e não dá pra fazer nada por eles, então o que importa? Na floresta, os espíritos falam com os druidas por meio das árvores, às vezes. Mas não tem vida nessas árvores, a menos que você conte o lodo. Nesse caso, nunca estive em um lugar tão vivo — ele deu de ombros.Retomaram a caminhada mais cansados do que quando começaram, mas ninguém tocou mais no assunto. Viram um nevoeiro branco assomando a poucos metros do caminho, e sabiamente o evitaram. Elesis andava despreocupada, mas seus músculos estavam tensos. "Quanto mais tempo você passa sem encontrar um inimigo, mais perto você está da hora que ele vai aparecer"– seu pai costumava dizer. Elesis levava a sério tudo o que ele dizia, desde a juventude. Vou encontrá-lo, pai, Elesis prometia todos os dias. Vamos vencer Cazeaje e salvar o reino. Então vou encontrá-lo.Quando ainda liderava os treinamentos para os Cavaleiros Vermelhos, Elesis sempre pensara em como a procura por Elscud começaria. Ela iria sair sozinha de Canaban e procurar pelo reino inteiro até achá-lo? Ou talvez iria pessoalmente à rainha, para pedir permissão e tornar aquilo uma missão oficial? Talvez chamasse alguém dos Cavaleiros Vermelhos para ir com ela. Com a Grand Chase, tinha parado de pensar naquilo. Lire seria muito útil. Ela pode rastrear muito melhor do que eu, e tem instintos muito mais aguçados. Até mesmo Arme era uma aliada valiosa. Elesis implicava com a maga, mas reconhecia que ela tinha poder. Se ela fosse um pouco mais madura, só um pouquinho...Ela quase se chocou contra o elfo quando ele parou na frente dela.—O que foi? — perguntou, sem muito humor.Ryan não respondeu — encarava o vazio, com olhos abrindo-se vagamente, como alguém que estava vendo algo novo. Os braços dele relaxaram. Elesis foi desviar dele e pisou num buraco, afundando o pé na lama. Deu um tapa nas costas do elfo e gritou com ele, zangada.Ryan curvou-se para a frente e se voltou, mas quase não parecia ter sentido o tapa. Tinha a testa franzida, como se tivesse esquecido que estava ali. Notou que todos olhavam para ele. Então passou a mão na nuca e disse:—Sei o que você passou, Elesis — e aquilo chamou a atenção de todos — Acabo de ver um grupo de exploradores atolado até o peito na lama, lutando para abrir caminho.—Um grupo? Eles usavam roupas velhas e rasgadas? Tinha um loiro, e um ruivo com cabelos que chegavam na orelha?—Um castanho, um moreno, dois loiros e um de cabelos pretos como carvão, nada de ruivos. Roupas rasgadas, certamente, mas eu não diria velhas. Estavam bem equipados pra explorar o pântano, com chapéus de proteção e capas plásticas pra lama. Não acho que era o grupo que você viu — ele acrescentou — Mas eu entendo agora. Desculpe não ter ouvido antes.—Essas visões que vocês tiveram... será que são mensagens? — Arme sugeriu com apreensão.—Só se for pra sairmos daqui — Ryan riu — O que, pra falar a verdade, faz sentido. Tenho certeza que Cazeaje não quer que pessoas fazedoras do bem interrompam seus planos — ele ficou sério de repente — Vamos nos dar as mãos. Fortalecerá nossa conexão espiritual, e tornará mais difícil que um de nós seja pego por outro devaneio.Assim fizeram, com Elesis agarrada a Lire, com a mão esquerda, e à espada, na direita. Arme olhava para todos os lados, ansiosa, como se pudesse ser arrebatada por uma visão a qualquer momento. O mau humor de Elesis crescia. Aquilo não era o tipo de missão dela, o tipo de coisa que um guerreiro deveria fazer. Ela queria monstros em seu caminho, para que pudesse lutar com eles. Em vez disso, a Grand Chase estava chapinhando por um pântano, de mãos dadas como crianças numa brincadeira. Que grupo de guerreiros andava de mãos dadas?E de repente, o cenário mudou.O Pântano do Esquecimento estava ali com suas árvores de troncos ocos, a lama e o musgo e os cipós rasteiros, mas havia mais alguém ali. Uma coisa branca com braços e pernas, do tamanho de um homem, careca e larga como um gorila. O mais grotesco era sua posição — estava de joelhos e cotovelos no chão, e choramingava como uma criança. À sua frente estava uma figura ainda maior, algo tão demoníaco quanto um pesadelo... parecia-se como um lobo, era o máximo que Elesis conseguiria descrever.—Você terá seu poder, sim... quantas criaturas mais você poderá criar? Todos os exércitos que puder, traga-os a mim, sim... Canaban é minha, mas tudo isto aqui será seu... se nada restar da cidade, você poderá tê-la também, Vermecia inteira será um pântano, e você reinará sobre eles...A coisa de branco guinchou como um animal ferido, e seu corpo começou a borbulhar, contorcer e triplicar de tamanho, os braços engrossando até ficarem grossos como árvores. A cabeça cresceu, e a lama do pântano subia para cobri-lo, transformando a pele em algo verde-escuro e manchado, cheio de bolhas. Os guinchos foram ficando mais graves e cavernosos, até pararem. Quando terminou, a coisa se ergueu muito mais alta do que o Lorde Oak e quase do tamanho do lobo.Das poças lamacentas e dos pântanos ao redor, borbolhas do tamanho de pessoas emergiam e davam origem a criaturas feitas de gosma, a monstros grandes e pequenos, coisas retorcidas com espinhos, caudas e garras. O monstro maior soltou um rugido com uma boca enorme e sem dentes. Algo enorme brilhava em seu peito, uma espécie de jóia roxa incrustada na própria pele.Um ruído se formou e aumentou de intensidade, até Elesis reconhecer o som: armas e armaduras em combate, chocando-se e chacoalhando, passos na lama de pés calçados por gravas de aço. O lobo sumira, mas o outro monstro atacava um grupo de cinco homens. Vestiam armadura azul e dourada dos pés a cabeça... ela reconheceu a Guarda Real, lutando bravamente num mar lamacento e malcheiroso.Tentou ver Ronan, mas eram muitos cavaleiros e... ela não sabia dizer, era como se cem lutas estivessem acontecendo ao mesmo tempo, uma sobrepondo-se à outra. Por toda parte havia monstros e homens de armadura azul, brandando gritos de guerra e gritos de dor, agitando espadas e levantando escudos, recuando, avançando, lutando. A criatura grande com a jóia roxa era a mais fácil de se ver e lutava contra sete homens. Vez ou outra, se prestasse bem atenção, podia ouvir o que diziam no meio de todo o barulho.
—Avançar! Beric, Duncan, pelo flanco direito!—Recuem! Vamos até aquela árvore — três cavaleiros tinham água até os joelhos.—Adonis! — um homem amparava outro pelos braços, com um galho profundamente enterrado no lado direito do peito — Resista, vamos tirá-lo daqui, amigo. Você lutará pela rainha outra vez! — o sangue dele misturava-se ao pântano, e um monstro pôs uma mão no homem que o ajudava e puxou Adonis para si.—Quando eu avançar — agora era a voz de Ronan, decididamente. Um cavaleiro deu um passo à frente, a espada brilhando como magia do sonho de uma criança. Ele acertou a jóia roxa, e seis outros cavaleiros vieram com ele. Elesis conseguiu ver o monstro andando para trás, tropeçando e caindo no chão, a jóia roxa partir-se e um líquido negro sair dela, brilhante e grosso, para espalhar-se pelo chão...Sumiu tão rápido quanto começou, mas Elesis não se sentiu tonta, nem sentiu um arrepio sequer. Ainda estava segurando a mão de Lire. Sua mente estava estranhamente calma, embora tivesse visto coisas que... Como iria explicar para os outros? Então Arme choramingou perto dela. Ryan tinha o rosto sério, e Lire a encarava com os olhos verdes brilhando. Eles também tinham visto.
Notas finais
Finalmente consegui escrever uma missão em um único capítulo(ao invés de usar dois, como eu fazia), porque estou alongando demais a estada da Grand Chase em Vermecia, e há muito mais de Ernas a ser explorado. Também este é o primeiro capítulo onde coloco uma idéia diferente, que realmente espero que não manche a história nem a deixe ruim. Se achou que a história está ficando boa, que está ficando ruim, que tem algum tipo de elogio ou crítica... fique à vontade para dizer!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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