A História da Grand Chase

9 A, bem, a Praia Carry


Notas iniciais
Bem, peço desculpas pela demora nos capítulos - ainda estou tendo aula, minhas férias estão chegando e acabei, hã, me distraindo um pouco. Este era pra ser o próximo capítulo junto com o que vem, hã, depois deste. Mas acontece que ele teria mais de cinco mil palavras, e (embora eu não goste disso), resolvi dividí-lo em duas partes. Gosto de capítulos longos e com detalhes, mas já me disseram(não só uma pessoa) que preferem capítulos um pouco menores... Pois bem, não gosto de dividir em duas partes, mas mal não vai fazer, então, logo mais postarei a segunda parte onde elas lutam. Por você estar aqui, obrigado *u*

–Harpias? — Elesis repetiu incrédula — Não pode ser. Você tem certeza, Arme?

A menina não respondeu. Seu olhar era vago e exibia pouca expressão, nada além de olhos muito abertos e vidrados. Lire a olhava, parecendo preocupada. Conhecia emoções como ninguém e sabia que a visão da praia lotada de monstros tinha afetado bastante a maga. Ela franziu a testa, pensativa, e caminhou lentamente pela colina para observar melhor as figuras que dormiam.

–Parecem mesmo com o que ouvi sobre harpias. Mas... Não sei, elas não parecem ter a forma que eu esperava — disse. A praia tinha uns três quilômetros de extensão, e por toda a parte, na areia, espalhavam-se as formas cor de laranja e amarelo, com o que pareciam ser folhas eriçadas em torno de um amontoado disforme — Não podem ser só plantas?

–Que tipo de planta cresce na areia? — Elesis indagou descrente.

–São... São harpias — Arme tornou a falar, em tom monótono — Eu as conheço das gravuras de um livro. É assim que elas dormem.

–São mesmo harpias — confirmou a comandante Lothos — Harpias de fogo. Eu as tinha reconhecido quando vi, mas não acreditei. Elas simplesmente são muitas.

–Certamente não mais do que podemos enfrentar, não é? — Elesis retrucou, e isso pareceu arrancar Arme de seu torpor. A menina de violeta voltou-se para
a espadachim.

–Ah, claro que não, imagina! Deve ter só umas mil harpias aí!

–E daí? — desafiou a outra — São só pássaros gigantes. O que eles vão fazer, me espanar com as asas até me afundar em penas?

–Se fosse isso, chamariam de pássaros gigantes, não harpias de fogo — Lothos disse com uma risada seca — Mas alguém teve um motivo para chamá-las de harpias, e não de pássaros.

–Elesis, harpias de fogo são o tipo mais perigoso. E eu não me sentiria bem nem se enfrentássemos essa quantidade do tipo menos perigoso — Lire disse séria.

–É por isso que viemos aqui — retorquiu Lothos — Harpias de fogo são espertas, traiçoeiras e muito perigosas. Sempre se soube que elas viviam aqui, mas não em tão grande quantidade. Elas devem ter procriado em segredo e expulsado ou matado as pessoas que viviam e se banhavam aqui.

Uma expressão ressentida estreitou os olhos de Lire, como se a garota discordasse.

–Aves nojentas — Elesis resmungou já detestando as harpias — Então tô ansiosa pra ser a heroína daqui. Todas juntas: acabar com elas agora!

–Não! — Lire deu um passo à frente, decidida — Nós não podemos fazer isso. As harpias não podem ter feito nada disso!

Ela falava em um tom que não era apenas compaixão pelas harpias, mas uma indignação e até uma irritação profunda. "Você está errada", ela disse a Lothos, e todas a olharam. Quando entrou para a Grand Chase, e mesmo antes disso, Lire aprendera que Lothos era uma grande comandante e a temia e admirava muito. Mas o que ela dissera sobre as harpias como se fossem monstros insensíveis, despertara seu instinto natural, de uma elfa nascida nas ilhas Eryuell, cercada pela vida e pela liberdade sem a perspectiva da guerra ou na opressão. Isso tudo superou o respeito, e ela finalmente não foi capaz de se conter.

–Este lugar é a morada delas — continuou a elfa, deixando um perceptível traço de indignação na voz — As harpias moram aqui há anos. Já ouvi muito sobre este lugar, não como Praia Carry, mas como o Ninho de Fogo. Não há outra habitação aqui, nem humana e nem do meu povo, porque sabemos que não faz sentido incomodá-las!

–Elas atacam humanos — começou a comandante, mas a menina a interrompeu.

–Elas sabem se defender, mas não atacam se não fizermos mal. Se as deixarmos em paz, simplesmente...

–Eu não terminei — Lothos replicou abruptamente — As harpias, sozinhas, não são uma ameaça. Mas Cazeaje está reunindo um exército para invadir Vermecia, e vai precisar de um poder aéreo que seja, ao mesmo tempo, rápido e mortal — ela deixou que um estranho sorriso lhe torcesse o canto da boca — Já que você sabe tanto sobre as criaturas, consegue pensar em algo melhor pra isso do que harpias de fogo?

Aquilo fez Lire hesitar — esperava uma resposta irada ou mesmo que Lothos ralhasse com ela e lhe lembrasse quem era a chefe. Mas a pergunta sarcástica pegou a arqueira de surpresa e ela pensou na resposta. A comandante ficou séria novamente e continuou:

–Além disso, você ouviu algo sobre elas serem tão numerosas assim nas histórias? Um grupo de Serdin fez uma investigação de rotina na praia, meses antes de descobrirmos que Cazeaje estava agindo novamente, e os resultados foram o esperado: algumas dezenas, talvez até duas centenas de harpias no máximo. Mas você tinha ouvido alguma coisa sobre mil delas vivendo juntas?

–São umas setecentas, na verdade — a arqueira corrigiu com leveza — É uma técnica simples para contagem de muitos indivíduos. Isola-se um grupo de dez deles na mente, então os coloca lado a lado para imaginar que tamanho teria um grupo de cem, depois se aproxima dez deles para formar mil, e assim por diante para números muito grandes. Eu diria que existem uns... umas setecentos e cinquenta... Oitocentas, talvez um pouco menos.

–Ainda assim, bem mais do que duzentos. Você não acha estranho as harpias viverem em um número razoável, e então, por coincidência, elas começarem a colocar muito mais ovos justamente na época em que Cazeaje começou a recrutar monstros para um exército grande?

Lire pensou na pergunta. Não havia sarcasmo agora, e se Elesis ou Arme estavam pensando em concordar com ela, mudaram de idéia rapidamente. O que Lothos dizia fazia sentido. A idéia de atacar as harpias ainda não a agradava, mas Lire era justa consigo mesma e sabia reconhecer um erro. Passados alguns segundos, ela curvou a cabeça num gesto respeitoso e tornou a erguê-la.

–Perdão — ela olhou a comandante com firmeza, ciente de que tinha falado com insolência e talvez até faltado com respeito — Eu não havia me lembrado de que a maligna poderia tentar influenciá-las. Eu não sabia que elas tinham se multiplicado tanto assim e achava que esse número de harpias era normal. Eu apenas... Se Cazeaje as está possuindo, então não é culpa das harpias. Não há outro jeito?


–Há, sim. Derrotar a própria Cazeaje, assim ela não vai possuir mais ninguém — respondeu a comandante, e Lire soergueu a cabeça.

–Mas espera aí — Elesis disse descrente — Você disse que um grupo de Serdin veio aqui investigar e que viram as harpias vivendo aqui. Mas primeiro você tinha falado que antes tinha pessoas morando aqui, e que foram mortas pelas harpias.

Havia desconfiança em sua voz, que se refletiu também nos olhos verdes de Lire, e ambas encararam a mulher mais alta. Arme tapou a boca com as mãos — dentre as três garotas, a mais sensível era a que mais sabia sobre a comandante, tendo nascido e vivido em Serdin. E Lothos havia caído em contradição — estava mentindo.

As três encaravam a líder da expedição, esperando uma resposta(uma explicação, na verdade). Lothos retribuía-lhes o olhar olhando de uma para outra. Sua expressão não parecia culpada, e sim indecisa, como que decidindo se devia contar algo ou não. Por fim, ela suspirou longamente pelo nariz e olhou para a esquerda por um segundo antes de responder.

–Tive receio — ela disse em voz baixa — De que talvez não pudesse confiar em vocês.

A surpresa estampada no rosto das três rapidamente deu lugar a indignação.

–O quê?

–Como você... mas...

–...nós somos a Grand Chase!

–Se tem alguém que não é confiável aqui...

–Quietas — Lothos ordenou num impulso, então tornou a baixar a voz — É pelo mesmo motivo que nós devemos matar as harpias. Vocês já ouviram falar de Ronan Erudon?

–Sim — Elesis respondeu imediatamente, embora Lire e Arme tivessem o semblante confuso — Ele liderou o principal destacamento da Guarda Real de Canaban contra Serdin durante a guerra, mas era só armação. No momento da batalha ele voltou o exército contra os monstros de Cazeaje e isso fez Serdin perceber que não éramos inimigos, então lutaram juntos e isso acabou com a guerra.

–É a história que queremos que as pessoas contem — Lothos assentiu — Mas não queremos que as pessoas saibam da verdade. Ronan não fingiu liderar o ataque de Canaban contra Serdin: ele atacou mesmo, e suas tropas guerrearam durante vários dias antes de pararem. Ele estava sendo controlado por Cazeaje.

–O quê? Não! — Elesis retrucou sem acreditar, mas a comandante continuou, inflexível:

–Depois de sair do corpo da rainha, Cazeaje fez acreditar que tinha ido embora de Canaban, mas foi atrás do líder da guarda. Controlou Ronan e o fez atacar Serdin para que a guerra continuasse.

Ela fez uma pequena pausa.

–Não se sabe o que Ronan fez ou como ele lutou, mas um dia Cazeaje o deixou e ele passou a usar a posição de líder para a atacar não Serdin, mas os monstros. Ele convenceu as tropas de Canaban a não atacarem mais e conseguiu fazer os magos que lutavam por Serdin acreditarem nele de alguma maneira, e foi isso que fez ambas as cidades começarem a perceber quem era a verdadeira inimiga. Foi assim que a guerra começou a terminar.

–O vovô me contou uma história assim! — Arme exclamou — Ele disse que a Cazeaje tentou controlar um soldado de Canaban, mas a magia dele era mais poderosa e ele a expulsou!

–Eu não sabia que Ronan praticava magia. Achava que eram boatos — Elesis comentou.

–Ah não, os Erudon são uma família de guerreiros com sangue mágico há séculos — contou Lothos — E há uma falha na história de seu avô, Arme. Cazeaje conseguiu controlar Ronan por algum tempo, mas se ele fosse mesmo mais poderoso, teria derrotado Cazeaje de uma vez por todas. Mas ele a venceu, de certa maneira. Não sei de mais ninguém que tenha conseguido resistir ao domínio da Cazeaje.

–Então a senhora tem medo que Cazeaje esteja nos controlando? — supôs Lire.

–Não era um temor sem sentido — a comandante respondeu antes que Elesis pudesse dar uma resposta zangada — Nunca soubemos com certeza se não existem espiões dela por aí, embora os magos de Serdin tenham garantido que a cidade está segura. Vocês são o grupo que criamos para destruir e neutralizar os monstros da inimiga antes que ela possa reunir um exército suficientemente grande para atacar de verdade. Tive medo de que ela tentasse controlar vocês para sabotar a missão.

–Hunf — Elesis cruzou os braços. Acreditava que, se o líder da Guarda Real conseguiu evitar Cazeaje, certamente a líder dos Cavaleiros Vermelhos também conseguiria, com os sem magia.

–A senhora está certa — Lire falou quase de cabeça baixa — Se Cazeaje controlar as harpias, precisaremos lutar contra elas. Não há outro jeito.

Seu tom deixava evidente que ela não gostava do que dizia, mas Lothos a tranquilizou.

–Não se trata disso aqui, Lire. Cazeaje controla as pessoas à força quando não consegue iludí-las a fazer o que quer, mas com seres como as harpias, ela não desperdiça poder. Ela os convence com promessas e persuasão, oferecendo recompensas se ficarem do lado dela. Dessa forma, ela tem total apoio deles, sem nenhuma resistência.

–Como os Oaks em Serdin — Arme lembrou — Eu não senti nenhuma magia maligna neles, só no líder com aquela arma... hã, maligna. E nem na Wendy e nos goblins. Então eles... Eles nos atacaram por vontade própria. Não era controle mental, eles queriam mesmo nos destruir.

–Sim — confirmou a comandante. Houve uma longa pausa enquanto as meninas refletiam sobre as novas informações. E então, gradativamente, as três começaram a sentir um profundo e repentino ódio por aquela vilã maligna, que pervertia criaturas livres e transformava amigos e inimigos em um desejo sem sentido de destruir tudo. De repente, estavam animadas para continuar a missão, se isso fosse atrapalhar as forças da inimiga. Lire ressentia-se com os oaks, com Wendy e agora com as harpias — criaturas respeitáveis, ela pensava, que tinham dado ouvidos às palavras de uma assassina. Lothos assentiu, aprovando a nova determinação no rosto das três e mandou que estendessem uma toalha e se sentassem para comer. O alívio quebrou qualquer tensão criada pela desconfiança anterior.

Além das armas, as meninas carregavam sacos pendurados às costas por cordões, de onde tiraram água e frutas que tinham ganho dos goblins na Torre Sombria(Arme lamentou não ter pego alguns doces de Serdin). Enquanto comiam, o cansaço nos músculos por causa da longa caminhada se acalmava, e seguiu-se um estranho momento de paz, ainda que a praia à frente delas estivesse apinhada de harpias adormecidas. Mas Arme e Lothos garantiram que elas costumavam dormir por várias horas com o sol, e que não pareciam com pressa de acordar. E depois da conversa sobre Cazeaje, elas se lembraram de outro fato: a brisa do mar, que deveria ter soprado até elas, não soprava. O ar estava parado e cheirando a grama como se estivessem numa campina, e não perto de uma praia. Não sabiam o motivo, mas era uma interferência em algo que era da natureza, e interferência à natureza quase sempre era obra do mal.

Foi Elesis quem quebrou o silêncio, parando em meio a uma mordida.

–E como sabemos que você não está controlada pela Cazeaje?

Ela olhava para a comandante, que riu, riu tanto que fez a súbita idéia de Elesis soar como uma suposição boba, e afastou-se do pequeno acampamento tornando a olhar as harpias, tapando a boca para evitar acordá-las com o barulho. Elesis devorou o resto de sua maçã, mastigando furiosa. Arme olhou preocupada para as costas metálicas da armadura.

–Ela... Ela não provou que não é Cazeaje — disse ela, cautelosa.

–Provou, sim — Lire respondeu sombria — Todos os dias em que dormimos na presença dela e acordamos no dia seguinte, ela nos prova isso. E essa comida que Lothos pegou pra gente, sabem, tendo a oportunidade para envenená-la, está tão gostosa que só agora eu pensei nessa possibilidade.

Fez-se silêncio novamente enquanto elas voltaram a comer, relaxadas agora. Lothos sondava as harpias, já recuperada do acesso de riso. Olhando-a, Lire se lembrou do que Elesis e Arme haviam contado sobre a comandante ter salvado a vida das duas na Floresta do Desafio, e sentiu-se mal por ter desconfiado dela. Afinal, embora fosse dura, Lothos não tinha feito nada que as prejudicasse de fato. E quando as três desapareceram da Torre Sombria, ela tinha ido imediatamente até Serdin para encontrá-las.

Claro, isso não inocentava alguém de ter mandado Wendy atacá-las.

Mas nenhuma das três tinha consciência de que foi Lothos quem planejou aquilo, não é?