Notas iniciais
É noite e Elesis, e Arme seguem seu caminho pela Torre Sombria - quando são interrompidos por um viajante desconhecido no meio da estrada.

Fazia cerca de duas horas que o grupo se dirigia para o oeste, a caminho da Torre Sombria. O lugar era um importante posto de observação em Serdin mas, segundo Lothos, não recebiam nenhuma notícia do vilarejo anexo à torre havia meses. Por isso, acreditavam que ali era outro lugar onde Cazeaje poderia estar usando sua influência maligna, e iriam investigar.

Bjorlam e a comandante conversavam ocasionalmente no banco da frente, enquanto Arme e Elesis sentavam-se uma de frente para a outra e encaravam-se com animosidade, recuperando-se dos ferimentos. Já estavam melhores: Arme havia caído sobre o braço esquerdo na Floresta do Desafio, e ficara alimentando-o com uma magia de cura por uma hora inteira — não era o forte dela, mas agora o braço estava quase curado, ainda que bastante sensível.

Depois de um momento, até Elesis cedeu e deixou que a menina lhe aplicasse a magia nos inúmeros ferimentos que tinha pelo corpo. Arme estremeceu com a quantidade de cortes e arranhões, mas parecia pouco quando se lembrava dos vários golpes que recebera do Ente. Seus músculos, contudo, eram muito mais rígidos e treinados para suportar pancadas do que a pele macia e aveludada da garota menor, de modo que Elesis conseguira sair sem um único osso quebrado. Depois disso a viagem prosseguiu em silêncio, quebrado apenas pelo bater dos cascos dos cavalos, um preto e um branco.

Eram cerca de oito e meia da noite, pouco depois do sol se pôr, quando Bjorlam fez a carroça parar. Elesis ergueu uma sombrancelha sem entender: à esquerda havia a planície verdejante e com poucas àrvores, à direita, as enormes montanhas que cresciam bem ao lado da estrada — resumindo, não estavam nem perto de chegarem. Mas Lothos e o condutor haviam visto o que as garotas não viram: um vulto durgido das árvores, agora parado no meio da estrada. Os cavalos relincharam despreocupados e Bjorlam assentiu levemente ao ouví-los.

–Boa noite — cumprimentou educadamente — Quem vem lá?

De pé atrás da carroça, Arme e Elesis puderam ver o vulto diante deles: parecia um viajante, alto e magro, envolto numa capa verde escura com manchas leves de cinza, tão rota e maltrapilha que mais parecia um mendigo. A cabeça estava coberta por um capuz e carregava dois estojos de couro, um em cada mão e ambos do tamanho de uma perna humana. Levava alguma coisa curvada nas costas, que Arme reconheceu como uma harpa de madeira. "Faz sentido, deve pedir dinheiro tocando música", pensou. Esperou que o viajante fosse pedir dinheiro ou que oferecesse música por uma carona, mas suas palavras foram inesperadas:

–Comandante Lothos, da guarda real? — perguntou, numa voz flautosa e musical, de uma mulher: se ganhava a vida tocando harpa, fazia sentido que cantasse também — E aí atrás, com as cabeças espichadas... Arme de Serdin e Elesis de Canavan?

Então baixou a cabeça, parecendo confusa.

–Ou seria Comandante Elesis, Arme de Lothos e Serdin de Canavan? Não, o que estou dizendo, Canavan é com certeza o nome do outro reino... Mas se diz o reino depois do nome, então seria "de Serdin", então... Raio. O idioma de vocês é tão... Estranho.

–Quem você pensa que é? — Elesis gritou para ela. Lothos a ignorou, pedindo que a estranha se aproximasse. A mulher obedeceu, chegando perto do banco, quando a comandante ergueu a mão.

–Pare. Você deve entender, deixar um estranho se aproximar assim não é uma atitude sensata nesses tempos. Você acertou nossos nomes, mas não tenho como saber se devo confiar. Quem é você, e o que quer?

–Imaginei que desconfiariam, se o que ouvi falar de vocês fosse verdade — ela disse com um sorriso por baixo do capuz e o retirou, revelando um rosto pequeno, gentil de feições delicadas e cabelo loiro, preso com um enfeite de flor branca num dos lados — Não precisam ter medo de mim, sou uma amiga. A rainha de Serdin mandou que me encontrasse com vocês, para juntar-me à Grand Chase. Meu nome é Lire.

Elesis tocou a espada nas costas — e Lothos, embora permanecesse tranquila, ficou também mais desconfiada. Aquela mulher sabia-lhe os nomes e também que faziam parte da Grand Chase, o poderia levar a duas conclusões: ou ela fora mesmo enviada pela rainha de Serdin, ou era uma espiã de Cazeaje querendo infiltrar-se no grupo. Parecia que Lire também pensava nisso, pois apressou-se a eliminar uma das alternativas, entregando a Lothos um pequeno objeto de metal em forma de disco, com um símbolo brilhante no centro: a insígnia real de Serdin.

–A rainha mandou lhe entregar isso — continuou — Honestamente, desculpem-me a confusão. Encontrar-nos-íamos em Serdin, mas já tinham partido quando cheguei, é uma boa viagem de Eryuell até a capital deste reino. Não costumo confundir tanto assim o idioma de vocês, mas é que me disseram seus nomes com tanta pressa, pra que eu pudesse encontrá-los a tempo...

–Esse é o menor dos problemas — Lothos garantiu com cortesia — Bem, Lire, já que você nos disse nossos nomes, não há necessidade de apresentações... Ah sim, desculpe, Bjorlam... Lire, este é o Bjorlam, suba aí atrás e fique à vontade. Bem-vinda à Grand Chase.

Arme teve vontade de perguntar "Só isso?" mas ficou calada, pois, assim como Elesis, estava impressionada com uma coisa: ela vinha de Eryuell! E ela tinha a pele clara, rosto pequeno... E enquanto subia, viram que carregava não uma harpa, mas um arco longo de madeira, cruzado nas costas com uma aljava cheia de flechas adornadas de penas.

[Não me agrada arqueiros que tiram flechas DO NADA e assim possuem um suprimento infinito delas, "flechas de energia ahahahahahahahaha" — NÃO, Lire tem uma aljava]

Isso, em outras palavras, só podia significar que era uma elfa.

–Com licença — Elesis se adiantou para afastar os cabelos de Lire, que sentara-se ao lado de Arme, e descobrir ali uma orelha mais longa e pontuda — Caramba, você é mesmo uma elfa!

–E vem de Eryuell! — acrescentou Arme, impressionada. Se Bjorlam e Lothos também estavam, não demonstraram. Elesis resmungou, olhando para Arme com o típico sorriso sarcástico e debochado.

–E viria da onde, se não fosse de Eryuell?

–Não existem elfos só em Eryuell, garota ignorante! — Arme disparou com rispidez. Elesis abriu a boca para responder, mas Lire foi mais rápida.

–Ela está certa. A maioria de nós foi para as ilhas há dez anos, quando a guerra começou, mas ainda existem outros elfos por aí, nascidos em outros lugares dos reinos.

–Então você nasceu em Vermecia e foi para Eryuell — deduziu Elesis. Lire negou com um gesto de cabeça.

–Na verdade eu nasci mesmo em Eryuell, mas sim, naquela época havia muitos de nós em Vermecia — e vendo que as duas a olhavam com curiosidade, continuou: — Eu tinha cinco anos quando a guerra começou, então não me lembro de muita coisa, mas sei que a maioria de nós foi para as ilhas, sem querer apoiar nem Serdin nem Canavan.

–Canaban — corrigiu Elesis, e Lire a olhou confusa.

–Sério? Sempre pensei que fosse Canavan... De qualquer maneira, não queríamos apoiar nem Serdin, nem Canaban. Não faria sentido, por que humanos lutariam entre si numa guerra que só levaria à destruição? Ninguém sabia que era Cazeaje quem estava manipulando o rei de Cana... Canaban, pensávamos que eram questões políticas e territoriais. Então fomos embora. Pelo menos Cazeaje não nos tentou nos invadir em nossas florestas, e em paz vivemos.

Ela tirou a capa e a dobrou sobre os estojos, revelando roupas muito mais limpas e novas: uma espécie de tomara-que-caia verde cum uma listra azul vertical com uma moldura dourado-escuro, combinado com uma saia curta, e botas verde-escuras. Usava protetores de couro verde que cobriam metade do antebraço até os pulsos, mas não as mãos. Seu corpo era magro, em ótima forma, os olhos verdes eram pequenos e o nariz curto. A boca tinha lábios finos que guiavam uma voz suave e cheia de melodia, agradável mesmo enquanto falava dos tempos difíceis que haviam sido a guerra de Vermecia. A capa gasta e maltrapilha era apenas algum tipo de disfarce.

–Como você foi escolhida para a Grand Chase? — Arme quis saber. Sentada ao lado dela, a olhava como se fosse a coisa mais impressionante que estivesse vendo — e essa atenção inesperada deixava Lire pouco à vontade, mas respondeu:

–Quando a guerra terminou, foram mandados mensageiros de Eryuell para oferecer comida, recursos e ajudar na reconstrução de ambos os reinos. Desde então, há sempre um embaixador de minhas terras nas capitais, e quando a rainha de Serdin criou a Grand Chase, achou interessante colocar alguém de onde eu venho, no grupo. E me escolheram — disse com um orgulho tímido — Vou esforçar-me para dar o meu melhor.

Arme, animada, disse que apostava nela, mas Elesis não estava tão certa. Recebera uma maga como companheira, e reconhecia que Arme tinha grande potencial como maga... Mas acontecia com ela o mesmo que vira acontecer com muitos bons espadachins: eram muito hábeis, mas na hora do combate real, sob a pressão do inimigo pronto para atacar, tremia e hesitava, como os "brancos" na hora de uma avaliação importante.

E agora havia Lire, a arqueira. Que chance teriam, Elesis pensou, aquelas setas afiadas contra os monstros gigantes que sabia que enfrentariam? Contra o Ente Antigo, por exemplo: aquelas flechas, na madeira, não seriam mais do que cutucões. A não ser que fossem mágicas, mas ainda havia o fato de que flechas acabavam. Mas os estojos de couro, que Lire colocara num canto da carroça, deveriam conter mais flechas.

De repente, Elesis sacudiu a cabeça: quem era ela para pensar daquela forma sobre as companheiras? Arme podia ser imatura, mas a salvara duas vezes, dos texugos e dos galhos do Ente, e machucara-se muito — Elesis não tinha mandado que ela corresse? Em vez disso, a maga se manteve firme, bravamente ao lado dela. Quanto a Lire... Não a conhecia, e se os elfos de Eryuell a tinham escolhido, certamente o fizeram porque sabiam que a elfa era capaz de lidar com os monstros que enfrentariam. Sentiu-se mal, e lembrou de como odiava quando os moradores de Canaban a julgavam simplesmente por ser uma mulher. Não estava fazendo o mesmo com Lire agora, como tinha feito com Arme ao ver que a maga era pequena e delicada como uma garotinha?

–Elesis? — Arme chamou com preocupação. A espadachim a olhou e viu que Lire também a fitava com os olhos verdes e penetrantes. Baixou o rosto: morreria, mas não diria o que acabara de passar por sua cabeça.

–Não é nada, estava pensando aqui sobre a Torre Sombria — mentiu — Se é alta e imponente quanto dizem, por que ainda não a vimos? Devemos estar muito longe.

–Não muito — Bjorlam falou — E a Torre não é tão alta assim. São apenas histórias.

–Ou talvez — Arme começou — Ela se chame Torre Sombria porque se camufla com as sombras, e está de noite. Como você espera enxergar uma sombra à noite?

–Engraçadinha — Elesis bufou. Lire ainda a olhava, e a espadachim sabia que não havia enganado a elfa.

Começou a esfriar, e Lire tornou a vestir a capa. Arme levantou o pequeno cetro, conjurando uma pequena onda de calor para si. Elesis usava apenas suas roupas curtas, mas como todo bom soldado, não demonstrou o menor sinal de incômodo.

Finalmente, chegaram num ponto onde havia um conjunto de seis construções ao lado direito da estrada, em cuja beirada havia uma torre de cerca de cinco metros de altura por dois de largura, como que a guardando. Bjorlam fez a carroça desacelerar, mas não parou.

–Isto é a Torre Sombria? — Lire perguntou um tanto decepcionada.

–É apenas uma guarnição — Bjorlam, normalmente sério, riu da ignorância da garota — Aqui eles revistam as pessoas que querem passar para a Floresta do Desafio, e oferecem descanso e comida aos viajantes. Mas sempre tem alguém aqui — acrescentou olhando para o lado da comandante Lothos, onde havia a pequena torre. Era aberta no lado voltado para a estrada, e lá dentro havia uma mesa e duas cadeiras, porém, vazia de pessoas. Tampouco as casas tinham luzes acesas.

Com o rosto sério, Lire desceu da carroça e correu, parecendo sumir na escuridão, a capa velha confundindo-se com o verde da grama. Estava tudo escuro, e quando ela voltou, subiu pelo lado oposto — Arme gritou e caiu para um lado.

–Que susto! — protestou — Não faça mais isso!

–Perdão — pediu a elfa, e acrescentou: — As casas estão todas desertas, mas há comida nas mesas e poeiras sobre os móveis, e as portas não estão trancadas. Eu diria que os moradores daqui fugiram com pressa há pelo menos dois meses.

Lothos hesitou, ela e Bjorlam se entreolharam discretamente.

–É pior do que eu pensei — disse a comandante — Precisamos continuar o mais depressa possível. Bjorlam, ainda estamos muito longe do vilarejo?

–Podemos chegar em vinte minutos — disse o condutor, batendo as rédeas com mais força. Os cavalos correram a uma velocidade que as três meninas tiveram que segurar-se para não cair, sem imaginar como um par de cavalos podia puxar todo aquele peso com tanta rapidez.

Bjorlam estava errado: dez minutos se passaram quando a estrada virou para a esquerda — logo à direita da curva, abria-se um terreno plano onde havia um conjunto de edifícios, pequenos templos, lojas e pouco mais de oitenta casas, num vilarejo aninhado no pé das montanhas que se elevavam em três lados. As casas eram pequenas e não pareciam conter mais de três aposentos.

E, como na guarnição, estava tudo apagado.

–O vilarejo da Torre Sombria — Lothos falou à guisa de explicação — Nunca ouvi dizer que pareceria tão deserto. Não gosto disso. Esperem por mim aqui.

Ela saiu e, minutos depois, ouviu-se uma batida numa porta de alguma casa que não podia ser vista dali. Arme e Elesis foram atrás da comandante — Lire ficou na carroça, temendo ser repreendida e causar uma má impressão, afinal, juntara-se ao grupo há apenas poucas horas! Mas suas companheiras não conseguiram conter a curiosidade, assim, pararam de súbito ao chegar numa casa, onde Lothos discutia com alguém.

–Sou da guarda real de Serdin, guardadora do reino, protetora da rainha! Carrego o selo real comigo. Se puder abrir uma fresta, eu o mostrarei...

–Vá embora! — respondeu, com zanga, a voz dentro da casa — Não queremos saber de espiões. Saiam daqui e não teremos que usar nossas defesas. É seu último aviso!

–Estamos aqui para ajudá-los — insistiu Lothos — Só precisamos saber o que está havendo.

–Na Torre Sombria, Wendy nos controla e não permite que saiamos. Exige um sacrifício todas as noites. Agora saia!

Lothos assentiu, baixando a cabeça.

–Obrigada — disse apenas — Tenham uma boa noite. Não vamos mais incomodá-los.

Arme e Elesis esperavam não serem notadas, o que não aconteceu, mas Lothos apenas sinalizou para que voltassem à carroça. Logo que entraram, Bjorlam prosseguiu a viagem.

–O que é? — Lire quis saber, curvando-se em seu banco.

–Wendy — falou Elesis com animação — É ela que está causando isso aos moradores. E está na Torre Sombria! Só precisamos ir lá e acabar com ela.

–Wendy? — Lire repetiu sem acreditar — Não pode ser. Ela pode ser grande e forte, estudei sobre ela, mas não atacaria o vilarejo da Torre Sombria!

–O Ente Antigo também não atacaria quem entrasse na Floresta do Desafio — Lothos disse com tristeza — É o poder de Cazeaje. Ela convence, engana e corrompe com suas mentiras, bandeando para o lado do mal os que antes eram bons. Sem dúvida foi o que fez com Wendy.

–Mas eu não sinto nenhuma energia maligna por aqui — falou Arme — Fora o vilarejo e a guarnição desertas, não parece haver nada de errado! Senti a magia de Cazeaje na Floresta do Desafio, mas estranho, aqui não há nada, como se estivesse tudo em paaaaaaaaa-aaaa-a-aaaaaaaaz!

Aconteceu num instante: o chão de madeira simplesmente sumiu, e as companheiras foram jogadas na estrada, rolando e caindo na poeira. Lire e Elesis foram as primeiras a levantar-se.

– Fora a carroça que some do nada — resmungou Lire.

–Seu braço — lembrou Elesis, ajudando Arme a levantar-se — Está bem? Machucou de novo?

–Não, já estava curando desde antes — agradeceu a menina. Elesis a soltou e abriu os braços, batendo-os ao lado do corpo. Estavam no meio da estrada: não havia sinal de Lothos, Bjorlam ou mesmo do veículo.

–E o que será que foi isso agora? A carroça sumiu... Assim, do nada!

–Ah... AH! E você descobriu isso sozinha?

–Sim, ao contrário de vocês, maguinhos, que precisam se juntar em grupo por anos pra descobrir qualquer coisinha — debochou a espadachim.

–Quando vocês duas terminarem de brigar — Lire chamou — Talvez queiram notar que a Torre Sombria está logo ali.

Ambas se viraram.

A estrada seguia adiante, mas à direita, as montanhas afastavam-se para dar espaço a um enorme campo vazio onde haviam uma construção de pedras, meio esverdeadas por causa do limo. Era larga, tanto quanto uma casa grande, e uma rampa em espiral circundava a parte externa da Torre, levando ao topo.

–É isso? — Elesis perguntou, soando como Lire quando pensou que a pequena torre da guarnição fosse a Torre Sombria. Que, de fato, não era maior que o castelo de Canaban, nem chegava ao tamanho de uma das menores torres de Serdin.

E enquanto admiravam a torre, um rugido se fez ouvir e as garotas prepararam-se, alertas. Por causa do nome da torre, temiam um inimigo feito de sombras, ou talvez um golem de pedras limosas ou algum vulto encapuzado de roupas negras: em vez disso. Lire movimentou-se à frente delas e sorriu, de forma macabra, todo o seu corpo inchando e pulsando até ela assumir a forma de um gorila um pouco mais alto que o Ente Antigo.

Wendy tinha pêlos da cor da neve, e apenas seus braços e o topo da cabeça tinham coloração preta. Era pelo menos quatro vezes maior do que um ser humano, mais alta que o Ente Antigo e tinha a forma de um imenso gorila, de pernas curtas e braços longos e musculosos. A mandíbula quadrada era cheia de dentes afiados, e os olhos azuis brilhavam com uma fúria primitiva.

–Pensava que tinha dois sacrifícios — gritou a gorila num urro rouco — E me mandam cinco! Estou começando a gostar de amaldiçoar aquele povo.

–Quem você pensa que é pra falar desse jeito? — Elesis gritou no mesmo tom, enquanto Arme sobressaltava-se: dois sacrifícios... Significaria que Lothos e Bjorlam... E também Lire...?

–Eu sou Wendy — gritou ela — Guardiã do Templo Sombrio!

Elesis esperava que ela falasse mais, talvez algo como "venha me destruir" ou "vou comer vocês", mas Wendy interrompeu-se no meio da frase e atacou, um soco destruidor chegando de lado em Elesis, que nem tentou desviar: Wendy recuou a mão, gritando enfurecida. O punho acertara na lâmina afiada da espadachim e fizera sangrar-lhe a lateral da mão.

Arme ergueu o cetro e atirou uma bola de fogo que Wendy bloqueou com uma só mão. Tinham a vantagem de que ela era rápida quando corria como um gorila, mas quando estava parada e precisava esquivar-se, era bem lenta. Elesis desferiu-lhe golpes contra as pernas desprotegidas enquanto Wendy tentava chutar-lhe desajeitadamente, sem sucesso.

Atrás dela, Arme atirava fogo, mas o pêlo de Wendy não era nada inflamável e apenas absorvia as chamas. Quanto a Elesis, ela descobriu que, empora os pêlos fossem macios, a pele era dura e os músculos, muito rígidos, sua espada conseguindo fazer apenas cortes rasos e doloridos.

Wendy então conseguiu atingir a garota com o pé, Elesis defendera-se com a espada mas ainda assim foi afastada. Wendy tentou socar-lhe repetidas vezes, e a espadachim se viu numa armadilha tentando desviar das mãos poderosas que batiam na terra com força, sem arranjar espaço para atacar com as mãos que batiam à volta dela com toda a força.

De repente a inimiga curvou-se para trás e interrompeu os socos, sentindo algo pinicar-lhe o pescoço. A segunda flecha de Lire atingiu-lhe então o focinho, e a dor foi tamanha que ela levou a punho até lá, recebendo outro tiro, nas costas da mão. As flechas eram pequenas em comparação ao corpo da gorila, mas doíam como ferroadas, que a confundiam e enraiveciam.

–Não, Elesis! — Lire, a verdadeira Lire, gritou, provavelmente do topo da Torre Sombria — Pule! Ataque a perna esquerda... Isso!

Era o truque mais óbvio do mundo, mas Wendy caiu: sem pensar, socou o lugar onde Lire gritara para Elesis, que tinha pulado exatamente para o lado oposto. Wendy, com a mão no chão, sentiu a ponta da espada fazer um longo corte em deu braço, quando Elesis subiu a espada num arco que foi do pulso até o cotovelo da inimiga. Wendy rugiu, tentou outro soco, Elesis pulou para o lado e então, a uma sugestão rápida de Lire, escalou rapidamente uns dedos e saltou, desferindo um corte no ventre aberto da criatura.

Wendy pulou para trás, mas Elesis correu até ela, saltando, gritando e atacando, cortando-lhe a pele. Não parecia causar muito dano: Wendy não era tola e agora cuidava de manter os braços fora do alcance da veloz espada larga, tentando tirar os pés do caminho de Elesis. A situação parecia-se com um gigante dançando para escapar de um cãozinho que tentava morder-lhe as pernas.

Chegou o ponto em que Wendy perdeu a paciência. Os golpes em suas pernas não a matariam, mas ela gritava como se ardessem, e recuou para uma árvore — arrancou-a com as duas mãos e passou a usá-la como taco para tentar acertar Elesis. Desta vez, a menina teve que recuar, pois os braços compridos da gorila eram perigosamente rápidos o bastante para pegá-la, se fosse descuidada. E Elesis tinha a sensação de que aquele golpe de tronco fresco e duro seria muito pior do que os galhos secos e delgados do Ente Antigo.

–Não segure-se na árvore! — Lire gritou, pressentindo que Elesis tentava fazer isso para subir em Wendy: realmente a espadachim recuou e baixou a mão esquerda estendida. Wendy golpeou novamente, Elesis escapou por pouco. Tentou dar a volta na gorila, que girou com a árvore estendida à frente de si, tão rápida que Elesis mal pôde evitar que a copa da árvore a acertasse em cheio.

Um relâmpago acertou o rosto de Wendy, e Elesis aproveitou o momento para continuar o ataque. A gorila pegou uma pedra e jogou na direção de Arme e Lire, errando por muito.

–Ela é muito grande! — Lire gritou para a espadachim, após cochichar algo no ouvido de Arme — Você não vai conseguir derrubá-la assim e só vai ser pega. Distraia-na, para que eu possa preparar minha magia de...

–Cala a boca, Lire! — Elesis berrou para ela.

Mas Lire continuou gritando ordens para Elesis, dizendo-lhe onde atacar e disparando flechas incômodas em pontos mais frágeis de seu corpo — o que fez Wendy perceber que, se quisesse terminar com aquilo, precisaria eliminar a infeliz arqueira. Jogou uma palmada para Elesis, errou, mas o golpe foi apenas para ganhar distãncia da espadachim: correu com as quatro patas em direção a Lire que, com um grito assustado, já tinha corrido para a Torre Sombria. Escalava a rampa externa e estava quase no topo quando Wendy chegou, e a escalou com dois movimentos das mãos poderosas. Pousou no topo da torre e caiu dentro dela — esmagando o que quer que estivesse no topo.

Elesis corria para a Torre quando ouviu Arme gritar:

–Espíritos da terra, ajudem-me, dêem-me sua força!

Na Floresta do Desafio, os espíritos da terra não mostraram muito interesse em ajudá-la a abrir caminho entre as árvores — mas parecia que rpeferiam algo mais destrutivo, pois quando Arme levantou o cetro, o chão tremeu e a torre se sacudiu, como se mil gigantes socassem o chão ao redor dela.

No alto da torre, Lire gritou e os reflexos rápidos de Elesis a levaram para perto quando uma mancha verde pulou lá de cima, mergulhando a toda velocidade em direção ao chão. Elesis chegou a tempo e a agarrou antes que se espatifasse. Lire mandou energicamente que se levantassem e corressem, e assim fizeram, para perto de Arme.

O som que se seguiu foi a mistura de algo desmoronando, ensurdecedor, pedras sobre pedras, quebrando-se e caindo sobre si... E sobreposto ao barulho, um rugido, de dor, fúria e frustração, e tudo terminou subitamente com Arme baixando as mãos de repente, uma mão no braço.

–Ah, minhas Deusas, você está bem? — a arqueira a abraçou, temendo ter exigido demais da pequena garota. Mas ela sorria, embora os olhos se mostrassem cansados e ela segurasse a avrinha frouxamente na mão.

–Estou, não sou tão fraca assim! — Arme brincou — Essa magia é que é forte demais. Mas estou bem, os espíritos me guiaram, exatamente como meu avô me dizia... Só que isso não é nada! Foi uma idéia genial, Lire!

–Eu pensei que você fosse mesmo idiota — comentou a espadachim — Gritando o que ia fazer pro inimigo... Não esperava que fosse um truque, e nem que ela fosse cair!

–Eu sabia que seria uma boa idéia jogar algo grande em cima dela — a arqueira disse com modéstia — Então pensei... Por que não a Torre Sombria? E Wendy estava com raiva. Usei minhas flechas feitas para perfurar armaduras, pra penetrar aqueles músculos. No fim, a incomodei e ela veio pra cima de mim, como eu queria.

Lire afastou-se de Arme, sorrindo também, e as duas viraram-se para onde Elesis, o rosto abobado, olhava.

Onde antes estava uma torre que duas delas já consideravam como uma construção pequena, agora havia um amontoado bem menor de pedras, resultado de quando a torre desmoronou sorbe si mesma, enchendo seu interior com as próprias pedras que a formavam. E no meio de tudo havia um enorme corpo, soterrado pelas ruínas, preso por toneladas de pedras.

–Será que acabou? — Elesis perguntou desconfiada — Ela era bem forte. Talvez devêssemos queimar as pedras, só pra garantir...

–Ah, não precisam se preocupar com ela — riu uma voz conhecida.

Atrás dela aproximava-se Bjorlam, junto com Lothos e os dois cavalos, desatrelados da carroça. Era a primeira vez que viam o condutor de pé: não era muito alto, os cabelos curtos e ralos imitando o jeito da barba simples no rosto. Os dois cavalos, um preto e um branco, relinchavam com alegria.

–Vocês nos devem algumas explicações — Arme disse com os braços cruzados.

–Por que nós? — Lothos ergueu uma sobrancelha — São vocês que devem milhões a Serdin, por terem destruído um marco importante da história do nosso reino. Mas talvez eu esqueça de mencionar isso quando voltarmos, mesmo porque, até lá, a Torre já vai estar consertada.

–Como assim? — Elesis perguntou.

Bjorlam sorriu e fez um gesto de cabeça para os cavalos, que assentiram satisfeitos. Viraram as cabeças para cima, relincharam... E desapareceram, deixando em seu lugar duas pequenas criaturas verdes de rosto travesso e gorro, um vermelho e um azul, segurando uma clava.

–O quê? — bradou Elesis, ruborizada — Vocês eram criaturinhas o tempo todo?

–Criaturinhas — repetiu o de gorro azul, olhando para o companheiro — Acho que está falando com você.

–Não fale assim dos goblins — Bjorlam sorriu para ela — São excelentes mágicos, e poderiam fazer você desaparecer... Como acabou de fazer conosco.

–E comigo — Lire disse séria, e foi somente então que Arme e Elesis lembraram-se que tinham visto a arqueira transformar-se em Wendy — Quando a carroça caiu, senti alguma coisa negra me prendendo e fui parar lá na Torre Sombria. Então vi a Wendy atacando vocês duas...

–E manteve a firmeza, pensando numa boa idéia — completou Lothos.

–Bem, acho que agora somos bem-vindos por aqui — Elesis sorriu, vendo que mais goblins aproximavam-se da estrada. Lothos tossiu.

–Na verdade, foi meio que uma armadilha. Wendy exige... Um sacrifício, e ao nos verem aqui, nos direcionaram para ela. Se vencêssemos, eles seriam livres do mal. Se perdêssemos, bem, eles não precisariam tirar a sorte pra ver qual goblin seria sacrificado, pois Wendy seria alimentada por nós cinco!

–Foi por isso que fui a Serdin — disse Bjorlam — Sou daqui, e talvez Wendy só afetasse os goblins, pois eu pude sair. Disseram que Wendy poderia estar influenciada por Cazeaje, e que estavam reunindo um grupo para acabar com a influência dela por Vermecia. Então as trouxe até aqui... Para acabar com a ameaça.

–Mudamos de idéia na hora — falou o goblin de gorro azul — Pensamos que estavam aqui para roubar a magia de Wendy e nos prejudicar mais ainda. Não conseguiríamos usar a ilusão em todos vocês, então deixamos as mais novas para que fossem mortas por Wendy.

Ele deu um tapa na boca ao dizer isso. Mais tarde, as três descobririam por quê.

–Isso ainda não faz muito sentido... — tornou Lire — Mudaram de idéia de repente, é? E se não podiam deixar o vilarejo, como vieram pra cá pra fazer a carroça desaparecer?

–Talvez eles pudessem andar até a Torre Sombria — sugeriu Arme — Mas eu também não senti nenhuma magia negra por aqui...

Lire não estava convencida, iria continuar mas Elesis falou:

–Quem se importa? Wendy era má mesmo, não se pode culpar Cazeaje por tudo. Acho que merecemos uma recompensa... — disse com um sorriso — Eu aceitaria uma refeição quente e uma cama quentinha pra passar a noite. Quanto à Wendy...

–Ah, não se preocupem com ela — disse um goblin, despreocupado. E chamou alguns companheiros para guiar as meninas, Lothos e Bjorlam de volta para o vilarejo, onde teriam o primeiro descanso da jornada.