A Heroína Imperial [HIATUS]
6 Capítulo 05: Segundos de um silêncio eterno
Notas iniciais
A Heroína Imperial
Capítulo 05 — Segundos de um silêncio eterno
Sempre tentei ser compreensiva em relação ao ser humano. Tentar entender seus atos, seus sentimentos. Mas o ser humano é complicado. Certas vezes, nem eu consigo me entender. Sou um ser humano também. Tenho defeitos e qualidades. Eu sinto. Eu penso.
Eis o maior erro do ser humano: Pensar.
Não. Pensar não é algo repulsivo, pensar não é um crime. Depende do que pensamos. Pensar em certas coisas pode ser sim, um erro. Como aconteceu conosco.
Tento pensar no que os homens que regem nosso mundo, os nossos países pensam. No que pensam para melhorar nossa qualidade de vida. No que aqueles que um dia construíram seu império sobre nós pensaram para o mundo.
Será que foi algo tão ruim assim a ponto de destruir todo o mundo? Modificar toda forma de vida, inclusive a nossa?
Será que seria culpa nossa tornarmo-nos tão miseráveis?
O ser humano é complicado. Nunca consegui entender seus motivos para aniquilar a própria espécie. Tudo ocorreu de maneira tão simplória que nem o causador de tudo deu a devida importância.
E hoje estamos aqui.
Então, eis o ponto seguido da obra que é minha vida. Nicolas. Um ser humano justamente como eu. Incompreensível, complexo, distinto.
Apesar de ambos sermos da mesma espécie, somos diferentes em vários aspectos. E devido à esta diferença, não sei o que ele faz aqui a altas horas da matina, vestido com um uniforme restrito das forças civis, perseguindo-me pelos telhados das casas com seus colegas de trabalho. Ou seja lá o que forem. A questão é, ele me intriga mais do que qualquer outro ser neste mundo.
Ele é a minha maior dúvida agora.
— Você está bem, Annie? — Ele me pergunta, fitando-me com seus olhos escuros que lembram-me a mais sombria noite. Sua face demonstra a mais leve expressão de preocupação. Respiro fundo antes de responder a ele, tentando fazer com que meu rosto demonstre toda a raiva que sinto agora. Quero mostrar minhas emoções. Quero mostrá-las para o culpado de minhas frustrações neste momento.
— Bem? Você perguntou mesmo isso? — falo, soando o mais calma possível, contudo com um quê de frustração escondida entre as palavras. Posso dizer que saiu melhor do que eu esperava.
Ele baixa a cabeça e engole em seco. Inspiro fundo mais uma vez, tentando manter minha expressão firme. Inspire e expire.
— Desculpa. — É tudo o que ele consegue dizer, ainda com a cabeça abaixada. Tento não me abalar com sua expressão quebrada. Mal cogito a possibilidade de lhe pedir desculpas e ele levanta a cabeça me dirigindo toda a sua atenção, sua voz soando mais firme do que há momentos atrás.
— Creio que você deseje uma explicação para tudo isso — diz ele, fitando-me seriamente. Levanto uma sobrancelha e solto uma risada esbaforida. Ele sorri.
— Vou te explicar no caminho — responde. — Por favor, entre no tanque. — Me fala, quase que em um tom autoritário. Arrogante, como um deles. Ele acena para os civis que nos cercam. Todos começam a sair em fila numa marcha organizada para dentro do veículo. Volto meus olhares para ele, completamente irritada com sua sugestão.
— Entrar aí? Com eles e com você? Sabe-se que isso tem nome, sabia? É sequestro! — exclamo.
— Sei disso. Mas você não desobedeceria a um civil — rebate Nicolas.
— Você não é um civil — digo, ainda meio insegura de minhas palavras. Recuo.
— Quem pode afirmar isso? — Nicolas chega mais perto, pondo as mãos na cintura, desafiando-me.
— Quem pode afirmar que não? — retruco. — Ontem você salvou minha vida ao matar um pássaro prestes a me comer usando apenas um arco e flecha, sendo assim, praticando atos ilegais cabíveis de punição. Hoje você aparece vestido de civil, persegue-me pelos telhados tentando me prender... — paro de falar, minhas palavras destilam indignação, mas ele não parece estar abalado. Respiro e prossigo. — Eu não sei quem você é, Nicolas. Não sei se você é aquele garoto que me salvou ontem pela manhã ou o que me persegue pelas ruas. Quem pode afirmar que não, hein, Nicolas? Quem pode afirmar que você não é nada do que eu penso que és? Me diz! — Enquanto cuspo todas as minhas aflições na cara dele, tudo no que consigo pensar é o quanto ele é um insolente. Ele não é um civil. Mas ele também não é aquele garoto que me salvara. Ou talvez seja os dois. Ou talvez nenhum deles. Porém, sobre Nicolas tenho uma coisa que posso afirmar com toda a certeza: Ele é um idiota.
Permanece em silêncio, apenas me encarando. Faço o mesmo. Estamos a poucos centímetros de distância. Olho apenas em seus olhos, buscando uma resposta para todas as perguntas que permeiam minha cabeça, que perturbam-me como o barulho de sirenes, que me queimam como a esperança, que matam-me como o silêncio de meus amados. Daqueles que amo infinitamente, que aterrorizam-me em sonhos; o silêncio do meu povo, que se cala perante todo o governo, que quer melhorias, mas recuam perante a possibilidade de uma manifestação.
Como o sol que se esconde atrás das nuvens para não ver a desgraça pela qual passamos.
— Por favor, Annie. Confie em mim — implora. Eu rio de suas palavras como quem ri da desgraça alheia. Talvez esteja sendo um pouco exagerada, mas não posso pensar nisso agora. Quero intimidá-lo, mostrar para ele que eu não confio nele e jamais confiarei em suas palavras. Estou insegura. Não tenho medo. Não quero confiar. Não preciso. Não quero.
— Não, Nicolas. Eu não posso fazer isso. Eu não posso confi-
— Ei, vocês aí! — Uma voz imponente corta minhas palavras. Tudo no que consigo pensar é no quanto sou azarada quando um outro civil que fazia ronda pelas ruas com seu grupo para e nos aborda. — Quem é ela? — pergunta o civil, com um tom calmo.
— Infratora segundo a lei 1.569-2 do código penal, senhor. — Nicolas responde, batendo continência.
— Percebo. Eu a vi enquanto pulava pelos telhados — diz o outro civil. Terão de me prender, sou uma infratora. Tenho de buscar uma forma de me consolar quanto a isso. Calma, rígida, indecifrável. Infratora.
Mantenho minha expressão calma, meu coração já volta a bater normalmente e aquela estranha queimação em meu peito parou. De resto, há somente uma garota que tenta esconder todo o seu nervosismo. Medo não há. Medo é uma escolha pela qual não optei.
O medo está sobre controle. Inexistente. Como sempre.
— Vou levá-la ao centro de detenção para receber a devida punição, senhor — diz Nicolas. — Peço permissão para me retirar, senhor — completa, mais uma vez bate continência. Está claro que ele é um oficial, e eu, como leiga infratora que sou, não o reconheci. Silenciosamente agradeço que fui abordada por Nicolas, e não por ele.
— Permissão concedida, soldado — responde o oficial, enfatizando o “soldado”, como se desconfiasse de alguma coisa. E então se retira, fazendo sinal para que sua equipe volte aos seus postos.
Minhas mãos são agarradas e algemadas atrás de minhas costas, então sou levada ao tanque junto com Nicolas e os outros. Somente depois de estar dentro do tanque e começarmos a nos movimentar pelas ruas é que tiro o gorro da cabeça e a blusa que oculta a metade do meu rosto.
Não converso com ninguém, a não ser quando indico os caminhos para minha casa. Observo Nicolas, cujo rosto agora é ocultado por um capacete. Penso naquilo como um disfarce, ocultando-lhe a face, escondendo a verdade. Não sei quem ele é, nem ele sabe quem sou, nem jamais saberá. Encosto a cabeça no banco do tanque e fixo meus olhos no teto. Assim permaneço até chegarmos em casa.
Seria uma tremenda sorte se eu dissesse que assim que bati a porta da sala, o alarme soa. Não o encaro desta maneira, de qualquer jeito. Coincidência. Estou viva, sã e salva. Preciso apenas dar um jeito nos meus ferimentos e voltar para a cama. Ou dizer que acordei mais cedo. Posso até mesmo preparar o café para eles. Mas percebo que minhas dores ainda não chegaram ao seu fim quando vejo minha mãe sentada numa das poltronas da sala, olheiras escuras debaixo dos olhos mostrando que ela não teve uma boa noite de sono. Sua face tomada por uma expressão serena, o que me deixa preocupada. Só há um motivo para que ela esteja acordada: Eu. Aproximo-me mais para poder me explicar, suspirando profundamente.
— Mãe, eu...
— Não diga nada. — Ela levanta uma das mãos em sinal para que eu pare de falar. Fecha os olhos e inspira profundamente. Claro que ela está irritada por ter sido enganada, mas foi necessário. Baixo minha cabeça, ouço o barulho do estalido de meus ossos, meus músculos doem. Faço da dor um escudo. Preparo-me para o sermão. — O que... Não, melhor ainda, qual seria o motivo de você ter saído de casa antes do despertar, Annie?
Respiro fundo antes de responder. Mantenho-me rígida, do mesmo jeito que fui com Nicolas quando ele conseguiu me alcançar. Tento manter o meu tom o mais calmo possível, estou certa de que serei castigada por meu ato, entretanto, não há nada que eu possa fazer a não ser me defender e tomar cuidado para que esta discussão não acorde todos os outros.
— Era uma questão de honra. — Minha voz estremece. Meu corpo estremece. Estou completamente parada em meu lugar, talvez nervosa com toda a autoridade de minha mãe. — Era uma questão de honra... — continuo — entregar aquele vestido.
— Annie, me responda, por algum acaso arriscar a sua vida é considerada uma questão de honra? — Seu tom é severo, o que me assusta um pouco. Continuo na tentativa de manter-me firme em meu lugar, preparando-me para qualquer resposta que possa vir.
— Sim — respondo, segura de minha resposta. Ela levanta da poltrona e anda até mim. Olha-me no fundo dos olhos e inesperadamente agarra meu braço, apertando-o o suficiente para não me machucar e ao mesmo tempo me manter no lugar. Vejo lágrimas brotarem de seus olhos, engulo em seco. Ela está chateada com minha atitude. Não posso olhar em seus olhos. Os olhos que me dizem: "eles podiam ter machucado você". Mas não, não me machucaram.
— Entenda, mamãe, foi uma escolha minha — digo a ela. Finalmente a encaro seriamente. Olhe para mim. Foi uma escolha. Uma escolha que eu mesma fiz. Eu estou bem, estou viva.
Estou viva.
—E são essas escolhas que me ferem, Annie. Você está toda machucada!
— Não me machuquei, mãe. — Ela olha para mim e aponta para as minhas roupas rasgadas e mãos cheias de arranhões e cicatrizes.
— Eles não me machucaram. Eu fui até a casa da Bruna para lhe entregar o vestido e voltei para casa. Pronto.
— Pensa que não vi o tanque militar? Eu sei que trouxeram você até aqui, Annie Levy Lewis. — Engulo em seco. Como poderia contar isso para ela? Como conto para ela sem dizer toda a verdade? Como poderia deixá-la menos preocupada? Segundos de um silêncio quase eterno.
— Foi um amigo — respondo, finalmente. — Um amigo me trouxe aqui.
— E esse amigo tem um tanque militar? — retruca ela.
— Ele é civil. — Ela relaxa. Ela sabe que muitos civis desafiam as suas leis para fazer o que bem entenderem. São apenas a camada superficial da crosta de sujeira que envolve nossa política.
— Prometa que nunca mais fará algo do tipo, Annie.— Me olha no fundo dos olhos. Dessa vez, não posso evitá-los.
— Mãe...
— Prometa, Annie! — Ela sacode o meu braço. As lágrimas escorrem. Puxo-a para um abraço apertado. — Você quase me matou de susto. — E então encosta a sua cabeça no meu ombro, me apertando cada vez mais forte, seus braços envolvendo por completo as minhas costas, protegendo-me de todo o mal.
— Prometo, mamãe. Prometo. — Levanto a sua cabeça. — Agora pare de chorar, tudo bem? Estou com fome — digo, delicadamente. Ela ri. Enxugo suas lágrimas e seguro fortemente a sua mão, acompanhando-a até a cozinha.
Ela limpa meus ferimentos e aplica o remédio com delicadeza sobre a minha pele rosada pelos machucados. Recomenda que eu vá tomar um banho e voltar a dormir, para recuperar o tempo de sono perdido. Reclamo porque quero comer mais, entretanto ela insiste que eu vá para meu quarto.
Sigo em direção a escada e assim que começo a subi-la, tomo a cautela de distribuir o peso de minhas pernas ao meu andar, para não acordar ninguém.
Ouço meu pai arrastando os velhos chinelos no quarto, então apresso o passo até a porta de meu quarto. Giro a maçaneta com cautela e ouço o clique da trava. Entro a passos silenciosos e vejo que Larissa ainda dorme em minha cama, exatamente na mesma posição em que estava quando saí, contudo, sua face está iluminada por um doce sorriso, que não estava ali a horas atrás. A visão me faz sorrir.
Pelo menos ela está a ter bons sonhos.
Deito-me ao seu lado, e então a abraço. Seu corpo relaxa mais quando envolvo-a em meus braços. Tão pequena, tão indefesa. A única coisa pura neste mundo que os mais repulsivos pensamentos humanos não conseguiu macular. Sua face me passa uma sensação de serenidade e felicidade. Logo, sou embalada pela calmaria da respiração de minha irmã.
E não tenho pesadelo algum.
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