A Herdeira dos Sete Mares
18 Partimos à guerra
Após a primeira sessão com Lyu, eu dormi profundamente, nem o vi guardar suas coisas e ir embora.
Tive pesadelos horríveis, torturas, lutas e fracassos. Ouvia meus próprios gritos de protesto enquanto, através de um espelho manchado, duas mulheres feias e velhas me seguravam enquanto um homem alto e magro cortava o meu cabelo, após ficar com um corte horrível e bem curto, me jogaram numa cela suja, onde devo ter passado meus últimos dois anos. Estava fraca, sentia dores pelo corpo todo e minha orelha sangrava, um corte causado enquanto eu tentava impedir que cortassem meu cabelo.
Tentei escapar várias e várias vezes, sempre falharam, pois não queria ferir ninguém. Sckart não apareceu para me ajudar, nenhuma vez. Passava dias sem comer, e quando me davam comida, era água e pão.
Acordei aos berros, suando. Olho ao redor, verifico onde estou, segura, saio da cama e me olho no espelho. Me encaro mais de perto, levanto o cabelo, há uma cicatriz pequena na orelha, nada significante. Ainda me assusto em como estou magra, mas pelo menos agora sei o porquê.
Saio da cabine, ainda é noite, me apoio na amurada e encaro o horizonte, o céu iluminado apenas pela luz das estrelas. Sckart aparece ao meu lado, já nem me assusto mais.
— Você não apareceu nesses dois anos, porque agora? — Lhe questiono, fria.
— Porque agora é a última vez que irei aparecer. Amanhã é dia de guerra. E quero que entenda que eu estou dentro de você, nesses dois anos tentaram extrair de você com essas torturas, e eu lamento. Mas agora, com todo o estresse que você terá nesta guerra que está por vir, eu terei que ficar inativa, pois se eu intervir, eles me capturam, você morre, Hécate me usa de arma contra os deuses...
— Como você pode ser uma arma?
— Eu acumulei muito poder de semideus ao longo dos anos, sou considerada uma deusa, semelhante à Artemis, mas sem a parte do feminismo exagerado, e sou até mais forte do que ela. Se Hécate, com o feitiço certo, extrair meus poderes, ela usará contra os deuses, e meus poderes mais o exército dela, não é boa coisa.
— Se eu estiver em apuros, o que faço? Não tenho metade dos seus poderes.
— Você ainda vai se lembar, mas nesses dois anos você também treinou muito. Você controla a água e o fogo, desenvolveu ótima mira no lançamento de adaga, e também ficou boa com a espada, seus reflexos melhoraram bastante também.
— Obrigada. Eu espero ser útil pelo menos uma vez na vida.
— Você será. Só não esquecer de quem é filha. Poseidon terá muito orgulho de você ainda.
Ela se vai, sumindo sem avisar. No fundo, sentirei saudades de suas ordens. Agora depende apenas de mim.
* * *
— Terra à vista! — Grita Marti descendo do mastro. — Todos à postos! Agora é guerra!
Eu, Marti, Luana, Lyu, Martha, nos reunimos no gabinete de guerra.
— Qual o plano? — Pergunta Martha, filha de Ares.
— A estrategista é você. — Brinca Lyu. Martha revira os olhos.
— Por mim, nós vamos direto aonde o livro está, se tiver um exército nos aguardando, lutemos, nós de Ares na frente, aqueles que têm pégasus vão pelo céu, filhos de Zeus também, lógico. Os de pégasus darão carona para os arqueiros. Formação 43.
— Formação 43? — Indago.
— Ah, enquanto você não estava, alguns navios de semideuses nos alcançaram com alguns seres mágicos liderados por Quíron. Temos um exército razoável agora. Inventamos a formação 43. Você não precisa de mais detalhes já que estará com os arqueiros.
— Espera, eu quero ir por terra. — Intervenho.
— Não ligo. Eu sei como você luta, sobreviverá pelo céu, acredito.
Respiro fundo.
— faça o que quiser, mas eu vou por onde eu quiser.
— Se morrer, a culpa não será minha, pimentinha.
Eu assinto e saio do gabinete. Agora é guerra, não vou escapar de nada. Lyu me puxa pelo braço.
— Você vai no pégasus comigo. — Ele fala.
— qual a parte do "vou por onde quiser" você não escutou?
— Por favor, só confio em você para montar num pégasus comigo. Depois vamos por terra, e você terá sua vingança contra os reis magos.
Eu assinto, concordando. Ele sorri e sai para se arrumar. Eu termino de pôr a armadura. Vamos à guerra.
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