A Herdeira dos Sete Mares

17 Dois Anos em dois dias


Marley aterrissou no convés do Les Sckartès, desci e corri para um garoto alto, meio loiro, com um arco dourado nas costas. Toco seu ombro. Ele se vira. Embora esteja diferente e sujo, eu percebo, pelos seus olhos e seu jeito, que é meu irmão Marti.

— Pimenta? É... É você?- ele pergunta, curiosamente perplexo.

— Marti, claro que sou eu! Por que tanta surpresa? Fiquei fora só dois dias.

— Dois dias? Pimenta, você ficou fora por dois anos.

— Do que você está falando? Foram dois dias! — Meu coração batia cada vez mais rápido, uma parte de mim duvidava, a outra, sabia que isso poderia ser possivel.

— Nós passamos dois anos atrás de você, lutando contra os magos, perdemos 20 dos nossos, mas matamos muito deles... Pelos deuses! Você finalmente voltou! — Ele me envolve num abraço apertado, e derrama algumas lágrimas.

Fecho os olhos, e derramo as minhas lágrimas também. Como assim perdi dois anos da minha vida? Agora tenho 16, da noite pro dia, tenho 16 anos, isso é impossível. Eu aperto o corpo de Marti com mais força, a raiva explode dentro de mim, me descontrolo, lágrimas caem mais e mais, e pareço cada vez mais com aquela criança que fez um escândalo no dia do enterro da mãe, mas dessa vez, enterrava dois anos da minha vida, que nunca mais vão voltar. Caio no chão, sem vontade de manter-me em pé. Ouço alguém gritar "A Pimenta voltou!", e uma multidão de sobreviventes ao meu redor. Sim, eu voltei, e estou no chão, lamentando os dois anos que perdi, as pessoas que matei, e as pessoas que morreram por mim.

Marti e mais alguém, que não vi quem era, me levaram para minha cabine, caí direto na cama, sem sequer olhar pra cima, ou pros lados. Me deixaram sozinha na minha melancolia, e perdi a noção das horas que fiquei petrificada na cama.

Me levanto, e me olho no espelho. Meu cabelo estava na altura dos ombros, e me lembrava dele na altura da cintura, e seu tom está mais ruivo que antes. Meu rosto, estava mais maduro, meus olhos mais escuros, estava mais magra, bem mais magra. Se não fosse pela cor do meu cabelo, e o tom da minha pele, extremamente branca, eu não diria que era eu aquela pessoa do espelho. Estava mais encorpada, mais mulher do que criança. De um certo modo, me sentia mais adulta também. Minha mente mais evoluída. Mas a raiva domava meu corpo. Os três malditos magos vão pagar.

— Muito bem, chega de se olhar. — Disse Sckart que apareceu no espelho.

— Sua maldita! Me deixou lá por dois anos? Você poderia ter me ajudado a qualquer momento, mas esperou DOIS MALDITOS ANOS!

— Pare de gritar como uma criança! Não tem mais idade pra isso. Tem 16 anos, então comece a agir como tal! Não pude te ajudar, os deuses proibiram qualquer ajuda depois que você foi raptada. Já era pra vocês, o mundo todo virou medieval, há guerra no Olimpo, Hécate está mais forte que antes. Mas eu também estou mais forte. Fui a única que conseguiu derrotar aquela louca uma vez, vou conseguir de novo. Sou parte do seu passado, todos os poderes que eu tinha, você também tem. Nesses dois anos você os aprimorou sabiamente, apenas não se lembra. Só conseguiu escapar por que se tornou forte. Fale com Lyu, o filho de Apolo, ele irá achar uma solução para recuperar a sua memória.

Então, sem mais nem menos, Sckart sumiu, deixando apenas minha imagem refletida no espelho. Procuro por Lyu pelo convés, estão todos fazendo alguma coisa, e eu nada. Olhando para os lados, à sua procura, trombo com uma garota alta, de cabelo preto e tatuada, quando olho seu rosto a reconheço.

— Luana! — Eu a abraço, e ela me abraça de volta. A minha irmã, por parte de mãe, ela está viva, e totalmente diferente. — Quantas tatuagens!

— Gostou? — Ela me soltou, exibindo as tatuagens nos braços. — Dudu quem fez, se quiser, depois ele faz em você.

— Depois, agora estou procurando o Lyu, preciso da ajuda dele pra recuperar minha memória.

— Esqueceu do que?

— Dos últimos dois anos...

— Puta merda... Não lembra de nada?

— Nadinha... Só dos últimos dois dias.

— Vamos, eu te levo até ele. — Ela começou a andar, e eu a segui.

Depois de alguns minutos, ela para e grita "Lyu! Vem cá!". O Lyu não mudara quase nada, ele correu e me abraçou suspirando um "Graças aos deuses!", nos dirigimos para minha cabine, onde conversamos com maior privacidade. Explico-lhe o que quero.

— Acho que Néctar resolve sua situação. Aplico-lhe na testa, com meus poderes direciono-o para a parte afetada do seu cérebro, o lóbulo temporal, uma sessão de 30min à uma hora deve bastar. Então você bebe uma dose pequena, e então, repouso absoluto.

— Ainda há Néctar? — pergunto, imaginando o quanto não usaram nesses dois anos.

— Sim, chegou mais, quando o Acampamento enviou mais semideuses para nos ajudar.

— Culpa minha tudo isso. — Olho pro chão.

— Ei. — Ele levanta minha cabeça, me olha com seus olhos azuis e seu sorriso acolhedor. — Nada disso é culpa sua. É culpa de Hécate, ela causou tudo isso, não você.

Eu dou um sorriso. Lyu é um grande amigo, o jeito que ele diz as palavras, me acalma por dentro.