A Herdeira do Oceano
9 Coração
Lia piscou três vezes antes de sentar aonde quer que estivesse. Se sentia ainda um pouco tonta, porém mais forte do que antes e o cheiro de comida ao seu redor a despertou de imediato. Olhando ao longo do cômodo ela notou estar na cabine de descanso, com colchões e mesas, e se forçou a levantar da cama improvisada.
Lembrou em sequência do acontecido na noite anterior e sorriu ao se apoiar na mesa para manter o equilíbrio. Ela havia conseguido usar seus poderes para lutar contra os fantasmas. Lançou bolas de canhão e defendeu. Conjurou ventos e dissipou a neblina.
Tinha sido fantástico!
Rindo sozinha ela sentou à mesa, atacando pães e queijos ali dispostos. Enquanto mastigava e recordava do caos da noite anterior Lia se perguntou o que aconteceu depois que ela apagou. Tinha ido até o limite dos seus poderes, havia sentido, e desmaiou sem perceber.
Onde estariam Pierre e Kevin? Eles estavam bem?
A porta da cabine abriu e os cabelos loiros que ela tanto gostava surgiram. Kevin entrou e sorriu ao vê-la, carregando um cantil consigo.
— Que bom que acordou. Ficamos muito preocupados.
— Todos estão bem?
Ele assentiu sentando na frente dela e pondo o cantil na mesa.
— Sim, estão. Graças a você. Trouxe um presente de todos – abriu a garrafa – rum para comemorar.
Os olhos dele pousaram sobre ela e Lia corou envergonhada. Mais tímida do que pretendia aceitou a bebida.
— Que bom então – ela bebeu longos goles e Kevin acompanhou o movimento de sua garganta.
— O que aconteceu com seus cabelos?
Lia olhou surpresa para as mechas que caiam ao lado da sua cabeça ao comentário e as viu ruivas. Sem entender voltou a olhar para o garoto a sua frente. Lembrou da rajada de vento e do calor em seu corpo.
— Eu não sei.
Kevin encarou as madeixas.
— Ele ficou assim quando...
Ela olhou apreensiva para ele. Não havia contado a Kevin sobre seu encontro com sua mãe, apesar de comentar que havia descoberto seus poderes quando caiu na água. Não tentara esconder de propósito no início, mas parecia estranho contar isso naquele momento.
— Quando uso meus poderes – respondeu rápido, se repreendendo internamente – mas acho que desta vez vai demorar a sair – murmurou.
Não entendia porque os cabelos vermelhos estavam de volta. Segundo a tartaruga aquela era uma parte da sua verdadeira forma, será que usar os poderes estavam libertando essa forma? Ou só tinha sido intenso demais usar os poderes daquele jeito?
Lia não sabia, mas ela não pensaria sobre isso naquele momento. O loiro ainda estava na sua frente a observando entre a surpresa com a nova cor dos cabelos e algo que ela não conseguiu definir. Parecia receoso?
— Mas eu gosto dessa cor – Lia emendou, terminando de beber – combina comigo.
Kevin sorriu.
— Eu gostava mais dos cabelos castanhos.
Lia conseguiu evitar encolher os ombros, mesmo que sem saber porquê.
— Pois eu prefiro estes – disse com sinceridade – vejo que temos um impasse aqui?
Kevin aumentou o sorriso e recostou à cadeira.
— Não vejo nenhum. Você é linda com qualquer cor de cabelo.
Lia estava pronta para rebatê-lo, mas ouvi-lo elogiá-la a desarmou. Rindo ela preparou um pedaço de pão.
— Ainda não desistiu de flertar comigo?
— Gosto de desafios.
Ela rebateu o olhar brincalhão.
— Onde está o capitão? Falta muito para chegarmos? Quanto tempo eu dormi?
Apoiando o cotovelo na mesa Kevin a observou tentando conter o sorriso.
— Você parece diferente, mas ainda é a mesma garota impaciente daquele quarto de livros do navio.
Lia sorriu de lado, dando de ombros, e mordeu o pão em suas mãos.
— Meu pai está reunido com alguns homens, parece que no meio da confusão nos perdemos no mar. Estão tentando se localizar com bússolas e mapas.
— O que?
O loiro assentiu pesaroso.
— E você dormiu a noite inteira. Vim aqui exatamente me certificar se você dormiria durante o dia todo também – ele pegou um dos queijos – mas parece que não.
Soltando um chiado de concordância Lia terminou seu café da manhã. Seguiu Kevin para fora da cabine e encontrou Pierre e mais dois homens debruçados sobre um mapa aberto improvisadamente no chão, enquanto seguravam bússolas.
— Podemos estar aqui – apontou um dos homens – ou aqui, capitão. Não temos como saber a direção depois daquele ponto.
Pierre alisou a barba e suspirou.
— E as bússolas não estão funcionando.
— Então estamos realmente perdidos? – Lia comentou parando ao lado do capitão, olhando para o mapa – Estamos encrencados?
Pierre sorriu e os homens olharam para a jovem com sorrisos.
— Olá, senhorita Liana. Como está se sentindo?
— Incrivelmente viva, obrigada.
— Você foi muito bem, senhorita – anunciou um dos homens, o mais baixo e magro – todas as nossas bolas acertaram o navio ao seu comando.
— Ela usou magia. É claro que funcionaria – o outro deu uma tapa na cabeça do companheiro – você foi muito corajosa, senhorita.
Corada Lia balançou as mãos em negação, fazendo pai e filho sorrirem a sua reação.
— Não foi nada.
Os marujos se entreolharam e sorriram.
— Já que tem tantos poderes, será que consegue nos ajudar com isso? – Kevin se agachou próximo ao mapa estirado no chão.
— Talvez indicar onde estamos ou uma rota?
Pierre balançou a cabeça aprovando a sugestão da garota.
— Ajudaria muito.
Assentindo, mais para si do que para os outros, Lia se agachou ao lado do loiro e fechou os olhos tomando fôlego. Não precisou tocar no colar pra sentir sua pele esquentar com o desejo e abriu os olhos junto ao som de arquejou dos marujos próximos. No mapa uma linha incandescente circulava uma ilha, até então desconhecida pela jovem, mas não havia trilhas ou indicações de onde eles estavam.
Frustrada Lia suspirou. Desejou poder saber para onde ir, mas sem rota não conseguiriam se mexer. Nem mesmo saber se a ilha ficava na direita ou na esquerda, ou qualquer outra direção. Os suspiros indicavam que todos pensavam como ela.
Uma ideia surgiu subitamente.
— Alguém tem uma bússola?
Pierre entregou à jovem a bússola em sua mão, velha e desgastada, com o ponteiro indicando todos os lados sem parar. Fechando novamente os olhos e usando seus poderes Lia pediu para a bússola indicar o lugar que deveriam ir.
Indicar o coração de Pierre.
O objeto foi tomado por um brilho verde incandescente e magicamente se consertou. Entretanto, a ponta que sempre apontava para o norte apontava agora para outro lugar. As extremidades do ponteiro ainda estavam incandescentes e sorrindo a jovem entregou a bússola ao capitão.
— Agora sabemos para onde ir, capitão.
Os quatro homens ao redor de Lia comemoraram e Pierre, depois de acenar em agradecimento, voltou ao timão para comandar o navio, gritando ordens aos homens no convés. Kevin, ao lado de Lia, sorriu satisfeito.
— Está mandando muito bem no abracadabra.
Piscando Lia jogou teatralmente os cabelos por cima dos ombros.
— Sou uma Deusa, afinal.
Ambos riram e os olhos da jovem desceram sobre o mapa ainda disposto no chão. O brilho sobre a ilha desconhecida chamou sua atenção e ela sentiu seu corpo inteiro se agitar. Podiam estar a dias ou horas do lugar, não dava para saber. Mas a única certeza é que estavam seguindo agora para algo bastante importante.
•••
A ilha que surgia ao longe era gigantesca até mesmo a quilômetros de distância. Tinha uma mata verde e viva logo após o espaço de areia, que subia em cume seguindo uma alta montanha em seu centro. Pássaros cantavam e voavam ao redor dela, assim como animais marinhos se atreviam a saltar pelas águas límpidas ao seu redor.
Era quase um paraíso natural, Lia pensou, se não fosse ali que sua mãe escondia o coração do homem ao seu lado.
Pierre permaneceu calado do momento em que avistaram a ilha até então. A bússola vibrava em sua mão, ainda fluorescente, e os olhos do homem se encontravam fixos nela, como se olhar para a paisagem que surgia fosse doloroso.
Do outro lado de Lia estava Kevin, que olhava fascinado para a ilha, ousando entre tanta empolgação pegar a mão da jovem na sua. A agora ruiva não reclamou e achou até mesmo fofo o ato, sorrindo animada para ele.
Eles estavam finalmente chegando perto do que eles buscaram por tantos anos.
— Não é um vórtice – a voz de Pierre soou depois de alguns minutos em silêncio, ainda encarando a bússola – não faz sentido.
Lia olhou da ilha para o homem ao seu lado tocando gentilmente no braço que segurava o objeto.
— Meus poderes até agora não erraram. O coração com certeza está aqui.
— Ela pode ter mudado ele de lugar – ponderou Kevin, soltando a mão de Lia que chiou internamente pela perda do afago – pense bem. Fazem dezesseis anos.
Os olhos de Pierre desceram sobre a dupla e se pudessem expressar algo seria pesar.
— Então nunca o encontraríamos mesmo se continuássemos por anos indo aquele lugar.
— Não – Lia interveio, afastando a mão – mas aqui estamos nós. Prontos para pegar de volta o que foi roubado, não estamos?
O sorriso de encorajamento de Lia fez o capitão anuir também sorrindo. A jovem ao seu lado além de forte e destemida o lembrava de seu passado. O lembrava dele mesmo. O homem que era mais corajoso e forte do que ele jamais poderia imaginar ser naquele momento.
E essas lembranças o faziam querer buscar novamente aquele homem.
E eles estavam a poucos quilômetros dele.
— Homens, mais rápido, temos um coração para resgatar!
Ao comando do capitão alguns marujos sorriram e a todo vapor começaram a içar cordas e manejar as velas. Lia aumentou o sorriso e voltou a fitar a terra que se agigantava a frente. Algo dentro dela vibrava eufórico com a aventura. O que encontrariam? Como seria a ilha?
Mas a consciência de que sua mãe poderia estar ali, na espreita, a inquietava. Repetindo para si mesma num mantra que Nagisa tinha muito mais trabalho a fazer por um oceano do que vigiar aquela ilha a jovem tentou se tranquilizar.
Entretanto, quanto mais a ilha parecia se aproximar, mais seus sentidos se agitavam e logo animação e inquietação se mesclaram e Lia já não sabia o que sentia frente ao desconhecido que enfrentaria.
•••
— Vamos seguir a bússola e tudo deve ficar bem – Lia apoiou no ombro uma mochila de couro.
— Quantos homens devem ir e quantos devem ficar, capitão?
Os poucos homens que levaram Lia, Kevin e Pierre para a praia num bote já se preparavam para partir junto a seu comandante, enquanto os outros dois pequenos botes chegavam pela água.
— Comigo quero apenas três, que saibam lutar. Os outros permaneçam no navio até segunda ordem.
Um dos marujos, baixo e moreno, assentiu pondo o bote novamente na água.
— Deixem na praia um bote para emergências e podem seguir.
O outro homem, mais alto que o outro, bateu uma continência desajeitada enquanto Pierre seguiu para os próximos marujos afim de dar seus comandos. Lia, entretanto, se afastou um pouco do grupo ficando frente a frente as grandes árvores que iniciavam a floresta.
Eram altas e esguias, com folhas grandes e em grande quantidade. Jamais ela havia visto árvores como aquelas e imaginou que talvez a ilha fosse envolta em magia. Em passos breves ela se aproximou do tronco escorregadio e a ponta de seu dedo encostou nele.
Lia sentiu uma onda percorrer seu corpo e percebeu, olhando abismada para a árvore, que a mesma havia se comunicado com ela. Uma comunicação além da verbal, algo entre sentidos.
Bem-vinda.
Dando curtos passos para trás afim de vislumbrar seus galhos e folhas Lia sorriu, agradecendo mentalmente. O breve momento foi interrompido por Kevin que chegou dando uma corridinha até a jovem.
— Já estamos prontos, vamos?
Com uma última olhada para aquela árvore em específico Lia se enveredou para dentro da floresta, sentindo a brisa fresca e o cheiro puro de folhas lhe acariciar com boas vindas. Silenciosa ela se perguntou até quando seria bem-vinda ali.
•••
Os três homens de Pierre eram altos, fortes e musculosos. Um tinha um queixo marcado com uma grossa cicatriz e olhos pequenos. Seu nome era Rob. Outro era calvo e carregava uma barba malfeita a tira a colo. Seu nome era Will. O terceiro e último possuía cabelos longos em um rabo de cavalo que ricocheteavam a todo instante nas armas em suas costas, fazendo companhia a uma grande tatuagem de dragão. Seu nome era Finn.
Os três marujos bem treinados exalavam todo o perigo de sua técnica e apesar de Lia interagir com eles oferecendo comida e água, que carregava numa bolsa consigo, nada mais ela falou com aqueles homens. E eles tão pouco falaram com ela.
A jovem não havia interagido muito com eles também durante seu percurso no navio e talvez fosse aquela aura de brutalidade que os afastavam cada vez mais.
Os olhos de Lia eram atraídos, a todo instante, para flores e animais curiosos que surgiam em meio a sua caminhada árdua. Eles subiram e desceram aclives, quase se perderam num labirinto de arbustos e agora chegavam a uma parte mais silenciosa e verde.
A formação em meio a selva era Pierre a frente, com os três homens em seu encalço, a poucos passos, e Kevin e Lia atrás. Diferente do silêncio com os outros marujos Lia conversava animadamente com Kevin, que lhe contava tagarela sobre sua última experiência dentro da selva atrás de javalis selvagens.
Foi ao som do riso de Lia que o eco chegou até o grupo. Não fazia nem metade de um dia que eles estavam se esgueirando pela floresta da ilha, mas o sol no céu começava a querer ceder sendo auxiliado por nuvens que vez ou outra nublavam seus caminhos entre raízes, galhos e arbustos.
O ruído fez o grupo estancar numa parte apertada com grossos troncos ao redor e o trio de ataque avaliou o lugar com cautela. Lia tapou a boca com a mão, receosa do que poderia ser, mas após alguns minutos de silêncio um animal pequeno veio correndo em sua direção.
O suspiro de alívio de Lia não durou nem mesmo um segundo. Logo atrás do espécime minúsculo vinha um urso pardo enorme. Pierre deu passos rápidos para trás e o trio tomou a dianteira, desembainhando as espadas. Tentando se manter firme Lia encarou o animal.
Ele rugiu raivoso e esqueceu do animal que perseguia, que Lia notou ser um esquilo, e rumou para o grupo a toda velocidade. Galhos de quebraram em seu caminho e pequenos ramos foram esmagados.
Não durou muito o som de luta já ecoava no apertado espaço entre as árvores, com espadas raspando na madeira das árvores e os sons do urso irado contra os adversários. O espaço era pequeno demais para vantagem com grandes lâminas e a luta se tornou mais tensa do que sangrenta. O primeiro a se colocar em risco perderia.
Kevin entrou no confronto junto com os outros marujos, tentando cercar o urso, mas o animal era esperto e nunca se deixava ficar desprotegido, jogando vez ou outra areia para distrair os inimigos.
Pierre e Lia se afastaram o máximo que puderam para dar apoio ao grupo, mas ainda assim o confronto ricocheteava neles, fosse com pedras voando ou folhas caindo depois de atingidas.
Em dado momento, ainda sem nenhum vencedor, a jovem teve uma ideia. Era maluca, ela sabia, como tantas outras que já tivera, mas podia arriscar. A árvore havia falado com ela. Ela podia falar com o urso.
E esperava que o colar funcionasse com coisas além da água.
Se afastando de Pierre o suficiente para mantê-lo seguro Lia segurou o colar em mãos com os olhos fixos no animal. O urso grunhiu para o quarteto ao seu redor e pareceu se inquietar com o movimento dela. Assim que seus olhos se chocaram ele avançou na direção da garota.
Lia não se mexeu, pedindo com mais insistência do que imaginou, que aquilo desse certo e que o urso pudesse entender. Que pudesse ir embora.
No instante em que o animal se esquivou do grupo que tentou ataca-lo os olhos do loiro caíram sobre a jovem desprotegida.
— Lia!
Lia estendeu a mão e o animal desacelerou, olhando desconfiado para ela. Lentamente ela se aproximou e tocou carinhosamente no focinho dele com a palma. Houve um ruído baixo de satisfação e o urso anuiu, entre irritação e conformação, olhando diretamente para Lia.
Ela riu e fez uma reverência, agradecendo ao animal por poupá-los apesar da má vontade. Em seguida o urso correu, em disparada para além dela, deixando-a sozinha com o grupo paralisado e surpreso.
Olhando de um por um ela riu abanando a mão no ar.
— Não foi nada, ele só está em um dia ruim.
Kevin e Pierre se entreolharam e em seguida riram, incrédulos.
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