A mansão era alta, com a construção de pedra sólida firme, e preenchida de grandes janelas de ferro, que iam do início ao fim das paredes, dando um vislumbre privilegiado de seus moradores sobre os estranhos visitantes.

Essa percepção não agradou a Lia, mas ela continuou a seguir os homens, que lentamente começaram a deixar as caixas, barris e sacos em frente a construção. Parando atrás de alguns marujos ela observou o espaço que aquela mansão ocupava, estratégico, entre as árvores e num descampado escondido do caís.

Um sopro na orelha despertou Lia, que pulou, assustada, fitando o loiro ao seu lado rindo de sua reação. Fazendo uma careta ela se aprumou.

— O que achou?

— Da mansão? Nada demais, já vi melhores – deu de ombros, brincalhona – mas tão bem construída, nunca. – indicou o espaço em que ela se encontrava – Impressão minha ou foi criada para ser invisível à barcos?

Kevin riu.

— Sua capacidade de observação cada vez mais me surpreende, Lia. Sim, esta casa foi criada para ficar longe de olhares de piratas e viajantes. Por isso – ele piscou na direção das caixas – meu pai não quis chamar atenção com as bagagens.

A jovem soltou um murmúrio de concordância.

— Isso faz sentido. Seu pai...

Assim que Lia virou para Kevin, ele também o fez para ela, e ambos quase se chocaram, a centímetros um do outro. Quando os olhos se encontraram e Lia sentiu-se esquentar tentou recuar, mas a mão do garoto a envolveu antes que pudesse fazer algo.

— Sua roupa é muito bonita – sussurrou, vendo os olhos verdes reagirem a si – mas algumas plantas – ele puxou uma folha do tecido – acabam sendo insistentes demais.

Kevin colocou o pequeno pedaço de folha entre eles e Lia assentiu, tentando mudar o foco de seus pensamentos da proximidade para o pedaço de folha. Entretanto a jovem não precisou de muito esforço já uma voz grave e arrastada soou da mansão, dando as boas vindas a seus convidados.

— Seja bem-vindo, Pierre! – o homem prostrado na porta, cercado por homens bem vestidos saudou o capitão que saiu da multidão e apertou a mão do mesmo – Há quanto tempo, sim? É a garota? – perguntou mais baixo.

O capitão assentiu, sem nada acrescentar, e o sorriso no rosto do homem aumentou.

— Onde está Kevin? – ele olhou na multidão encontrando os cabelos loiros em seguida – Como está grande aquele garoto! E aquela é...?

Os olhos de Pierre desceram sobre a dupla e ele viu quando Lia deslizou para longe do seu filho, com o rosto corado. As lembranças das outras garotas vieram a tona e ele desviou a atenção, apoiando as mãos nos ombros do velho amigo.

— Depois conversamos, primeiro vamos entrar. Tenho alguns bons artigos para negociar – indicou as caixas – e também preciso de algumas coisas para nossa viagem.

Os olhos escuros do homem a sua frente encontraram os dele atentos.

— De volta ao vórtice?

Pierre assentiu.

— De volta ao vórtice.

Olhando através dos ombros do capitão seu amigo voltou a observar Lia, que de onde estava não conseguia fazer o mesmo com o estranho amigo de Pierre.

— Acha que essa garota pequena consegue?

O capitão sorriu.

— Ela tem uma língua afiada e os olhos da mãe. Liana tem grandes chances de ser a garota que procuramos.

— Está chamando-a pelo nome?

Pierre riu.

— A garota me conquistou, o que posso fazer? Vamos, vamos, temos muita coisa para fazer e pouco tempo.

O amigo do capitão sorriu e desviou os olhos da garota, entrando na mansão. Assim que Pierre o seguiu os outros marujos começaram a levar as mercadorias para dentro. Kevin apoiou uma das caixas no ombro e segurou um dos sacos na mão.

— Me dê o saco para levar, vai acabar afundando seu ombro.

O loiro riu.

— E machucar mãos tão delicadas? – ele piscou – Jamais.

— Não sou frágil, Kevin.

— Que posso fazer? – ele encenou estar sofrendo – Sinto um impulso incontrolável de protegê-la.

Lia sorriu e em seguida riu pela expressão no rosto do garoto. Kevin adiantou o passo e já estava longe quando a garota balançou a cabeça e sussurrou, seguindo sua trilha na areia.

— Eu não quero ser protegida, pirata.

•••

Dentro da mansão a decoração era o triplo do que se via do lado de fora e grandes quadros decoravam suas paredes, ornamentados com ouro puro e iluminados por lustres de cristais. Grandes e caros tapetes se alongavam no chão de madeira e levavam até a última sala do corredor largo que Lia notou se assemelhar muito com sua casa.

A jovem parou antes de entrar no grandioso salão que surgia a sua frente, suntuoso e dourado, com elegantes sofás e uma grande lareira em seu canto. As janelas que ela vira do lado de fora estavam preenchidas por longas cortinas de cor vinho, deixando o cômodo preenchido apenas pela luz dos lustres que se repetiam ali dentro.

No chão as caixas de madeira de Pierre tomavam conta de boa parte do espaço, mas não foram elas que chamaram sua atenção, mas a reunião nos sofás entre Pierre, Kevin e dois estranhos. Um deles Lia identificou como sendo o homem de mais cedo, o dono da casa, e se surpreendeu com a semelhança dele com seu capitão.

Ele era franzino e claramente velho, com cabelos brancos e rugas aos montes no rosto. Os olhos eram negros, mas muito parecidos com os​ do capitão, que sentado ao lado dele parecia uma versão mais jovem e piratesca do sujeito. Os cabelos dele eram negros e estavam trançados em suas costas, apesar dos fios esbranquiçados saltarem de sua contenção.

Suas roupas eram excêntricas, mas gritavam seu luxo, num roupão de cor dourada e pantufas confortáveis.

Ao lado dele, conversando animadamente com Kevin, estava um jovem do mesmo tamanho que o loiro. Tinha cabelos negro também, trançados igual ao do homem, mas seus olhos reluziam um castanho escuro que brilhavam animados contando algo em mesmo tom para o garoto ao seu lado.

Lia ia dar meia volta, procurar seus amigos quem sabe, mas Pierre a visualizou antes de sua empreitada e sorrindo a chamou até o grupo. Pela primeira vez, enquanto seguia até eles com todos os olhares sobre si, ela odiou estar usando um vestido. Ele pinicava e o balançar de suas saias a incomodava, porém não mais que o olhar crítico que o velho lançou sobre si.

— Senhorita Liana, quero que conheça Anthony – indicou o velho – e seu filho Kyler – apontou para o garoto ao lado do filho – são grandes amigos e vão nos ajudar em nossa viagem.

Acenando Lia sustentou o olhar do homem.

— É um prazer. Bonita mansão.

Anthony sorriu, transbordando orgulho, e assentiu olhando ao redor, como que avaliando sua própria obra.

— Foram longos anos para que ela pudesse estar desse jeito. Agradeço as palavras, por que não se senta conosco? Tenho certeza que tem muito o que falar sobre sua viagem.

— Agradeço, mas não é o momento – ela olhou para Pierre – vocês parecem ter muito o que conversar ainda, não vou atrapalhar.

— Quanta educação – comentou o velho, encostando-se ao sofá como se as costas lhe doessem – é alguma princesa ou algo do tipo?

O sorriso de lado de Lia surpreendeu o homem.

— Segundo lendas antigas sou uma Deusa, senhor, não uma princesa.

Fez-se um breve silêncio e em seguida Anthony riu, fazendo um sorriso surgir no rosto de Pierre que já aproveitava uma taça de vinho. Kevin também sorriu e olhou para o garoto ao seu lado como se dissesse que havia avisado e Kyler riu junto com o pai.

— Esta parece boa capitão, com certeza tem futuro.

Os ouvidos de Lia se aguçaram, mas Pierre se limitou a beber de seu vinho com os olhos fechados.

— Vá minha jovem, meus homens irão mostrar a você o quarto que vai ficar por essa noite. Está acompanhada de outros também, não é?

— Sim, meu amigo e minha irmã.

— Irmã? – os olhos negros brilharam.

— Foi um pequeno imprevisto – anunciou o capitão colocando a taça de lado.

— É minha irmã adotiva.

Ele murmurou em concordância.

— Tem alguma objeção em ficarem todos no mesmo quarto? Estamos com pouco pessoal, então talvez não consigamos preparar tantos quartos.

— Está tudo bem – Lia ergueu as mãos – mesmo, não preocupe. Podemos nos virar.

Anthony sorriu e assentiu, indicando uma porta lateral.

— Lá fora um dos meus homens está esperando. O siga e ele vai mostrar o caminho. Seus amigos serão enviados em seguida.

Lia assentiu.

— Claro, obrigada.

— Nos vemos no jantar, senhorita Lia.

— Nos vemos.

Assentindo para todos os quatro a jovem se afastou, na direção da porta que até então não havia notado no local. Assim que a atravessou ouviu a risada do velho e algumas palavras de Pierre, que soaram com orgulho. Sorrindo para si Lia seguiu o estranho mordomo pelo corredor na direção de uma alta escada.

No primeiro andar seu quarto ficava perto de uma ventilada varanda e através dela a mesma viu o pôr do sol tocar na água suavemente. O quarto era uma versão luxuosa da cabine que o capitão havia disponibilizado para eles, exceto pelo colchão extra improvisado no chão. As paredes estavam estranhamente pouco decoradas, mas a cama de dossel era ostentação suficiente para o cômodo.

Caminhando até às cortinas fechadas Lia as abriu, deixando em evidência a grande janela, e deslizou seu vidro deixando entrar o vento frio e salgado do crepúsculo. Os pensamentos que estivera reprimindo desde sua briga vieram no mesmo instante e relaxando com a visão Lia tentou organiza-los.

Enquanto esperava seus amigos Lia cuidadosamente repassou tudo que aconteceu com ela até ali, o que aconteceu com eles. E o que iria fazer com tudo aquilo. Com o que já tinha passado. E com o que estava por vir.

O som do trinco da porta anunciou a chegada da dupla e Lia respirou fundo, se preparando para a conversa que estava por vir.

•••

— Então essa é sua palavra final?

Lia assentiu, ainda escorada próximo a janela do quarto. Cadu balançou a cabeça, sentado na poltrona, tanto entender em que momento sua amiga havia decidido dar sua vida aqueles piratas.

Sozinhos no quarto o trio conversou, o mais civilizadamente possível, sobre sua discussão. Cadu se desculpou e Lia fez o mesmo, e ambos se puseram a argumentar o porquê de agirem da forma que agiram. Cadu deixou claro que se preocupava com Lia e com Ana e que a segurança das duas era a coisa mais importante para ele naquele momento.

Tentou justificar seus atos e pensamentos com base nisso, mas Lia o rebateu. Havia errado feio na forma como tinha agido e nada que ele dissesse iria justificar.

Lia pediu desculpas por ter agido tão agressivamente e admitiu que não estava pensando unicamente em Ana. Cadu se atreveu a soltar uma provocação, mas Ana o beliscou e Lia quase desistiu de perdoa-lo.

Deixou claro que tivera ideias que podiam ajudar tanto Ana quanto o capitão e não iria abrir mão delas. Cadu perguntou sobre, mas Lia não o contou. Afirmou apenas que daria um jeito e que Ana ficaria bem, e logo eles voltariam para casa.

Quando o jovem perguntou se iria continuar com a loucura do capitão Lia disse que sim e foi o momento que ele desabou na poltrona.

Ana, sentada na cama, olhou de Lia para o garoto e se sentiu horrível por ser culpada por tantas desavenças. Queria dizer que sabia se cuidar, que podia dar um jeito também. Que navegar de bote não era tão perigoso e eles sobreviveriam juntos.

Mas ela sabia que não. Sabia que não era forte como sua irmã ou engenhosa como ela. Seu corpo era frágil e, sempre protegida, Ana só queria voltar para casa e deitar em sua cama de babados, se arrumando para mais uma ida de compras.

Como isso não era possível e tinha muita coisa em jogo, ela ficava dividida entre seu próprio bem-estar, que todos pareciam prezar muito, e o bem de sua irmã. Ana se martirizou por um longo tempo ao pensar que Lia se sacrificaria por ela, mas o futuro era tão obscuro que ela não conseguia largar seu egoísmo.

Ana não queria morrer. Ela não queria que Lia morresse. Queria apenas que tudo voltasse ao normal. Mas cada vez ficava mais difícil vislumbrar aquela realidade.

Sentindo as lágrimas desceram Ana se encolheu, chamando a atenção da dupla em combate. O choro da garota alertou Lia que sentou de imediato ao lado da mesma. Cadu deslizou da poltrona para o chão em frente a ela.

— Não chore, está tudo...

— Não está tudo bem! Eu não quero morrer! – ela gritou​, soluçando – Eu não quero que você morra!

Lia anuiu calada. Sabia que estava se arriscando ao tentar ajudar o pirata em sua história de Deuses e magia, corações e maldições, mas era mais forte que ela. Lia não deixaria Pierre na mão do mesmo jeito que não deixaria sua irmã se machucar.

— Você não quer fugir – sussurrou Ana, tomando fôlego – e está tudo bem.

A palavra da jovem surpreendeu tanto Lia quanto Cadu.

— Eu estou com medo – sussurrou, passando os braços ao redor do corpo – mas você sempre me protegeu. Eu vou confiar em você, Lia, mas não vou sair do seu lado.

Cadu tentou argumentar, com o medo e o nervosismo nublado sua expressão, mas não conseguiu falar ao ver a troca de olhares das duas. Como irmãs tudo o que elas precisaram foram de alguns segundos, olho no olho, para saber o que realmente importava.

— Eu vou ficar com você até o final e me jogarei no mar para te salvar se for preciso. Por favor.

Lia não conseguiu discutir como Ana, como sempre, e elas se abraçaram com força, as palavras da mais nova tirando parte do peso que Lia carregava nos ombros. Cadu, impotente no chão, suspirou exasperado, mas sorriu.

Eles estavam juntos de novo, finalmente.

— Ei, o que será que tem no jantar? – perguntou Ana, se afastando e limpando as lágrimas.

— Coração.

As duas olharam para Cadu e ele sorriu, dando de ombros a sua própria piada de mau gosto. Em seguida elas riram repreendendo o amigo, mas aproveitando o clima de reconciliação crescente.

O trio sequer​ tinha percebido que havia precisado tanto dele.

•••

O jantar foi numa mesa gigantesca, preenchida de pelo menos dez cadeiras de um só lado. Na superfície carnes diversas, pães, queijos e massas a vontade. Grandes​ garrafas de vinho se encontravam quase na frente de cada cadeira e quando Lia se sentou, com Ana ao seu lado e Cadu do outro, viu o sorriso torto do capitão lhe receber.

Todos haviam trocado de roupa e estavam com suas melhores peças, assim como o trio que recebera uma enxurrada de roupas em seu quarto mais cedo. Lia não conseguiu fugir de mais um vestido, mas pelo menos aquele não fazia sua pele coçar e nem era tão longo nem tão curto.

Apesar do decote e da cor vermelha lhe deixar um pouco acanhada com a peça.

Sua percepção sobre isso só aumentou quando os olhos de Kevin, desde sua chegada a sala a sua chegada a mesa alternou o olhar entre seu rosto e seu busto.

— Boa noite, jovens. Sejam bem-vindos. Que indelicadeza a minha não me apresentar a meus convidados mais cedo.

Anthony levantou, na ponta da mesa, e sorriu cordial mostrando mais uma roupa excêntrica em tom laranja, com detalhes que a jovem imaginou terem vindo da índia. E seria bem capaz, Lia pensou olhando ao redor do cômodo.

Havia tanto luxo e tão pouca elegância que Lia, criada a risca por Agatha, podia sentir que Anthony era um acumulador de ouro, não se importando muito com o visual da coisa. E foi a cabeça de um javali, na parede ao lado de uma tapeçaria claramente grega, que fez Lia ter certeza.

— Sou Anthony Lefinc, capitão do Arauto do mar. Minha embarcação foi muito famosa na época da exploração no continente, mas estou em férias permanentes, se é que me entendem – ele piscou – estou ficando velho e o mar não é tão cuidadoso com os seus.

Ana assentiu antes de todos e levantou o dedo, chamando a atenção do homem.

— Muito prazer em conhecê-lo. Me chamo Ana Witherson, posso fazer uma pergunta?

Anthony concordou curioso.

— Onde conseguiu aquela belíssima obra em cima da lareira?

O homem não precisou olhar para saber de qual obra Ana falava e ficou mais do que satisfeito em respondê-la. Por longos minutos. Descobriu o nome de Cadu um bom tempo depois e conversou, animado, sobre sua época no mar.

Pierre permaneceu calado durante muito tempo e Kevin não se atreveu a trocar sequer uma palavra com Lia, olhando para ela apenas vez ou outra, sorrindo e admirando seu decote. O jantar foi uma delícia e Anthony os dispensou antes mesmo da noite se concretizar no céu.

Se ofereceu para mostrar a ala da mansão que guardava obras mais famosas e caras para Ana, que de pronto aceitou saindo com Cadu em seu encalço, pronto para morder o homem se ele passasse do limite.

O trio restante na mesa se entreolhou e sorriu.

— Qual é a história do seu amigo, capitão? Companheiro de navio? Seu ex capitão?

Tomando um gole de vinho Pierre maneou com cabeça.

— Nem um nem outro. Éramos inimigos mortais na juventude brigando por cada pedaço do mar. Vivíamos em guerra e fiz grandes estragos no casco do Arauto quando mais jovem. Mas fomos ficando mais velhos e mais sábios e outros invadiram nosso território. Nos unimos para defender nosso espaço e somos amigos desde então.

Ele indicou a sala ao redor.

— Boa parte dessas riquezas são minhas, senhorita Liana. Dividimos essa mansão como agora dividimos o mar. Sou tão proprietário dessa casa quanto ele.

Lia assentiu, remexendo uma ervilha solitária no prato.

— E você concordou com tudo isso? – ela apontou para o contraste entre javali e Grécia, e o capitão riu.

— Não dá para sermos companheiros em tudo, não é?

Ela e Kevin o acompanharam. Assim que a presença do loiro se fez notar ele levantou, limpando a boca com um guardanapo e levando consigo sua taça de vinho.

— Vou me retirar agora, nos vemos mais tarde.

Lia e Pierre acenaram com a cabeça em sua saída e enquanto observava o loiro sumir pela porta, Lia pensou no porquê ele andava tão distante. Não achou que fosse ser detentora de todo seu amor e afeição, mas foi só sair do navio que o loiro agora lhe parecia distante, frio, contido.

O calor que seus corpos haviam trocado no episódio do timão fez ela se sentir boba. Estava pensando demais naquilo? Não iria entrar em algum tipo de relacionamento com o pirata mais novo, não pretendia, mas alguma coisa estava errada.

— Não, eu não concordei com isso. Mas como ele fica aqui mais tempo do que eu não tive escolha. Estou sempre em alto mar, quase nunca em terra.

Os olhos verdes da jovem desceram sobre o capitão solidários.

— Esteve esse tempo todo procurando por mim?

Pierre alisou a barba.

— Procurei por cada filha de Nagisa que pudesse existir em nosso mundo. Encontrei várias, que batiam em nome e aparência, mas não eram suas filhas. Outras cheguei a acreditar que fossem – ele olhou com intensidade para Lia – mas no último minuto elas foram embora.

— Morreram?

O pirata riu da expressão no rosto da garota, negando com a cabeça.

— Não, não morreram. Devem estar vivas por aí, vivendo suas vidas.

— Então...

A expressão que tomou o rosto de Pierre calou Lia no mesmo instante. Tomando o resto de vinho do copo o capitão levantou.

— Tenho que me retirar, senhorita. Nos veremos amanhã – ele pôs o copo de volta à mesa – estarei em meu escritório caso precise de alguma coisa.

A jovem, solitária na mesa, assentiu e o viu se afastar como quem foge da forca. Assim que Pierre saiu da sala e Lia se viu sozinha ela suspirou, bebericando do resto de vinho em sua taça, pensando no porquê do capitão ter fugido aquele assunto.

Ambos, pai e filho, pareciam diferentes ali. Estavam com medo de algo que Lia não sabia o que era, mas agiam como se não falar sobre isso fosse protegê-los. Isso atiçou a curiosidade da jovem que levantou da mesa de jantar num pulo, pronta para ir atrás de respostas com o capitão.

Mas no instante em que ela deixou a sala e se enveredou no corredor, foi outra pessoa que ela encontrou.

Na verdade, Kevin estava dentro de uma sala, menor que todas as outras, conversando com seu amigo Kyler num sofá grande e confortável. Ela recuou no mesmo instante, passando despercebida pela dupla, mas não se moveu da porta.

Eles conversavam sobre algo que os deixava tensos e os radares de Lia gritaram dizendo para ela que tinha que estar associado com o que vinha acontecendo naquela mansão. Contra todas as convenções sociais Lia se apoiou na porta, escondida, e ouviu parte da conversa.

— Ela é diferente, eu estou dizendo! Nenhuma das outras tem o que ela tem. Me faz querer protegê-la.

— E o que ela tem, Kevin? As experiências com as outras supostas filhas da tal deusa não foram suficientes para você perceber que tem essa queda por donzelas em perigo?

A risada do loiro fez o estômago de Lia se apertar. Ele também havia flertado com todas as outras filhas? Que devasso!

— Não diria que seja isso, mas tem alguma verdade. O ponto aqui é outro. Ela é especial, Kyler, dá para sentir.

Lia balançou a cabeça perdoando o pirata por ele chamá-la de especial.

— Não cara, não. Ela é como qualquer outra e vai aceitar fugir como todas as outras fizeram.

Lia prendeu a respiração.

— Esse ritual masoquista que você e seu pai fazem com todas essas garotas é inacreditável. Vocês as arrastam pelo oceano e as dão oportunidade de escolha no final. Vocês deviam apenas lançá-las ao mar e ver se viram peixe.

A jovem, escondida, fez uma careta. Não gostava daquele garoto, definitivamente.

— Desta vez eu realmente espero que ela fuja.

Um movimento lá dentro alertou Lia e ela correu silenciosa de volta à sala de jantar, surpreendendo alguns funcionários, até então invisíveis, que recolhiam as comidas e talheres.

— Me desculpe senhorita achamos que já tivesse acabado de comer.

Corada e com uma expressão que dizia que havia sido pegada no flagra Lia sorriu e balançou a mão na direção da mesa.

— Terminei sim, não se preocupem. Obrigada pela refeição estava deliciosa.

Vendo sorrisos satisfeitos e alguns acenos com a cabeça Lia deu meia volta, respirando fundo. Iria passar no corredor como quem acabou de sair do jantar e se encontrasse algum deles fingiria que nada aconteceu.

Ela assentiu convicta para si mesma, mas assim que saiu no corredor as primeiras pessoas que viu foram Kevin e Kyler, o segundo sorrindo de forma que fez Lia quase vacilar. Sorrindo simpática ela acenou.

— Ótimo que está aí, tenho algo que quero falar com você.

•••

Mil coisas passaram pela cabeça de Lia enquanto seguia a dupla de piratas para fora da mansão. O caminho estava escuro, mas a luz iluminava com habilidade toda a parte externa da construção e os garotos pareciam ir até as rochas que davam acesso ao mar.

Tudo que Lia pensou foi sobre a conversa que tinha escutado, mas nada do que eles estavam fazendo lhe pareceu lógico. Haviam tido garotas antes dela, muitas, e elas estavam vivas por aí. O capitão realmente “libertava” as garotas?

Se Cadu ouvisse aquilo teria insistido para ela aceitar a oferta e ir para casa junto com eles. Mas Lia já havia decidido o que fazer há muito tempo. Se um capitão pirata, perigoso e cruel, lhe dava aquele tipo de escolha mesmo quando poderia forçá-la a fazê-lo, Lia tinha certeza de que possuía algo especial nele.

Mesmo sem coração Pierre agia como o homem bondoso que escondia ser.

— O que queria me falar, Kevin?

Parados numa das rochas, no lugar mais relativamente afastado da mansão que a luz da lua conseguia iluminar, o trio parou. De um lado começava a areia e do outro o mar batia com ondas fortes contra a pedra.

Parado mais afastado do loiro Kyler havia cruzado os braços, mais próximo do mar do que da dupla. Kevin estava de costas para a mansão e Lia se perguntou o porquê de toda aquela cena.

— Quando mais novo eu vinha aqui – comentou o loiro, olhando para o oceano escuro a frente – e gostava de pensar sobre o futuro. O que você espera do futuro, Lia?

— O que você quer, Kevin?

Ele a olhou com olhos contemplativos, em expectativa. Ansioso, Lia percebeu, ansioso pela resposta dela.

— O que você acha da história do meu pai?

— Com espíritos, Deuses e soldados golfinhos?

Kevin sorriu.

— Sim. O que você acha dela? Acha que é real?

Lia pensou sobre as palavras dele.

— Não sei, não dá pra saber. Uma Deusa do mar? Espíritos marinhos? É loucura. Mas consigo perceber que o capitão não se expressa bem. Ele é meio mecânico às vezes e quando você presta atenção – ela encarou o loiro – também não tem nada nos olhos dele. Que são muito bonitos por sinal, ele tem quantos anos mesmo?

O loiro riu e o garoto próximo dele escondeu um sorriso, fingindo encarar as ondas alguns metros embaixo dos seus pés.

— Ele tem quarenta anos, mas esse não é o ponto. Você lembra do acordo de vocês?

Lia assentiu.

— Você pode ser dissolvida dele. Pode ir embora se quiser, Lia. Fuja com sua irmã e aquele garoto. Voltem para sua ilha. Não precisa morrer.

O peso da palavra morte pairou entre eles, mas Lia estava firme em sua escolha.

— O capitão sabe disso?

A pergunta fez Kyler erguer os olhos prestando atenção na conversa agora quando ela chegava ao seu ápice. Era o momento da garota olhar para os lados, assustada, aceitar os termos e ir embora, livre e sem nenhum peso na consciência.

O jovem acompanhou a vida inteira de Pierre nas suas buscas pelas garotas. Toda a complicação e o sofrimento que eles passaram em cada encontro com as supostas filhas. E sempre ficou indignado com aquele momento em que eles deixavam escorrer por suas mãos as únicas chances de recuperar seu coração.

E aquela garota ali faria igual, ele sabia. Nenhuma permanecia, nenhuma aceitaria morrer por um homem que não conhecia.

— Ele sabe, Lia. Ele está dando essa chance a você.

A reação de Pierre no jantar se tornou clara como vidro. Ele estava recuando antes que pudesse colocar expectativas demais em alguém que o abandonaria como tantas outras.

— Quantas outras passaram por aqui?

Ela balançou negativamente a cabeça e a expressão de surpresa no rosto da dupla foi imediata.

— Quantas outras meninas vocês trouxeram até aqui e fizeram essa mesma proposta?

Kevin olhou para Kyler, perdido, mas nem o amigo podia lhe ajudar. Nunca havia acontecido algo do tipo antes.

— Onze.

O número surpreendeu Lia.

— Onze?

O loiro assentiu ainda aturdido. Kyler olhou interessado para a jovem, mas manteve-se calado. Lia olhou de Kevin para a mansão e em seguida para o mar e o breu que caia sobre ele. Era admirável que eles continuassem buscando e livrando garota pós garota. E era triste.

Antes que Lia dissesse com todas as letras que não deixaria Pierre na mão, que buscaria uma forma de ajudá-lo, o som de água sendo espirrada invadiu o pequeno espaço entre o grupo. Estava escuro e nem Kevin nem Kyler viram o que agarrou a garota, mas os tentáculos foram bastante visíveis para Lia que gritou ao ser puxada e bater com tudo na água fria e escura, afundando.

— O que...

— Acho que perdemos mais uma garota – anunciou Kyler, entre o choque e a decepção.

— Não fale assim! – repreendeu Kevin – Temos que buscar os homens e resgatá-la! Sabe onde a correnteza daqui vai dar?

— Na praia do outro lado – apontou para o final das rochas, pouco visíveis na noite – mas não acho que ela vá sobreviver – o garoto olhou novamente para a água agora mais raivosa do que antes – vamos torcer para que ela seja realmente a filha da Deusa e vire um peixe.

Levando um tapa Kyler seguiu o loiro, passando repetidas vezes a mão na roupa, percebendo que havia se molhado com a queda de Lia.

— Que droga – resmungou vendo uma mancha escura no tecido.

Agora teria que trocar de roupa antes de empreender o resgate a mais uma donzela em perigo.

Notas finais
Tsc, tsc, tsc, e aí? O que esperam dos próximos capítulo? Hehehe.