A Herdeira do Lord das Trevas
10 Capítulo 10 - O alçapão
No futuro, Harry nunca conseguiria lembrar muito bem como conseguiu prestar seus exames enquanto esperava Voldemort irromper a qualquer instante pela porta. Cali até achou fácil mesmo não sabendo como conseguiu prestar atenção em seus exames. Contudo os dias foram se passando lentamente e não havia dúvidas de que Fofo continuava vivo e bem seguro atrás da porta trancada.
Fazia um calor de rachar, principalmente na sala das provas escritas. Os alunos tinham recebido penas novas e especiais para fazê-las, previamente encantadas com um feitiço anticola.
Houve exames práticos também. O Professor Flitwick os chamou à sala de aula, um a um, para verificar se conseguiam fazer um abacaxi sapatear na mesa. A Professora Minerva observou-os transformarem um camundongo em uma caixa de rapé e conferiu pontos pela beleza da caixa, e os descontou quando a caixa tinha bigodes. Snape deixou-os nervosos, bafejando em seu pescoço enquanto tentavam se lembrar como fazer a poção do esquecimento.
Harry Potter não era o único que sentia dores lancinantes na testa, Cali também sentia a mesma dor no corte em seu olho esquerdo desde a ida na floresta. Neville achou que estavam com uma crise de nervos provocada pelos exames, porque Harry não conseguia dormir, e Cali uma vez dormiu enquanto estudava para o exame de feitiços derrubando o tinteiro em cima de seu livro alegando que não conseguia dormir à noite, assim como Harry tinha pesadelos da figura encapuzada que pingava sangue.
Talvez fosse porque eles não tinham visto o que Harry e Cali viram na floresta, ou porque não tinham cicatrizes que queimavam, mas Rony e Hermione não pareciam tão preocupados com a Pedra quanto os dois primeiros. A lembrança de Voldemort sem dúvida os apavorava, mas não os visitava em sonhos, e estavam tão ocupados com as revisões que não tinham muito tempo para pensar no que Snape ou qualquer outro podia estar aprontando.
O último exame foi de História da Magia. Uma hora respondendo a perguntas sobre velhos bruxos gagás que inventaram caldeirões automexíveis e estariam livres, livres por uma semana maravilhosa até saberem os resultados dos exames.
Quando o fantasma do Professor Binns mandou-os descansar as penas e enrolar os pergaminhos, Harry não pôde deixar de dar vivas com os colegas.
— Foi muito mais fácil do que pensei— comentou Hermione, quando eles se reuniram aos numerosos alunos que saíam para os jardins ensolarados. — Eu nem precisava ter aprendido o Código de Conduta do lobisomem de 1637 nem a revolta de Elfric, o Ambicioso.
Hermione sempre gostava de repassar as provas depois, mas Rony disse que isso o fazia se sentir mal. Assim, caminharam até o lago e se sentaram à sombra de uma árvore. Os gêmeos Weasley e Lino Jordan faziam cócegas nos tentáculos de uma lula gigantes, que tomava sol na água mais rasa.
— Acabaram-se as revisões— suspirou Rony, contente, esticando-se na grama. — Você podia fazer uma cara mais alegre, Harry, está parecendo a Cali toda hora está massageando o rosto, temos uma semana inteira até descobrir se nos demos mal, não precisam se preocupar agora.
Cali parou de massagear as têmporas que doíam e olhou para Harry que esfregava a testa.
— Eu gostaria de saber o que significa isso! - explodiu aborrecido. — Minha cicatriz não para de doer, já senti isso antes, mas nunca com tanta frequência.
— Vocês dois deveriam procurar a Madame Pomfrey— sugeriu Hermione.
— Não estamos doentes Hermione— disse Cali aborrecida
— Acho que é um aviso... Significa que o perigo está se aproximando...— concluiu Harry
Rony não conseguiu se preocupar estava quente demais.
— Harry, relaxe. Hermione tem razão, a Pedra está segura enquanto Dumbledore estiver por aqui. Em todo o caso, nunca encontramos nenhuma prova de que Snape tenha descoberto como passar por Fofo. Ele quase teve a perna arrancada uma vez, não vai tentar outra tão cedo. E Neville vai jogar Quadribol na equipe da Inglaterra antes que Hagrid traia Dumbledore.
Harry concordou, mas não conseguiu se livrar da sensação que o atormentava de que esquecera de fazer alguma coisa, algo importante. Quando tentou explicar o que sentia, Hermione disse:
— Isso são os exames. Acordei a noite passada e já tinha lido metade dos meus apontamentos sobre Transfiguração quando me lembrei que já tínhamos feito a prova.
— Pode até ser Mione, mas Harry me disse que estamos esquecendo alguma coisa. — disse Cali ao ver a inquietação de Harry.
Harry tinha certeza de que a sensação de inquietude não tinha nada a ver com os estudos. Acompanhou com os olhos uma coruja planar pelo céu azul em direção à escola, uma carta no bico.
Hagrid era o único que lhe mandava cartas. Hagrid jamais trairia Dumbledore. Hagrid jamais contaria a ninguém como passar por Fofo... Jamais... Mas...
Harry pôs-se de pé de um salto.
— Onde é que você está indo?— perguntou Rony sonolento.
— Acabei de me lembrar de uma coisa.— Estava branco — Temos que ver Rúbeo agora.
— Por quê?— ofegou Hermione, correndo para alcançá-lo.
— Vocês não acham um pouco estranho— disse Harry, subindo, às carreiras, a encosta gramada — que o que Rúbeo mais quer na vida é um dragão, e aparece um estranho que por acaso tem ovos de dragão no bolso, quando isso é contra as leis dos bruxos? Que sorte encontrar Rúbeo, não acham? Por que não percebi isto antes.
— Por que não pensamos nisso antes? — disse Cali correndo ao lado de Harry
— Do que é que vocês estão falando?— perguntou Rony, mas Harry e Cali correndo pelos jardins em direção à floresta, não responderam
Hagrid estava sentado em um cadeirão na frente da casa: tinha as pernas das calças e as mangas enroladas e descascava ervilhas em uma grande tigela.
— Olá — disse, sorrindo — Terminaram os exames? Têm tempo para um refresco?
— Temos, obrigado— disse Rony, mas Harry o interrompeu.
— Não, estamos com pressa, Rúbeo, preciso lhe perguntar uma coisa. Sabe aquela noite que você ganhou o Norberto? Que cara tinha o estranho com quem você jogou cartas?
— Não lembro— respondeu Hagrid com displicência —, ele não quis tirar a capa...
Viu os quatro fazerem cara de espanto e ergueu as sobrancelhas.
— Não é nada demais, tem muita gente esquisita no Hog's Head, o pub do povoado. Podia ser um vendedor de dragões, não podia? Nunca vi a cara dele, ele não tirou o capuz.
Harry se abaixou ao lado da tigela de ervilhas.
— O que foi que você conversou com ele, Rúbeo? Chegou a mencionar Hogwarts?
— Talvez— disse Hagrid, franzindo a testa, tentando se lembrar — E.... Ele me perguntou o que eu fazia e eu respondi que era guarda-caça aqui... Depois perguntou de que tipo de bichos eu cuidava... Então eu disse... E disse também que o que sempre quis ter foi um dragão... Então... Não me lembro muito bem... Porque ele não parava de pagar bebidas para mim... Deixa eu ver... Ah, sim, então ele disse que tinha um ovo de dragão, e que podíamos disputá-lo num jogo de cartas se eu quisesse... Mas precisava ter certeza de que eu podia cuidar do bicho, não queria que ele fosse parar num asilo de velhos... Então respondi que depois do Fofo, um dragão seria moleza...
— E ele pareceu interessado no Fofo?— perguntou Cali, tentando manter a voz calma.
— Bom... Pareceu... Quantos cachorros de três cabeças a pessoa encontra por ai, mesmo em Hogwarts? Então contei a ele que Fofo é uma doçura se a pessoa sabe como acalmá-lo, é só tocar um pouco de música e ele cai no sono...
Hagrid, de repente, fez cara de horrorizado.
— Eu não devia ter-lhe dito isto!— exclamou. — Esqueçam que eu disse isto! Ei, aonde é que vocês vão?
Harry, Rony, Cali e Hermione não se falaram até parar no saguão de entrada, que parecia muito frio e sombrio depois da caminhada pelos jardins.
— Temos de procurar Dumbledore— falou Harry — Rúbeo contou àquele estranho como passar por Fofo e quem estava debaixo daquela capa era ou o Snape ou o Voldemort, deve ter sido fácil, depois que embebedou Rúbeo. Só espero que Dumbledore acredite na gente. Firenze talvez confirme, se Agouro não o impedir. Onde é a sala de Dumbledore?
Eles olharam a toda volta, na esperança de ver uma placa apontando a direção certa. Nunca alguém lhes havia dito onde trabalhava Dumbledore, tampouco conheciam alguém que tivesse sido mandado à sala dele.
— Dumbledore pediu para que eu fosse na sala dele uma vez, mas depois ele disse que conversaria comigo em outra ocasião— disse Cali
— Mas por que Dumbledore faria isso?— perguntou Harry interessado. — Acho que teremos de... — começou Harry, mas inesperadamente ouviram uma voz do outro lado do saguão.
— Que é que vocês estão fazendo aqui dentro? — Era a Professora Minerva McConagall, carregando uma pilha de livros.
— Queremos ver o Professor Dumbledore - disse Hermione enchendo-se de coragem, pensaram os outros três.
— Ver o Professor Dumbledore?— a Professora Minerva repetiu, como se isso fosse uma coisa muito suspeita para alguém querer fazer — Por quê?
Harry engoliu em seco. “E agora?”
— É uma espécie de segredo— disse, mas desejou na mesma hora que não tivesse dito, porque as narinas da Professora Minerva se alargaram.
— O Professor Dumbledore saiu faz dez minutos— informou ela secamente — Recebeu uma coruja urgente do Ministro da Magia e partiu em seguida para Londres.
— Ele saiu?— exclamou Harry frenético — Agora?
— Precisamos falar com ele — Cali disse no mesmo tom que Harry
— Riddle, Potter— bradou a professora. — O Professor Dumbledore é um grande mago, o tempo dele é muito solicitado.
— Mas é importante.— continuava Cali
— Sim é sobre... — Harry foi interrompido
— Alguma coisa que vocês tenham a dizer é mais importante do que o Ministro da Magia?
— Olhe — disse Harry, mandando a cautela às favas —, professora... É sobre a Pedra Filosofal...
Seja o que for que a Professora Minerva esperava, certamente não era isso. Os livros que levava despencaram dos seus braços, mas ela não os apanhou.
— Como é que vocês sabem?— deixou escapar.
— Professora, acho... Que Sn... Que alguém vai tentar roubar a pedra. — engasgou Harry, — Preciso falar com o Professor Dumbledore.
Ela o olhou com uma mescla de choque e desconfiança.
— O Professor Dumbledore volta amanhã— disse finalmente. — Não sei como descobriu sobre a Pedra, mas fique tranquilo, não é possível ninguém roubá-la, está muitíssimo bem protegida.
— Mas, professora...
— Potter sei do que estou falando.— Curvou-se e recolheu os livros caídos — Sugiro que vocês voltem para fora e aproveitem o sol.
Mas eles não voltaram.
— É hoje à noite— disse Harry, quando teve certeza de que a Professora Minerva não podia mais ouvi-los. — Snape vai entrar no alçapão hoje à noite. Ele já descobriu tudo o que precisa e agora tirou Dumbledore do caminho. Foi ele quem mandou aquela carta, aposto que o Ministro da Magia vai levar um choque quando Dumbledore aparecer.
— Mas o que é que podemos...
Hermione perdeu a fala quando Cali cutucou seu braço discretamente. Harry e Rony se viraram, Snape estava parado ali.
— Boa tarde— disse com suavidade.
Eles o encararam.
— Vocês não deviam estar dentro do castelo num dia como este— falou com um sorriso estranho e torto.
— Estávamos...— começou Harry, sem fazer ideia do que ia dizer.
— Vocês precisam ter mais cuidado. Andando por aqui assim, as pessoas vão pensar que estão armando alguma coisa. E Grifinória realmente não pode se dar ao luxo de perder mais nenhum ponto, não é mesmo?
Harry corou. Viraram-se para sair, mas Snape os chamou de volta.
— E fique avisado, Potter, se ficar perambulando outra vez à noite, vou providenciar pessoalmente para que seja expulso. Bom dia para vocês.
E saiu em direção à sala de professores. Lá fora, nos degraus de pedra, Harry virou-se para os outros.
— Certo isto é o que vamos fazer— cochichou com urgência. — Um de nós tem que ficar de olho no Snape, esperar do lado de fora da sala de professores e segui-lo se ele sair. Hermione é melhor você fazer isso.
— Por que eu?
— É óbvio— disse Rony. — Você pode fingir que está esperando pelo Professor Flitwick sabe, como é, — E fazendo voz de falsete — "Ah, Professor Flitwick. Estou tão preocupada, acho que errei a questão catorze b...”
— Ah, cala a boca— disse Hermione, mas concordou em vigiar Snape.
— E é melhor ficarmos no corredor do terceiro andar— disse Harry a Cali e Rony, mas aquela parte do plano não funcionou. Assim que chegaram a porta que separava Fofo do resto da escola, a Professora Minerva apareceu de novo, e desta vez perdeu as estribeiras.
— Suponho que você ache que é mais difícil alguém passar por você do que por um pacote de feitiços!— esbravejou. — Chega de bobagens! E se eu souber que você voltou aqui outra vez, vou descontar mais cinquenta pontos de Grifinória! É, Weasley, da minha própria casa!
Harry, Cali e Rony voltaram à sala comunal. Harry acabara de dizer "pelo menos Hermione está na cola de Snape", quando o retrato da Mulher Gorda se abriu e Hermione entrou.
— Sinto muito, Harry— lamentou-se. — Snape saiu e me perguntou o que eu estava fazendo, então disse que estava esperando Flitwick, e Snape foi busca-lo, e me mandei, não sei aonde ele foi.
— Bom, então acabou-se, não é?— disse Harry. Os outros dois olharam para ele. Estava pálido e seus olhos brilhavam.
— Já chega, vamos sair daqui hoje à noite e tentar apanhar a Pedra primeiro.— bradou Cali se levantando do sofá.
— Você ficou maluca!— exclamou Rony
— Não podemos!— disse Hermione — Depois do que a Professora Minerva e Snape disseram? Harry pode até ser expulso.
— E DAÍ?— gritou Harry — Cali tem razão, Vocês não percebem? Se Snape apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocês não ouviram contar como era quando ele estava tentando conquistar o poder? Não vai haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou vai transformá-la numa escola de magia negra! Perder pontos não importa mais, vocês não entendem? Acham que ele vai deixar vocês e suas famílias em paz, e Grifinória ganhar o campeonato das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar lá. E só uma questão de morrer um pouquinho depois do que teria morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidários da magia negra! Vou entrar naquele alçapão hoje à noite e nada que vocês dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, estão lembrados?
E olhou zangado para eles.
— Você tem razão, Harry - disse Hermione com uma vozinha fraca
— Vou usar a capa da invisibilidade, foi uma sorte tê-la recuperado.
— Mas ela dá para esconder nós quatro? - perguntou Rony.
— Nós... Nós quatro? Pensei que somente a Cali estivesse do meu lado
— Ah, corta essa, você não acha que vamos deixar vocês irem sozinhos? — disse Rony
— Claro que não— disse Hermione com energia. — Como acha que vai chegar à Pedra sem nós? E melhor eu dar uma olhada nos meus livros, talvez encontre alguma coisa útil.
— Mas se formos pegos, vocês dois vão ser expulsos também.— disse Cali a Rony e Hermione
— Não se eu puder evitar— disse Hermione séria. — Flitwick me disse em segredo que tirei cento e vinte por cento no exame. Não vão me expulsar depois disso.
Depois do jantar os quatro se sentaram, nervosos, a um canto do salão comunal. Ninguém os incomodou, afinal nenhum aluno de Grifinória tinha mais nada a dizer a Harry. Esta era a primeira noite que isto não o incomodava. Hermione e Cali folheavam seus apontamentos, esperando encontrar um dos feitiços que queriam anular. Harry e Rony não falavam muito. Pensavam no que estavam prestes a fazer.
A sala foi-se esvaziando, à medida que as pessoas iam se deitar.
— É melhor apanhar a capa— murmurou Rony, quando Lino Jordan finalmente saiu, se espreguiçando e bocejando. Harry correu até o dormitório às escuras. Puxou a capa e então seus olhos bateram na flauta que Hagrid lhe dera no Natal. Meteu-a no bolso para usá-la em Fofo, não se sentia muito animado a cantar.
E correu de volta ao salão comunal.
— É melhor vestirmos a capa aqui para ter certeza de que cobre nós quatro se Filch vir os pés da gente andando sozinhos.
— O que é que vocês estão fazendo?— perguntou uma voz a um canto da sala. Neville saiu de trás de uma poltrona, agarrando Trevo, o sapo, que parecia ter feito uma nova tentativa para ganhar a liberdade.
— Nada, Neville, nada— respondeu Harry, escondendo depressa a capa às costas.
Neville olhou bem para aquelas caras cheias de culpa.
— Vocês vão sair outra vez.
— Não, não, não— disse Hermione. — Não vamos, não. Por que você não vai se deitar, Neville?
Harry olhou para o relógio de parede junto à porta. Não podiam se dar ao luxo de perder mais tempo, Snape talvez estivesse naquele instante mesmo tocando para adormecer Fofo.
— Vocês não podem sair— disse Neville —, vocês vão ser pegos outra vez. Grifinória vai ficar ainda mais enrolada.
— Você não compreende, isto é muito importante — disse Cali
Mas Neville estava claramente tomando coragem para fazer alguma coisa desesperada.
— Não vou deixar vocês irem— disse, correndo a se postar diante do buraco do retrato. — Eu... Eu vou brigar com vocês.
— Neville— explodiu Rony —, se afaste desse buraco e não banque o idiota...
— Não me chame de idiota! Acho que você não devia estar desrespeitando mais regulamentos! E foi você quem me disse para enfrentar as pessoas!
— Foi, mas não nós— respondeu Rony exasperado. — Neville, você não sabe o que está fazendo.
Ele deu um passo à frente e Neville largou Trevo, o sapo, que desapareceu de vista.
— Vem, então, tenta me bater!— disse Neville, erguendo os punhos. — Estou esperando!
— Faz alguma coisa— Cali pediu desesperada para Hermione
Hermione se adiantou, — Neville— disse ela —, eu realmente lamento muito.
Ela ergueu a varinha. — Petrificus Totalus!— falou, apontando para Neville.
Os braços de Neville grudaram dos lados do corpo. As pernas se juntaram. Com o corpo inteiro rígido, ele balançou no mesmo lugar e, em seguida, caiu de cara no chão, duro como uma pedra. Hermione correu para desvirá-lo. Os maxilares de Neville estavam trancados de modo que ele não podia falar. Somente os olhos se moviam, mirando-os aterrorizados.
— O que foi que você fez com ele? - sussurrou Cali.
— O Feitiço do Corpo Preso— respondeu Hermione infeliz. — Ah, Neville, me desculpe.
— Tivemos de fazer isso, Neville, não temos tempo para explicar— disse Harry.
— Você vai entender mais tarde - disse Rony, enquanto passavam por cima dele e se envolviam na capa da invisibilidade.
Mas deixar Neville deitado imóvel no chão não parecia um bom presságio. No estado de nervosismo em que estavam, cada sombra de estátua lembrava Filch, cada sopro distante do vento parecia o Pirraça assombrando-os.
Ao pé do primeiro lance de escada, encontraram Madame Nor-r-ra, esquivando-se sorrateira quase no alto.
— Ah, vamos dar um pontapé nela, só desta vez— cochichou Rony no ouvido de Harry, mas Harry balançou a cabeça. Enquanto subiam cautelosamente contornando a gata, Madame Nor-r-ra virou os olhos de lanterna para eles, mas não fez nada.
Não encontraram mais ninguém até chegarem à escada para o terceiro andar. O Pirraça se balançava a meio caminho, soltando a passadeira para as pessoas tropeçarem.
— Quem está aí— perguntou de repente quando se aproximaram. E apertou os olhos negros e malvados. — Sei que está ai, mesmo que não consiga vê-lo. Você é um vampiro, um fantasma ou um estudante nojento?
E ergueu-se no ar e flutuou, tentando ver alguém.
— Eu devia chamar o Filch, eu devia, se alguma coisa está andando por aí invisível.
Harry teve uma ideia repentina. — Pirraça— disse num sussurro rouco —, o barão Sangrento tem suas razões para andar invisível.
Pirraça quase caiu, em choque. Recuperou-se a tempo e saiu planando a trinta centímetros dos degraus.
— Desculpe, Sua Sangüinidade, Sr. Barão, cavalheiro— disse untuoso. — Falha minha, falha minha, não o vi, claro que não, o senhor está invisível. Perdoe o velho Pirraça essa piadinha, cavalheiro.
— Tenho negócios a tratar aqui, Pirraça— cochichou Harry — Fique longe deste lugar hoje à noite.
— Vou ficar, cavalheiro, pode ter certeza de que vou ficar— prometeu o Pirraça, erguendo-se no ar outra vez. — Espero que os seus negócios corram bem, Barão, não vou perturbá-lo.
E, partiu ligeirinho.
— Genial Harry!— cochichou Rony.
Alguns segundos depois estavam lá, no corredor do terceiro andar e a porta já fora aberta.
— Bom, aqui estamos— disse Harry baixinho. — Snape já passou por Fofo.
A visão da porta aberta por alguma razão parecia causar neles a impressão do que os aguardava. Debaixo da capa, Harry se virou para os outros três.
— Se vocês quiserem voltar, não vou culpá-los. Podem levar a capa, não vou precisar dela agora.
— Harry, não chegamos até que aqui para irmos embora — disse Cali
— Não seja burro— respondeu Rony.
— Vamos com você— disse Hermione.
Harry empurrou a porta.
Quando a porta rangeu baixinho, chegaram aos seus ouvidos rosnados surdos. Os três focinhos do cachorro farejaram furiosamente em sua direção ainda que o bicho não pudesse vê-los.
— O que é isso nos pés dele?— sussurrou Hermione
— Parece uma harpa— respondeu Rony. — Snape deve tê-la deixado ai.
— Ele acorda no momento que se deixa de tocar— disse Cali.
— Bom, aqui vai... — Harry levou a flauta de Hagrid aos lábios e soprou. Não era realmente uma música, mas as primeiras notas os olhos da fera começaram a se fechar. Harry nem chegou a tomar fôlego.
Lentamente, os rosnados do cachorro cessaram, ele balançou nas patas e caiu de joelhos, depois se estirou no chão, completamente adormecido.
— Continue tocando — Rony preveniu a Harry enquanto saiam de baixo da capa e deslizavam para o alçapão. Sentiram o bafo quente e fedorento do cachorro ao se aproximarem de suas cabeçorras.
— Acho que vamos conseguir abrir a porta— disse Rony, espiando por cima do dorso do cachorro. — Quer entrar primeiro, Hermione?
— Não, eu não!
— Eu faço isso — disse Cali corajosamente e passou com cautela pelas pernas do cachorro. E abaixando-se puxou o anel do alçapão, que se abriu.
— Cali, O que é que você está vendo?— perguntou Hermione, ansiosa.
— Nada... Só escuridão... Não tem como descer, teremos que nos jogar.
— Qual é a profundidade? — perguntou Rony
— Não sei, quem vai primeiro? — Cali ainda olhava pelo alçapão
Harry, que continuava a tocar a flauta, fez sinal para atrair a atenção de Cali e apontou para si mesmo.
— Você quer ir primeiro? Tem certeza? não sei qual é a profundidade dessa coisa. Dá a flauta para Hermione manter Fofo adormecido.
Harry passou a flauta a ela. Naqueles minutinhos de silêncio, o cachorro rosnou e se mexeu, mas no instante que Hermione começou a tocar, ele tornou a cair em sono profundo.
Harry passou por cima de Fofo e espiou pelo alçapão. Não viu nem sinal de fundo.
Baixou o corpo pelo buraco até ficar pendurado pelas pontas dos dedos, Então olhou para Rony no alto e disse: — Se alguma coisa acontecer comigo, não me siga. Vá direto ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo?
— Certo.
— Vejo você daqui a pouco, espero...
E Harry soltou os dedos. Um vento frio e úmido passou rápido por ele, que foi caindo, caindo, caindo e... Pam.
Com um baque engraçado e surdo ele bateu em alguma coisa macia. Sentou-se e apalpou à volta, os olhos desacostumados à escuridão. Parecia que estava sentado em uma espécie de planta.
— Tudo bem!— gritou para a claridade do tamanho de um selo lá no alto, que era o alçapão aberto. — A queda é macia pode pular!
Cali seguiu-o imediatamente. Caiu esparramada ao lado de Harry. Rony caiu em seguida quase em cima dela.
— O que é isso que eu cai em cima?— foram as primeiras palavras de Rony
— Meu braço — disse Cali fazendo cara de dor
— Me desculpe, mas eu me referia a essa coisa
— Sei lá, uma espécie de planta. Suponho que esteja aqui para amortecer a queda.— disse Harry
— Venha, Hermione!— gritou Cali
A música distante parou. Ouviu-se um latido alto do cachorro, mas Hermione já pulara. Ela caiu do outro lado de Harry.
— Devemos estar a quilômetros abaixo da escola— comentou.
— É realmente uma sorte que esta planta esteja aqui— disse Rony.
— Sorte!— gritou Hermione. — Olhem só para vocês três.
Ela se levantou de um salto e lutou para chegar à parede úmida. Teve de lutar porque, no momento em que chegou ao fundo, a planta começou a se enroscar como as gavinhas de uma trepadeira em volta dos seus tornozelos. Quanto a Harry, Cali e Rony, suas pernas já tinham sido bem atadas por longos galhos sem que eles notassem.
Hermione conseguira se desvencilhar antes que a planta a agarrasse para valer. Agora observava horrorizada os outros três lutarem para se livrar da planta, mas quanto mais se esforçavam, mais depressa e mais firme a planta se enrolava neles.
— Parem de se mexer!— mandou Hermione. — Sei o que é isso. É visgo do diabo!
— Ah fico tão contente que você saiba como se chama, é uma grande ajuda— resmungou Rony, tentando impedir que a planta se enroscasse em seu pescoço.
— Cala a boca, estou tentando me lembrar como matá-la!— disse Hermione.
— Minha perna está doendo muito — exclamou Cali
— Hermione, anda logo, não consigo respirar!— ofegava Harry, lutando com a planta que se enroscava em torno de seu peito.
— Visgo do diabo, visgo do diabo... O que foi que a Professora Sprout disse? Gosta da umidade e da escuridão...
— Então acenda um fogo!— engasgou-se Harry.
— É... É claro... Mas não tem madeira...— lamentou-se Hermione, torcendo as mãos.
— VOCÊ ENLOUQUECEU?— berrou Rony, — VOCÊ É UMA BRUXA OU NÃO É?
— Ah, certo!— disse Hermione e, puxando a varinha, sacudiu-a, murmurou alguma coisa e despachou um jato daquelas chamas azuis que usara em Snape contra as plantas. Em questão de segundos, os três sentiram a planta afrouxar e se encolher para longe da luz e do calor. Torcendo-se, ela se desenrolou dos corpos dos três, que puderam se levantar.
— Que sorte que você presta atenção às aulas de Herbologia, Hermione— disse Harry, quando se juntou a ela ao pé da parede, enxugando o suor do rosto.
— É— comentou Rony —, e que sorte que Harry não perde a cabeça numa crise, "não tem madeira", francamente.
— Minha perna ainda está doendo — resmungou Cali se escorando na parede
— Mas é claro, a planta quase esmagou ela — disse Rony
— Por ali— disse Harry, apontando um corredor de pedra que era o único caminho que havia.
Só o que podiam ouvir além de seus passos eram os pingos abafados da água que escorria pela parede. O corredor começou a descer e Harry se lembrou de Gringotes. Com um sobressalto, lembrou-se dos dragões que, segundo diziam, guardavam os cofres-fortes no banco dos bruxos. Se topassem com um dragão, um dragão adulto... Norberto já fora bastante ruim.
— Você está ouvindo alguma coisa?— Rony cochichou.
Harry apurou os ouvidos. Um farfalhar acompanhado de ruído metálico parecia vir de um ponto mais adiante.
— Você acha que é um fantasma? — perguntou Cali andando e mancando
— Não sei... Para mim parecem asas. — respondeu Harry
— Há luz à frente, estou vendo alguma coisa se mexendo. — disse Rony
Chegaram ao fim do corredor e depararam com uma câmara muito iluminada, o teto abobadado no alto. Era cheia de passarinhos, brilhantes como joias, que esvoaçavam e colidiam pelo aposento. Do lado oposto da câmara havia uma pesada porta de madeira.
— Você acha que nos atacarão se atravessarmos a câmara?— perguntou Rony.
— Provavelmente— respondeu Harry, — Eles não parecem muito bravos, mas suponho que se todos mergulhassem ao mesmo tempo... Bom, não tem remédio... Vou correr.
Tomou fôlego, cobriu o rosto com os braços e atravessou a câmara correndo. Esperava sentir bicos afiados e garras atacando-o a qualquer minuto, mas nada aconteceu. Alcançou a porta incólume. Baixou a maçaneta, mas a porta estava trancada.
Os outros três o seguiram. Fizeram força para abrir a porta, mas ela nem sequer se moveu, nem mesmo quando Hermione experimentou o seu feitiço Alorromora.
— E agora?— perguntou Rony.
— Esses pássaros... Não podem estar aqui só para enfeitar— disse Hermione.
Eles observaram os pássaros voando no alto, brilhando.
— Brilhando?
— Eles não são pássaros!— Harry exclamou de repente. — São chaves! Chaves aladas, olhem com atenção. Então isso deve querer dizer...— e olhou à volta da câmara enquanto os outros três apertavam os olhos para enxergar o bando de chaves no alto — olhe! Vassouras! Temos que apanhar a chave da porta.
— Harry tem centenas de chaves lá em cima— disse Cali
Rony examinou a fechadura.
— Estamos procurando uma chave bem grande e antiga, provavelmente de prata, como a maçaneta.
Cada um apanhou uma vassoura e deu impulso no ar, mirando o meio da nuvem de chaves. Tentaram agarrá-las, mas as chaves encantadas fugiam e mergulhavam tão rápido que era quase impossível apanhar uma.
Mas não era à toa que Harry era o mais jovem apanhador do século. Tinha um jeito para localizar coisas que os outros não tinham. Depois de um minuto trançando pelo redemoinho de pernas, ele notou uma chave grande de prata que tinha uma asa dobrada, como se já tivesse sido apanhada e enfiada de qualquer jeito na fechadura.
— Aquela ali!— gritou para os outros — Aquela grandona... Ali... Não... Lá... Com as asas azul-forte. As penas estão todas amassadas de um lado.
Rony precipitou-se na direção que Harry apontava, bateu no teto e quase caiu da vassoura.
— Temos que cercá-la!— gritou Harry, sem tirar os olhos da chave com a asa danificada. — Rony, você cerca por cima. Hermione, fica embaixo e não deixa ela descer, e eu vou tentar pegá-la pela direita e você Cali pela esquerda, Certo, AGORA!
Rony mergulhou, Hermione disparou para o alto, Cali para frente quase escorregando da vassoura, a chave desviou-se dos três, e Harry partiu atrás dela, a chave correu para a parede, Harry se curvou para frente e, com uma pancada feia, prendeu-a contra a pedra com a mão. Os vivas de Rony, Cali e Hermione ecoaram pela câmara.
Eles pousaram em seguida e Harry correu para a porta, a chave a se debater em sua mão. Enfiou-a na fechadura e virou-a, deu certo. No instante em que ouviram o barulho da lingueta se abrindo, a chave tornou a alçar voo, parecendo agora muito maltratada depois de ter sido apanhada duas vezes.
— Estão prontos?— Harry perguntou aos três, a mão na maçaneta da porta. Eles fizeram um sinal afirmativo com a cabeça.
Ele escancarou a porta.
A câmara seguinte era tão escura que não dava para ver absolutamente nada. Mas, ao entrarem nela, a luz inesperadamente inundou o aposento, revelando uma cena surpreendente.
Estavam parados na borda de um enorme tabuleiro de xadrez atrás das peças pretas, que eram todas mais altas do que eles e talhadas em um material que parecia pedra. De frente para eles, do outro lado da câmara, estavam dispostas as peças brancas. Harry, Rony, Cali e Hermione sentiram um leve arrepio, as peças brancas e altas não tinham feições.
— Agora o que vamos fazer?— sussurrou Harry.
— É óbvio, não é?— falou Rony. — Temos que jogar para chegar ao outro lado da câmara.
Por trás das peças brancas eles podiam ver outra porta.
— Como?— perguntou Hermione, nervosa.
— Acho que vamos ter que virar peças. — disse Cali
Rony se dirigiu a um cavalo preto e esticou a mão para tocar seu cavaleiro. No mesmo instante, a pedra ganhou vida. O cavalo pateou o tabuleiro e seu cavaleiro virou a cabeça protegida por um elmo pata olhar Rony.
— Temos que nos unir a vocês para chegar ao outro lado?— O cavaleiro preto confirmou com a cabeça. Rony virou-se para os outros três.
— Isto exige reflexão— disse. — Suponho que a gente tenha que tomar o lugar de quatro peças pretas...
Harry, Cali e Hermione ficaram quietos, observando Rony refletir. Finalmente ele disse:
— Agora não vão se ofender, mas nenhum de vocês é tão bom assim em xadrez...
— Não estamos ofendidos— interrompeu Harry depressa
— Diga logo Rony o que é que temos que fazer — exclamou Cali
— Bom, Harry, você toma o lugar daquele Bispo e, Hermione, você fica ao lado dele substituindo a Torre. E você Calista é a rainha.
— E você?
— Vou ser o cavaleiro.
As peças pareciam estar escutando, porque ao ouvir isso um cavaleiro, um bispo, uma torre e a rainha deram as costas às peças brancas e saíram do tabuleiro, deixando quatro casas vazias, que Harry, Rony, Cali e Hermione ocuparam.
— No xadrez as brancas sempre jogam primeiro— explicou Rony, observando o tabuleiro. — É... Olhem...
Um Peão branco avançara duas casas.
Rony começou a comandar as peças pretas. Elas se mexiam em silêncio indo aonde eram mandadas. Os joelhos de Harry tremiam.
— Não vamos perder Harry— gritou Cali
— Cali agora não é hora de adivinhar meus pensamentos— disse Harry
— Harry, ande quatro casas para a direita em diagonal.
O primeiro choque de verdade que levaram foi quando o outro Cavalo foi comido. A Rainha branca esmagou-o no chão e arrastou-o para fora do tabuleiro, onde ele ficou deitado imóvel, de borco no chão.
— Eu tinha que deixar isso acontecer— disse Rony, parecendo abalado. — Assim você fica livre para comer aquele Bispo, Hermione, ande.
Todas as vezes que eles perdiam uma peça, as peças brancas não mostravam piedade. Dali a pouco havia uma coleção de peças pretas inertes encostadas à parede. Duas vezes, Rony reparou, em cima do lance, que Harry, Cali e Hermione estavam em perigo. Ele próprio disparou pelo tabuleiro comendo quase tantas peças brancas quanto as pretas que haviam perdido.
— Estamos quase chegando— murmurou de repente. — Me deixem pensar... Deixe-me pensar...
A Rainha branca virou o rosto vazio para ele.
— E... — continuou ele baixinho —, é o jeito... Preciso me sacrificar.
— Não!— os outros gritaram
— Isto é xadrez!— retorquiu Rony. — A pessoa tem que fazer alguns sacrifícios! Dou um passo à frente e ela me come, isso deixa você livre para dar o xeque-mate no Rei, Harry!
— Mas...
— Você quer deter Snape ou não?
— Rony...
— Olhe, se você não se apressar, ele já terá apanhado a Pedra!
Não havia opção.
— Pronto?— perguntou Rony, o rosto pálido, mas decidido. — Então vamos, agora, não se demore depois de ganhar a partida.
Ele avançou e a rainha branca o atacou. Golpeou Rony com força na cabeça com o braço de pedra e ele caiu com estrondo no chão. Hermione gritou, mas continuou parada em sua casa. A rainha branca arrastou Rony para um lado. Ele parecia ter sido nocauteado.
Trêmulo, Harry se deslocou três casas para a esquerda.
O Rei branco tirou a coroa e jogou-a aos pés dele. Os meninos tinham ganhado o jogo. As peças se afastaram para os lados e se curvaram, deixando o caminho livre para a porta em frente. Com um último olhar desesperado para Rony, Cali, Harry e Hermione se precipitaram para a porta e para o corredor seguinte.
— E se ele...? — hesitou Hermione
— Ele vai ficar bem— disse Harry, tentando convencer a si mesmo. — Que é que você acha que vai acontecer agora?
— Tivemos o feitiço da Sprout, o Visgo do Diabo. Flitwick deve ter encantado as chaves. McGonagall transfigurou as peças de xadrez para lhes dar vida. Faltam o feitiço de Quirrell e o de Snape. — disse Cali
Tinham chegado à outra porta.
— Tudo bem?— cochichou Harry.
— Vamos.
Harry empurrou a porta para abri-la.
Um fedor horrível entrou por suas narinas, fazendo os dois puxarem as vestes para cobrir o nariz. Com os olhos lacrimejando, eles viram, deitado no chão diante deles, um trasgo ainda maior do que o que tinham enfrentado, desacordado e com um calombo ensanguentado na cabeça.
— Um trasgo? Com certeza isso é coisa do Quirrell— debochou Cali
— Que bom que não precisamos lutar contra este aí— sussurrou Harry, enquanto, cautelosamente, saltavam por cima da perna maciça do trasgo. — Vamos, não estou conseguindo respirar.
Harry abriu a porta seguinte, os três mal se atreviam a olhar o que vinha a seguir, mas não havia nada muito assustador ali, apenas uma mesa e sobre ela sete garrafas de formatos diferentes.
— É o de Snape— disse Harry. — O que temos de fazer?
Ao cruzarem a soleira da porta, imediatamente irromperam chamas atrás deles. E não eram chamas comuns tampouco, eram roxa. Ao mesmo tempo, surgiam chamas pretas na porta adiante.
Estavam encurralados.
— Olhem! - Hermione apanhou um rolo de papel que havia ao lado das garrafas. Harry e Cali espiaram por cima de seus ombros para ler o papel:
O perigo o aguarda à frente, a segurança ficou atrás, Duas de nós o ajudaremos no que quer encontrar, Uma dos sete o deixará prosseguir, A outra levará de volta quem a beber, Duas de nós conterão vinho de urtigas, Três de nós aguardam em fria para o matar, Escolha, ou, ficará aqui para sempre, E para ajudá-lo, lhe damos quatro pistas:
Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno, Você sempre encontrará um à esquerda do vinho de urtigas, Segunda, são diferentes as garrafas de cada lado,
Aliás, se você quiser avançar nenhuma é sua amiga, Terceira, é visível que temos tamanhos diferentes, Nem a anã nem a gigante leva a morte no bojo, Quarta, a segunda à esquerda e a segunda à direita São gêmeas ao paladar, embora diferentes à vista.
Hermione deixou escapar um grande suspiro, perplexos, Harry e Cali viram que ela sorria, a última coisa que eles tinham vontade de fazer.
— Genial— disse — Isto não é mágica, é lógica, uma charada, a maioria dos grandes bruxos não tem um pingo de lógica, ficariam presos aqui para sempre
— E nós também, não?
— Claro que não. Tudo o que precisamos está aqui neste papel. Sete garrafas: três contêm veneno, duas, vinho, uma nos ajudará a passar a salvo pelas chamas negras, e uma nos levará de volta através das chamas roxas.
— Mas como vamos saber qual delas beber?— perguntou Cali
— Me dê um minuto.— Hermione leu o papel diversas vezes. Depois passou em revista a fila de garrafas, para cima e para baixo, resmungando de si para si e apontando para as garrafas. Finalmente, bateu palmas.
— Já sei. A garrafa menor nos fará atravessar as chamas negras, rumo à pedra.
Harry mirou a garrafinha.
— Ali só tem o suficiente para um de nós. Não chega a ter um gole.
Eles se entreolharam.
— Qual é a que a fará voltar pelas chamas roxas?— perguntou Cali
Hermione apontou para uma garrafa arredondada na ponta direita da fila.
— Vocês duas bebem essa— disse Harry — Agora, escutem, voltem e recolham o Rony, apanhem vassouras na câmara das chaves aladas, elas levarão vocês para fora do alçapão e por cima de Fofo. Vão direto ao corujal e mandem Edwiges a Dumbledore, precisamos dele. Talvez eu possa segurar Snape por algum tempo, mas não sou páreo para ele.
— Eu vou com você Harry — disse Cali
— Não, é muito perigoso, sua perna está machucada e também não tem muito liquido nessa garrafinha
— Harry eu não estou pedindo permissão — disse Cali docemente
— Mas Harry, e se Você-Sabe-Quem estiver com ele? Talvez Cali pudesse lhe ajudar?
— Como? dois estudantes contra dois grandes bruxos das trevas?
— Harry se lembra daquele dia na floresta? Estávamos juntos não é? — disse Cali
— Como eu não poderia me lembra? — Harry ficou pensativo, — Está bem, eu desisto de faze-la desistir de vir comigo, fique perto de mim.
— Vamos conseguir Harry já tivemos sorte uma vez — sorriu Cali passando o dedo indicador pela sua franja descobrindo seu olho esquerdo.
— Parece que já tivemos a mesma sorte não é?— disse Harry indicando a sua cicatriz
A boca de Hermione estremeceu e ela correu de repente os abraçando.
— Hermione. — falaram juntos
— Vocês são grandes bruxos, sabiam?
— Não tanto bom quanto você— disse Harry, muito sem graça, quando ela os largou.
— Eu! livros! E inteligência! Há coisas mais importantes, amizade e bravura e, ah, tenham cuidado!
— Você bebe primeiro - disse Harry a Hermione — Você tem certeza de qual é qual, não tem?
— Positivo.
Ela tomou um demorado gole da garrafa arredondada na ponta e estremeceu.
— Não é veneno?— perguntou Harry ansioso.
— Não... Mas parece gelo.
— Vai logo antes que o efeito passe.
— Boa sorte... Cuidem-se...
— VAI! — gritaram Harry e Cali
Hermione virou-se e passou direto pelas chamas roxas.
Harry tomou fôlego e apanhou a garrafa menor de todas.
— Não tem muito, vamos juntos? — disse Harry
— Juntos
Viraram-se para encarar as chamas negras.
— Aqui vamos nós— disse Harry e viraram a garrafinha cada um engoliu o que pareceu ser somente uma gota esvaziando a garrafinha.
Era na verdade como se o gelo estivesse invadindo seus corpos. Ele deixou a garrafa na mesa e avançaram, enchendo-se de coragem, viram as chamas negras lamberem seus corpos, mas não as sentiu, por um instante não viram nada a não ser as chamas negras, então viram quem estava do outro lado, na última câmara. Havia alguém lá, mas não era Snape. Tampouco Voldemort.
Fale com o autor