Era uma noite calma no Salão Principal. A chuva tamborilava suavemente nas janelas, e a maioria dos alunos já estava recolhido nos dormitórios. Amy, no entanto sentada de pernas cruzadas em uma mesa da Grifinória com sua amiga Rose, diante de um tabuleiro de xadrez bruxo flutuante. Rose estava do outro lado, com as mangas da blusa arregaçadas e um sorriso vitorioso no rosto.

— Xeque. De novo — disse Rose, apoiando o queixo na mão, satisfeita.

Amy estreitou os olhos para o tabuleiro. Seu cavalo estava em pedaços, a torre recuava em desespero e o bispo estava… debatendo se fugia ou fingia que era um peão.

— Você é irritante — murmurou Amy, mexendo uma peça para adiar o inevitável.

— Você que me chamou pra jogar. — Rose estalou os dedos. — Além disso, você me venceu na última partida de Runas cruzadas. Estou apenas restaurando o equilíbrio do universo.

— Desequilibrando, você quer dizer — Amy resmungou, e Mirra, que observava a partida de cima da mesa, bufou em solidariedade.

A torre de Rose bateu palmas e se atirou contra o bispo de Amy, arremessando-o para fora do tabuleiro com um “Argh!” dramático.

— Xeque-mate — anunciou a torre, com um pequeno giro vitorioso.

Amy suspirou, encostando-se à parede.

— Um dia, minha torre vai bater na sua.

— Aguardarei com dignidade — disse Rose, rindo.

Por alguns instantes, ficaram apenas ali, ouvindo a chuva. Amy recolheu os pedaços das peças com um feitiço silencioso e empurrou o tabuleiro para o lado. Rose mordeu um pedaço de biscoito de chocolate que tirara de um bolso encantado da túnica.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse Rose, entre uma mordida e outra.

— Você nunca pediu permissão antes.

— Verdade. Mas eu ando tentando ser menos mandona.

Amy arqueou uma sobrancelha.

— É o seu esforço visível...

— Não exija muito. É um processo.

Ambas riram. Então Rose se inclinou um pouco mais para frente.

— Adivinhação. Você realmente acredita nisso?

Amy não se ofendeu. Apenas olhou para a amiga com uma expressão calma.

— Sim.

— Mesmo? Com todo aquele... balançar de incenso e profecias vagas? – comentou Rose gesticulando dramaticamente tentando imitar o que ela acreditava ser um vidente.

— Padma Patil não balança incenso — corrigiu Amy. — E não é sobre prever o futuro. É sobre perceber o que já está se formando. Como ler um céu nublado e saber que vai chover, mesmo sem ver as gotas.

Rose refletiu por um momento, depois balançou a cabeça.

— Você é boa com metáforas. Não tão boa com torres.

— Ainda estou aprendendo.

Um novo silêncio se formou, mas não era desconfortável. Rose mastigava devagar, e Amy desenhava espirais invisíveis na mesa com a ponta do dedo.

— Sabe o que é engraçado? — disse Rose, num tom mais baixo. — Ninguém me conhece de verdade. Acham que sou só notas altas e sarcasmo. E eu deixo.

Amy olhou para ela, atenta.

— Não é mais leve. Só mais fácil.

— Exato.

Rose ficou um tempo calada. Depois, suspirou.

— Meu pai me ensinou a jogar xadrez bruxo quando eu tinha seis anos. Me deixava vencer às vezes. Só pra eu sentir que era boa.

— Eu ganhei xadrez trouxa sozinha uma vez. Do diretor do meu orfanato — disse Amy. — Ele ficou tão irritado que derrubou o tabuleiro e disse que eu devia ter colado.

— E colou?

— Não. — Amy sorriu. — Mas talvez tenha previsto a jogada dele.

Ambas caíram na gargalhada, e até Mirra abriu um olho preguiçoso, ofendida com o barulho.

— Sabe — disse Rose, mais suave agora —, acho que nunca contei isso pra ninguém.

— Nem o lance do seu pai ou o lance de esconder quem você é?

Rose suspirou.

— Os dois.

— Então posso contar um também? — perguntou Amy, voltando o olhar para o tabuleiro agora adormecido.

Rose assentiu, curiosa.

Amy olhou para a palma da mão por um segundo. Não havia marca visível ali, mas ela a sentia.

— Às vezes, eu sonho com lugares que nunca estive. E acordo com a sensação de que... alguma parte de mim ainda está lá. Como se eu tivesse deixado um eco.

Rose não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão, e Amy a pegou com naturalidade.

— Bom — disse Rose, depois de um tempo —, minha família toda é esquisita, já era de se esperar que as minha amizades não fossem exatamente normais não é? Outra partida então? – Perguntou Rose sorrindo.

Amy sorriu. E por algum motivo, aquelas palavras pareceram mais mágicas do que qualquer feitiço aprendido naquele ano.