A Herdeira Da Máfia

29 XXIX. Hanging Tree.


SOPHIE

Sinto meus olhos pesados e meu corpo todo parece gritar de dor, que mal consigo me mover. Tento me levantar, mas meus pulsos parecem estar amarrados e isso me deixa assusta. Abro os olhos dando de cara com um homem estranho me observando sentado em um grande sofá. Ele estava dormindo e tento me desvencilhar das amarras que me prendem naquela espécie de maca, mas é impossível. Procuro algum objeto cortante que me ajudasse naquele momento, entretanto nenhum deles era idiota o bastante para deixar algo assim para mim, quase que de presente.

Observo aquele cômodo e suponho que esteja em algum tipo de fábrica abandonada. A porta de metal vinha acompanhada da escrita “enfermaria” e um grande vidro ao lado dela proporcionava a visão do andar de baixo onde um milhão de máquinas paradas envelheciam com o tempo. O homem a minha frente era moreno e alto, usava um terno elegante com o símbolo da Cosa Nostra em seu peito esquerdo. Aos poucos seus olhos se abrem e ele se espreguiça sobre o sofá, fazendo meu corpo inteiro ficar em estado de alerta.

— Você acordou. – Diz de modo autoritário se levantando e estremeço tentando mover meus pés, notando que eles também estava amarrados.

Vejo o homem se aproximar de uma mesinha pegando algo que não consegui identificar e caminha em minha direção. Sinto minha garganta secar e tento mais uma vez me mover. Rapidamente ele quebra a distancia entre nós e vejo que segurava uma garrafa. Sinto a garrafa em meus lábios e faço de tudo para o liquido não entrar em contato com minha boca, mas quando noto que é água, bebo em uma rapidez impressionante. Definitivamente, eu estava com sede. O homem sorri educadamente, esperando paciente até que toda a garrafa estivesse vazia.

— Por que está me dando água? – Pergunto baixinho quando o mesmo se afasta, colocando a garrafa de volta em seu lugar.

— Faz horas que não bebe nada e essa garotinha deve estar com sede. – Responde colocando sua mão em minha barriga com cuidado. – Precisa estar preparada ao menos para correr quando seu marido chegar.

— Ethan está vindo? Como sabe disso? E como pode saber que é uma menina se...

— Estou do lado de Anthony, Sophie. O mesmo me avisou e pediu que ficasse despreocupada. – Ele me corta rapidamente e antes de completar, sorri. – Dr. Richard é médico da Cosa Nostra e fez um exame em você que consegue descobrir o sexo do bebê já no segundo mês de gestação. É uma menina.

— Uma menina? – Um sorriso escapa dos meus lábios. – E ela está bem? Quer dizer, depois do que aconteceu...

— Sim, vocês duas estão fora de perigo.

— Não contou à Anthony, não é?

— Acredito que isso não cabe a mim, senhorita Gavin. – Murmura ele e eu assenti concordando.

— Sabe o que Augustos está planejando?

— Ele e Dr.Richard foram embora deixando o lugar com alguns seguranças apenas. O aviso já foi dado. E ele acredita que Anthony entendeu o recado. – Diz ele com naturalidade.

— Tudo bem... Então me tira daqui. – Peço tentando sem sucesso, me desvencilhar daquelas amarras pela milésima vez.

— Sinto muito, mas se eu o fizesse desconfiariam de mim já que fiquei encarregado de te observar de perto. – Ele se desculpa e eu assenti entendendo. – Me chamo Mike. Ainda está com sede?

— Não, obrigada. Agora, eu só quero que Ethan chegue logo. – Sussurro engolindo em seco e virando o rosto em direção a janela que dava a visão do lado de fora. Vários seguranças estavam a postos e faço uma prece em silencio para que, além de chegar logo, que ele não tenha nenhum arranhão também. Ainda mais agora, que tem duas garotas para cuidar. Ouso sorrir mais uma vez.

Uma menina.

Minha menina.

HANNAH

Estávamos há alguns minutos ali atrás de algumas arvores observando todo o tipo de movimentação, dentro e fora daquela fábrica. Nossas armas já estavam destravadas prontas para o que quer que fosse acontecer agora. Ainda me lembrava do que Logan me ensinara, seja em como manusear armas, punhais e lutar. Entretanto não sou tão boa quanto aqueles caras e a prova disso foi no dia que um deles quase me enforcou. Eles estavam ali segurando armas mais poderosas e potentes que a nossa, fora a quantidade deles que com certeza era maior do que apenas dois. Sabia que cada um estava preparado para me matar a partir do momento em que eu pisasse naquele campo minado e eu teria que matá-los também, então estava me preparando mentalmente para tudo aquilo.

— Precisamos pensar em algo para atacá-los. – Murmura Ethan ao meu lado. – Deve haver no mínimo dez homens ali dentro e não sabemos como Sophie está agora.

— Eu tenho uma ideia para conseguir entrar lá, mas precisamos de uma quando estivermos lá dentro. – Digo cruzando os braços e ele se aproxima curioso.

— Tudo bem, nos viramos lá dentro. Qual é sua ideia? – Pergunta assentindo de uma maneira que me passava confiança. Parte de mim sabia que ele só estava confiando em mim para isso, porque precisava.

— Eu cresci com prostitutas, e aquele pessoal ali... – Aponto em direção deles. – São homens. Me ajude a rasgar minhas roupas.

Seguro o tecido do meu vestido rasgando um pedaço e deixo minha jaqueta caída nos ombros. Retiro meu calçado e bagunço meus cabelos. Borro o batom escuro que estava em meus lábios e o jogo o pequeno cinto que enfeitava o vestido no chão. Escondo a arma do bolso de dentro da jaqueta e encaro Ethan que ainda não tinha ideia do que eu estava prestes a fazer.

— Tome cuidado, Hannah. – Murmura quando me viro e eu o encaro sorrindo de lado.

— Não precisa tentar ser legal. Sei que me odeia.

— Você está arriscando sua vida para salvar Sophie. Eu não te odeio e muito menos, estou tentando ser legal. – Vocifera. – Estou tentando aprender a ser um irmão mais velho, apenas.

Aquela frase me pegou de surpresa, mas aproveito a situação para colocar o plano em prática e pensar em algo bonito para dizer depois. Quer dizer, eu também não tinha ideia de como era ter um irmão mais velho, a não ser por Allan que sempre cuidou de mim como se fosse. Precisava invocar meu lado megera, que por mais que pareça não existir em mim, estava ali, escondido em um canto bem escuro. Fecho os olhos, pronta para uma atuação fajuta de garota desesperada e então corro apressadamente em direção aos homens ali.

— Socorro. – Grito sem parar de correr. – Por favor, me ajudem. Por favor.

Sabe Deus como consegui fazer com que lágrimas escorressem de meus olhos, entretanto lá estava eu agindo como uma garotinha em perigo. Abraço o primeiro homem que vejo em minha frente e ele parece atônito. Aquela cena atrai a atenção dos outros cinco seguranças que estavam ali e todos se aproximam de mim preocupados.

— O que houve senhorita? – Pergunta o homem acariciando minhas costas como se eu fosse me sentir segura em seus braços. Suas intenções eram bem claras, mas eu não podia parecer que notara isso então mordo o lábio inferior, segurando sua gravata.

— Um homem estava atrás de mim e eu só corri. Estou com muito medo, me ajuda, por favor. – Peço aos prontos e o homem sorri enxugando lágrimas que se espalhavam pelo meu rosto. Em um rápido movimento, retiro a arma da jaqueta e atiro em sua cabeça, vendo seu corpo cair mole sobre o meu.

Um milhão de tiros são disparados e uso aquele corpo como escudo caminhando em direção das armas e atirando em cada um ali. Noto a presença de Ethan atrás de um dos homens que definitivamente era o melhor atirador dentre os existentes ali. Ele quebra o pescoço do homem com maestria e usa a arma do cara para atirar nos seguranças que restaram ali. Jogo o corpo ensanguentado do homem longe e corro até meu irmão que checa se eu havia me ferido.

— Está tudo bem, eu teria sentido algo se tivesse sido atingida. – Murmuro ainda estranhando aquele gesto.

— Nem sempre você sente dor quando leva um tiro, a adrenalina acaba fazendo com que não sinta nada algumas vezes. – Diz ele se afastando somente para pegar as armas dos outros corpos ali. – Pronta para mais uma rodada?

— Aproveita que adrenalina é o que não me falta agora. – Balbucio arrancando uma risada sua.

Corremos em direção a porta de entrada de fábrica e ficamos ali alguns segundos esperando alguma movimentação do lado de dentro, mas nada foi ouvido então Ethan arromba a porta e entra primeiro mirando de um lado enquanto eu apontava a arma para outro. Três homens descem as escadas atirando para todos os lados e nos escondemos atrás das máquinas do local. Damos a volta, pegando os homens desprevenidos e atiramos em todos eles. Subimos as escadas gritando desesperados pela Sophie sem se importar com quem pudesse ouvir, se é que ainda haviam mais pessoas. E observamos uma luz ligada na fresta de uma porta metálica com as escritas “enfermaria”. A porta estava aberta e miramos no único segurança que estava ali. Aproveito que Ethan checava o homem e corro em direção a Sophie, retirando as amarras de seus pés e mãos. Seus braços estavam ralados e algumas partes roxas. Era bem óbvio que tinha apanhado. Seus olhos pousam em mim e um sorriso sai de seu rosto.

— Parece que meu sequestro serviu para alguma coisa, não é? – Diz observando Ethan e eu. – Mike está do nosso lado, não se preocupem.

— Como pode ter certeza disso? – Pergunto cruzando os braços na defensiva.

— Ele nos ajudou aqui. – Murmura pousando os olhos no marido que a encara confuso.

— Nos ajudou?

— É, nos ajudou. Eu e... A nossa filha. – Sussurra colocando as mãos sobre a barriga com um sorriso no rosto.

Meus olhos se arregalam alternando entre um e outro, sem ter ideia de como reagir diante daquilo. Quem dirá Ethan, que largou sua arma quase que imediatamente, encarando Sophie boquiaberto sem saber como agir ou o que falar. Encaro o tal Mike acenando para que ele saísse do cômodo e eu o sigo para longe dali, deixando o casal aproveitar aquele momento que era só deles. Vejo pelo vidro os dois abraçados e ela com um sorriso bobo no rosto.

— Eles formam um belo casal. – Comenta o homem ao meu lado quando já estávamos do lado de fora e assenti concordando.

— Há mais alguém aqui na fábrica? – Pergunto em alerta ao me lembrar disso.

— Não, todos foram embora com Augustos. – Responde enquanto nos afastávamos do cômodo e nos sentávamos em um banco não muito longe dali. – Você é a filha de Anthony que todos têm comentado não é?

— É, pois é, parece que eu sou famosa no mundo mafioso. – Ironizo arrancando um sorriso seu.

— Apesar da burrada que seu pai fez ao tentar ser chefe da Cosa Nostra, ele é um bom homem. E é por isso que muitas pessoas estão do lado dele. – Murmura ele e eu observo o chão sujo da fábrica, um pouco embaraçada com a situação.

— O que irá fazer quando sairmos daqui? – Pergunto baixinho e ele dá de ombros.

— Provavelmente, Augustos não irá acreditar na desculpa que eu der e irá me matar. Mas eu não me importo, desde que perdi minha esposa, nada mais importa. – Sussurra ele, me fazendo estremecer diante da sua resposta.

— Você pode voltar conosco. – Digo e ele sorri agradecido com a oferta.

— Não, obrigado. Prefiro voltar para a Cosa Nostra e aguardar o meu fim.

— Isso soa solitário.

— E é, Hannah. E é.

Passo algumas horas conversando com aquele homem que até então era desconhecido para mim. De maneira alguma ele aceitou ir conosco mesmo depois de ter passado o tempo inteiro implorando que ele viesse. Saber que alguém morreria e o motivo seria nós por simplesmente estarmos vivos me faziam sentir culpa mesmo que ele quisesse aquilo para ele. Ninguém merece morrer sozinho.

Sophie e Ethan saem depois de algumas horas do cômodo, ambos com sorrisos bobos nos lábios e eu também não podia tirar o sorriso dos meus, afinal, eu seria tia. De uma menina. Adorava crianças e passar a cuidar de Carl quando nasceu intensificou ainda mais toda essa paixão. Com certeza, eu iria mimar muito a pequena. Sophie ainda estava debilitava e andava com dificuldades então optamos por esperar Ethan pegar o carro para entrarmos e finalmente partimos de volta para casa. Todos a recebem de braços abertos e desesperados. A notícia da gravidez deixa todos animados e a noite acaba por fim com todos bebendo enquanto Logan e eu ficamos na sala de estar, conversando sobre coisas aleatórias.

— Nunca mais saia daquela maneira. Entendo que estava preocupada com Sophie, mas não posso te perder. – Murmura ele acariciando minhas bochechas e me encarando com intensidade como se realmente fosse me perder tão cedo.

— Isso nunca vai acontecer. – Sussurro colando meus lábios no seu, dando um breve beijo.

Ouço alguém pigarrear e me afasto dele quase que imediatamente encarando a direção de onde vinha a voz, dando de cara com Ethan. Ele estava de braços cruzados no batente da porta e Logan se levanta saindo dali deixando nós dois a sós. Sinto um frio na barriga e expectativas além da conta. Estava bem claro que aos poucos, ele se esforçava para me entender como sua esposa o fez. Abro espaço para que ele se sente no sofá, e assim o faz, me encarando por alguns segundos antes de se manifestar.

— Acho que merecemos uma bebida depois dessa noite. – Ele sorri de lado e acaba dando uma risada quando faço uma careta.

— Eu não bebo, mas se divirta por mim. – Balbucio me espreguiçando. – Tudo que eu preciso agora é de uma noite de sono e...

— Obrigado, Hannah. Sei que tenho agido de maneira ruim com você e que a culpa não é sua pelo que aconteceu. – Me corta sem deixar de me observar com aqueles olhos cinzas que só transmitiam mais nervosismo.

— Tudo bem. Vendo pelo seu lado, talvez eu agiria da mesma maneira. É tudo questão de ponto de vista. – Vocifero encarando o chão. – Blair parece uma boa pessoa, não é nada legal ver ela magoada por aí. Imagino como é para você, que é filho dela.

— É esquisito ver ela assim, tão vulnerável. Ainda mais quando era a mais animada da família. – Diz ele dando de ombros.

— Torço pelos dois. Formam um belo casal. – Sussurro mais para mim mesma do que para ele.

— Não sei bem como é ser um irmão mais velho, mas conta comigo para o que precisar. Devo minha vida a você. – Sorri com sua afirmação.

— Não exagere.

— Não estou exagerando. Sophie é minha esposa e estava grávida... Se Augustos tivesse a matado...

— Nem pense em uma coisa dessas. – Peço me virando em direção a ele. – Você também pode contar comigo. Sempre.

Envolvo meus braços em seu pescoço o abraçando com carinho e ele corresponde ao abraço. Ainda parecia estranho a ideia de ter um irmão mais velho, mas eu estava começando a gostar daquilo. Contar com a ajuda de alguém não parece um grande sacrifício. Aos poucos nos afastamos, trocando sorrisos sinceros.

— Vocês não tem ideia do quanto esperei por esse momento. – Ouço a voz grossa de Anthony atrás de nós com um sorriso maior que o nosso e ele se senta entre nós dois. – Me prometam que sempre estarão unidos para o que der e vier.

— Por que está nos pedindo isso? – Pergunto confusa com sua seriedade.

— Só prometam.

— Tudo bem. – Ethan se manifesta me encarando tão confuso quanto eu.

— Acho melhor irem comer alguma coisa. E talvez ajudarem na escolha do nome da minha neta, porque aquela cozinha está uma verdadeira guerra em relação a isso. – Nosso pai muda de assunto dando uma risada e quebrando o clima de tensão.

— Então é melhor irmos, porque como pai, eu também tenho direito de escolher. Você vem, Hannah? – Pergunta se levantando e estendendo a mão para mim, e assenti, seguindo ele até a cozinha, onde até mesmo Logan estava se enturmando e conversando sobre o novo membro da família.

—Hannah, pode me ajudar no meio de todas essas mulheres, por favor. – Implora Sophie com um sorriso no rosto. Apesar de estar bem machucada, estava animada com a ideia de ter uma filha.

— Só acho que deveria ter o nome da avó, em homenagem a mim. – Diz Maria fazendo biquinho e arrancando risadas das outras e murmúrios de Blair.

— Sendo assim, deve ter o meu nome também. Sou tão avó quanto você. – Avisa ela e Maria faz uma careta.

— Talvez um nome forte, como Rosie. – Camille se manifesta trazendo uma garrafa de suco e servindo Sophie que não podia beber nada alcoólico.

— Que tal, somente eu e minha esposa conversarmos sobre isso? – Pergunta Ethan se sentando ao lado dela, dando um beijo estalado em sua bochecha e depositando uma de suas mãos na barriga de Sophie, acariciando de modo protetor.

— Vai sonhando, mocinho. Eu como madrinha e tia-avó quero ajudar no nome dessa princesa. – Murmurou Katheryn, cunhada de Blair e todas assentiram concordando com ela.

— O que acha, Hannah? – Logan se manifesta e todos os olhares se voltam para mim.

— O que eu acho?

— É, não tem nenhuma ideia? – Diz Ethan com um sorriso incentivador.

— Hm... Concordo com Camille sobre um nome forte. Mas deve ser ao mesmo tempo doce como... Sophie. – Ela sorri ao ouvir seu nome agradecida e todas voltam a conversar feito malucas sobre algum nome.

Noto de relance Anthony pegando sua jaqueta e as chaves do carro saindo da casa sorrateiramente e arqueio a sobrancelhas, me afastando de toda a conversa e o seguindo. Ele estava bem esquisito desde que chegamos e acho que agora era o melhor momento para perguntar o que aconteceu. Estava frio hoje, então também pego um casaco antes de sair e corro até meu pai que já estava entrando no carro e para imediatamente ao me ver correndo em sua direção.

— Está tudo bem? – Pergunta ele quando finalmente quebro a distância entre nós dois.

— Eu não sei, me diz você. – Cruzo os braços. – Está estranho desde que Ethan e eu chegamos e agora sai misteriosamente querendo que ninguém note.

— Não se preocupe. Só preciso resolver uns negócios. – Diz tentando me acalmar inutilmente, dando um beijo estalado em minha testa. – Agora volte para dentro. Amanhã conversamos.

— Pai...

— Não se preocupe. Eu te amo, filha. – Repete entrando no carro e saindo dali rapidamente sem deixar explicações e entro para casa preocupada demais para dizer alguma coisa.

Eu teria o impedido se soubesse o que estava prestes a fazer. Gritaria, surtaria, choraria e diria que o que estava pretendendo era loucura e ele não estava pensando em nós. Mas eu não sabia. E só me resta o arrependimento agora. A culpa é algo que te corrói por dentro e destrói você aos poucos e eu me pergunto o que mais restou de mim para ela continuar ali, corroendo todo o meu sistema nervoso. Fazia um bom tempo que eu havia parado de chorar, não porque não tinha lágrimas ou coisa relacionada. É que doía tanto que sinceramente não havia nem forças para explodir gritando para os quatro cantos o quanto esse sentimento é ruim.

Anthony se entregara para a Cosa Nostra e ainda naquela noite recebemos a ligação de Marcos, chefe da segurança informando o horário em que ele seria morto em público depois de uma sessão de tortura. Saber que nesse exato momento ele estava sofrendo nas mãos de caras ruins como Augustos me dilacerava por dentro enquanto eu arrumava meu vestido e me prepava para ir rumo a última vez em que o veria.

Saio do quarto e desço as escadas onde todos já estavam prontos e vamos em direção a Chicago, na sede onde Augustos comandava sem dó nem piedade. Logan decide ir comigo já que Anthony não só se entregou, como exigiu que o chefe da Cosa Nostra poupasse sua vida já que ele era um dos traidores também. Na verdade, ele poupou a vida de todos nós e é por isso que sua tortura seria ainda mais demorada e já fazia dezesseis horas que ele provavelmente era espancado sem parar. Blair acabou indo com Ethan e Sophie já que não tinha estrutura alguma para ir sozinha. Passo a viagem inteira calada apenas observando a paisagem do lado de fora e um filme passando pela minha cabeça sobre todas as nossas conversas e momentos que jamais imaginei ter com um pai. Perder Chloe foi a coisa mais dolorosa do mundo, mas agora... A dor parece ainda maior. É como se cada perda deixasse algo instalado em você já te preparando para outras.

Agora, estávamos sentados quase em frente ao local onde tudo aconteceria e vários mafiosos estavam ali, alguns rindo e comemorando, enquanto outros continuavam sérios esperando pela aparição de Augustos, que fez questão que assistíssemos aquilo tudo de camarote. Então ele aparece e logo atrás dele, cem seguranças que marchavam em direção ao centro segurando Anthony. Seus olhos pousam em cada um de nós ali. Em Sophie que chorava baixinho; em Ethan que a acalmava; em Blair, que estava sentada ao meu lado e faz algo que jamais imaginei que fizesse. Sua mão entrelaça a minha e ela me encara assentindo com confiança, então entendo o que ela queria transmitir a Anthony. Aperto sua mão contra a minha e trocamos juntas um juramento silencioso de que cuidaríamos uma da outra.

Ele estava muito machucado, de uma maneira que mal conseguíamos ver seu rosto e suas vestimentas de tão ensanguentado. Seus olhos não demonstravam dor, mas era óbvio que ele estava sentindo algo. A vontade que eu tinha de quebrar a distância entre nós e abraçá-lo era enorme e perguntar por que diabos ele estava fazendo aquilo. Então levam ele com brutalidade até um pequeno palco que montaram ali, onde havia uma corda grossa. Iriam matar ele enforcado. Respiro fundo repetidas vezes, e Blair começa a chorar encostando sua cabeça em meu ombro, fechando os olhos desejando não ver aquilo, assim como Sophie. Ethan e Logan continuam de olhos abertos. Também não ouso fechá-los.

— Eu tenho esperado esse dia há mais tempo do que conseguem imaginar. Anthony Gavin Brian me ensinou alguns anos atrás que a traição dói porque vem daqueles em quem mais confiamos. E hoje, ele deixa uma lição a vocês. Todos que um dia sequer pensarem em tomar a Cosa Nostra da família Baldocchi irão lembrar desse dia. – Os seguranças envolvem a corda no pescoço dele e sinto minha mão tremer. Seus olhos continuam encarando nós ali e o chefe dos seguranças, o tal Marcos, chutas meu pai antes de se afastar e sinto um grande nó se formar em minha garganta. – Afinal, uma coisa que aprendemos com a máfia assim que entramos nela, é que traidores têm que pagar.

O assoalho do palco cai de uma vez e o corpo de Anthony fica pendurado na corda. Os olhos finalmente fechados depois de tanto ficar nos encarando e decorando cada uma de nossas expressões pela última vez. E vários mafiosos gritam animados aplaudindo Augustos que sorria observando o corpo de meu pai. Então o que jamais esperávamos que fosse acontecer, acontece.

Quase a metade de todas as pessoas presentes ali se levantam e levam a mão ao peito esquerdo – um ato que costumavam fazer quando um amigo ou alguém importante morria, e continuam assim. Outras pessoas também criam coragem, fazendo a mesma coisa e um sorriso presunçoso escapa dos meus lábios. Anthony poderia ter sido um traidor, mas também foi um amigo, um grande chefe e um bom pai nesse meio tempo. Ao contrário de Augustos, ele nunca colocou a política da máfia acima de sua família. Encaro Ethan que assentiu e levantamos juntos quase que automaticamente, quebramos a distância entre nós e de mãos dadas, levamos a mão ao peito esquerdo e ficamos assim por longos minutos, causando a fúria de Augustos.

— Matem a família dele, agora. Matem todos! – Grita ele com os olhos fervendo e então uma série de tiroteios acontece e alguns dos mafiosos ali se põe a nossa frente lutando uns contra os outros.

Logan se levanta ao me ver ali petrificada ainda observando o corpo de meu pai. Alguns seguranças estavam tirando o corpo dele dali. Um milhão de perguntas surgem em minha cabeça e eu tento correr naquela direção, mas ele me arrasta para longe dali, onde carros nos esperavam. Uma lágrima escorre pelo meu rosto enquanto eu deixo aquele lugar, entretanto...

A imagem do ocorrido ali jamais deixaria minha mente.

Você está
Vindo para a árvore forca?
Onde enforcaram um homem que dizem matou três
Coisas estranhas aconteceram aqui
Não mais estranho seria
Se nos encontrássemos à meia-noite na árvore-forca

— The Hanging Tree