A Herdeira Da Máfia
6 VI. Run.

— Esse lugar é definitivamente um labirinto, acredite, se não deixar que eu a acompanhe enquanto conhece aqui, irá se perder com tamanha facilidade que chega ser espantoso! Eu mesma já me perdi várias vezes e...
O som da voz de Taylor era confortante, principalmente por sua animação desnecessária e sua mania de falar o tempo todo. Algo que até poderia ser irritante, mas aquilo me lembrava Allan, que não era tão diferente então eu já estava acostumada. Em uma coisa, ela estava certa. Aquele lugar parecia mais um labirinto de tão grande. A entrada, ou como Taylor formalmente diz, o hall, é do tamanho de meu antigo colégio e tudo que separava o cômodo do lado de fora eram as vidraças.
Havia alguns sofás alinhados de cores claras, e outros de tons mais escuros nos cantos com almofadas decoradas. A escadaria dupla que dava no segundo andar era de mármore branco e o corrimão era uma mistura de tons pretos e dourados. O andar de cima havia vários corredores sem saída com grandes portas blindadas. Volto a prestar atenção em Taylor assim que chegamos ao segundo andar.
— ...Acho que é aqui que devo lhe dizer as regras da casa. – Suspira pesadamente. – Pois bem. O corredor da frente é de seu total acesso. A maioria dos cômodos tem uma decoração chula, pois Logan queria que você escolhesse como gostaria dos móveis e coisas do tipo. Também tem acesso aos outros corredores e pode explorar o lugar se quiser. A maioria dos cômodos são quartos para aquilo que chamam de visitas, mas a verdade é que ninguém vem aqui. É a primeira visita! Dá para entender porque seu nome foi o mais comentado nessa casa nos últimos dias. E antes que eu me esqueça... – Taylor aponta para o corredor mais afastado e mais longo do andar. Nele havia mais outra longa escadaria e alguns funcionários retiravam quadros que enfeitavam as paredes. Não tive a chance de vê-los e aquilo aumenta minha curiosidade. – Aquele corredor dá no terceiro andar. É proibido entrar lá. E no sótão também. Nem funcionários entram lá. Somente os de confiança mesmo. Logan passa a maior parte do tempo ali o que me faz perguntar se só eu acho um absurdo ele ter uma casa desse tamanho, para viver em um único andar. Trabalho desnecessário o dos funcionários ao limpar todos esses cômodos todo santo dia. Você não acha?
— Ele está lá agora? – Pergunto ignorando sua última fala e ela segue meu olhar dando de ombros.
— Talvez. Devo te lembrar para não me fazer tantas perguntas! Não sei de nada que você já não saiba. Meredith acha que sou nova demais para saber das coisas da máfia.
Meus passos são rápidos e sem me importar com os grunhidos de Taylor e suas várias alertas sobre não entrar ali, atravesso o longo corredor recebendo os olhares espantados dos funcionários presentes no local. Estava cansada de esperá-lo decidir quando me conhecer ou não. Ele pagou horrores por mim, é completamente incompreensível entender todo esse ponto de vista dele. Eram tantas perguntas e principalmente...
Insegurança.
Estaria eu segura aqui?
Paraliso no primeiro degrau da escada e tento observar até onde ela daria deixando o medo percorrer minha espinha e minha garganta secar. Ouço mais uma vez o alerta de Taylor antes de subir as escadas e mais uma vez, parar no meio de minha caminhada imaginando se aquilo era certo ou não.
Definitivamente, eu estava de cabeça quente e faria perguntas sem nexo, ou gritaria com ele mesmo que não me desse motivo algum para tal ato. Viro os calcanhares em direção a Taylor que suspira aliviada até ouvirmos o barulho de passos vindos daquele andar.
Meu corpo trata de paralisar assim como os meus pés que cravaram no chão sem minha devida permissão e praguejo baixinho. Mesmo estando de costas para a escadaria, ouvia seus passos cada vez mais próximos através do barulho que era feito no assoalho. Então para, quebrando toda a distância que havia entre nós e eu estremeço. Podia sentir sua respiração pesada sobre minha nuca e quero correr para bem longe dali. Era ele. Os olhos arregalados e assustados de Taylor demonstravam isso e eu não podia ter mais certeza.
— Mas que droga... Não pedi para deixar claro a garota que era proibido entrar nesse andar? – Sua voz era grossa e sinto um arrepio indesejado. Taylor estava cabisbaixa se sentindo completamente culpada e mal parecia a menina tagarela de poucos segundos atrás.
Depois de vários minutos de silêncio e meu consciente pedindo um breve momento de coragem, me viro encarando o homem a minha frente. Definitivamente ele não era um homem velho como eu imaginava... Muito pelo contrário. Logan é alguns centímetros mais alto que eu e seu corpo era muito musculoso. O rosto quadriculado e cabelos de um tom dourado impressionante. Sobrancelhas grossas, olhos do verde mais escuro, lábios cheios e barba rala. Ele estava de braços cruzados e em nenhum momento direcionava seu olhar a mim.
— Taylor já havia me informado sobre essas regras, a culpa não é dela. – A defendo após sentir um vestígio de coragem surgir.
— Então você é surda? – Retruca secamente.
— Como é?
— Perguntei se é surda.
— Não, eu não...
— Sendo assim, não vejo motivos de não compreender uma regra tão fácil como essa. – Me interrompe descendo os últimos degraus da escada e desaparecendo no corredor.
Sinto vontade de seguir ele e exigir explicações que eu nem mesmo compreendo. Meu corpo tremia de raiva. Taylor se aproxima de mim, praticamente me arrastando para longe dali, dizendo o quanto aquilo foi perigoso e que ele poderia facilmente baixar o seu salário pela minha ousadia. Um peso invade minha consciência, mas ela rapidamente me tranqüiliza dizendo que ele não faria isso, pelo menos, não hoje. Deixou claro mais uma vez que eu não poderia fazer aquilo de novo e reviro os olhos.
Após horas ouvindo suas reclamações, ela finalmente havia voltado a ser a Taylor tagarela, conversando sobre coisas aleatórias e entre elas, a decoração do meu quarto. Eu estava sendo guiada exatamente para o cômodo e meus olhos brilham em tamanha admiração ao abrir a porta. Era maior do que jamais poderia imaginar.
Possuíra tons brancos e apenas uma cama ali... Logan queria mesmo que eu decorasse como eu quisesse. E Taylor parecia mais animada do que eu nesse quesito. Caminho até uma porta que dava a um closet e como foi dito pelo motorista, realmente haveria roupas novas para mim. Volto para o quarto praticamente me jogando naquela cama macia e sinto minhas costas estralarem de tamanho cansaço.
— Oh! Outra dica é você usar tons claros nas paredes. Dizem que deixam o quarto harmonioso. Também poderia usar papel de parede floral. Isso! Papel de parede floral! Será literalmente a sua cara. E digo isso como se eu te conhecesse há tempos, mas a verdade é que eu sou bem intuitiva e você me parece fofa e...
— Obrigada pelos conselhos Taylor. De verdade. – Sussurro sentindo meus olhos ficarem pesados.
— Você está com sono? Posso arrumar sua cama em segundos.
— Não é necessário. – Minha resposta sai pouco audível.
Taylor parece entender que eu realmente precisava de espaço. Era um lugar diferente e eu não estava acostumada com toda aquela mordomia. Vejo a mesma sair dali em um pulo e fechar a porta. Me permito sorrir ao ouvir sua voz esganiçada com os seguranças dizendo que eu queria dormir. Seguranças. Funcionários prontos para fazer tudo aquilo que for necessário. E até mesmo coisas desnecessárias como arrumar a minha cama. Não tinha tudo isso em minha velha quitinete.
Eu e Chloe sempre revezávamos essas tarefas e agora eu não preciso mover um dedo. Confesso que chega a ser desconfortante. Mas nada com que eu não vá me acostumar um dia. Abraço os vários travesseiros aspirando o cheiro doce que os impregnava. Queria minha mãe aqui e, principalmente, queria explicações. A pergunta sobre quem é o meu pai rondava todos os meus pensamentos. Nunca tive o interesse de descobrir aquilo, mas agora, havia se tornado questão de vida ou morte.
Principalmente depois de descobrir algo sobre. Ele era um mafioso. Isso era tudo que eu sabia e tudo que me deixava próxima dele agora. Pelo menos eu sabia sua “profissão”. Fecho os olhos caindo no sono rapidamente. Acordo ouvindo o barulho de Taylor entrar no quarto.
— Boa noite dorminhoca. – Diz animada cruzando os braços e eu espreguiço sorrindo educadamente.
— Espera! Noite? – Dou um pulo da cama e encaro a enorme porta de vidro que dava para a sacada. O céu estava no seu tom mais escuro e a lua cheia já estava lá, iluminando parte do meu quarto. Meu quarto. Preciso lidar com essa palavra que indica posse.
— Sim. Eu iria te deixar dormir até amanhã, mas não comeu nada hoje e Meredith pediu que eu a acordasse e procurasse algo para comer.
— Meu Deus! Isso é o que eu como em uma semana. – Me espanto ao ver a enorme bandeja recheada de comida nos pés da cama. Taylor dá uma risadinha e retorna ao banheiro. Segundo ela, estava preparando meu banho. Ouço minha barriga roncar. Eu realmente estava com fome. Pego o talher e mergulho no prato de sopa. Nunca havia comido algo tão delicioso em toda a minha vida. Sinto meu estômago me agradecer eternamente por aquele ato.
— Minha mãe tem mãos de fada não é? – Pergunta ela ao voltar para o quarto e eu a encaro, espantada.
— Sua mãe preparou essa perfeição?
— Toda a minha família trabalha aqui! – Diz ela esboçando um sorriso. – Eu nunca havia trabalhado, mas por termos idades parecidas, Logan achou que eu pudesse servir você. E até agora, não tem sido uma má idéia.
— Tenho que concordar com você. – Murmurei tomando mais um pouco da sopa.
— O seu banho já está pronto. E agora sou eu quem está com sono. Boa noite Hannah. – Anunciou saindo do quarto e eu me espreguiço saindo da cama.
Eu realmente estava precisando de um banho. Meus passos são lentos até finalmente chegar ao banheiro. Ele também não era muito decorado e retiro minhas peças de roupa colocando-as sobre a bancada da pia. Vejo a banheira repleta de espuma e algumas pétalas. Uma grande janela ficava em frente, dando uma maravilhosa visão do quintal da casa e da praia que existia ali, há poucos metros da piscina.
O mar tinha o reflexo da lua deixando tudo ainda mais belo. Meu corpo parece relaxado assim que entro na banheira e é a primeira vez que tomo um banho tão demorado. Me enrolo em uma toalha e vejo ao pegar minhas peças de roupa sujas para colocar em um cesto que havia no canto do cômodo, o celular que Allan havia me entregado de manhã e noto que já é quase meia noite.
Envio uma mensagem para ele com o endereço desse casarão e jogo o celular pela janela vendo-o se estilhaçar em pedaços. Caminho até o longo guarda-roupa. Roupas caras. Milhares delas. E todas com o meu número. Era provável que Logan soubesse isso através do que Stella escrevera naquela folha. Retiro um vestido branco e solto. Definitivamente o mais simples dali. Pego um cardigã preto e visto acompanhado de uma sapatilha de mesma cor. Não faço questão de pegar uma mala, afinal, nada ali era meu. Já era meia noite e eu sentia a ansiedade mais uma vez se alastrar pelo meu corpo enquanto eu abria a porta e corria aos trôpegos até a escada, descendo os degraus tentando inutilmente não fazer barulho algum.
Agradeço internamente não haver nenhum segurança ali, o pior seria depois... Sabia que o lado de fora, a maioria ficava de vigia. Abro a porta e já posso sentir o gosto da liberdade. Apesar de todas as mordomias e de Taylor ser uma pessoa gentil, me sentia como um pássaro presa em uma gaiola. Queria ir embora. Queria voltar para o bordel e encontrar minha mãe lá. Queria estar no salão do porão, queria dançar. Desenhar a bela vista que eu tinha naquela pequena janela do quarto da quitinete. Queria ver Allan, dando sua velha risada após contar uma piada totalmente boba.
Era com isso que eu estava acostumada.
Estava chovendo. Sentia a água forte estapear meu rosto enquanto eu corria como se minha vida dependesse disso. E o pior era que realmente dependia. Meus passos eram rápidos e a lama molhava a sapatilha e a barra do vestido que eu usava. Paro abruptamente ao ver uma manada de seguranças na entrada da mansão e praguejo baixinho. Pense em algo Hannah... Pense... A praia. O único lugar onde não estava cheio de seguranças e provavelmente ela daria para o lado de fora.
Ouço os gritos de alguns homens que haviam me visto entre as vastas árvores e volto a correr desesperadamente até o outro lado da mansão. Finalmente chego até o quintal, atravessando a piscina e já podia sentir a areia sobre meus pés quando tropeço em uma pedra e sinto meu pé se afundar na areia. Uma dor lancinante se espalha pelo meu corpo então vejo de esguelha Logan a frente dos seguranças.
Ele estava usando apenas uma calça jeans e seu rosto mostrava preocupação mesmo que ele não quisesse demonstrar aquilo. Levanto mesmo sentindo a dor tentando me impedir de correr e apresso o passo, mancando.
— Espera. – Ouço seu grito agudo e tento ignorá-lo. – Hannah!
Paro abruptamente ao ouvir meu nome ser dito e ele pareceu não notar aquilo, pois puxa meu braço com força e nossos corpos se chocam. Engulo em seco ao dar de cara com seu rosto sério próximo demais do meu.
Fale com o autor